3. CAPÍTULO MATERIAL E MÉTODOS
4.1. Barreiras à adoção e implementação de ALT
Os entrevistados identificaram vários fatores como barreiras à adoção e implementação de ALT. Se em muitos dos casos se verificou um alinhamento de opiniões entre os participantes, também surgiram frequentemente opiniões desencontradas sobre o mesmo fator, sua importância e seu impacto, encontrando-se mesmo, relativamente a alguns fatores, opiniões de sentido antagónico. Tal fato demonstra bem, não apenas da complexidade do tema, mas também da heterogeneidade de sensibilidades e experiências dos peritos.
O Custo de aquisição dos equipamentos de Vivência Assistida foi um dos fatores que mais abundantemente foi referido pelos peritos, com 4 entrevistados (E1, E4, E5, E6) a referirem-no especificamente e de modo espontâneo como relevante. No caso dos restantes entrevistados (E2, E3), o tema não foi referido espontaneamente, requerendo da minha parte uma questão fechada sobre o tópico.
O poder de compra dos Portugueses, a sobrecarga de outras despesas consideradas básicas para a sua sobrevivência, a inexistência de reembolso, justifica, de acordo com metade dos participantes, que este fator seja considerado como uma barreira para a adoção destas tecnologias.
Para a outra metade, este elemento não faz sentido, essencialmente por dois motivos. Em primeiro lugar, porque há uma certa “comoditização” do software e mesmo do hardware necessário, levando a que o seu preço final seja bastante reduzido. Em segundo lugar, argumentam estes peritos, a questão não se coloca apenas ao nível do custo per si, mas sim do valor, pelo que se terá de se ter em conta também o benefício que a solução traz para os seus utilizadores. Este facto foi em alguns casos evidenciado com casos práticos reais em que, apesar do baixo custo dos equipamentos/soluções ALT, os programas não tiverem sucesso. Não deixa de ser interessante constatar que um dos entrevistados, pese embora tenha referido a limitação dos recursos financeiros como uma barreira ao acesso de ALT tenha, também ele, identificado uma situação relativa ao telealarme em que, apesar do
baixíssimo custo, o projeto não vingou, o que parece ser demonstrativo de que o elemento custo deve ser colocado em perspetiva e enquadradado no valor global da solução apresentada.
Também a idade, não apenas dos doentes mas também dos seus cuidadores (geralmente cônjuges), aspeto frequentemente associada à literacia da população com demência, foram apontadas por dois dos entrevistados (E1, E5) como constituindo uma barreira para a boa utilização destas tecnologias. Os potenciais utilizadores destas tecnologias têm na maior parte dos casos mais de 70 anos, apresentando frequentemente dificuldades em lidar com equipamentos bem mais prosaicos como telemóveis ou comandos de televisão. Revelam assim grandes dificuldades de aprendizagem de acordo com a opinião destes peritos. Um dos entrevistados refere mesmo que tais equipamentos têm frequentemente instruções em língua que não o Portuguesa, dificultando ainda mais tal aprendizagem. Trata-se de uma população pouco habituada ao relacionamento com máquinas, antes privilegiando o relacionamento humano, como referiu expressamente um dos peritos.
Contudo, vários entrevistados (E2, E3, E4) salientaram que este elemento não deve ser encarado como definitivo. É sim importante, mas reconhecem também que a perceção de utilidade, o apoio do cuidador, a formação adequada, a motivação, a capacidade e gosto individual para a utilização de tecnologia, são elementos que têm de ser tidos em conta. Um dos entrevistados sugere mesmo uma estratégia que tem, com sucesso, mitigado tal efeito. Passa por sessões de formação presenciais, antes de as pessoas se autonomizarem em casa e, ao fim de tais sessões, mesmo as pessoas com pouca literacia conseguem ter sucesso na utilização de tais tecnologias.
Para uma significativa parte dos entrevistados (n=4) a falta de informação e de
divulgação, quer junto do grande público, quer junto dos profissionais de saúde, quer
mesmo dos agentes políticos, são uma importante barreira à adoção de ALT (E1, E4, E5, E6). Estes agentes não sabem da existência de Tecnologias Assistivas, não sabem como podem ser úteis e finalmente, não as sabem utilizar. Os profissionais de saúde desconhecem o seu potencial e assim sendo, não recomendam a sua utilização, nisso desempenhando papel importante os médicos. Se estes, por falta de informação, não
suportam a sua utilização, tornam assim muito difícil a sua adoção por doentes e cuidadores.
Um dos entrevistados, focou a importância da informação junto dos agentes políticos identificando não ser claro que os políticos “ estejam informados sobre as mais-valias e vantagens destas tecnologias e do seu impacto, não só na qualidade de vida das pessoas e da sua segurança, mas também no seu valor económico quando comparado com outras respostas muito mais caras”. Curiosamente, se tal deficit parece ser bastante evidente a nível do poder central, a nível local verifica-se uma elevada sensibilidade. Vários entrevistados (E2, E5, E6) citaram experiências piloto a nível local, nos concelhos de Matosinhos, Braga, Amadora e no interior Algarvio. Um dos experts refere mesmo, de forma enfática, que há uma clara disponibilidade do poder local para acarinhar tais abordagens.
Também as dificuldades de acesso à tecnologia foram apontadas como barreiras, seja por deficiência de infraestruras de rede (referido por um dos entrevistados), seja por falta de recursos informáticos (referido por outro). Um dos entrevistados não considerou como relevante estes aspeto salientado que “Eles não têm computador. O que é importante é haver um computador na família” ou o fato de “quase todas as câmaras terem locais públicos com acesso à internet, como centros de dia, junta de freguesias, etc.”- pelo que esta não se revela uma questão central, na sua opinião.
