2. APRENDIZAGEM BASEADA EM PROBLEMAS
2.1. BASES TEÓRICAS
Pelo exposto, considera-se que a Aprendizagem Baseada em Problemas tem pressupostos construtivistas e está diretamente relacionada com a teoria de ensino e aprendizagem do filósofo John Dewey (HMELO-SILVER, 2004, SCHMIDT, 1995, KOSCHMANN, PENAFORTE, 2001; DOCHY et al, 2003).
Entretanto, a relação entre Dewey e a ABP não é exclusiva, sendo que esta proposta “vem sendo norteado por diferentes autores como Ausubel, Novak, Hanesian, 1978, Bruner, 1959, 1961, Piaget, 1954, Rogers, 1969” (DOCHY et al, 2003, p. 535).
No entanto, conceitos como experiência e pensamento reflexivo (DEWEY, 1959), a aprendizagem pela descoberta (BRUNER, 1969, 1973) e aprendizagem significativa (AUSUBEK, NOVAK, HANESIAN, 1978) orientam claramente o desenvolvimento de atividades da Aprendizagem Baseada em Problemas.
A obra do filósofo Norte Americano John Dewey sobre a forma de pensar “influenciou o movimento pedagógico do inicio do século e faz-se sentir ainda nos nossos dias com surpreendente atualidade” (ZEICHNER, 1993, apud LALANDA E ABRANTES, 1996, p. 43).
A aprendizagem para Dewey acontece por meio da experiência, do pensamento reflexivo. O pensamento reflexivo é “a espécie de pensamento que consiste em examinar mentalmente o assunto e dar-lhe consideração séria e consecutiva.” (DEWEY, 1959, p.13).
A experiência em Dewey é o fator central para a aprendizagem, não há aquisição de significados e
“... não há aprendizagem genuína, em processos divorciados da experiência, onde se memorizam fatos sem perceber relacionamentos, gerando um conhecimento superficial e destituído de significado pessoal para o ser que aprende” (PENAFORTE, 2001, p. 60).
A aprendizagem acontece por meio da reação intencional do homem com uma situação problemática. A experiência para Dewey não se resume ao ato de fazer ou executar, “a
experiência, em resumo, não é uma combinação de mente e mundo, sujeito e objeto, método e assunto, mas é uma interação única e contínua de uma grande diversidade de energias” (DEWEY, 1979, p. 197).
Aprender por meio da experiência resulta da interação de diversos fatores que influenciam na aquisição dos significados dos objetos ou conteúdos. A interação “acontece em um mundo de pessoas e coisas que representam a cultura acumulada da espécie”
(PENAFORTE, 2001, p. 65), e a aprendizagem (a aquisição de significados) só ocorre quando a experiência possibilita uma atividade reflexiva (pensamento reflexivo).
Para Dewey (1959) o pensamento reflexivo possui cinco estados no ato de pensar:
“(1) a sugestão, nas quais o espírito salta para uma possível solução; (2) uma intelectualização da dificuldade ou perplexidade que foi sentida (diretamente experimentada) e que passa, então, a constituir um problema a resolver, uma questão cuja resposta deve ser procurada; (3) o uso de uma sugestão em seguida a outra, como idéia guia ou hipótese, a iniciar e guiar a observação e outras operações durante a coleta de fatos; (4) a elaboração mental da idéia ou suposição, como idéia ou suposição (raciocínio, no sentido de parte da inferência e não da inferência inteira); e (5) a verificação da hipótese, mediante ação exterior ou imaginativa” (DEWEY, 1959, p. 111).
As cinco fases do ato de pensar não são fixas e cada uma das fases pode ter uma duração diferente dependendo situação problemática.
Na perspectiva de aprendizagem de Dewey, as idéias de envolvimento do aprendiz na construção do conhecimento e a importância dos conhecimentos prévios estão presentes e têm papel significativo no desenvolvimento da atividade reflexiva, pois uma situação problemática só será resolvida se o aluno tiver a percepção da situação como um problema a ser resolvido por ele e que o conhecimento que já possui é fator importante para o inicio das discussões e elaboração de guias para a orientação das atividades para a conclusão do trabalho.
Na teoria do psicólogo cognitivista Jerome Bruner ou “teoria da instrução” (GIACAGLIA, 1980) a aprendizagem de qualquer conteúdo é possível levando-se em consideração as etapas do desenvolvimento intelectual das pessoas. “Cada uma dessas etapas é caracterizada por um modo particular de representação, que é a forma pela qual o indivíduo visualiza o mundo e explica-o si mesmo” (MOREIRA, 1999, p.82).
Bruner é, também, o principal defensor do ensino por meio “do método de aprendizagem pela descoberta” (GIACAGLIA, 1980, p 42), para que os alunos adquiram autonomia para construir representações sobre conceitos.
“mas sim, que a descoberta seja empregada como método de ensino. É importante, para esclarecer esse ponto, a distinção que Bruner fez entre a “maneira expositiva” e a “maneira hipotética” de se conduzir uma aula. Na expositiva, o professor já traz o conteúdo pronto e o aluno limita-se, passivamente a escutá-lo. Na abordagem hipotética, o professor traz o assunto sob forma de problema ou questão a ser resolvida, e ajuda o aluno a resolvê-lo, discutindo com ele as alternativas apresentadas.” (GIACAGLIA, 1980, p.53).
