3.3 O EXEMPLO DA COOPTUR – COOPERATIVA PARANAENSE DE
3.3.1 A base conceitual da proposta da Cooptur
A criação da Cooptur está ligada ao desenvolvimento das ações do Programa Nacional de Turismo Cooperativo (PTRC) no estado do Paraná. Sendo assim, primeiramente são apresentadas quais foram as principais ações do programa, que se configuraram como a base conceitual da proposta que posteriormente deu origem a Cooptur. Num segundo momento a apresentação versa sobre os trabalhos desenvolvidos via PTRC no Paraná, que culminaram na criação da Cooptur.
O PTRC é organizado pelo Sescoop a partir da problemática concernente as dificuldades pelas quais passavam as comunidades rurais de pequeno e médio porte no início dos anos 2000. Como é salientado no documento do PTRC, tais
comunidades “[...] estão [estavam] dependendo cada vez mais de agregação de renda externa para a sua viabilização econômica” (SESCOOP, 2002, p. 5).
A partir desta situação apresentada, o Sescoop passa a buscar formas de gerar renda complementar, com vistas a melhorar a situação socioeconômica daqueles que vivem no meio rural. É neste contexto que o turismo rural74 passa a ser observado como “uma forma de possibilitar o aumento de renda do agricultor familiar e de diminuir o seu êxodo para as cidades, pela utilização de atrativos de sua propriedade e aproveito de mão-de-obra (sic) dos membros de sua própria família”
(SESCOOP, 2002, p. 5).
No início dos anos 2000, o turismo rural já era realidade nas regiões Sul e Sudeste do país, se colocando como atividade promissora. No entanto, nos casos que apresentavam resultados positivos, os empreendedores normalmente estavam organizados a partir de uma base local, possuindo “formas de resolução de problemas comuns”, assim como, “meios para organização da oferta turística local”.
Esta estrutura de base para o turismo possibilitava que todos angariassem benefícios com a atividade (SESCOOP, 2002, p. 13-15).
Neste sentido o Sescoop desenvolve o PTRC, levando em conta aspectos inerentes a base local, com um programa que teria como escala de implementação pequenas comunidades rurais que apresentassem recursos com possibilidades de serem utilizados via atividade turística. Partindo destas premissas, o objetivo geral do programa se referia a:
Promover o desenvolvimento de áreas rurais de municípios brasileiros, por meio da implantação de um modelo de gestão e de organização social e da ampliação da oferta turística nestas áreas visando agregar valor à atividade rural e melhorar a qualidade de vida das populações (SESCOOP, 2002, p.
7-8).
O desenvolvimento das ações derivadas do PTRC se deu em doze municípios-polo75 pertencentes a dez estados brasileiros, sendo estes: Minas Gerais, Pernambuco, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa
74 O turismo rural era apregoado pelo PTRC como uma atividade complementar, a qual não teria como objetivo se sobrepor ou substituir as lides tradicionais. A ideia era trabalhar o meio rural com suas características como um possível atrativo, tendo ainda os produtos típicos produzidos nas comunidades rurais (SESCOOP, 2002).
75 A Teoria dos Polos de Crescimento foi desenvolvida por Perroux na França na década de 1950 com base no estudo do setor industrial. Desde então, esta vem sendo aplicada também nas atividades de planejamento, como no caso deste programa de turismo para a seleção de Polos e estabelecimento de suas regiões de influência, onde estariam as comunidades alvo.
Catarina, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Alagoas (PARANÁ COOPERATIVO, 2002). Como cada estado possuía uma unidade do Sescoop, isso facilitou a aplicação do programa. Contudo, devido à escala de abrangência, se fizeram necessárias algumas parcerias, sendo a principal delas fechada com o então Ministério do Esporte e Turismo, por meio do Convênio 298/2001, que apresentava como objetivo viabilizar a implantação do PTRC nos estados brasileiros (MIELKE, GANDARA e SERRA, 2008).
Os municípios de cada estado que seriam objeto de aplicação do programa foram escolhidos com base em um Diagnóstico Básico desenvolvido pelo Sescoop, com objetivo de “conhecer e diagnosticar o universo atual [no início dos anos 2000]
do turismo rural no Brasil”, levantando as instituições que estavam atuantes no segmento, modalidades de turismo praticadas e municípios/comunidades com potencial (SESCOOP, 2002, p. 9).
Tendo a lista de municípios levantados pelo diagnóstico básico, passou-se ao trabalho de escolha das comunidades rurais, as quais efetivamente passariam pelas fases do programa – já que não era o município-polo e suas comunidades os lócus de aplicação do programa, mas sim, comunidades tomadas na região que este representava. Para isto se fez necessária a identificação por parte de facilitadores locais, de características importantes das comunidades, as quais “[...] deveriam apresentar uma estrutura comunitária com coesão social”, na qual o processo de participação pudesse ocorrer de forma positiva. “Significava ir para além da aparência da comunidade, captando a essência das relações sociais entre os interessados” (SESCOOP, 2002, p. 19).
