CAPÍTULO 2 – PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DA DEFESA DO
2.2 A BASE CONSTITUCIONAL DOS PRINCÍPIOS DO CÓDIGO DE DEFESA
O diploma legal de proteção e defesa do consumidor não surgiu por acaso, tampouco decorreu de um simples projeto como qualquer lei ordinária. Ele é a conscientização de uma longa evolução e o resultado de todos os movimentos e
89 PAVAM, Patrícia Caldeira. O Ministério Público e a defesa em juízo do direito individual e
homogêneo do trabalhador. 2001. Dissertação (Mestrado em Direito)-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2001, p. 55.
legislações consumeristas anteriormente ocorridas no Brasil90 e também no exterior.91
Sérgio Cavalhieri Filho92 relata que na década de 1980 já se havia formado no Brasil forte conscientização jurídica quanto à necessidade de uma lei específica de defesa do consumidor, uma vez que o Código Civil de 1916, bem como as demais normas do regime privatista, não mais conseguiram lidar com situações tipicamente de massa. Essa conscientização foi levada para a Assembleia Nacional Constituinte, que acabou por optar por uma codificação de normas específica para as relações de consumo.
Nesse sentido, oportunos são os comentários da professora Ada Pellegrini Grinover93, relativamente à introdução da obra “Código de Defesa do Consumidor comentado pelos Autores do Anteprojeto”:
A necessidade de tutela legal do consumir: ‘A proteção do consumidor é um desafio de nossa era e representa, em todo o mundo, um dos temas mais atuais do Direito. Não é difícil explicar tão grande dimensão para um fenômeno jurídico totalmente desconhecido no século passado e em boa parte deste. O homem do século XX vive em função de um modelo novo de associativismo: a sociedade de consumo (mass consumption society ou Konsumgesellschaft), caracterizada por um número crescente de produtos e serviços, pelo domínio do crédito e do marketing, assim como pelas dificuldades de acesso à justiça’. São esses aspectos que marcaram o nascimento e desenvolvimento do Direito do Consumidor como disciplina jurídica autônoma.
Como se vê, foi o constituinte originário que determinou uma lei, embora tardia, para a defesa do consumidor, o que evidencia que o CDC, diferentemente de
90 SODRÉ, Marcelo Gomes. Formação do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, p.19-20. O
autor divide as fases da legislação de defesa do consumidor em: “(i) primórdios da legislação (até meados da década de 1930); (ii) primeiro estágio: legislação penal (meados da década de 1930 a 1960); (iii) segundo estágio: legislação de direito administrativo (de 1960 a 19850 e, (iv) terceiro estágio: legislação de direitos difusos (1985 aos nossos dias)”.
91 MONTE, Mário Ferreira. Da proteção penal do consumidor. Coimbra: Almedina 1996, p. 82. O
jurista português, ao fazer uma retrospectiva histórica do consumerismo narra que: “Na verdade, o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor foi a culminar de um movimento, já que, como confessadamente dizem os autores de seu anteprojeto, ele se inspirou em outras leis advindas de outros países [...]. Por outro lado, significa o primeiro passo para a codificação, no resto do mundo, porque, na verdade, foi o primeiro Código a surgir, principalmente se atendermos à sua ambiciosa estrutura, bem como à quantidade de normas que regulamentam todas as matérias atinentes ao consumidor e onde tem lugar mesmo um conjunto de normas sancionatórias, administrativas e penais”.
92 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de direito do consumidor. São Paulo: Atlas: 2008, p. 10. 93 GRINOVER, Ada Pelegrini; BENJAMIN, Antônio Herman de Vaconcellos. Código de Defesa do
Consumidor comentado pelos autores do anteprojeto. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 6.
outras leis ordinárias em geral, tem origem constitucional. Em outras palavras, foi o constituinte originário que instituiu um direito subjetivo público geral a todos os brasileiros e estrangeiros residentes no Brasil, para que o Estado, na forma da lei, realizasse a defesa do consumidor.94
De fato, após diversas constituições, apenas a atual determina a “codificação” das normas de consumo, quando trouxe o arcabouço necessário para se erguer em nosso ordenamento jurídico um microssistema de proteção às relações de consumo. Assim, com o advento da atual ordem constitucional, erigiu-se a proteção do consumidor à categoria de direito assegurado pela Carta Magna.
Pelo texto constitucional, são três os artigos que tratam diretamente da defesa dos direitos dos consumidores, a saber: artigos 5º, inciso XXXII; 170, inciso V, e artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT).
Quando cuidou dos direitos e garantias fundamentais, a Magna Carta estabelece, no inciso XXXII de seu artigo 5º, que o “Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor”. Nesse contexto, importante frisar que o Estado a que se referiu o legislador constituinte é aquele conduzido pela atuação dos poderes executivo, legislativo e judiciário.95
Marcelo Gomes Sodré96
afirma que o pressuposto de existência do inciso XXXII do artigo 5º do texto constitucional é de que a relação de consumo é, por definição, desigual. As partes desta relação – consumidor e fornecedor – não têm o mesmo poder e conhecimento, e por isto, uma delas, o consumidor, merece proteção do Estado. A ideia da vulnerabilidade do consumidor, que é explicitada na legislação específica, já está escrita na própria Carta Magna, na exata medida em que cabe ao Estado proteger este ator vulnerável nas relações de consumo. Por outro lado, como o inciso XXXII do artigo 5º acima mencionado, não explica como o Estado promoverá a defesa do consumidor, busca-se no artigo 179 a orientação dos limites da defesa, no mesmo status dos princípios da soberania, da propriedade privada, da livre concorrência e outros. Com efeito, a defesa do consumidor consubstancia um dos princípios da ordem econômica (inciso V do artigo 170 da CF).
