3. O MITO DO ANDRÓGINO
3.1 O BANHO ÁRABE E O RITO DE PASSAGEM
Para Le Goff, o banho, em algumas sociedades antigas, não só representava a higiene do corpo, mas também era visto como “lugar de encontro”, ou seja, lugar onde ocorria uma espécie de contato social, em que os indivíduos pertencentes ao mesmo grupo buscavam uma forma harmônica de convívio. O prestigiado pesquisador denominou esse contato de pessoas de “interação social” (LE GOFF, 1989, p.76). Consoante os fundamentos de Le Goff, o banho também passa pelo “crivo cultural”, uma vez que, assim, criam-se elos culturais entre pessoas da mesma tradição e etnia.
Segundo ainda esta mesma teoria, a relação entre indivíduos constitui uma condição indispensável à associação humana. O ser humano se socializa através dos contatos e do vínculo que desenvolve entre seus semelhantes e o ambiente onde tal relação é estabelecida é considerado, em suma, um lugar fundamental para tal interação. A obra de Ben Jelloun atesta que a convivência das mulheres no banho turco, que em árabe recebe o nome de hamman 47 (BEN JELLOUN, 1986, p.36), estabelece uma fusão identitária entre elas, uma espécie de confraria feminina, em um ambiente onde ocorre a “interação social” estabelecida por Le Goff.
O aspecto mais importante dessa interação social é que ela modifica e burila o comportamento humano, pois é no recinto fechado denominado hamman que a criança Ahmed/Zahra, sem o saber, será integrada no mundo das mulheres. Segundo a cultura árabe, as frequentes idas aos banhos mouros não é somente uma questão de higiene, mas é também uma forma de passagem pela intervenção cultural e social desta cultura. Ao conduzir a criança neste ambiente feminino, que utiliza o codinome de higiene, ocorre uma interação entre a mãe e a criança, que se sente parte integrante da comunidade a que a mãe pertence: “O que está em questão, aqui, é a capacidade de auto-reconhecimento” (SILVA, 2012, p.117), o auto- reconhecimento de Ahmed-Zarha.
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“Segundo o Dicionário francês Le Petit Robert: Hamman, também conhecido como banho turco, banho a vapor ou sauna a vapor, é um tipo de banho que consiste em permanecer em um ambiente quente e cheio de vapor. (Tradução nossa). Hamame, hamam ou Amã, do árabe , significa “água quente”.
O pequeno Ahmed-Zahra, enquanto criança sabe que há algo diferente entre os
hamman. Na verdade, a criança é uma menina (que assume o lugar e a educação de um
menino) e, ao estar no ambiente de homens, ela nunca se sente à vontade, ao participar do rito cultural dos homens. Na casa de banho há uma ruptura de gênero e uma quebra da “interação da criança com a mãe” (PICCININI e MOURA, 207, p.155).
Como qualquer menino criado em um contexto cultural árabe, Ahmed-Zahra aparentemente tem uma educação comum, como ir à escola, frequentar os banhos com sua mãe, etc. Observa-se, então, que não há no romance uma especificação em relação à idade da criança Ahmed-Zahra. Por dedução, entende-se que esta ainda não tem o que se chama de idade da razão, antes é uma criança completamente inocente: “comme tous les enfants de son âge, il accompagnait la mère au bain maure [...]. Pour Ahmed ce ne fut pas un traumatisme, mais une découverte étrange et amère” (BEN JELLOUN, 1986, p.32).
Ao narrar suas primeiras lembranças, advindas do contato do mundo feminino e das idas aos banhos árabes com a mãe e depois com o pai, a personagem faz uma espécie de
retour-en-arrière de sua vida e da percepção que o rodeia em suas primeiras vivências. É, sem
dúvida, nesses recintos que ocorre a diferença de gênero que marcará a vida Ahmed-Zahra. Enquanto criança, Ahmed-Zahra tem a percepção de dois mundos distintos dos quais ele/ela é espectador e participante ao mesmo tempo:
C’est réservé aux filles! [...] Je savais que nous devions y passer tout l’après- midi.[...] Em vérité, je préférais aller au bain avec mon père. Il était rapide et il m’évitait tout ce cérémonial interminable. Pour ma mère, c’était l’ocasion de sortir, de rencontrer d’autres femmes et de bavarder tout en se lavant. (BEN JELLOUN, 1986, p.33)
O banho árabe, no romance, é um rito de passagem da fase de criança (da protagonista principal) para a adolescência: “ritos de passagem são associados a nascimento, morte, puberdade e casamento” (CHAIA, 2003, p.32).
