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BATALHAS E APRESENTAÇÕES: FORMAS E INFLUÊNCIAS

Aqui o boxeador dá lugar ao dançarino e ao b. boy, mas ainda busca-se mostrar como o hip-hop, “'faz sentido quando se toma o cuidado de dele nos aproximarmos o suficiente para apanhá-lo com o seu corpo, em situação quase experimental”

(WACQÜANT (2002 p. 23). Pretendo demonstrar como esse “faz sentido” acontece no mais profundo significado da expressão em ambas as práticas, cada uma com suas peculiaridades e realidades sociais, o que ajuda a causar tamanha distância e diferença entre elas.

BATALHAS E APRESENTAÇÕES: FORMAS E INFLUÊNCIAS

Antes mesmo de me aprofundar nas aulas, treinos e ensaios já era possível perceber diferenças pontuais entre os estilos, a começar pelas formas organizativas básicas. Em primeiro lugar, utilizando os termos dos próprios agentes, b. boys treinam, dançarinos de hip-hop dance ensaiam. Parece uma simples diferença nas palavras, uma

questão semântica, mas há profundas diferenças entre as duas formas de administração dos momentos de prática. Não apenas os reflexos que cada exercício tem no corpo, mas na origem que cada termo tem para os diferentes grupos. Ensaios são típicos das academias de dança e em grupos de apresentações artísticas. Treinos são mais voltados a equipes esportivas e ginastas. As formas de batalhas e apresentações que também se diferenciam nos grupos, influenciam o uso destes termos e são influenciadas por eles.

O break acontece na forma de batalhas. Cada b. boy entra geralmente sozinho na roda e deve tentar executar uma performance melhor que a do adversário. A roda, é geralmente um lugar relativamente tranquilo, com b. boys treinando suas performances sem muita relação com outras entradas de outros b. boys. Isso tende a permanecer assim, até que algum b. boy provoque um membro de uma crew adversária. A partir dai, a calma da roda é substituída por um jogo tenso que pode assustar um transeunte desavisado, tamanha a empolgação e rivalidade dos envolvidos.

A batalha acontece por turnos. Os b. boys das duas crews batalhando entram de forma alternada na roda e pode executar uma entrada completa. Também existe a possibilidade de uma coreografia introdutória, na qual vários membros de uma crew executam passos sincronizados, servindo de apresentação para um dos membros executar sua performance. Assim que este b. boy termina sua entrada (geralmente sob aplausos de sua crew e reclamações da crew adversária), o dançarino de outra equipe assume o meio da roda e tenta superar o concorrente. As entradas são livres, cada b. boy pode executar seus melhores movimentos acrobáticos, tentar encaixar o máximo de passos na música, seguir um estilo mais simples de movimentação ou colocar o máximo de expressividade nos passos, as únicas exigências são a atitude, a presença de roda e que se dance b. boying.

A disputa procede assim, até que termina como começa, por algum evento relativamente sem importância como o término da música, o dono do rádio que precisa ir embora, ou o cansaço dos combatentes. Em algumas batalhas a rivalidade das crews é tão grande que parece que a qualquer momento todo o princípio das batalhas de break vai ser invertido, e a dança vai dar lugar a violência corporal. Todavia, durante todo o tempo da pesquisa, não foi presenciada uma única briga em nenhuma das batalhas observadas e praticadas. Ao final a própria roda decide o vencedor tacitamente, sem muito alarde, a crew vencedora sabe que ganhou, a perdedora também (embora poucas

vezes esteja apta a admitir a derrota). Pelo menos é assim que acontece em rodas informais com a do Itália.

Em rodas de campeonatos a situação é um pouco diferente. Existem regras a serem seguidas e regulamentos conferindo pontos para movimentos diferentes.

Geralmente nestes eventos, as batalhas acontecem por tempo – seis a dez minutos de batalha, com entradas alternadas entre as equipes até que o tempo se esgote – ou por entradas - três a cinco entradas para cada crew. Existem ainda jurados que avaliam o desempenho de cada b. boy. Estão em números que variam entre três e cinco jurados (para diminuir a possibilidade de empate), que ao final da batalha decidem o vencedor.

Geralmente não existe muita burocracia neste tipo de decisão. O jurado aponta a equipe que julga vencedora com o braço, cruzando-se em frente ao peito caso decida pelo empate. Os votos são somados, e a equipe que agradou um número maior de jurados é a vencedora. Alguns campeonatos hoje optam por pontos contabilizados e anotados em planilhas conferindo médias precisas para cada entrada, mas o método do braço estendido ainda é o mais utilizado.

O hip-hop dance possui uma forma bastante diferente de performance pública.

