1. AS TRANSFORMAÇÕES DA RELIGIOSIDADE POPULAR
1.19. Baracho
Outro caso importante de milagreiros contemporâneos foi o de João Rodrigues Baracho, conhecido simplesmente por Baracho. Tratava-se de um dos bandidos mais procurados pelas autoridades policiais da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, no início da década de 1960. Baracho ficou conhecido pelos atos de violência com que executava motoristas de táxi, sobretudo àqueles que trabalhavam à noite. Ele realizava assaltos e depois matava suas vítimas, causando um medo generalizado na população. As autoridades policiais já tinham conseguido prendê-lo duas vezes, mas todas as vezes ele conseguiu escapar. Baracho foi se tornando uma lenda na capital do Rio Grande do Norte, e seus crimes passaram a chamar atenção não somente dos moradores de Natal, mas também das cidades circunvizinhas. Cada crime que ocorria na cidade as pessoas atribuíam a Baracho – que ganhou a fama de sempre escapar da polícia. Os taxistas, aterrorizados pelas ações desse bandido, realizaram uma reunião em que foi elaborada uma carta e remetida às autoridades e aos jornais pedindo solução para o problema.
A fama de “matador de motorista” que Baracho já tinha obtido era divulgada pela imprensa local: os jornais passaram a noticiar cada crime, prisão e fuga de Baracho. A população, ansiosa para saber quando Baracho seria preso, acompanhava diariamente as notícias não somente através dos jornais escritos, mas também pelo rádio. No dia 30 de agosto de 1962, Baracho foi preso e exposto na prisão para visitação pública. Segundo os jornais, Baracho se encontrava na prisão sem comida ou bebida e, após três meses, conseguiu fugir para uma favela da cidade. Sedento de sede, Baracho suplicou por um copo d’água em uma das casas do lugar, mas o dono dela negou, tendo chamado a polícia, que imediatamente chegou ao local. Cercado, Baracho foi alvejado por 22 tiros e, agonizando de dor, não resistiu aos ferimentos e faleceu.
Logo após sua morte, seu corpo foi enterrado no cemitério Bom Pastor, na cidade de Natal. A partir de então, seu túmulo passou a ser marcado por uma quantidade de velas e vasilhas d’água por pessoas que se denominam seus devotos. Estes acreditavam que Baracho, de matador de motoristas, havia se tornado um santo. Acreditavam nos seus poderes milagrosos e passaram a pedir graças tais como a premiação na loteria ou a conquista de um título de futebol. A imagem de homem
perigoso que havia sido difundida e até construída pelos meios de comunicação proporcionou a ele uma característica que foge da normalidade, como a de um indivíduo que, além de cometer vários crimes, conseguia fugir com frequência dos cercos policiais. Isto, por sua vez, dava ideia aos moradores da cidade de um homem com artimanhas eficazes, extremamente eficientes em manobrar as forças policiais. Essas artimanhas não estavam presentes em qualquer homem, o que norteava as pessoas a forjar uma identidade não humana para Baracho. Na verdade, uma identidade precária, na medida em que a natureza de sua santidade ainda era motivo de muitos questionamentos. Apesar de contradições na sua santificação no meio popular, seus devotos acreditavam veemente nos seus milagres.
Nesse sentido, os milagreiros populares diferentemente dos santos católicos, muitas vezes não apresentam histórias de heroísmo ou de dedicação aos preceitos de Cristo. Baracho é um desses exemplos que foge à normalidade, já que na ocasião do seu martírio, baleado e com sede, pôde testemunhar a falta de caridade cristã daqueles que lhe negaram um copo d’água. Deste modo, de algoz ele tornou-se vítima, o que contribuiu para lhe conferir santificação. Torna-se fundamental compreender que, para os fiéis desse tipo de devoção, muitas vezes não importa o que esses indivíduos faziam quando vivos, mas sim o martírio que sofriam em vida ou no momento da morte, fazendo com que, após a morte, adquirissem o sentido de defensores das almas dos pecadores e de operadores de milagres.
Portanto, as sacralizações de Baracho, João Rodrigues e Antero, todos eles acusados de assassinato, foram comprovadas pelos crentes que não consideravam esses indivíduos como bandidos e assassinos, mas como seres especiais que continuavam a ajudar as pessoas mesmo após à morte. Esses milagreiros instalados no mundo urbano haviam estabelecido uma ligação do mundo celeste com o mundo natural.
A santidade desses milagreiros estava ligada às suas mortes trágicas – para muitos algo desmerecido, até mesmo para criminosos. As torturas, como a facada no peito de Antero, os espancamentos em João Relojoeiro, e a negação de água a Baracho foram interpretados pelos devotos como uma espécie de purgatório de qualquer coisa errada que eles tivessem feito em vida. A sofrida morte levou os milagreiros até um suposto arrependimento rumo à santificação, tornando-os almas milagrosas.
No caso do anjinho Antoninho, que seguia rigidamente os preceitos da Santa Sé, e mesmo não havendo dúvidas sobre sua santificação, os processos de beatificação e de canonização jamais chegaram ser realizados. Antoninho, mesmo sem o apoio da Igreja, havia sido definido como santo pela população local, que reconhecia a sua história de milagres e enxergava nele um intermediador entre Deus e os homens. Apesar desta criança ter sido marcada por uma trajetória religiosa, não deixou de fazer parte de uma lista de milagreiros populares espalhados pelo país.
Assim, nesse campo de crença não oficial, não se admitia preconceitos, estando os devotos mais abertos a qualquer manifestação do sagrado que se apresentasse para ajudar os homens no mundo profano. Isto também é demonstrado no caso de Maria Bueno, ora prostituta, ora uma donzela, vítima do seu companheiro que foi morta de forma trágica, alçando-a ao patamar de protetora das almas aflitas. Não é de se estranhar que as mulheres que sofrem atualmente com a violência doméstica enxerguem nesta milagreira uma profunda ligação de experiências e de sofrimentos. Elas recorrem à santinha de Curitiba porque acreditam que serão acolhidas e compreendidas, já que essa milagreira também vivenciou as mesmas aflições.
As relações descritas entre os milagreiros e os vivos confluíram para uma nova relação com o sobrenatural, tanto os santificados mais antigos quanto os mais contemporâneos que, mesmo não aceitos pelo sistema religioso tradicional, após suas mortes, conseguiram romper as barreiras entre os planos transcendental e terrestre, tornando-se intercessores, intermediadores, protetores e, acima de tudo, amigos fiéis dos seus devotos. O século XXI é herdeiro deste complexo sistema de crenças populares, onde milagreiros são introduzidos pela população com vias à facilitar a vida dos afligidos com doenças, desempregos, reprovações em vestibulares etc. É neste sentido que se insere o personagem principal desta dissertação: um milagreiro urbano da cidade de Caicó, no Rio Grande do Norte, conhecido como Dr. Carlindo de Souza Dantas.