Uma outra barreira invocada, e com bastante nível de concordância, foi a excessiva
medicalização das intervenções em saúde (E2, E4, E6), com os fármacos a serem
considerados opções quase que únicas de intervenção, com evidente negligência das intervenções no ambiente das pessoas, sejam elas de natureza arquitetónica ou tecnológica. Este tópico reuniu também bastante consenso entre os entrevistados, nomeadamente no que às demências diz respeito, dado serem muitas as dúvidas, mesmo na classe médica, relativamente à eficácia da intervenção farmacológica. Um dos entrevistados referiu mesmo que a medicação é mais vista numa perspectiva de tornar o doente suportável para o cuidador e não tanto para tratar a doença.
Foi também identificada, por vários dos intervenientes (E1,E2, E5, E6) a importância da
adequação das soluções tecnológicas às verdadeiras necessidades dos
respondem às necessidades - que não partem de necessidades identificadas- ou que têm um carácter muito parcial, não intervindo de forma integrado no contínuo de cuidados, não envolvendo os seus elementos- profissionais de saúde, cuidadores, doente- têm mais dificuldade em serem adotadas e implementadas. Curiosamente, um dos intervenientes identificou mesmo o caso da referenciação por GPS como um caso de uma solução com muito pouco valor acrescentado, enquanto outros dois entrevistados a referenciaram como muito útil.
Foi possível também verificar a partir dos diferentes depoimentos que, apesar de por vezes do lado da oferta haver a sensação de que os seus produtos e serviços estão a ser incompreendidos, a verdade é que- de acordo com os peritos- frequentemente tal reflete uma procura do lucro pelo lucro, ou uma falta de identificação das verdadeiras necessidades, pelo que o mercado acaba por rejeitar a oferta. Os experts consultados enfatizam que tais tecnologias deveriam começar por caracterizar com rigor a situação, ouvindo familiares, doentes, médicos, enfermeiras, terapeutas etc., e percebendo em que medida e de que forma a tecnologia pode resolver uma necessidade (E2). Se o produto ou solução não for útil, não se usará e acabará por sair do circuito. O mercado, ainda de acordo com os entrevistados, não responderá e acabará por ser fator de regulação (E1).
A falta de motivação também foi identificada por dois dos entrevistados (E2 e E4) como uma das principais barreiras à adoção de ALT. Ambos integraram este desafio naquilo que são as limitações colocadas a qualquer recomendação ou prescrição médica, como seja a toma de comprimidos, a leitura do jornal diário ou uma recomendação para um estilo de vida saudável. Ou seja, os mesmos desafios de compliance que se colocam relativamente à prescrição médica clássica, são também os mesmos que se colocam ao nível das ALT.
A questão da falta de interoperabilidade entre os interfaces de informação também foi abundantemente referida por 4 dos entrevistados (E1, E2, E3, E6). Contudo, se três dos entrevistados olham para este tópico como um clara barreira à adoção de ALT, um outro não tem a mesma perspetiva. De acordo com os primeiros, tal impossibilita a comunicação dos sistemas, levando à criação de ilhas de informação, que não comunicam entre si e que, portanto impedem a criação de valor. Parece evidente que,
apesar da esta questão extravasar o âmbito das ALT, já que se coloca de uma forma mais ampla ao nível das TIC na Saúde, há consenso relativamente à necessidade, importância e mesmo urgência de definirmos o que devemos partilhar e quem deve aceder, por forma a assegurarmos que as plataformas informáticas comuniquem entre si (E6).
Contudo, como anteriormente referido, um dos outros participantes (E2) não considera tal relevante, antes prefere colocar a tónica na utilidade específica para os players que diretamente tiram partido imediato da solução oferecida.
A liderança política, foi identificada por um dos experts como a responsável pela insuficiente introdução destas tecnologias. Pela ausência de uma prioridade claramente assumida que identifique a necessidade de apoio aos idosos em Portugal, utilizando tecnologias de apoio remoto. Esta ausência de prioridade, não permite envolver os intervenientes de todo o sistema, condição essencial para que a mudança de operacionalize.
Dois intervenientes chamaram também a atenção (E3 e E6) para o impacto no
modelo organizacional dos prestadores dos cuidados de saúde, na sequência da
introdução das ALT. De facto, a introdução das ALT não fará sentido se for aditiva aos cuidados já existentes, pelo que terá de ter, de acordo com um dos depoimentos, um carácter disruptivo. Por outro lado, hoje o foco dos médicos é a prestação de consultas com objetivos curativos. Não há um foco na prevenção. A disponibilidade de dados vai conduzir a uma mudança organizacional que requererá que os médicos utilizem uma parte do seu tempo para trabalharem a prevenção, a partir da análise destes mesmos dados. Hoje em dia isso não é uma preocupação dada a indisponibilidade destes, mas quando eles estiverem disponíveis teremos de aprofundar este conceito.
O impacto destas tecnologias na organização dos cuidados exigirá uma ambiciosa gestão da mudança, pelo que poderá facilmente criar-se uma barreira à sua introdução. Nenhum dos entrevistados considerou os desafios relativos à Privacidade e
Confidencialidade dos dados como barreira à introdução da ALT. Os entrevistados
olham para este elemento como uma inevitabilidade, com os seus riscos, mas com pouco impacto versus os benefícios. Um dos entrevistados (E2) identifica mesmo a
tecnologia como potenciadora de estratégias de anonimização e portanto potenciadora dessa privacidade.