Ao frequentar a casa de banho feminina, há uma interação de identidade, de reconhecimento e de gênero entre esse pequenino ser em construção e sua mãe e as mulheres que lá frequentam, pois, como criança, Ahmed-Zahra quer ser reconhecida em um grupo e fazer parte deste. O auto-reconhecimento é uma temática que será constante na obra. A criança se vê e é vista através do olhar da mãe e das mulheres que frequentam o banho mouro feminino. Tomaz Tadeu da Silva tem uma explicação para o que ele chama de reflexo do olhar do outro, como segue na citação abaixo:
[...] a posse de um aparato filosófico completo para explicar a razão pela qual ele pode ter a capacidade para fazer um “reconhecimento falso” de si próprio no reflexo do olhar do outro, que é tudo o de que precisamos para colocar em movimento a passagem entre o imaginário e o simbólico, para utilizar os termos de Lacan. Afinal, de acordo com Freud, para que se possa estabelecer qualquer relação com o mundo externo [...]. (SILVA, 2012, p.117)
Em concordância com a citação acima, o banho mouro é mais do que um ritual, do qual a mulher é também uma fiel guardiã da cultura passada de geração a geração. Segundo a Doutora Vera Lúcia Soares 48, em seu livro A escrita do silêncio, o banho árabe em si é mais que uma forma de higienização do corpo, compreendendo também “várias etapas que seguem um ritmo quase tão solene quanto o de uma missa e onde o tempo parece parar” (SOARES, 1998, p.84).
Nota-se na obra de Ben Jelloun que tal citação acima é verídica, pois o banho mouro é o lugar onde homens e mulheres, em ambientes distintos, podem assumir seu verdadeiro eu, que, na maioria das vezes, fica segregado ou camuflado em suas vestimentas, no que tange à verdadeira identidade de gênero. À evocação do banho turco seguem-se as idas semanais com a mãe ao reduto das mulheres. Neste recinto fechado e segregado, tudo se passa rapidamente, ou seja, a passagem do tempo e a memória são vislumbradas pelo olhar atento de criança, através da cortina de vapor do banho árabe: “Ce qu’elles disaient était comme retenu par la vapeur” (BEN JELLOUN, 1986, p.33).
Para a descrição do banho mouro, o autor dedica quase cinco páginas do romance, nas quais detalha minuciosamente os diferentes momentos e ritos do mesmo, incluindo os gestos, as conversas, a tarefa da cassière du hamman, os utensílios usados (sabão, balde, pentes), o ambiente (as salas de banho, os vapores), os sons (o ruído da água, das vozes femininas e suas conversas, o murmúrio das mulheres), e as sensações (prazer, bem-estar, interação). Tudo para formar um ritmo e a passagem do tempo, não de forma bruta, mas, forma poética e sutil. Todas essas minudências fazem com que a narrativa avance muito lentamente, acompanhando de perto o ritmo dessa cerimônia na lembrança do passado de Ahmed-Zahra. Assim, o autor descreve, através do tempo do discurso, o momento qualitativo, não determinado matematicamente, mas sim pelas experiências vividas, pelas sensações, pelas recordações, comuns à cultura árabe-muçulmana e a do momento vivido. As recordações de Ahmed-Zahra o levam a reviver a “cerimônia do banho”. Vera Lúcia Soares define o banho árabe da seguinte forma:
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O banho, um hábito comum de higiene corporal na concepção ocidental, tem, no entanto, um significado especial na cultura árabe, principalmente dentro do contexto feminino. Por ser a única saída permitida às mulheres muçulmanas casadas, ele ganha uma certa aura de evasão, de liberdade. (SOARES,1998, p.84)
É notório que a cultura do hamman tenha sido preservada, ao logo dos séculos, pela tradição árabe-muçulmana, como “interação e convívio social” e como fonte catalisadora de pertencimento a esta sociedade. Não se pode deixar de mencionar que, durante um vasto período, o banho tenha sido compreendido por muitos como uma prática religiosa e costumeira de um determinado povo. Segundo a Enciclopédia Barsa: “algumas religiões e culturas viam o banho não só como higienização ao corpo 49, mas também como uma oferenda ao deus das águas” (BARSA, 1967, p.30). Acreditava-se que todos os povos das chamadas sociedades antigas, desde os tempos imemoriais, tenham praticado alguma forma de higiene pessoal, como culto religioso, surgindo desta forma o ato de se banhar.