94 RIZZATO NUNES, Luiz Antônio. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 5. ed. São
Paulo: Saraiva, 2010, p. 58.
95 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 29. ed. São Paulo: Malheiros,
2007. p. 266.
Entre os princípios que o legislador constituinte elegeu como indispensáveis para o Estado brasileiro alicerçar a ordem econômica, repousa a defesa do consumidor. Ou seja, qualquer atividade econômica desenvolvida no Brasil, além de fundada na valorização do trabalho e na livre iniciativa, assegurando- se aos cidadãos uma vida digna, deverá observar e suportar os ônus decorrentes da defesa do consumidor.97
É possível dizer que se encontra na Constituição Federal um óbice para o desenvolvimento de atividade econômica lesiva ao consumidor, eis que o legislador constituinte alçou a defesa do consumidor à categoria de garantia-base, sem a qual a atividade econômica não tem lugar dentro do campo da legalidade.
Marcelo Gomes Sodré98
, ao comentar ao artigo 170, pondera:
O legislador constitucional, em 1988, optou por estabelecer que a livre iniciativa e a defesa do consumidor eram ambos, em conjunto, princípios da ordem econômica; por esta razão, tais princípios devem ser compatibilizados. Melhor dizendo: a livre iniciativa deve ser limitada (não é tão livre quanto poderia parecer!) ao fato de o consumidor não ser lesado. E cabe ao Estado, pelas mais diversas formas, prevenir e punir a ultrapassagem destes limites. É este, inclusive, o sentido do disposto no parágrafo único do artigo 170 da CF.
Ademais, com o objetivo de trazer a regulamentação da questão à sede infraconstitucional, aponta-se o artigo 48 do ADCT, que trouxe a seguinte determinação: “O Congresso Nacional, dentro de 120 (cento e vinte) dias da promulgação da Constituição, elaborará o Código de Defesa do Consumidor”.
A “codificação” ocorreu após o trabalho de uma comissão de notáveis juristas adeptos ao tema. Teve seu tratamento final depois de decorridos quase dois anos, até que o diploma legal de proteção e defesa do consumidor foi, então, votado e aprovado com alterações do projeto inicial, culminando com a edição da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 – Código de Defesa do Consumidor.
No Brasil, a proteção do consumidor apresenta disciplina constitucional, o que revela a magnitude da tutela jurídica.
De interesse neste ponto do trabalho são as considerações de Cláudia Lima Marques99:
97 SODRÉ, Marcelo Gomes. Formação do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, p. 165. 98 Idem.
99 MARQUES, Cláudia Lima. Contratos no Código de Defesa do Consumidor. 4. ed. São Paulo:
A Lei 8.078/90 tem clara origem constitucional (artigo 170, artigo 5º, todos da Constituição Federal de 1988/CF/88), subjetivamente direito fundamental e princípio macro, ordenador da ordem econômica do país. E igualmente lei geral principiológica em matéria de relacionamentos contratuais e de acidentes de consumo.
Além do artigo 5º, inciso XXXII; do artigo 170, inciso V e do artigo 48 do ADCT, Marcelo Gomes Sodré100 destaca que o artigo 24 da norma constitucional em vigor tem dois incisos (V e VIII)101 relevantes na formação de um sistema nacional de defesa do consumidor.
Contudo, aponta o citado autor que a Constituição Federal foi pouco sistemática no que diz respeito à defesa do consumidor, não existindo um capítulo específico, nem um artigo específico sobre o tema, o que demonstra algum atraso do Brasil em relação a outros países, pois em constituições contemporâneas tal já ocorria.102 Logo, deduz-se que as diretrizes do direito do consumidor estão fortemente relacionadas e vinculadas aos preceitos de natureza fundamental.
Assim, urge demonstrar a importância do direito constitucional para o tema tablado, pois é por meio dele que se garantem e se realizam, nas palavras de Paulo Bonavides103, “o estabelecimento de poderes supremos, a distribuição da competência, a transmissão e o exercício da autoridade, a formulação dos direitos e das grandes garantias individuais e sociais”.
De igual forma, verifica-se, pela redação dos dispositivos constitucionais que tratam diretamente do tema da defesa do consumidor, destacada preocupação do constituinte com os denominados direitos metaindividuais, bem como com os direitos individuais pertinentes à seara consumerista.
Para Vital Serrano Nunes e Yolanda Alves Pinto Serrano104, cuida-se, na verdade, de diferenciada categoria de direitos voltada a um grupo de destinatários, até então em situação de desproteção, tendo em vista a sua não identificação como
100 SODRÉ, Marcelo Gomes. Formação do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, p. 162. 101 Art. 24 da CF: “Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente
sobre: [...] V- produção de consumo; [...] VIII – responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.”
102 Em sua obra, o professor Marcelo Gomes Sodré cita as Constituições Nacionais de Portugal e
Espanha, por exemplo, que apresentam artigos sistematizadores a respeito do assunto. No âmbito da América Latina, a Constituição Argentina, em reforma ocorrida em 1994, passou a ter um artigo extremamente organizador sobre a defesa do consumidor. (Formação do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, p. 164).
103 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional, p. 22.
104 NUNES JÚNIOR, Vidal Serrano; SERRANO, Yolanda Alves Pinto. Código de Defesa do
sujeitos necessitados de especial proteção estatal, já que questões relativas ao agora já catalogado mercado de consumo eram resolvidas em âmbito civil ou comercial.
Essas importantes observações foram necessárias no tocante à base constitucional principiológica, que teve e continua tendo reflexos fundamentais na formação do CDC e que servirão de embasamento à legislação infraconstitucional.
Em razão da importância da compreensão desses fundamentos, na seção seguinte, passa-se a abordar os princípios que norteiam as relações de consumo.
2.3 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NORTEADORES DA RELAÇÃO DE