1.4 Marisa Monte: da aparição da diva ao infinito particular
1.4.3 Barulhinho Bom
O registro desses shows deu origem a Barulhinho Bom: uma viagem musical (1996). O álbum duplo anuncia um momento de transição: no disco ao vivo, Marisa Monte faz uma breve retrospectiva de sua carreira e no outro, gravado em estúdio, apresenta faixas inéditas. Mais uma vez a artista investe na manutenção de sua imagem lançando, junto com o CD, outro vídeodocumentário com cenas captadas em película cinematográfica, de 35 e 16mm.
Progressivamente, o trabalho de Marisa Monte extrapola a dimensão musical, constituindo-se em um projeto editorial pelo qual ela pode gerir constituindo-seu posicionamento dentro da indústria cultural. No Jornal da Tarde, Lauro Lisboa Garcia comentou a estratégia da artista: “um produto complementa a ideia do outro, ambos contêm gravações exclusivas e serão vendidos separadamente”.17
O projeto gráfico do disco, adaptado também para compor a embalagem e o encarte do home vídeo, merece destaque. Assinada por Gingo Cardia, a identidade visual recupera a obra de Carlos Zéfiro – quadrinista brasileiro que, em meados do século XX, produziu centenas de revistas pornográficas que circulavam na clandestinidade. A arte dele só ganhou o devido reconhecimento a partir de 1984, quando Otacílio d'Assunção publicou o livro O quadrinho erótico de Carlos Zéfiro. Também homenageado em 1991, na I Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio de Janeiro, Zéfiro preferiu viver em anonimato até julho do ano seguinte, quando revelou a verdadeira identidade: Alcides Aguiar Caminha – carioca e funcionário público.
16 Marisa Monte volta mais leve e quente, Folha de São Paulo, abril de 1995. Texto extraído do site oficial de Marisa Monte. Disponível em <http://www2.uol.com.br/marisamonte/novosite/novositeport.htm> Acesso em: 6 jun. 2010. 17 Marisa Monte lança kit multimídia, Jornal da Tarde, outubro de 1996. Texto extraído do site oficial de Marisa
Sobre o trabalho do artista, Marisa Monte avalia:
Zéfiro foi um fenômeno pop, no sentido popular mesmo. Ele fez cerca de 860 histórias diferentes, com tiragem que chegavam a 5 mil exemplares cada. Um trabalho ao mesmo tempo underground e popular que no auge do Regime Militar, da repressão, conseguiu circular pelo Brasil inteiro, alimentando o imaginário coletivo.18
A capa do disco (Figura 19) criou polêmica, chegando a ser censurada nos Estados Unidos. Lá, o desenho da mulher com os seios à mostra chegou às lojas com uma tarja preta cobrindo o busto.
Figura 19: reprodução do quinto cd de Marisa Monte
Fonte: Divulgação
Tárik de Souza publicou no Jornal do Brasil suas impressões sobre o marketing em torno da divulgação de Barulhinho Bom: “para a mídia, o kit do lançamento pegou mais pesado. Além de duas revistinhas apimentadas de Zéfiro, há uma boneca em formato de bola com os traços do desenhista, de peitos e nádegas infláveis”.19 Por isso, na ocasião do lançamento de
Barulhinho Bom, o release propunha uma brincadeira com o nome do disco, informando que o novo trabalho de Marisa Monte tratava-se, na verdade, de uma viagem musical para ver e ouvir. Pelo trabalho, Marisa Monte recebeu elogios, como os escritos por Marcos Augusto Gonçalves para a
Folha de São Paulo.
18 Release de “Barulhinho Bom”, 1996. Texto extraído do site oficial de Marisa Monte. Disponível em <http://www2.uol.com.br/marisamonte/novosite/novositeport.htm> Acesso em: 6 jun. 2010.
19 Marisa Monte muda de ecossistema, Jornal do Brasil, outubro de 1996. Texto extraído do site oficial de Marisa Monte. Disponível em <http://www2.uol.com.br/marisamonte/novosite/novositeport.htm> Acesso em: 6 jun. 2010.
Feliz o país que, tendo uma Gal Costa em soberba maturidade, pode acompanhar a explosão luminosa de uma cantora como Marisa Monte, que lança "Barulhinho bom", uma "viagem musical", como convida o subtítulo, na forma de dois CDs e um
home vídeo. Viagem para ser feita sem cinto de segurança, conduzida por um canto cada vez mais seguro, límpido, envolvente, e por uma produção musical, pilotada por Arto Lindsay, que decola e voa em céu azul, cor-de-rosa e carvão.20
Mauro Ferreira, do jornal O Globo, também reconheceu os méritos da artista.
