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Barraca de utensílios domésticos e ferramentas

Foto 26: Barraca de utensílios domésticos e ferramentas. Autora: Carmem Lúcia Costa.

Outra grande atração da feira são as barracas de roupas. De acordo com o SEBRAE, o setor de confecções e lingerie foi um dos que mais cresceu em Goiás no final do século XX, e esse fato pode ser constatado no crescimento do número de barracas que comercializam esses produtos na feira

da Festa do Rosário. Em Catalão o crescimento desse setor também foi considerável e contribuiu para o crescimento da participação de comerciantes da cidade na feira, que em 2007 chegou a vinte por cento, de acordo com a Associação Comerciante local. As barracas de lingerie atraem pela variedade das peças e pelos preços que são bem mais em conta que os praticados no comércio local uma vez que, o próprio fabricante é quem comercializa as peças, eliminando da transação o atravessador. Os preços são mais em conta também em função de muitas peças não terem passado em controles de qualidade de fábricas ou ainda serem peças falsificadas. As mercadorias baratas atraem muitos clientes, pessoas que guardam dinheiro o ano todo para comprar nas barraquinhas, como vários entrevistados nos afirmaram.

A Festa atrai muitas pessoas. Elas chegam de carro, de ônibus, à pé; vêm de bairros distantes, de outras cidades, do campo, de toda a região sudeste. Os deslocamentos em direção à Festa envolvem a vida de toda a cidade, mesmo daqueles que não gostam da Festa, que não vão à Festa têm seu cotidiano transformado em função do aumento da circulação de pessoas na cidade. Famílias de camponeses chegam à cidade para as compras, que em outros meses são realizadas no comércio local, mas em outubro tem a “barraquinha” e é lá que uma parte considerável dos compradores vai circular. Operários das indústrias também recebem os salários no período da Festa, bem como os funcionários municipais, estaduais e federais; grande parte dos trabalhadores do comércio, entre outros, vão gastar boa parte dos salários na feira e uma parte considerável do dinheiro que circularia no comércio local, vai circular na feira e, em sua maioria, vai para outras cidades, o que é motivo de reclamações por parte dos comerciantes locais.

Porém, ir às compras não é o objetivo maior de algumas pessoas que foram entrevistadas durante a Festa. Alguns dançadores da Congada e fiéis que frequentam a Igreja do Rosário nem sempre são simpáticos à presença da feira, mas não podem escapar dela, pois o profano cerceia o sagrado. O caminho para a Igreja ou para o Largo é o das ruas ocupadas pela feira. Assim, a feira é passagem obrigatória para todos os que circulam pela região da Festa e, querendo ou não, circular entre as

mercadorias da feira é um ato difícil de evitar, logo não consumir algo é muito difícil.

La Pradelle mostra a feira como um espaço-tempo de encontro, ainda que no espaço da troca comercial. A autora argumenta que comprar nem sempre é o objetivo dos que vão à feira, mas quase sempre é consequência. Na feira, o estímulo ao consumo é muito próximo, sem barreiras, ao alcance. Uma relação que invade e transforma o cotidiano dos moradores da cidade, redirecionando a centralidade.

Em Catalão é possível ir à Festa para ver pessoas, para o encontro, mas como resistir à mercadoria que compõe este espaço-tempo? É um desafio ir à Festa e não consumir, pelo menos uma “lembrancinha”, afinal são tantas opções, tantas “novidades”, tudo com preços “bem mais em conta” que no comércio local. Mas para outros, comprar é o objetivo. Em entrevistas realizadas, cerca de 50% das pessoas revelou guardar dinheiro o ano todo para a feira, ou ainda comprometer outras contas para comprar na feira. Ou seja, a feira movimenta a vida cotidiana dos moradores no sentido do consumo também.

Na feira, o global impõe as regras para reproduzir uma rede de práticas informais e ilegais, que compõem o circuito inferior da economia urbana, necessário para a reprodução do capital, para fazer chegar a mercadoria ao consumidor.

7.4 - O comércio informal e as festas

O crescimento do comércio informal em todo o Brasil, principalmente nas regiões metropolitanas, reproduz uma rede de comércio que abastece todo o território através dos comerciantes ambulantes que viajam de festa em festa vendendo os mais variados produtos, ou camelôs que ocupam as ruas das cidades. A globalização, com a inserção de novos mercados produtores – como a China e os Tigres Asiáticos –, significou a entrada de novos produtos a um custo inferior em mercados de todo o mundo e

este processo alcança os feirantes que fazem a ligação do mercado global com o lugar, trazendo as “novidades” que fazem a alegria das populações de pequenas cidades em todo o país.