Desta forma, a meta do professor é dar aos estudantes “a capacitação mais firme possível da matéria, e torna-los tão autônomos e tão pensadores quanto possível, fazendo-os progredir por si mesmos depois de terminar a escolaridade regulamentar” (BRUNER, 1980, p. 215). Nesse sentido a resolução de problemas é uma proposta que possibilita aos alunos o desenvolvimento da capacidade de se tornar autônomos e “pensadores” pois
“trata-se, talvez, de uma condição necessária para aprender (...) técnicas de resolução de problemas, de transformação das informações para usos melhores e para descobrir o melhor modo de cumprir a tarefa de aprender” (BRUNER, 1980, p. 218).
Na proposta de Bruner podemos novamente perceber as idéias de envolvimento do aprendiz e dos conhecimentos prévios e, também, a apresentação dos conteúdos de forma contextualizada como fator importante para os processos de aprendizagem, pois
“para usar a informação com eficiência deverá ela ser posta em termos condizentes com o processo usado pelo estudante para resolver um problema, pois de outra forma será simplesmente inútil” (BRUNER, 1969, p. 69).
No desenvolvimento de uma proposta de ABP deve ser considerada como fator importante para a elaboração dos problemas a possibilidade do conhecimento prévio dos alunos conduzirem as discussões iniciais da atividade de descoberta de novas aprendizagens, “a ativação de conhecimentos prévios o processamento subseqüente de nova informação” (NORMAM e SCHMIDT, 1992, p. 559).
O psicólogo norte-americano D. Ausubel desenvolveu considerações sobre a aprendizagem sob uma perspectiva cognitivista. As idéias de Ausubel
“caracterizam-se por basearem-se em uma reflexão específica sobre a aprendizagem escolar e ensino, em vez de tentar somente generalizar e transferir à aprendizagem escolar conceitos ou princípios explicativos extraídos de outras situações ou contextos de aprendizagem” (SALVADOR et al, 2000, p. 231).
A teoria elaborada por Ausubel sobre a aprendizagem é conhecida como “teoria da aprendizagem verbal significativa”. Para Ausubel a aprendizagem significativa é o
“processo por meio do qual uma nova informação relaciona-se com um aspecto especificamente relevante da estrutura do conhecimento do individuo” (MOREIRA, 1999, p. 153).
Na teoria de Ausubel a aprendizagem ocorre por meio de uma re-elaboração de estruturas cognitivas, aprender é estabelecer relações entre um conhecimento antigo e uma nova informação.
Quatro pontos da teoria da aprendizagem significativa podem dar suporte ao desenvolvimento da ABP: os subsunçores, o material potencialmente significativo, os tipos de aprendizagem significativa e a evidência da aprendizagem significativa.
Os subsunçores são conceitos pré-existentes na estrutura cognitiva do aluno e a aprendizagem significativa ocorre “quando uma nova informação ancora-se em conceitos ou proposições relevantes, preexistentes na estrutura cognitiva do aprendiz” (MOREIRA, 1999, p. 153).
O desenvolvimento de atividades de ensino, segundo a proposta de Ausubel, deve possibilitar que o aluno estabeleça relação entre os conhecimentos que já possuem e a nova informação. Quanto mais relações o aluno for capaz de estabelecer mais significativa será a aprendizagem.
“nem o processo nem o produto da aprendizagem serão significativos se a tarefa da aprendizagem não for potencialmente significativa – ou seja, se não puder ser incorporada à estrutura cognitiva através de uma relação não arbitrária e substantiva” (AUSBEL et al. 1980, p. 34).
A elaboração de material, no caso desse trabalho, potencialmente significativo deve, assim, possibilitar que o aluno estabeleça relações sobre determinados conteúdos.
Para Ausubel existem três tipos de aprendizagem significativa: a aprendizagem representacional, de conceitos e proposicional. Segundo Moreira (1999, p 157) a aprendizagem representacional “envolve atribuição de significados a determinados símbolos, isto é, a identificação, em significado, de símbolos com seus referentes”; a aprendizagem de conceitos “é, de certa forma, uma aprendizagem representacional, pois conceitos são também representados por símbolos particulares, porém são genéricos ou categóricos, representam abstrações dos atributos essenciais dos referentes”; na aprendizagem proposicional “a tarefa é aprender o significado que está além da soma dos significados das palavras ou conceitos que compõem a proposição”.
Essas três formas de aprendizagem se relacionam ao longo do desenvolvimento de atividades potencialmente significativas.
A avaliação da aprendizagem significativa deve analisar a capacidade do aluno em transformar o conhecimento adquirido. Ausubel propõe para evidenciar uma aprendizagem significativa
“formular questões e problemas de uma maneira nova e não familiar, que requeira máxima transformação do conhecimento adquirido.” (MOREIRA, 1999, p. 156).
Podemos pensar que em uma proposta de ABP o material que os alunos devem produzir para a conclusão do problema pode possibilitar a avaliação da aprendizagem significativa. Desta forma, o material elaborado para a conclusão das atividades deve ser
desenvolvido de tal forma que os alunos consigam explicitar o máximo de relações estabelecidas entre os subsunçores e novas informações.
2.2 A APRENDIZAGEM BASEADA EM PROBLEMAS E O ENSINO DE