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6. PERCEPÇÃO DOS AGENTES ENVOLVIDOS

6.1. Percepção quanto à integração cana-soja

6.1.1. Barralcool e Dedini

A Barralcool é a única planta industrial no Brasil que possui um sistema acoplado etanol- biodiesel. O projeto da usina foi inicialmente estruturado para gradativamente aumentar o grau de integração entre as unidades de etanol e biodiesel. Em uma primeira fase, definida como integração parcial, a soja é produzida na área de renovação do canavial e entregue a uma esmagadora, que extrai o óleo e o entrega em condições ideais para a transesterificação. Uma segunda fase incluiria a aquisição de uma unidade esmagadora e, consequentemente, verticalização da planta. No entanto, essa segunda fase nunca se consolidou na Barralcool. A usina possui apenas uma unidade secadora de grãos e silos de armazenagem. Quando questionados quanto às dificuldades de evoluir os estágios de integração, alegaram que a inclusão de uma unidade esmagadora é considerada arriscada por desconhecerem o comportamento do mercado de óleos vegetais. Ressaltaram, também, que “o mercado de farelo não é o dia-a-dia da usina”. Apesar disso, afirmaram que a usina vem estudando o caso pois acreditam que esse cenário agregaria mais um produto ao setor e, consequentemente, abriria um nicho de mercado para a exportação.

Também questionada quanto aos desafios para a inclusão de uma planta de esmagamento, a empresa Dedini Indústria de Base, responsável pela implantação da Barralcool, alegou que a construção de uma planta de extração na escala da unidade de biodiesel é economicamente inviável devido aos altos investimentos dessa unidade. “A planta da Barralcool possui capacidade instalada

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de apenas 50.000 toneladas por ano. Atualmente, não se justificaria investir em plantas de biodiesel com esse volume”. Por esse motivo, a viabilidade de uma unidade de esmagadora só seria possível para uma capacidade de produção compatível com o atual mercado de óleos. Com uma unidade maior, a empresa também produziria óleo excedente para venda a preços competitivos com o setor de esmagamento.

A importância da diversificação dos nichos de mercado e da verticalização fica clara ao se observar as principais unidades esmagadoras de óleo. Essas empresas, tais como Cargill, ADM, Granol e Caramuru, entraram para o mercado de biodiesel e dominam o atual cenário de produção com preços inferiores aos praticados pelas unidades não verticalizadas. Observa-se, portanto, que entre as vantagens de incorporar a unidade esmagadora ao projeto estão a possibilidade de escolha entre produção de biodiesel ou venda de óleo, a depender das condições de mercado, e a redução nos custos de produção de biodiesel. Por esses motivos, os entrevistados ressaltaram que o sucesso na implantação de uma unidade de biodiesel está na verticalização e na capacidade local de oferta de matéria-prima.

Desde a primeira fase do projeto Barralcool já se previa a substituição do diesel consumido nas etapas agrícolas da cana-de-açúcar pelo biodiesel. Embora muito se questione a resposta do motor diesel para misturas elevadas de biodiesel, testes realizados pela usina, em uma parceria com a Valtra, demonstraram resultados positivos para B100. Apesar da meta e da viabilidade técnica do motor, o projeto de substituição nunca se concretizou. A usina permanece com a compra de diesel, direcionando todo o biodiesel para os leilões. A usina alega que os preços praticados nos leilões são mais interessantes do que usar o biodiesel internamente (até o momento da entrevista, a usina ainda comercializava biodiesel. No entanto, desde maio/2014 (leilão n. 34) a Barralcool não tem participado dos leilões). Questionados sobre incentivos para a substituição do combustível fóssil, os entrevistados declararam ter buscado redução e/ou isenção de impostos junto ao governo estadual, mas esse foi indiferente à proposta.

Quanto às limitações de fornecimento de insumos para a produção de biodiesel, ressaltaram a dependência internacional de metanol e de metilato de sódio e a demora na entrega desses produtos, em especial na região de Mato Grosso devido às condições logísticas. “O metanol, por exemplo, leva oito dias para chegar até a usina”. Por esse motivo, o investimento na rota etílica é

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fundamental para eliminar a dependência externa de metanol. Ainda como reflexo da localização da usina, as manutenções industrial e agrícola costumam ser caras e demoradas. “Em geral, a prestação de serviços é proveniente do estado de São Paulo. Por conta disso, é necessário um estoque maior de peças e equipamentos”.

Apesar da dificuldade logística dada pela localização da usina, os entrevistados destacaram que a integração de etanol de cana e biodiesel de soja só se viabiliza no Centro-Oeste devido à grande produção de óleo de soja e cana-de-açúcar nessa região. No Sudeste não se justificaria investir em usinas de biodiesel de soja pois a oferta de óleo na região é baixa e, consequentemente, o óleo (ou grão) teria que ser deslocado a partir de MT, ou outra região produtora. Ressaltaram que o transporte do biodiesel, por ser um produto de valor agregado, é mais barato do que o transporte do óleo. Por isso, é mais vantajoso transportar o biodiesel para o Sudeste. Ainda, destacaram que é mais barato produzir biodiesel de soja no Mato Grosso do que no Sudeste.