Este circuito ajuda a compreender um pouco do comércio informal no Brasil, uma rede de ilegalidade que vai desde a produção – com a utilização de mão-de-obra altamente explorada nos países de origem – até a distribuição que acontece através de quadrilhas especializadas em roubo e contrabando que são responsáveis pela reprodução de um poder paralelo que tem comprometido a indústria e o mercado formal no país, levando à falência indústrias, pontos de distribuição e eliminando vários postos de trabalho formal, o que acaba fortalecendo ainda mais o mercado informal que “absorve” o trabalhador desempregado e sem perspectiva de colocação. Constrói-se um ciclo.

De acordo com dados do Dieese, no ano de 2007, 10,04% da população economicamente ativa do Brasil estava desempregada; em Goiás o percentual era de 8,23. Embora os índices apresentem queda nos últimos anos, o desemprego ainda é um dos elementos constitutivos da rede de comércio informal que se consolida no país e cresce a cada ano, uma vez que o trabalhador excluído do setor formal encontra trabalho e renda no setor informal que, embora sem garantias trabalhistas, garante a sobrevivência de muitas famílias. Nas grandes cidades o crescimento do setor informal é observado no número de camelôs que ocupam as calçadas e comercializam uma variedade de produtos.

Em momentos de crise da economia formal, como a que aconteceu em 2009, o setor informal avança. Milhares de trabalhadores procuram formas alternativas para sustentar suas famílias e a feira em Catalão reflete este momento com o seu crescimento. A cada ano mais ônibus de vendedores de vários lugares do país chegam para fazer a feira que passou a ocupar não mais duas ruas, mas seis ruas onde é possível encontrar os feirantes fixos e os ambulantes que não podem pagar pelo ponto, mas sempre dão um “jeitinho” de vender os seus produtos, circulando com suas mercadorias entre os freqüentadores da feira. A estratégia de regulação do uso

do espaço da feira passou por mudanças objetivando conter o crescimento da feira.

O comércio informal é um dos setores que mais crescem no Brasil e movimenta um mercado considerável, pois sete em cada dez brasileiros compraram produtos em camelôs ou feirantes informais154. O crescimento do mercado informal está ligado a dois fatores: as transformações no mundo do trabalho e a desregulamentação do comércio mundial que, associados a práticas como a pirataria, o contrabando de mercadorias, a existência de uma rede de fornecimento destes produtos para todo o país, fazem com que o comércio informal cresça a cada ano. Quanto à desregulamentação, conforme Antunes,

Foram profundas as transformações ocorridas no capitalismo recente no Brasil, particularmente na década de 1990, quando, com o advento do receituário e da pragmática definidos no Consenso de Washington, desencadeou-se uma onde enorme de desregulamentação nas mais distintas esferas do mundo do trabalho.155

As transformações no mundo do trabalho afetaram diretamente a geração de empregos no setor formal com carteira assinada, que cresceu pouco nos últimos anos, forçando, assim, a busca de alternativas por parte dos trabalhadores que, uma vez excluídos do trabalho formal, buscam sobrevivência no trabalho informal. De acordo com dados do IBGE, a taxa de desemprego no início do século XXI chegou a ficar acima de 8,0% da população e colocou o Brasil na terceira posição no mundo, com 1,9 milhões de desempregados no ano de 2008. Mesmo quando ocorre o crescimento do emprego no setor formal, muitos ainda são os trabalhadores excluídos desse mercado em função da falta de formação, de escolarização e do rápido avanço tecnológico.

154 Dados do IBGE do ano de 2006.

155 ANTUNES, Ricardo. A era da informatização e a época da informalização

– riqueza e miséria do trabalho no Brasil. In: Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006, p. 15

Pochamann156 ao analisar o desemprego no Brasil, aponta que

“... nos anos 1990, a cada dez empregos criados, somente quatro foram assalariados” e, seguindo o raciocínio, mostra também que “A maior parte das vagas abertas no mercado de trabalho não tem sido de assalariados, mas de ocupações sem remuneração, por conta própria, autônomo, trabalho independente, de cooperativa, entre outras.” Neste contexto, observa-se o

aumento das pequenas fábricas do setor de vestuário e calçados, como, por exemplo, em Goiás, que atualmente é um pólo nacional destes produtos, comercializados em grande número nas feiras que acontecem em Goiânia e em festas no interior do estado.

