2. COSTURA DOS PROJETOS DE SI
2.1 O VITRINE SOCIAL
2.1.1 Base Conceitual do Artesanato Brasileiro
O texto “Base Conceitual do Artesanato Brasileiro” (2012), documento do Governo Federal, traz as bases do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB). Tal documento delimita quem é o artesão da seguinte forma:
O trabalhador que de forma individual exerce um ofício manual, transformando a matéria-prima bruta ou manufaturada em produto acabado. Tem o domínio técnico sobre materiais, ferramentas e processos de produção artesanal na sua especialidade, criando ou produzindo trabalhos que tenham dimensão cultural, utilizando técnica predominantemente manual, podendo contar com o auxílio de equipamentos, desde que não sejam automáticos ou duplicadores de peças (p. 11).
São apresentadas como características-base para configurar o trabalho do artesão: o trabalho feito de forma manual, a transformação da matéria-prima bruta ou manufaturada, o domínio de todo processo de produção e a presença de dimensão cultural nos artefatos criados. Portanto, não são considerados artesãos aqueles que realizam trabalhos com predomínio de máquinas, sem transformação da matéria- prima, com divisão do trabalho (sem conhecimento de todas etapas do processo de produção), sem desenho próprio e dimensão cultural (PAB, 2012).
Cabe o questionamento, aqui, do que significa para o PAB “presença de dimensão cultural nos artefatos”. Algum artefato pode ser criado desprovido de dimensão cultural? Seria essa “dimensão cultural” a referência a características regionais, a algum ponto turístico ou fato histórico da região?
O texto do PAB classifica o artesanato em cinco tipos: artesanato indígena, artesanatos de reciclagem, artesanato tradicional, artesanato de referência cultural e artesanato contemporâneo-conceitual (PAB, 2012) (Quadro 2). É utilizada classificação bastante similar no Boletim de Inovação do Artesanato publicado pelo Sebrae no ano de 2014, com exceção do artesanato de reciclagem, que o Sebrae não considera como uma classificação possível.
Classificação do artesanato Descrição
Artesanato Indígena
Artesanato produzido em comunidades
indígenas por seus próprios integrantes. Muitas vezes são feitos de forma coletiva no cotidiano da vida tribal.
Artesanato de reciclagem Os artefatos são produzidos a partir de matéria- prima reutilizada.
Artesanato Tradicional
Artefatos que representam as tradições e cultura de um determinado grupo, sendo integrados aos seus usos e costumes. São normalmente de origem familiar ou comunitária e contribuem para a preservação da memória cultural de uma comunidade.
Artesanato contemporâneo-conceitual
Os artefatos são inovadores e têm como intuito a afirmação de um estilo de vida, afinidade cultural ou valores.
Artesanato de referência cultural
Os artefatos são, em geral, criados a partir de um projeto de intervenção planejada, em que é feito o resgate ou releitura de elementos tradicionais de determinada região. Questões mercadológicas e de tendências são levadas em consideração para o desenvolvimento dos produtos, com intuito de torná-los mais competitivos.
Quadro 2 –Classificação do Artesanato conforme PAB (2012) Fonte: adaptado de “Bases Conceitual para o Artesanato” (2012).
A fim de identificar e restringir quais atividades fazem parte do “artesanato” e são apoiadas pelo Programa do Artesanato Brasileiro, o texto cita atividades que não são classificadas como artesanato e, em seguida, traz outras categorias de trabalho que são frequentemente denominadas “artesanato”, a saber: arte popular e trabalhos manuais (Quadro 3).
ARTESANATO ARTE POPULAR TRABALHOS MANUAIS
Definição Compreende toda a produção resultante da transformação de matérias-primas, com predominância manual, por indivíduo que detenha o domínio integral de uma ou mais técnicas, aliando
criatividade, habilidade e valor cultural, podendo no processo de sua atividade ocorrer o auxílio limitado de máquinas, ferramentas, artefatos e utensílios.
Conjunto de atividades poéticas, musicais, plásticas, dentre outras expressivas que configuram o modo de ser e viver do povo de um lugar.
