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Baptismos, casamentos e óbitos – visão global

II. A CIDADE DE LISBOA E A FREGUESIA DA SÉ

3. A SPECTOS GLOBAIS DOS COMPORTAMENTOS DEMOGRÁFICOS DA FREGUESIA DA S É

3.4. Baptismos, casamentos e óbitos – visão global

Impedidos de calcular o saldo fisiológico da população da freguesia da Sé, devido à falta de registo sistemático de mortalidade de menores, apresentamos o gráfico 4 que poderá ilustrar os movimentos responsáveis pela evolução da população entre 1563 e 1755.

Gráfico 4

Baptizados, casamentos e óbitos médias móveis de 9 anos

1563-1755

Da observação das curvas dos baptizados, casados e falecidos registados na paróquia da Sé de Lisboa, verifica-se que à descida dos nascimentos na altura da peste de 1599, terá correspondido uma brusca elevação dos óbitos, aqui, sub-representada pela falta de registo sistemático de menores. Contudo, o movimento dos casamentos só começou a declinar no início do século XVII. Pelos registos paroquiais de casamentos foi possível observar que durante o período de peste foram realizados casamentos de pessoas que estavam “feridas do mal”. Algumas casaram em casa e mesmo na cama, em certos casos devido à necessidade de regularização de situações de coabitação.

Mas, após os anos de peste e declínio dos casamentos sentido nos primeiros anos do século XVII, o volume de casamentos voltou a aumentar entre 1607 e 1620, acompanhado por uma elevação do número de nascimentos registados. Quanto às razões que poderão explicar este comportamento, admite-se, entre outras, a influência de uma elevada mortalidade em consequência da peste de 1599 que atingiu com intensidade a cidade de

Lisboa e que parece ter igualmente atingido a freguesia da Sé, como o testemunham os registos paroquiais. Sabe-se que, aos períodos de intensa mortalidade, poderiam seguir-se eventuais aumentos dos casamentos, não só de celibatários mas também de viúvos, e, consequentemente, dos nascimentos, como parece ter acontecido na freguesia da Sé de Lisboa. Por outro lado, embora Portugal tivesse perdido a independência em 1580, continuava a beneficiar do comércio das Américas e do Oriente (Gaspar, 1994), conjuntura económica que parece ter sido igualmente favorável a uma evolução ascendente.

Mais tarde, entre 1638 e 1650, observou-se uma certa estagnação na realização de casamentos, os nascimentos continuaram a baixar e os óbitos, embora sub-representados, apontam para um movimento de subida. Além de outros factores, o declínio do Império português e a consequente perda de estabilidade económica a partir de 1630, assim como a Restauração da independência em 1640, guerra com Espanha, ataques ao Império e aos navios portugueses (Marques, 1995), poderão ter influenciado este comportamento.

Mas, embora as curvas dos baptizados e dos casamentos apresentem uma tendência semelhante no modo geral de evolução, nem sempre o aumento do número de casamentos foi acompanhado por um aumento do número de nascimentos.

À linha ascendente de casamentos entre 1687 e 1697 correspondeu uma linha descendente de nascimentos, talvez, em parte, influenciada pela saída de casais, aqueles que após o casamento e pelas mais variadas razões acabaram por se ausentar da freguesia. Por outro lado, nos finais do século XVII e início do século XVIII registou-se uma tendência de descida das curvas dos casamentos e nascimentos e também dos óbitos, aqui, sub-representada.

É possível admitir que a saída do país de um grande número de pessoas que se dirigiram para o Brasil (Marques, 1995) nos primeiros anos do século XVIII, tenha afectado negativamente a população da freguesia da Sé.

No século XVIII, após um curto movimento de subida simultânea no volume dos nascimentos casamentos e óbitos sensivelmente entre 1713 e 1723, o volume de casamentos e óbitos registados voltou a diminuir nas décadas de vinte e trinta, mas o volume de nascimentos continuou a aumentar, registando-se, na década de quarenta, uma tendência ascendente dos três movimentos, até ao final da observação. A elevação dos casamentos e nascimentos poderá, em parte, ter sido influenciada pelo florescimento económico que se deveu à descoberta e exploração do ouro do Brasil e à simultânea transformação do comércio externo português (Serrão, 1990).

Refira-se que, nesta análise comparativa entre o volume de casamentos e o volume de baptizados, não pudemos estabelecer uma relação directa de causalidade, ou seja, que o aumento ou diminuição do número de matrimónios provocaria, por si só, o aumento ou a diminuição do número de nascimentos. É necessário ter presente que se trata de uma freguesia da cidade de Lisboa, onde a mobilidade era intensa, devido ao seu poder de atracção. Alguns casais vinham à paróquia da Sé apenas contrair matrimónio, ou porque estavam de passagem ou pretendiam casar na paróquia de origem de um, ou de ambos os cônjuges, embora não tivessem aí a sua residência fixa. Os filhos destes casais iriam, por isso, nascer fora da freguesia. Por outro lado, à paróquia da Sé vinham também viandantes que aí celebravam o seu matrimónio e que, não sendo residentes na freguesia, os filhos certamente nasceriam fora da paróquia. Na freguesia casavam também alguns presos da cadeia do Aljube, dentro da própria prisão ou na igreja da Sé. O mesmo acontecia com as raparigas donzelas que se encontravam no Recolhimento da Santa Casa da Misericórdia. Umas, casavam na Igreja da Misericórdia, outras, na Igreja da Sé, mas, de um modo geral, saíam para fora da freguesia após o casamento, algumas, possivelmente, para o local de residência dos maridos. Por isso, nem todos os que casavam na paróquia aí tinham os seus

filhos. Uma outra situação, algumas vezes referenciada nos registos paroquias, era a ausência dos maridos que tinham ido para Índia, Brasil, Cabo Verde, Minas, Tânger. Esta ausência acabava por se reflectir também nos nascimentos. Por outro lado, a freguesia da Sé era local de residência de muitas famílias vindas do exterior já depois do casamento, que aqui se fixavam definitiva ou temporariamente e nela tinham os seus filhos. Era uma paróquia aberta que recebia indivíduos não naturais por motivos de residência, trabalho, negócio e mesmo por motivos de guerra e embarque para Além-mar.

Em síntese, os movimentos dos baptismos, casamentos e óbitos, apesar dos últimos não terem sido registados na sua totalidade, apontam para uma evolução da população tendencialmente negativa, embora com alguns momentos de recuperação, mas cujos valores registados não voltaram a atingir os de 1620. Estamos perante a influência de diversos fenómenos que não pudemos quantificar pela impossibilidade de acompanhamento dos indivíduos desde o nascimento até à morte, devido à falta de registo contínuo de mortalidade dos menores de sete anos para o período analisado e, também, à intensa mobilidade geográfica. A compreensão destes comportamentos só seria possível através de uma inter-relação com a mortalidade e a mobilidade e com outras variáveis, não apenas demográficas, mas também económicas, biológicas, culturais e sociais, entre outras, que, juntamente, contribuíram para a evolução da população da freguesia da Sé.

Apesar das limitações apontadas, os capítulos sobre a análise demográfica ajudar- nos-ão a perceber algumas inter-influências que contribuíram para a evolução demográfica da freguesia da Sé, num período anterior ao terramoto de 1755.

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