Os primeiros registros deste ato pertencem ao antigo Egito, por volta de 3.000 a.C, quando os egípcios realizavam rituais sagrados nas águas do Rio Nilo, dedicados ao deus
Hapi 50. Entretanto, é certo afirmar que, na Antiguidade, o banho era um rito sagrado, que ditava as regras sociais, culturais e religiosas de um determinado povo que prestava honras e adoração a seu deus. Esse rito fazia parte do chamado “culto da purificação”, pois se acreditava que, no simples ato de se banhar, a alma e o corpo seriam purificados e, ao mesmo tempo, estariam em contato direto com alguma deidade superior.
49 Para algumas sociedades antigas, o cuidado com o corpo constituía um culto específico a certo deus. No Egito
antigo, o ato de se banhar no rio poderia ser visto como uma oferenda ao deus Nilo, deus da vida, que tanto era o rio e a deidade. A Igreja Católica, no período medieval, proibiu o banho, pois, segundo suas normas, seria um ultraje ao Deus cristão e ao mesmo tempo uma libação do paganismo.
50 Hapi era um deus da mitologia egípcia que personificava as águas do Rio Nilo durante a inundação anual do
mesmo, que ocorria entre meados de Julho e Outubro. Esse deus egípcio também era conhecido como o pai dos deuses. Hapi não tinha templos a si dedicados, mas era associado à região da primeira catarata do Nilo (ilha de Biga, onde se dizia que residia) ou ao vértice do delta do Nilo, perto da cidade do Cairo. Apesar disso, o deus era popular por todo o Egito. Ele era representado de forma duplicada no símbolo do sema – taui, onde, ao atar as duas plantas heráldicas, o lótus e o papiro, se figurava atar o Alto Egito e o Baixo Egito. A iconografia desse deus o apresentava como um homem com ventre e seios proeminentes, tendo como indumentária a cinta dos pescadores e barqueiros. Na cabeça, o deus carregava o lótus e o papiro ou segurava estas plantas em suas mãos. Sua pele poderia ser pintada de azul ou verde, duas cores associadas entre os antigos Egípcios à fertilidade e às cores do Rio Nilo. Era também representado a derramar água em jarros ou a levar mesas e bandejas com alimentos. Hapi era associado ao deus Osíris, outra divindade com características relacionadas com a fecundidade. Enquanto Hapi personificava as águas do Nilo, Osíris era a força fertilizante destas águas. Acreditava-se que o deus do Nilo teria alimentado no seu seio Osíris, ajudando-o desta forma na ressurreição. Hapi era casado como a deusa Nekhbet que também era outra deidade muito respeitada na cultura egípcia. Havia outros deuses que estavam relacionados ao Rio Nilo, tais como: Ísis, cuja lenda alega que suas lágrimas eram vistas como a causa da inundação do Nilo; Khnum, deidade que estava associada às cataratas do famoso rio, Thot, deus do conhecimento e Bes, deus da fertilidade. Ambos eram deuses venerados à margem do Nilo. Não adorar a um desses deuses, na margem do Nilo, significava uma falta de apreço à cultura, tradição e religião que moviam a vida cultural e política da sociedade do antigo Egito. Toda essa explicação nos faz compreender a importância da interação social através do que para nós é uma simples conduta de higienização, o banho.
Um exemplo dessa prática cultual, relacionada ao poder sobrenatural de um ser superior, encontra-se na cultura cristã, no judaísmo e na cultura islâmica, ao mesmo tempo. Reiteram-se, nas culturas do mundo antigo, relatos de enredos sobrenaturais envolvendo um mortal e seu deus. O banho era tão sagrado que, quando, ao resgatar Moisés 51 das águas do Nilo, a princesa egípcia que o resgatou acreditava ter recebido do deus Nilo, uma dádiva, a de gerar um filho, por não ter tido nenhum. Assim, ela educa Moisés na cultura egípcia, para que este possa ser o sucessor do Faraó. Registra-se, ainda em Vera Lúcia Soares (1998), a importância da fé e da conduta da princesa egípcia: “Assia era o nome da irmã do Faraó do Egito que recolheu Moisés das águas do Nilo e o adotou. Desta forma, Assia para os muçulmanos quer dizer aquela que adota” (SOARES, 1998, p.28).