Outra vantagem apontada pelos entrevistados foi a interação administrativa e operacional entre as unidades de etanol e biodiesel. “Conseguimos aproveitar a mão de obra da cana-de-açúcar para a soja, assim como serviços comuns entre as unidades de etanol e biodiesel, tais como departamento pessoal, departamento de compras, eletricistas, mecânicos, entre outros”. Além disso, equipamentos como caminhões, pulverizadores, grade e aplicador de calcário, também podem ser de uso comum entre as culturas.

Questionados quanto às limitações industriais da rota etílica, um dos entrevistados alegou não haver obstáculos. “A usina tem total capacidade para retornar o etanol utilizado na transesterificação e passá-lo novamente pela coluna de destilação, já que essa está preparada para retirar, inclusive, traços de biodiesel e impurezas que tenham sido arrastados junto com o álcool”. Entre as justificativas apontadas para o incentivo à rota etílica está a capacidade interna de oferta de etanol. No entanto, apontou como desvantagem a falta de tecnologia apropriada para a rota etílica. Na visão de outro entrevistado, mais envolvido com as questões físico-químicas do processo, a opção pela rota etílica traz complicações ao processo. Nas primeiras bateladas realizadas na usina verificaram-se dificuldade na remoção da umidade do biodiesel e maior tempo reacional. Devido ao aumento do tempo de reação, foi necessário instalar um decantador adicional, para auxiliar na decantação da glicerina, e reduzir a vazão de entrada de óleo. “Os ésteres etílicos

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possuem maior afinidade com a glicerina, por isso sua separação é mais complicada”. Outro problema enfrentado pelos técnicos industriais foi a impossibilidade de utilizar a mesma coluna de retificação do metanol para o etanol. Por esse motivo, o etanol recuperado, com traços de biodiesel, retornava à usina de álcool para ser misturado ao etanol limpo. O entrevistado ressaltou, ainda, que com a introdução do diesel S10 e o estabelecimento de limites máximo de água no diesel, a ANP exigiu redução no teor de umidade do biodiesel, tornando o uso da rota etílica ainda mais crítica e mais cara (o etanol possui azeotropia com a água, o que requer gastos energéticos maiores). Dessa forma, os primeiros testes com transesterificação por etanol enfrentaram problemas de cumprimento de parâmetros de qualidade e dificuldades de processo. No entanto, o entrevistado acredita que as especificações da ANP não impedem que a rota etílica seja viável. Alegou que as vantagens da utilização do etanol está na não dependência do mercado internacional de metanol e das oscilações de preço desse álcool. Além disso, “metanol é mais tóxico e inflamável e sua comercialização é controlada pela polícia federal, tornando o processo de compra mais burocrático”.

Em relação aos incentivos à economia, os entrevistados alegaram que o mercado de biodiesel alavancou o comércio de farelo e, consequentemente, a produção de suínos e aves em Mato Grosso. Por essa razão, defendem a ideia de que o governo deveria incentivar o livre comércio do biodiesel no estado, situação que se justifica diante do elevado preço do diesel. Além disso, problemas logísticos de recebimento do óleo diesel e de escoamento de grãos são importantes fatores para impulsionar o beneficiamento em MT. Entretanto, vale mencionar que ainda haveria a necessidade de escoamento do farelo de soja.

No entanto, devido às condições de mercado, o foco da usina é claramente a unidade sucroalcooleira. A usina não julga viável, por exemplo, atrasar o plantio da cana para a inclusão de duas safras de grãos (e.g. soja e amendoim) na mesma área e no mesmo período de renovação da cana-de-açúcar, como proposto pelo próprio projeto inicial da Barralcool. Enfatizaram, também, que o mercado interno de etanol em MT é melhor do que a oportunidade externa para o açúcar devido às dificuldades logísticas de exportação.

Os entrevistados compartilharam da opinião de que para a concretização de modelos de integração no Brasil são fundamentais o incentivo dos governos federal e estadual, mercado

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favorável e a disponibilidade de matéria-prima local. Além disso, destacaram que o setor carece de inovação e de sistemas logísticos mais consolidados, como a implantação de pontos de estocagem de etanol. Os atuais problemas com quebra de safras de cana-de-açúcar e o congelamento duradouro no preço da gasolina também foram apontados pela usina como prejudiciais ao setor. Quanto ao investimento em inovação, há um grande receio em relação à viabilidade técnica e econômica. Por isso, julgam necessário maiores investimentos do governo em PD&I e o envolvimento de fabricantes de equipamentos nas discussões de melhorias para o setor.

Embora o estudo de integração cana-soja tenha tido como motivação a interação do cultivo de soja em áreas de renovação do canavial, a Barralcool declarou que essa condição não foi o motivo que contribuiu para a construção da unidade integrada. “A oferta de soja via área de reforma representa muito pouco em relação à demanda da usina de biodiesel. A elevada disponibilidade dessa matéria-prima na região foi o que contribuiu para essa integração”. Por fim, o entrevistado reforçou que cana é o principal negócio da usina e que não se justificaria substituir essas áreas por plantios de soja a fim de atender à demanda da unidade de biodiesel.