Após a conclusão do trabalho dos facilitadores e do reconhecimento de comunidades que apresentassem as características especificadas pelo PTRC, passava-se ao desenvolvimento, propriamente dito, das ações da primeira etapa do programa que estava dividida em duas fases: “organização social” e “capacitação em turismo rural”.
A primeira - “organização social” - tinha como objetivo “maximizar a capacidade de mobilização dos empreendedores locais na solução de seus problemas comuns, por meio de um processo associativo, como associações e cooperativas” (SESCOOP, 2002, p. 14). Esta fase possuía papel de relevo ao se pensar no objetivo final do PTRC que era a criação de associações ou cooperativas para organizar e gerir, mesmo que parcialmente, os produtos turísticos locais. Além
disso, esta forma de organização possibilitaria, “oferecer um produto turístico atrativo e diversificado, fruto do trabalho no campo e da riqueza da cultura regional” (p. 15).
Nessa fase, observa-se que as ações desenvolvidas versavam sobre a sensibilização dos membros das comunidades atingidas, quanto a formas de trabalho coletivo e suas vantagens, pensando na sua organização social e motivando-os para se utilizarem de formas associativas.
A segunda fase do programa - “capacitação em turismo rural” – tinha como objetivo apresentar “técnicas eficientes para gestão do negócio de turismo rural, bem como apreender sobre o cuidado que há que se ter no tratamento ao turista/cliente e ao meio ambiente” (SESCOOP, 2002, p. 28). A capacitação era constituída de oito módulos, sendo eles: Turismo Rural; Atrativos e Produtos do Turismo Rural;
Hospedagem, Gastronomia e Produção Local; Segurança; Marketing;
Administração; Projetos de Turismo Rural; Estratégia de Organização Social (IDEC, 2003).
Sendo assim, tendo um grupo sensibilizado sobre processos de organização associativos e motivado pelas possibilidades de trabalhar com o turismo, a segunda etapa do programa possibilitava agregar conhecimentos específicos, tanto conceituais como práticos, sobre os elementos centrais que envolvessem o trabalho com o turismo, tendo como lócus o meio rural. A estrutura de desenvolvimento do programa versava, basicamente, sobre: a) levantar municípios/comunidades com possibilidade de aplicação do programa; b) organizar grupos que tivessem características de relevo ao se pensar em processos cooperativos; e c) capacitar tais grupos sobre temáticas inerentes ao trabalho com empreendimentos turísticos rurais. Todo esse trabalho era colocado em prática com objetivo de organizar a oferta turística regional de alguns destinos turísticos potenciais, sob uma base cooperativista, já que a ideia central do programa era desenvolver o turismo através do cooperativismo76 (MIELKE, GANDARA e SERRA, 2008).
Estas etapas do PTRC foram desenvolvidas em diversas comunidades dos estados brasileiros, porém, a única cooperativa oriunda de tal programa que teve resultados positivos e mantém-se atuante foi a organizada pelas comunidades do Paraná. Neste sentido, passa-se agora a apresentação do desenvolvimento do PTRC no Estado, e os desdobramentos até a formação da Cooptur.
76 Nesta proposta, o território turístico seria articulado em rede, compondo o que Haesbaert (2007, p.
279) denominou de “territórios-rede”.
Os trabalhos do programa no estado do Paraná se iniciaram na Colônia Menonita de Witmarsum, situada no município de Palmeira. Cabe salientar que nesta foi aplicado um projeto piloto no início do ano de 2003. Após a aplicação em Witmarsum, o trabalho teve continuidade em outras comunidades de imigrantes, envolvendo suas cooperativas agropecuárias, sendo estas: Batavo, de Carambeí;
Castrolanda, de Castro; Capal, de Arapoti; Camp, de Prudentópolis; e Agrária, de Guarapuava. Através de cursos, palestras e treinamentos, os interessados em organizar empreendimentos de turismo rural de todas essas comunidades passaram a falar a “mesma língua” no que se refere à atividade. A partir disso, os membros das seis organizações cooperativas agropecuárias começam a se preparar para a criação de uma cooperativa que tivesse como foco a atividade turística, que como salientado, era um dos propósitos finais do programa (ENTRE RIOS, 2010).
O programa foi desenvolvido durante todo o ano de 2003, sendo finalizado em meados de 2004. Neste mesmo ano, no mês de outubro, as lideranças das comunidades passaram a discutir como seria organizada a cooperativa de turismo, quais seus objetivos e seus serviços. Esta foi uma das primeiras discussões onde foi apresentado um estudo de viabilidade de implantação da entidade, envolvendo diversos fatores, sendo que, o resultado da análise foi positivo, ou seja, havia potencialidades a serem desenvolvidas via uma cooperativa de turismo que integrasse as comunidades de imigrantes objetos do PTRC (SESCOOP, 2004).