Tanto o Corão quanto a Torah e a Bíblia sagrada são unânimes ao descreverem tal cena. Sem dúvida, esta passagem, na qual se referencia o rito cultural e religioso atribuído ao ato de banhar-se, é uma das mais lidas pelos religiosos:
A irmã do faraó desceu para tomar banho no rio, enquanto suas moças passeavam pela margem. Ela viu o cesto no meio dos juncos e mandou uma criada apanhá-lo. Ao abrir o cesto, viu uma criança. Era um menino que chorava. [...] E ele foi como um filho para ela. Deu-lhe o nome de Moisés e disse: “Porque eu o tirei da água”. (ÊXODO: 2; 4 e 9)
É fato que algumas civilizações antigas, ao relatarem suas lendas e narrativas, atribuem a elas caráter puramente religioso. Isso era muito praticado nas sociedades antigas, uma vez que cultura e tradição religiosa sempre foram consideradas indissociáveis no mundo antigo. Outra comunidade do mundo antigo que tem por mito fundador de seu povo um herói retirado das águas é a “soberana Roma”. Segundo a lenda de fundação da cidade, Rômulo e Remo “foram encontrados em uma cesta deixada nas águas do Rio Tibre. Deslizando correnteza abaixo, a cesta aportou em uma das margens, onde os dois bebês teriam sido alimentados por uma loba carinhosa” (SCHENEIDER, 2003, p.74). Destaca-se, assim, a importância de um dos líquidos sagrados da Antiguidade Clássica, a água, que desde os primórdios das
51 Moisés (em hebraico: ; moderno: Moshe; em árabe: , Mūsa) significa tirado das águas ou filho das
águas. Ele é um dos profetas mais importantes do Judaísmo e do Cristianismo e igualmente reconhecido pelo Islamismo. Segundo a cultura oral do judaísmo, a princesa Assia, irmã do Faraó, estava prestando culto ao deus Hapi, e, ao encontrar a criança no cesto de junco, ela entendeu que o referido deus havia ouvido suas preces, a de poder gestar um filho. A narrativa de Moisés lembra a história de Sargão, um rei acádio, célebre por suas conquistas nas cidades-estados sumérias, nos séculos XXIV e XXIII a.C. Segundo as narrativas sumérias, o rei Sargão também foi colocado para flutuar em um rio, como Moisés que também foi colocado no cesto e encontrado nas águas do rio.
sociedades encontra-se presente na formação dos ritos culturais dos povos. Ao relatar sobre o mesmo mito fundador de Roma, o professor Pierre Grimal acrescentou outras informações importantes à narrativa:
Isto aconteceu porque Rômulo e Remo eram de origem real, filhos da sobrinha do rei de Alba, que os tivera, dizia-se, do próprio deus Marte, mas o rei temia que as crianças pudessem vir a destroná-lo um dia mais tarde e então mandara pô-las no rio dentro de um cesto de vime, convencido de que o frio, a falta de cuidados, a corrente se encarregariam de o livrar destes inquietantes sobrinhos. O berço flutuante encalhara na margem e ficara em lugar seco, onde uma loba, animal de Marte, deitara-se junto das crianças aquecendo-as e amamentando-as com seu leite [...]. (GRIMAL, 2003, p.7-8)
As sociedades que se situam ao longo do Mediterrâneo têm em comum algumas narrativas, tradições e ritos. É comum encontrar traços semelhantes em seus ritos culturais, criando-se dessa forma uma espécie de pertencimento geográfico e cultural a partir do Mar Mediterrâneo. É sabido que os ritos, as tradições e as narrativas formam um aparato de identificação cultural com o intuito de agregar à nova nação práticas costumeiras e culturais, surgindo então uma sociedade onde pessoas pertencentes a um mesmo grupo se complementam, como no caso da tradição árabe de hoje em dia, o hamman. Sob a interação social na cultura do Maghreb árabe e a prática costumeira dos banhos árabes, um “leque” cultural e narrativo foi aberto à cultura local, que logo, passou por períodos de conquistas e colonizações por diversos povos, com tradições e costumes diferentes, originando-se dessa forma uma cultura peculiar que logo foi assimilada pelos conquistadores gregos e romanos ao colonizarem Cartago 52, no Norte da África.
