Capítulo II. O plantão psicoeducativo: em direção ao desvelar do
2.2 Bases e objetivos do plantão psicoeducativo
O plantão psicoeducativo se originou como uma vertente das práticas psicoeducativas desenvolvidas e pesquisadas pelo Grupo de Pesquisa em Práticas Psicoeducativas e Atenção Psicoeducacional na Escola,Comunidade e Família (ECOFAM). Ele vem para a suprir uma demanda de educadores e famílias da comunidade assistida pelo grupo. A proposta é a de oferecer uma escuta a essas pessoas envolvidas com o processo de socialização-criação- educação de crianças.
Para essas pessoas os encargos de suas tarefas, muitas vezes, os sobrecarregam gerando sofrimento e conflitos. Apontam que não vêem-se preparados e com fontes de apoio para a responsabilidade socializadora que lhes cabe. (SZYMANSKI, 2004)
Sabemos que a forma de olhar a Psicologia da Educação e também a Educação foi transformando seu foco com o correr das experiências. Antes apenas a criança recebia atenção, já que era a “portadora” dos problemas de aprendizagem. Hoje a família, a escola e a comunidade têm suas vozes ouvidas para favorecer a humanização.
O foco desta atividade está sobre as práticas educativas da escola e da família buscando compreendê-las não mais sob o olhar da coerção e/ou adaptação, mas sim numa visão libertadora da Educação, segundo proposta de Freire.
Outra base que orientou a implantação do plantão foi o referencial da Fenomenologia. Esta abordagem teórica propicia ao plantonista uma escuta compreensiva, permitindo que se reconheça o outro a sua frente como proprietário de sua subjetividade e produtor de sentido de suas experiências, inclusive da experiência de ser educador.
Mello (2004) em sua dissertação apresenta como foi a implantação do plantão psicoeducativo para famílias em uma comunidade carente da zona norte da cidade de São Paulo. A proposta da atividade era suprir uma demanda
social, já que a comunidade apresentava deficiências nas áreas de educação, saúde, esporte e lazer, o que eleva as condições de exclusão social.
O plantão psicoeducativo surgiu como uma proposta de plantão psicológico que trabalhasse com as práticas educativas do cuidador. Figura esta que, na maior parte do tempo, se vê com a tarefa do cuidar das crianças e adolescentes.
Na creche da região o plantão foi iniciado por Almeida (2006) em 2004 e revelou-se como uma prática de intervenção que contribuiu oferecendo um espaço para que as educadoras pudessem refletir sobre a prática profissional. Já, na escola, que também se localiza na mesma região, ele foi implantando em 2004, alguns atendimentos foram realizados, mas devido algumas questões precisou ser encerrado (tudo foi esclarecido com a equipe técnica da escola).
Define-se o plantão psicoeducativo como “...um local que posibilite a reflexão e a mudança, indo além da busca por explicações e culpabilizações” (MELLO, 2004, p. 7). Constitui-se como um espaço de “esclarecimento do educador diante dos conflitos que enfrenta no decorrer do processo de socialização” (ibid p. 17).
Ele é o espaço do cuidar do cuidado dos educadores. Marino (1982, p.44) diz que a educação é um fenômeno “...cujo acontecer (essência) – se dá enquanto ato intencional, um cuidar, na relação de cada um com sua própria ‘cultura’, com a ‘cultura’ do seu grupo e com a ‘cultura’ como um todo, mediado pelo educador e sua solicitude...”
Este espaço abre suas portas para a discussão sobre as práticas educativas, aprende-se, dialoga-se, reflete-se e, assim busca-se sentido e mudanças.
2.2.1 O plantão na escola e na creche: apresentação
As portas do plantão psicoeducativo se abriram em uma escola municipal e uma creche conveniada com a prefeitura da cidade de São Paulo14. Ambas localizam-se na periferia da cidade e atendem a população local e participam dos projetos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa ECOFAM (Práticas Educativas e Atenção Psicoeducacional à Família, Escola e Comunidade).
Comecei os plantões no mês de junho de 2006, mas antes dos atendimentos, a proposta foi apresentada e discutida com a coordenação da escola e da creche em que ocorreriam.
Inicialmente a professora coordenadora do projeto informou as duas instituições que o plantão psicoeducativo seria novamente realizado, porém com uma nova aluna. Depois dessa conversa, iniciei os contatos que começaram via telefone, agendando encontros com as coordenadoras da escola e da creche (entre final de fevereiro e início de março de 2006).
No decorrer do tempo da atividade, na escola e na creche, a forma que o plantão psicoeducativo tinha em cada instituição foi se revelando e o como era compreendido pelos educadores, pelas direções, coordenações e também pela plantonista.
Enquanto andava pelas instituições, habitava junto aos educadores e, nesse habitar o cuidar se revelava. As questões trazidas no plantão diziam respeito à vida particular dos educadores e ao seu trabalho, porém o relacionamento com os educandos não foi um tema recorrente.
Para compreendermos o cuidado que revelou recorrei à analítica de Heidegger sobre o existir, que é apresentada no capítulo seguinte.
O pensamento heideggeriano diferencia-se do modo de pensar tradicional do ocidente15, por ultrapassar o pragmatismo deste pensar. O pensar
14 Na creche, durante os anos de 2006 e 2007, havia 18 educadores e na escola havia, no mesmo período, 67 educadores no total.
metafísico instaura o conhecimento a partir de uma precisão metodológica de conceito buscando lhe garantir unicidade, absolutidade e imutabilidade a fim de torná-lo verdadeiro. Para a fenomenologia existencial proposta por Heidegger em sua analítica, a possibilidade do conhecimento se dá pela fluidez e não pela fixação do existir e do próprio pensar. Não há uma exclusiva forma de existir o que há são infindáveis modos de ser (CRITELLI, 1996).
Refazendo o caminho percorrido pode-se nos debruçar nos modos de cuidar que se desvelaram no plantão. Um relato a respeito do vivido nos plantões será apresentado juntamente com a compreensão construída no capítulo seguinte ao da analítica. Seguindo a descrição dos primeiros contatos e a do caminho do plantão psicoeducativo a análise se dá.