2 TEORIAS DA REPRODUÇÃO SOCIAL E A FUNÇÃO DA
2.2 Basil Bernstein, as regras do dispositivo pedagógico e a
Basil Bernstein, na tentativa de inovar na perspectiva de compreender a função da educação na reprodução das desigualdades de classe, gênero, raça, região e religião, busca investigar a constituição da própria transmissão cultural, ou seja, compreender a gramática social e as regras do discurso oficial, emanado do Estado, assim como as regras do discurso pedagógico:
[...] poseemos studios de los mensajes pedagógicos y de su base institucional e ideológica, pero no tenemos tantos que se ocupen de la gramatica social, sin la qual no es posible ningún mensaje. En consecuencia me gustaría explorar las posibilidades de construir El carácter sociológico Del conocimiento pedagógico oficial o local. (BERNSTEIN, 1998, p. 55).2
Essa gramática social, a qual menciona o autor, está inserida na noção de dispositivo pedagógico, que é um sistema de regras formais que rege as várias combinações que são feitas quando falamos ou escrevemos. As regras do dispositivo pedagógico se apresentam essencialmente como: regras de distribuição, regras de recontextualização e regras de avaliação. Elas seriam hierarquicamente relacionadas, sendo que as regras de recontextualização são derivadas das regras de distribuição, e as regras de avaliação são derivadas das regras de recontextualização. (BERNSTEIN, 1998).
A função das regras de distribuição é regular as relações entre poder, grupos sociais, formas de consciência e prática. Elas especializam as formas de conhecimento, consciência e prática. Marcam e distribuem aqueles que podem transmitir o quê, para quem e sobre quais condições. Tentam colocar os limites exteriores dos discursos legítimos. Já as regras de recontextualização regulam a formação do discurso pedagógico especifico. As regras de avaliação constituem qualquer prática pedagógica e contém suas próprias regras, que podem ser
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“[...] possuímos estudos das mensagens pedagógicas e de sua base institucional e ideológica, mas não temos tantos que se ocupem da gramática social, sem a qual no é possível nenhuma mensagem. Em conseqüência eu gostaria explorar as possibilidades de construir o caráter sociológico do conhecimento pedagógico oficial ou local”. (BERNSTEIN, 1998, p. 55, tradução nossa).
explícitas ou implícitas.
Para a presente pesquisa é importante o aprofundamento sobre as regras de distribuição e regras de recontextualização, que ajudam compreender tantos os discurso oficiais como os discursos pedagógicos específicos de cada instituição que está sendo estudada.
Inicialmente, no entanto, é possível entender o discurso pedagógico descrito pelo autor como uma regra que engloba e combina dois discursos: “Un discurso técnico que vehicula destrezas de distintos tipos y las relaciones que las unen y un discurso de orden social”. (BERNSTEIN, 1998, p.63).3 Trata-se de um discurso técnico com regras sobre habilidades variadas e suas mútuas relações e outro discurso que cria regras de ordem social.
O primeiro discurso é chamado de discurso instrucional (DI) e o segundo de discurso regulador (DR). Em outras palavras o Discurso Instrucional é um discurso que: “[...] controla a transmissão, a aquisição e avaliação do conhecimento indispensável à aquisição de competências especializadas, regulando seus aspectos internos relacionados”. (DOMINGOS et al., 1986, p.346).
Já o discurso regulador geral pode ser compreendido como aquele que:
[...] contém os princípios dominantes da sociedade e é gerado como resultado das relações e influências entre o campo do Estado e os campos da economia (recursos físicos) e do controlo simbólico (recursos discursivos). Está também sujeito, em menor ou maior grau, a influências internacionais. (MORAIS; NEVES, 2007, p.14).
Para Bernstein (1998) é evidente que o discurso regulador é o dominante e cria as regras de ordem social, porque o discurso moral é que regula os critérios que produzem o caráter, a maneira de ser, a conduta e a postura dos sujeitos. Ele cria as regras de ordem social, uma vez que estabelece, na escola, o que as crianças devem/podem fazer, onde podem ir, como devem agir, que ideal formar. Ele também produz a ordem no discurso instrucional. O DI se incorpora ao segundo DR, que é o dominante. Na opinião do autor, na verdade, essa separação existe em sala de aula e nas escolas justamente para esconder o fato de que se trata de um único discurso dominante.
3 “Um discurso técnico que veicula destrezas de distintos tipos e as relaciones que as unem e um
Aqui se destaca o papel do Estado, que funciona ao nível da geração, como legitimador dos princípios de distribuição social do poder e do controle que são incorporados no discurso pedagógico oficial. Porém, o discurso pedagógico oficial sofre um processo de recontextualização: “[...] neste processo intervêm, diretamente, dois campos - o campo de recontextualização oficial, diretamente controlado pelo Estado, e o campo de recontextualização pedagógica.” (MORAIS; NEVES, 2007, p. 14).
Para Bernstein (1998), o discurso pedagógico é um princípio, um verdadeiro princípio de recontextualização; este princípio seletivamente apropria-se, relocaliza, refocaliza e relaciona outros discursos que constituem a sua própria ordem.
Ainda segundo o autor, o campo da recontextualização tem uma função importante na criação da autonomia da educação. Ele distingue o campo da recontextualização oficial (CRO) criado e dominado pelo Estado e seus agentes e o campo pedagógico de recontextualização (CPR), que é composto por pedagogos nas escolas e faculdades, departamento de Educação, revistas especializadas, fundações de pesquisas privadas.
A autonomia nesse caso pode ser medida pelas lutas sobre o discurso pedagógico e suas práticas. Onde não há essas lutas, mas pelo contrário há só o discurso oficial, não há autonomia. Ao buscar compreender o potencial discursivo do campo de recontextualização, que caracteriza o contexto contemporâneo, considera que “[...] atualmente, o tipo de discurso apropriado depende mais e mais da ideologia dominante no campo oficial de recontextualização (COR) e da relativa autonomia do campo de recontextualização pedagógica (CRP).” (BERNSTEIN, 2003, p. 92).
Partindo dessas concepções, passa-se a contextualizar historicamente o discurso regulador da avaliação da Educação superior, o que requer uma análise sobre o novo papel do Estado na regulação da Educação, onde a avaliação assumiu um lugar de destaque, para então tentar compreender como se dá a recontextualização desse discurso e seus impactos sobre as subcategorias4 currículo, pedagogia e avaliação dos cursos pesquisados, bem como sobre as falas dos sujeitos investigados.
4 Essas subcategorias definidas pelo autor estão definidas no capítulo sobre a análise das avaliações