Na voz de qualquer outra jovem cantora, um disco que juntasse músicas de Paulinho da Viola, Lulu Santos, Novos Baianos, George Harrison, Carlinhos Brown e Gilberto Gil se perderia num ecletismo excessivo. Com Marisa, todo esse repertório adquire frescor e unidade (…). O CD de estúdio traz apenas novidades na voz de Marisa. Além das boas versões de "Tempos modernos" e "Chuva no brejo" (...) a cantora grava "Cérebro eletrônico", de Gil, e apresenta um poema de Octávio Paz, "Blanco", musicado por ela mesma (...). O profícuo Carlinhos Brown comparece com três inspiradas inéditas: "Arrepio" - com belos vocais da cantora, cada vez mais afinada - "Magamalabares" e "Maraçá", esta em homenagem ao cinema. O CD ao vivo poderia ter repertório mais bem selecionado, mas vale pela psicodélica "Give me love" e "Panis et circensis". Marisa Monte sabe o que faz e canta.21
Deste modo, as imagens do documentário homônimo ilustram essa nova fase na carreira da artista. Marisa Monte aparece muito mais integrada à cultura popular brasileira, interagindo com músicos que são, declaradamente, uma influência para seu trabalho. Na companhia dos Novos Baianos ela parece se sentir totalmente à vontade enquanto canta e conversa (Figura 23). Com Paulinho da Viola e com as pastoras da Velha Guarda da Portela (Figura 22) ela resgata sambas memoráveis, mostrando a admiração e respeito pelos integrantes da Portela – sua escola de samba favorita. Além disso, o vídeo registra a gênese do que posteriormente apareceria em Tribalistas: Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes compõem uma música diante das câmeras, deixando clara a afinidade criativa que os une bem como a improvisação inerente a esse processo (Figura 20). Nessa perspectiva, Barulhinho Bom confirma uma nova forma de se apresentar para o público. Mais do que contracenar com personalidades de diversos segmentos da MPB, Marisa Monte parece estar entre amigos. Nota-se, portanto, a necessidade de mostrar uma intimidade que se realiza na produção musical: encontros, ensaios, parcerias, a vida na estrada e a convivência com os músicos da banda.
20 Marisa Monte lança CD duplo e vídeo em sua viagem musical, Folha de São Paulo, outubro de 1996. Texto extraído do site oficial de Marisa Monte. Disponível em <http://www2.uol.com.br/marisamonte/novosite/novositeport.htm> Acesso em: 6 jun. 2010.
21 Marisa Monte une vertentes da MPB em ótimo CD duplo, O Globo, outubro de 1996. Texto extraído do site oficial de Marisa Monte. Disponível em <http://www2.uol.com.br/marisamonte/novosite/novositeport.htm> Acesso em: 6 jun. 2010.
No palco, o aparato técnico fornece os recursos necessários para um novo tipo de
performance. O cenário do show, composto por três telões, exibem cenas de partidas de futebol, mulatas sambando e trechos de filmes sobre os Mutantes e os Novos Baianos. O figurino descarta o aparato luxuoso do início de carreira em detrimento de peças mais leves: vestidos, batas, calças esvoaçantes, muitas pulseiras, brincos e colares conferem um aspecto neo hippie à artista (Figura 24 e 25). No documentário há, inclusive, cenas gravadas pela Índia e Nepal, confirmando a influência da cultura oriental nesse trabalho (Figura 21). No palco, Marisa Monte aparece mais solta e sorridente, arriscando passos de samba enquanto interpreta Balança Pema (Jorge Ben Jor). Além de resgatar pérolas do repertório dos Novos Baianos como Mistério do Planeta, Eu sou o caso deles e
A menina dança, Marisa Monte também interpreta Panis et circenses (clássico dos Mutantes). Assim, com uma imagem pós-tropicalista, a artista tenta romper com a postura de diva que a projetou para o sucesso.
Figura 20: cantora com Carlinhos Brown Figura 21: influência da cultura oriental
Figura 22: Marisa com as pastoras da Velha Guarda da Portela
Figura 24: visual neo hippie Figura 25: bata, pulseiras e colares
Depois de Barulhinho Bom, a artista passou a investir em outros projetos. Em 1998, produziu o disco Omelete Man, de Carlinhos Brown. No ano seguinte, fundou o próprio selo –
Phonomotor Records – aliada à gravadora EMI que permaneceu como distribuidora de seus discos. Assim, Marisa Monte conquistou definitivamente a independência musical ao tornar-se detentora dos direitos sobre todas as suas gravações.