São atividades que exigem destreza e habilidade, mas que a matéria-prima não passa por transformação. Em geral são utilizados moldes pré-definidos e materiais industrializados. E as técnicas são
aprendidas em cursos rápidos oferecidos por entidades assistenciais ou fabricantes de linhas, tintas e insumos. Não é artesanato - Trabalho realizado a partir de simples montagem, com peças industrializadas e/ou produzidas por outras pessoas;
- Lapidação de pedras preciosas;
- Fabricação de
sabonetes, perfumarias e sais de banho, com exceção daqueles produzidos com essências extraídas de folhas, flores, raízes, frutos e flora nacional; - Habilidades aprendidas através de revistas, livros, programas de TV, dentre outros, sem identidade cultural. *
A arte popular não é considerada artesanato porque a primeira tem como premissa a originalidade. A arte popular não produz,
necessariamente, objetos repetidos a partir de um modelo ou protótipo, trabalha muitas vezes com peças únicas.
O trabalho manual não é artesanato porque: - Não faz a transformação da matéria-prima;
- A criação é feita a partir de moldes pré-definidos, não prescindindo de um processo criativo; - Resulta em produtos sem identidade cultural que identifique sua região de origem ou o artesão que o produziu;
- Resulta em artefatos de baixo valor agregado.
Quadro 3 – Definição e diferenças entre: artesanato, arte popular e trabalhos manuais
Existem produtos que, de acordo com a tabela acima, não preenchem os requisitos para serem considerados artesanato, pois estariam mais próximos do “trabalho manual”, mas se diferenciam da definição do mesmo porque tem como base a utilização de elementos que façam referência a uma identidade cultural regional. Podemos citar como exemplo, os souvenirs, artigos que fazem referências a características de determinado local e que são comprados como recordações de viagens. Segundo o texto “Base Conceitual do Artesanato Brasileiro” (2012), tais produtos podem ser classificados como “produtos típicos”.
De acordo com o texto “Base Conceitual do Artesanato Brasileiro” (2012), os produtos desenvolvidos no Vitrine Social são feitos com emprego de técnicas de produção artesanal. Praticamente todos produtos comercializados nas barracas do Vitrine Social empregam costura, bordado e, em alguns casos, matelassê, e tais técnicas são descritas como produção artesanal no documento citado.
Poderíamos deduzir nesse momento que se uma técnica artesanal é empregada na confecção de um artefato, quem o faz é um/a artesão/ã. Porém, para o PAB, se as características do trabalho forem diferentes da definição de “artesão” citada acima, tal dedução não é verdadeira. Por exemplo, é possível trabalhar bordando toalhas com base em desenhos copiados de revistas de artesanato, sem nenhuma referência a identidade cultural regional. Nesse exemplo, houve emprego de uma técnica de produção que é considerada artesanal, mas, de acordo com a “Base Conceitual do Artesanato Brasileiro” quem a bordou não é necessariamente um/a artesão/ã e o artefato produzido não é artesanato.
O problema da definição de artesanato apresentada pelo PAB e pelo Sebrae (2014) é que ela está centrada no artefato em si e desconsidera todo processo de circulação do mesmo. Por essa razão, adoto neste trabalho o conceito de artesanato apresentado por García-Canclini (1989) que o aproxima das culturas populares, ou seja, produção feita por culturas subalternas10. Entendo que é necessário olhar não
10 Culturas populares ou subalternas são entendidas neste trabalho em “oposição a uma cultura dominante, como produto da desigualdade e do conflito” (GARCÍA-CANCLINI, 1989, p. 27, tradução livre). Esse acesso desigual é exposto nos artefatos produzidos pelas culturas populares. “ ... así como no existe la cultura popular po uma esencia o um grupo de rasgos intrínsecos, sino por
oposición a la cultura dominante, como produto de la desigualdad y el conflito” (GARCÍA-CANCLINI,
apenas para o artefato, mas para seu processo de produção, circulação e consumo para compreender práticas artesanais.
Em diálogos feitos com as participantes do Vitrine Social percebi que elas se autodenominam artesãs, e, algumas, aproximavam o que fazem de noções de arte. Quando conversávamos sobre como chegaram ao Vitrine Social, algumas narravam que vinham de famílias de artesãos e que se identificavam com atividades manuais desde a infância, assim, era construída uma história de formação como artesã. Outras, contavam que não haviam artesãos na família, por isso não tiveram contato com técnicas manuais antes do Vitrine Social, mas que sempre se interessaram por artesanato. Uma vez que a proposta deste trabalho é contar trajetórias de “artesãs- empreendedoras” a partir dos relatos delas próprias, adotaremos a denominação que elas mesmas dão a seu trabalho, a de artesãs.