SUMÁRIO AGRADECIMENTOS
4. BASES CONCEITUAIS
A presente seção de revisão bibliográfica tem por objetivo realizar um esforço de apresentar como os principais conceitos trabalhados pela presente dissertação de
mestrado foram sendo balizados e tratados ao longo do tempo, demonstrando, portanto, o movimento epistemológico dos mesmos dentro do temário geográfico. Dessa forma, parte-se para apresentar as diferentes acepções e conteúdos dos conceitos, mesmos sendo as mesmas divergentes e antagônicas dentro das diversas escolas de pensamento aos quais pertencem. Só após a exposição desse movimento do pensamento, é que se teriam os meios necessários para se firmar as posições teórico-metodologicas elegidas para guiar os procedimentos de pesquisa.
4.1 A História da Paisagem: uma transposição necessária entre a
História Natural e a História dos Homens
A paisagem, conforme vaticina AB’SABER (1977, p. 1) é sempre uma herança, em todo o sentido da palavra. “(...) É herança de processo fisiográficos e biológicos e
patrimônio coletivo dos povos que historicamente os herdaram como território de atuação de suas comunidades (...)”.
São o resultado de processos antigos, remodelados e resignificados por processos de atuação recentes. Em muitos lugares, como as áreas de planaltos antigos, os processos antigos foram os responsáveis pela compartimentação geral da topografia, num engenho e trabalho forçado da natureza que levou milhões ou dezenas de milhões de anos. Em contraste, os processos de remodelamento das paisagens são muito mais recentes, restringindo-se basicamente ao período Quaternário, com duração de, no máximo, centena de milhares de anos.
Os primeiros agrupamentos humanos assistiram às variações climáticas e ecológicas deste período da história geológica, responsável pela remodelação das paisagens. No entanto, desde os últimos 7 a 10 mil anos, as paisagens têm se configurado em um esquema global de paisagens zonais e azonais, muito próximo do quadro que encontramos hoje. Dessa forma, ressalta-se que os países herdaram fatias, maiores ou menores, dos mesmos conjuntos paisagísticos de longa e complicada elaboração. Mais do que isso, conforme lembra AB’SABER (op. cit.), os povos herdaram das paisagens pretéritas, uma herança de longa e complicada elaboração fisiográfica e ecológica.
O território brasileiro, devido à sua magnitude espacial, contempla um mostruário bastante completo de paisagens e ecologias do Mundo Tropical. Para AB’SABER (op.
cit.), por muito tempo, os pesquisadores europeus que cuidaram da investigação dos
agrupamentos indígenas estavam acostumados a observar as bruscas mudanças de paisagem no limitado território europeu, não tendo a sensibilidade de perceber as sutis variações nos padrões de paisagem e ecologia do mundo tropical brasileiro.
Como consequência dessa falta de sensibilidade para a análise das paisagens brasileiras, tivemos no decorrer do século XX um retrocesso em relação ao estoque de conhecimentos sobre a gênese e evolução de nossas paisagens. A interrupção desse processo de declínio só se estancou com a instalação das primeiras universidades, quando um pensamento majoritariamente brasileiro começou a complexificar os ensinamentos dos naturalistas em relação às paisagens brasileiras.
A despeito das paisagens brasileiras estarem sob uma complexa situação de duas organizações opostas e interferentes, a da natureza e a dos homens, ainda existem estoques de paisagens em que se podem caracterizá-las em relação a uma aproximação de suas características primárias (AB’SABER, 1977).
De modo geral, o homem pré-histórico brasileiro pouco parece ter feito como elemento perturbador da estrutura primária das paisagens e da ecologia intertropical e subtropical brasileira, fato diferente do ocorrido nas paisagens tropicais africanas, onde a existência de agrupamentos humanos muito mais antigos imprimiu modificações mais incisivas e extensivas.
A área de estudo está inserida dentro do Domínio dos Mares de Morros (Figura 4.1 - 1), com uma extensão territorial de cerca de 650.000 km2, ao longo do Brasil Tropical
Atlântico. As paisagens desse domínio são marcadamente azonais, com predomínio dos processos de mamelonização afetando todos os níveis da topografia e mascarando superfícies aplainadas de cimeira ou intermontana, patamares de pedimentação ou eventuais terraços.
No Domínio dos Mares de Morros predominam vertentes policonvexas, onde se tem o exemplo mais bem acabado dos processos de mamelonização de terras tropicais e subtropicais no globo. A presença mais forte da decomposição de rochas cristalinas e convexização em níveis intermontanos aventa como hipótese uma possível alternância
entre pedimentação e mamelononização (Figura 4.1 - 2) como eventos a explicar a conformação das paisagens (AB’SABER, 1977).
Figura 4.1 1 – Domínios Morfoclimáticos Brasileiros – Ab’Saber
Fonte: Adaptado de ROSS et. al. (1996).
Ademais, planícies meândricas e predominância de depósitos finos nas calhas fluviais, a frequente presença de solos superpostos, na forma de coberturas coluviais enterrando linhas de pedra, também contribuem como elementos a comprovar a hipótese da alternância de pedimentação e mamelonização como processos fundantes destas paisagens.
As paisagens do Domínio dos Mares de Morros apresentam precipitações que variam entre 1.000 e 1.500 mm, podendo atingir 4.000 mm em setores da Serra do Mar. As Florestas Tropicais recobrem níveis de morros costeiros, escarpas terminais e setores serranos mamelonizados de planaltos compartimentados e acidentados. As diferentes biotas encontradas ao longo das Florestas Tropicais recobriam originalmente 83% da área do domínio. Menciona-se ainda encraves de bosques de araucária em altitude e
Área de Estudo
de cerrados em diversos compartimentos de planaltos interiores na forma de chapadões florestados.
Figura 4.1 2 – Evolução da Paisagem por Ciclos de Pedimentação (Climas Secos) e Mamelonização (Climas Úmidos)
Fonte: BIGARELLA & BECKER (1975).
Novos quadros de paisagens foram introduzidos no Domínio dos Mares de Morros pelo homem, entre eles, reservatórios de empresas de energia (Fotos 4.1 - 1 e 4.1 - 2), passiveis de serem tomados como ponto de partida para toda a remodelação paisagística em escala regional.