Nessas feiras, os pequenos produtores de confecções assumem não apenas a produção, mas também a distribuição de suas mercadorias. Com a eliminação do “atravessador” e a realização das transações em dinheiro ou cartão, os preços diminuem em média 40%. Em alguns casos são empresas familiares nos quais a mulher comanda a produção e o marido, a distribuição que é realizada em feiras e em visitas ao comércio de cidades em todo o estado. As feiras são atraentes, pois as vendas são à vista e desta forma é comum a presença de produtos produzidos por estas empresas. Mas a feira tem também produtos de cooperativas, além do trabalho informal, da pirataria e do contrabando.

Os trabalhadores do setor informal trabalham em feiras livres, em eventos e shows como camelôs, vendedores ambulantes, pelas ruas das cidades e vendem uma variedade de produtos como comida, bebida, bijuterias, roupas, lingerie, passes de ônibus, óculos de sol, etc. Nas grandes cidades é comum observar-se pelas ruas vendedores que concorrem com o comércio formal; também, nas pequenas e médias cidades já é possível observar a presença dos vendedores ambulantes com mais frequência, como em Catalão onde é grande o número de trabalhadores vendendo lanches salgados e doces, refrigerantes, sacoleiras157 e os vendedores de produtos artesanais.

156 POCHMANN, Márcio. Desempregados no Brasil. In: ANTUNES, Ricardo (org) Riqueza e

miséria do trabalho no Brasil. Op. Cit, p. 61.

157 As sacoleiras são vendedoras de roupas, sapatos, lingerie, bijuterias, produtos de beleza e

outros. Elas vão até as casas das clientes para vender os produtos. Algumas são produtoras também, como as vendedoras de lingerie e bijuterias.

Aliada ao crescimento do desemprego, a indústria da pirataria contribui para que o comércio informal cresça a cada ano; os produtos pirateados têm uma grande aceitação entre os brasileiros, como mostram os dados de uma pesquisa realizada pela Associação de Combate à Pirataria no Brasil.158 Segundo esta pesquisa, a indústria da pirataria movimenta cerca de R$ 23 bilhões de reais no país. A mesma pesquisa revela que os brinquedos, tênis e roupas são os produtos mais pirateados e a cada ano as compras destes produtos vêm crescendo. Das fábricas – que geralmente usam mão-de- obra em condições precárias de trabalho e de forma ilegal, inclusive mão-de- obra infantil – as mercadorias seguem para grandes centros atacadistas como os que existem na Avenida 25 de março em São Paulo, onde são redistribuídas para vendedores que fazem as feiras por todo o país.

Além das ruas dos grandes centros, as festas populares, como a de Catalão, são, também, o espaço-tempo da realização da troca, templos da mercadoria. Nas feiras, em sua maioria e como acontece em Catalão, a fiscalização é menos rígida – parece que a aquisição do terreno dá o direito de se comercializar qualquer produto – o que atrai um grande número de trabalhadores deste setor da economia. O poder municipal e o estadual parecem se esquecer de fiscalizar. Vez ou outra, geralmente próximo a datas comemorativas como o natal, a fiscalização é mais intensa, com objetivo de não comprometer o lucro do comércio formal, mas no restante do ano é possível encontrar produtos pirateados em qualquer lugar.

A fiscalização tem uma estratégia de concentrar as atividades na região distribuidora destes produtos para todo o país, como a rua 25 de março em São Paulo, onde estão os grandes pontos atacadistas que abastecem vendedores ambulantes que circulam por várias regiões do país em festas, feiras, shows, eventos ou cotidianamente pelas ruas mais movimentadas. As tentativas de coibir ou acabar com o comércio de produtos piratas no Brasil ainda são pouco eficazes. Pode-se apresentar uma série de motivos que movem este tipo de comércio, mas apresenta-se os elementos que observou-se na pesquisa. Em primeiro lugar, este tipo de comércio envolve

158 Esta pesquisa foi apresentada em uma reportagem exibida em 06/12/2006 no Jornal Hoje