Os rituais culturais e religiosos da África do Norte, depois de descobertos pelos seus colonizadores greco-romanos foram imortalizadas nos tratados de História Antiga, tanto por escritores gregos como por escritores latinos. Com o advento do Islam nas terras do Maghreb, ficou proibido o culto a outras divindades, porém algumas práticas culturais permaneceram até hoje.
Segundo o Corão, não existem outras divindades, somente Allah é Deus, somente ele pode ser e deve ser adorado, como se vê no extrato a seguir: “Vosso Deus é Um só. Não há mais divindade além d’Ele, o Clemente, o Misericordiosíssimo” (Surata 2-163). O ato de banhar-se em rios como forma de rito ou culto foi abolido durante a conquista Islâmica, mas
52 Cartago é o antigo nome dos territórios que hoje compreendem o Maghreb. Tais territórios passaram por
as casas de banho ou termas no Norte da África, implantadas por gregos e romanos, sobreviveram até hoje, tendo passado, obviamente, por uma aculturação do mundo árabe muçulmano. Assim sendo, identifica-se a obra de Ben Jelloun não somente como um romance francófono, mas como um livro multidisciplinar em que, nas entrelinhas, identificam-se temas complexos da psicanálise passando pelos períodos da colonização no Marrocos.
No tocante à criação da criança Ahmed-Zahra tudo se passa como Ahmed-pai havia imaginado, até mesmo as coisas mais cotidianas, como as vindas do barbeiro na casa dos
Ahmed: “Le coiffeur venait régulièrement tous les mois lui couper les cheveux” (BEN
JELLOUN, 1986, p.32). Entre as passagens cotidianas e as descobertas do corpo, ocorre o tempo em que se encerra a infância e se inicia a adolescência. Tal descoberta é feita a partir das diferenças e segregações de gênero que Ahmed-Zahra, durante a infância, observa. Essas lembranças permaneceram e permearam toda sua trajetória existencial. As lembranças de
Ahmed-Zahra coabitam e dividem o entre-deux, ou seja, o pertencer ao mundo dos homens e
ao mundo das mulheres. Somente a ele é concedido esse privilégio, qual seja o de forjar uma personalidade para viver no entre-lieu. Na criança Ahmed-Zahra já se inscrevia a percepção da diferença entre ser mulher e ser homem: “Elles parlaient toutes en même temps. Qu’ importe ce qu’elles disaient, mais elles parlaient. Elles avaient l’impression d’être dans le salon ou il était indispensable pour leur santé de parler” (BEN JELLOUN, 1986, p.33).
As lembranças e a experiência no reduto das mulheres são tão marcantes que elas são metafórica e simbolicamente expressas pelas fumaças e vapores da água das termas marroquinas, reduto do ser feminino e também das palavras e das frases:
Les mots et phrases fusaient de partout et, comme la pièce était fermée et sombre, ce qu’elles disaient était comme retenu par la vapeur et restait suspendu au-dessus de leurs têtes. Je voyais des mots monter lentement et cogner contre le plafond humide. Là, comme des poignées de nuage, ils fondaient au contact de la pierre et retombaient en gouttelettes sur mon visage. Je m’amusais ainsi, je me laissais couvrir de mots qui ruisselaient sur mon corps mais passaient toujours par-dessus ma culotte, ce qui fait que mon bas-ventre était épargné par ces paroles changées en eau. (BEN JELLOUN, 1986, p.33-34)
As lembranças da criança Ahmed-Zahra mostram também o hamman como um lugar propício para conversas e amenidades sem fim sobre assuntos do cotidiano. É nesse momento de contato com a palavra e o mundo das mulheres que ocorre a grande transformação na vida da criança, quando ele/ela tem um presságio de seu futuro. Há uma passagem que retrata, através de sua imaginação de criança, o teto como uma grande lousa, pronta para ser