Após diversas discussões e reuniões, foi criada no dia 17 de dezembro de 2004 a Cooperativa Paranaense de Turismo (COOPTUR), “[...] que seria conhecida como a primeira cooperativa de turismo do Brasil, [...] cujos segmentos de turismo comercializados seriam os de Turismo Rural e Turismo de Aventura” (MIELKE, GANDARA E SERRA, 2008, s/p). A formação se deu através da integração das seis cooperativas agropecuárias das comunidades que passaram pelo programa e que por fim iriam constituir a “Rota dos Imigrantes” (SETTI, 2011).
Como pode se observar na Figura 4, a “Rota dos Imigrantes” seria dividida entre a “Rota Eslavo Germânica” – Comunidades de Entre Rios (Alemães Suábios), Prudentópolis (Ucranianos) e Witmarsum (Alemães Menonitas) – e “Rota Holandesa”
– Comunidades de Carambeí, Castrolanda e Arapoti (Holandeses) (SESCOOP, 2004).
FIGURA 4 – ÁREA DE ATUAÇÃO DA COOPTUR EM 2004
FONTE: Soares e Löwen Sahr (2016, p. 117).
O objetivo central da Cooptur era “estruturar e promover o turismo, onde os visitantes entrariam em contato com a cultura, a culinária, o artesanato, o trabalho e as paisagens onde vivem os imigrantes e descendentes de holandeses, ucranianos e alemães”. Cabe salientar, que é nas cooperativas destas comunidades que “se desenvolve agricultura e a pecuária de leite mais moderna do Brasil em termos de tecnologia e produtividade” (SETTI, 2011, p. 235), algo que se apresentava – e se apresenta – como mais um atrativo para a atividade turística, tendo em vista a experiência e cultura destes descendentes de imigrantes para com os trabalhos coletivos.
Todo o trabalho colocado em prática, envolvendo a capacitação de agentes locais, fez com que se colocasse em evidência oportunidades voltadas a atividades de lazer e turismo e que as comunidades estruturassem uma oferta de qualidade, cada uma apresentando produtos desenvolvidos ligados as suas especificidades culturais. Representados pela Cooptur, tais comunidades se apresentam atualmente como parte das principais atrações turísticas da região dos Campos Gerais do Paraná.
Além disso, há que ser salientado que as comunidades de descendentes de imigrantes do Paraná apresentaram uma atmosfera propícia para o desenvolvimento do PTRC por serem constituídas e organizadas por meio de cooperativas
agropecuárias, se enquadrando nas formas de organização, participação comunitária e coesão social apregoadas pelo programa, o que facilitou o seu desenvolvimento. Como a ação final do PTRC era a criação de uma organização cooperativa ou associativa de turismo, o contexto das comunidades ajudou bastante, por estas apresentarem já previamente uma “cultura da cooperação” (VIGNATI, 2008, p. 121; STOCK e FERNÁNDEZ, 2010, p. 249).
Quanto às ações do PTRC, pode-se afirmar que estas foram pertinentes ao abordar a escala da comunidade e suas particularidades, já que “a comunidade local tem um papel essencial no desenvolvimento turístico”, sendo “[...] uma das suas estruturas centrais” (VIGNATI, 2008, p. 14). Também a articulação entre estas contribuiu, sobremaneira, para o sucesso do programa.
No que se refere à Cooptur, ela vai se apresentar como a primeira cooperativa que “[...] opera em todos os ramos da cadeia de valor da atividade turística, enquanto que outras cooperativas operam exclusivamente em um ramo específica da atividade (hotelaria, agências de viagens, transporte, consultoria)”
(STOCK e FERNÁNDEZ, 2010, p. 245). Isto faz com que ela se torne um exemplo de organização social, já que “no Brasil ainda não existia uma cooperativa de turismo com todos os setores turísticos envolvidos” (COOPTUR, 2005a).
Na discussão sobre turismo cooperativo, observou-se que realmente há uma série de cooperativas que levam a sigla turismo em seus nomes, porém, sua atuação é limitada a um ou outro setor da atividade, como também foi abordado por Stock e Fernández (2010). A cooperativa de turismo, ao seguir os moldes apregoados pelo PTRC, deveria apresentar uma escala de atuação diferenciada, envolvendo os diversos setores da atividade.
Neste sentido, tem-se que:
A Cooptur é o único exemplo de cooperativa de turismo envolvida e contemplando a gestão turística como um todo, e, por consequência (sic), a única que entendeu que o turismo é uma atividade econômica multidimensional, e que, como tal, sua gestão deve ser não somente em benefício dos cooperados, mas também do desenvolvimento endógeno do território no qual opera (STOCK e FERNÁNDEZ, 2010, p. 245).
Pode-se considerar a Cooptur como um bom exemplo ao se pensar na organização de novas cooperativas de turismo. Trabalhando e fomentando atividades envolvendo as comunidades e/ou a regiões e tendo presente os diversos empreendimentos da cadeia produtiva de turismo local e/ou regional.
Esta forma de atuação da Cooptur varia em abrangência, tendo a comunidade e seus empreendimentos como escala local, e a articulação entre as diferentes comunidades, como escala regional. Neste sentido, a subseção que segue trata de apresentar tais escalas e os resultados alcançados envolvendo o desenvolvimento do turismo.