Embora existam campeonatos de batalhas de hip-hop dance com um funcionamento bastante semelhante ao das batalhas de b. boys, o grupo pesquisado aqui dedica-se quase exclusivamente as apresentações em palcos. Estas apresentações podem ter caráter competitivo ou não. Os campeonatos da modalidade funcionam com apresentações de coreografias completas que duram de cinco a oito minutos em média. O tempo mínimo e máximo é definido pela organização de cada campeonato assim como outras regras de avaliação da performance. Podem ser utilizados quaisquer dos sub estilos que compõem o hip-hop dance18 e a diversidade de estilos em uma mesma coreografia é estimulada.

Cada grupo sobe ao palco para realizar sua performance e lá permanece sem influência de outros grupos até o término da apresentação. Aqui percebe-se algumas diferenças com as batalhas de break: o palco. Embora venham acontecendo com cada vez mais frequência os campeonatos de b. boying realizados em palcos, não agradam a alguns b. boys. As apresentações nos palcos são mais regradas, mais divididas. Existe

18 O Hip-hop dance é composto por uma série de sub-estilos como o Popping, Locking, House, Wacking.

Muitos destes estilos são oriundos de festas dos guetos estadunidenses. Falarei mais sobre a composição do Hip-hop dance mais adiante.

uma preparação maior para cada grupo realizar sua performance no palco. No Festival Internacional de dança hip-hop de 2010 pude perceber melhor os diferentes momentos de entrada no palco:

Está quase na hora de entrar no palco, o nervosismo começa a dar lugar a ansiedade de voltar pra lá, pra debaixo das luzes, para o linóleo. Começo a me aquecer com saltos. O grupo que se apresenta antes de nós entra no palco. Lala organiza uma roda e diz que temos que dar o melhor de nós, agradece a todos e fala algumas palavras de apoio e força. São muito comuns essas reuniões antes da apresentação.

No backstage19 sempre acontece uma oração ou um agrupamento para “transmitir energia”. Organizadores com rádios e headsets pedem para que nós não passemos do limite das coxias. Começamos a desejar “merda20” uns para os outros antes de entrarmos no palco.

O grupo que nos antecede sai do palco agora, o locutor nos chama, estamos a postos, esperando o final da chamada. Entramos mas... a música está errada, volta tudo do começo. Vejo a cara de desespero do Alison21 e tento acalmá-lo, digo que é normal e que o pessoal tira de letra.

Agora sim, a música está certa. Fico na dúvida se devemos entrar pela cortina ou pela primeira coxia22. Discuto isso com o Alison, e ele diz pra esperarmos o Léo sair, mas sei que não vai dar tempo e defino a primeira coxia mesmo. A segunda música entra, quase lá. Não sei o que sinto, nervosismo, ansiedade e empolgação tomam conta de mim em doses relativamente iguais. É agora.

Faço a entrada com um slide23, os giros de joelho e o embolado para parar de pé com Alison e Léo. Começamos a dançar e só consigo escutar uma cacofonia de gritos e da música, tudo misturado. A visão fica relativamente embaçada pelos refletores e a luz forte do palco, mas consigo ter uma visão da plateia. (Diário de Campo de 07 de Maio de 2010)

Embora alguns elementos organizativos dos palcos sejam bastante semelhantes nos grandes campeonatos de b. boying, a lógica das apresentações é bem distinta.

Jamais um grupo enfrentará outro diretamente. Cada um tem seu momento único de apresentação para a plateia e para os jurados, que também variam entre três e cinco

19 Backstage: os bastidores do palco.

20 Merda, merda: Termo utilizado em apresentações de palco, é como um desejo de boa sorte tradicional do teatro – “Merda, merda, quebre a perna”.

21 Alison, 22, solteiro, pai de 2 filhos, vendedor.

22 Coxias são espécies de divisórias que ficam nas laterais do palco, ocultando os artistas da cena.

23 Slide: categoria nativa - Um escorregão que pode assumir formas diferentes.

pessoas, como no b. boying. Aqui porém, cada jurado analisa inúmeros aspectos das apresentações, anotando em uma planilha as performances como um todo. Estes dados são então computados gerando uma média que é a nota final do grupo (este tipo de avaliação é “exportado” para alguns campeonatos de b. Boying, mas também foi

“importado” das competições de ginástica e de danças clássicas). A nota pode ser publicamente revelada após a apresentação do grupo, ou ficar em poder dos jurados até a classificação final. Embora haja muita rivalidade entre as equipes de hip-hop dance, os grupos praticamente não tem contato entre si durante a competição, muito menos durante a apresentação, de modo que esta rivalidade geralmente fica implícita e civilizadamente silenciosa.