Após soldar a ferramenta, a lança e o tridente são colocados nas mãos do Exu, testando sua capacidade de permanecer de pé. Quando isso não ocorre, Zé pega o martelo e ajeita as chapas que servem como base até que ele possa ficar, finalmente, de pé. Depois, esperamos um pouco até que a ferramenta fique um pouco mais fria (com a solda, o ferro esquenta a um ponto de não conseguirmos segurar com as mãos). Quando não se pode esperar demais, pois, geralmente, a entrega está atrasada e Zé Diabo tem que entregar a ferramenta ainda no mesmo dia, então utilizamos um alicate para segurar a ferramenta, bater caixa e, assim, passar uma camada de verniz.
Com o Exu no chão, pegamos a talhadeira e começamos a aplicar pequenos golpes nas áreas soldadas, a fim de retirar os excessos da solda e os respingos no corpo do metal.
“Deixar o diabo parecendo gente”, como diria Zé Diabo. Com a talhadeira, também, passamos a parte afiada pelo corpo do ferro, retirando as prováveis saliências que existem causadas pelo trabalho tanto do fogo quanto da solda. Golpeamos todas as partes que são interligadas pela solda., num processo rápido, simples (tanto que essa era uma das minhas principais atividades no início do campo).
Geralmente, essa atividade não é realizada por Zé Diabo. Quem a faz é seu filho, José, ou eu mesmo. No início, me esquecia de bater caixa e, apressado, passava logo uma camada de verniz, fazendo com que Zé Diabo me repreendesse veementemente: “E vai deixar o Exu assim, feio, cheio de ruga? Não, não pode! Tem que pelo menos tirar esse tanto de marca, deixar ele mais limpo”, dizia, em um tom bravo.
Depois de bater caixa, passamos à etapa da pintura da ferramenta. Em geral, Zé utiliza o mesmo tipo de verniz para todas as ferramentas – exceto àquela que não são pintadas ou são esmaltadas – e os mesmos pincéis, duros, para pintá-las. Por vezes, um pouco de solvente é diluído no verniz, que antes de ser utilizado deve ser misturado até adquirir uma coloração mais uniforme. Busca-se, na pintura, passar uma fina camada de verniz, a fim de economizar tinta e também de não deixá-lo com a aparência “ensebada”. Não mais que uma camada, fina, retirando o excesso de verniz do pincel antes de pintar.
Não há uma ordem específica de pintura mas, em geral, a atividade não é feita com muita “pressa”. Estabelece-se, ali, uma relação quase íntima com a ferramenta, que agora já se
104 parece com o orixá e, como vimos, já adquiriu uma existência própria. À medida que o pincel desliza sobre o corpo da ferramenta, a tinta excedente vai escorrendo, até que novamente o pincel deslize por aquele excedente, espalhando-o e uniformizando a pintura. Não há, ao que parece, um lado “certo” de pintura, ainda que, no decorrer da atividade, busquemos manter o máximo de coerência possível nos movimentos alternados do pincel, a fim de que a camada fique mais uniforme e homogênea.
É um momento de descontração na oficina, onde Zé geralmente se senta, atende um telefone ou bebe uma cerveja, enquanto seu filho ou eu pintamos a ferramenta, sentados no chão ou num pequeno banco utilizado por Zé Diabo. Por vezes Zé liga o rádio, em geral em alguma rádio católica ou onde esteja tocando algum arrocha ou brega antigo. Conversamos nessa etapa, banalidades quaisquer, sobre a vida, as notícias semanais, as fofocas de candomblé, as mazelas da humanidade... O clima, mesmo em situações de atraso, é de tranquilidade, calmaria.
Com a ferramenta já completamente envernizada (com exceção das bases que geralmente não recebem a camada de verniz), é chegada a hora de colocá-la para secar. Para não estragarmos muito a pintura, pegamos a ferramenta com um alicate ou com a ponta dos dedos e a transportamos até a varanda do lado de fora do andar inferior, onde o sol geralmente bate bem forte à tarde, se pondo sobre a baía de todos os santos. Em geral as ferramentas são postas para secar ali, ainda que algumas fiquem sobre a janela maior, em frente à mesa de solda.
O importante, aqui, é que todas as ferramentas fiquem viradas para o lado de fora, apontadas para a entrada da oficina. Nunca pude ver alguma ferramenta que não estivesse nessa posição durante o trabalho de campo. De início, quando eu ia colocar as ferramentas, ainda não havia percebido isso e, então, era orientado por Zé Diabo para que as colocassem viradas para fora. As ferramentas, segundo Zé Diabo, sempre deveriam estar viradas com a boca pra frente, pra entrada. “É pra proteger a gente daqui”, explica, ainda que, de fato, eu ainda não consiga captar todos os significados dessa explicação geral.
Assim, quem passa pela Ladeira da Conceição da Praia num dia qualquer, pela tarde, logo percebe uma quantidade de artefatos de ferro na porta da oficina, como que olhando para aqueles que ali passam. Na entrada, Exus, bonecos e ferramentas; Oguns; Oxóssis; Agués;
Agogôs pendurados em um gancho sobre a mesa de solda, na janela central; idés espalhados
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pelo chão... As pessoas geralmente olham com um olhar de estranhamento, principalmente os turistas que se arriscam em por ali passar. Alguns, ao passarem, fazem o sinal da cruz, menos em respeito do que em temor; outros tocam a testa e a nuca em sinal de respeito; outros, ainda, fazem piadas, chamam Zé Diabo, fazendo-lhe troças – que são prontamente respondidas ele.
O processo de secagem vai variar a depender do sol, da quantidade de verniz e do tamanho da ferramenta. As ferramentas geralmente são postas para secar no início da tarde, à medida em que são fabricadas. Já antes do fim da tarde é possível retirá-las do sol e colocá-las de volta à oficina, ou mesmo na janela frontal. Em duas horas, mais ou menos, o verniz já secou. Por vezes, a entrega da ferramenta antecede esse tempo de secagem completa, obrigando a cliente a levar a ferramenta ainda “pregando” um pouco. No fim do processo, ela já adquiriu uma tonalidade mais escura, envernizada. Brilha um pouco.
Está pronta.
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