CAPÍTULO II – CRIANÇA KAIOWÁ E CORPORALIDADE
2.3 RELAÇÕES DE GÊNERO: rituais entre as crianças Kaiowá
2.3.2 Batismo do milho saboró ou milho branco
Em abril de 2017, a aldeia Laranjeira Ñanderu realizou o batismo do milho saboró
(milho branco) na casa de reza da comunidade. O ritual é ancorado no jerosy puku, um canto
longo ofertado ao criador do milho, jakaira. De acordo com os indígenas, os cantos realizados
no ritual de batismo propiciam uma generosa safra de produtos tradicionais, removem os
malefícios das plantações e mantêm a estabilidade de suas relações sociais. João (2011)
explica que a sociedade Kaiwá define este ritual como mborahéi puku itymby rete rehegua, ou
seja, o canto longo do corpo dos produtos agrícolas.
Quando cheguei à aldeia, naquela ocasião, a cerimônia já havia sido iniciada. Por isso,
a comunidade solicitou-me que aguardasse pela finalização do ritual na área externa da casa
de reza. Ao observar o espaço, pude notar cinco yvyra’i mongueta (conversa com yvyra’i)
fincados no chão, em direção ao sol nascente, diante dos quais os indígenas recitavam seus
cantos a jakaira.
Figura 11 - Os yvyra’i colocados em frente à entrada central da casa de reza.
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Durante este ritual, além de pinturas no rosto, os rezadores utilizam mbaraka
43e
kurusu
44(cruz) nas mãos, colares no pescoço e adornos feitos com linhas vermelhas na
cintura. Com movimentos de ida e volta, três passos para frente e três passos para trás,
percorrem o caminho sinalizado pelos yvyra’i até a porta da casa de reza. Depois desta etapa,
inicia-se a primeira reza, ogueroata. Para os Kaiowá, o yvyra’i é compreendido como um
guardião de jakaira. Por isso, os rezadores declamam um canto diferente para cada um desses
objetos fincados no chão, dançando e cantando entre os espaços que os separam.
Vale notar que, no início do ritual, apenas os rezadores participam da cerimônia. Em
frente a cada yvyra’i, os xamãs declamam o yvyra’i nhemongeta, um diálogo entre os
indígenas e o espírito de yvyra’i (João, 2011). Posteriormente, as demais pessoas começam a
participar da festa realizada na casa de reza.
Na edição do batismo de milho que tive a oportunidade de observar, percebi que havia
um coxo de madeira de 8m de comprimento, utilizado para o armazenamento de chicha, e um
balde branco, utilizado para o reabastecimento da bebida, na casa de reza. Ao entrarem neste
ambiente e iniciarem os cantos, os indígenas permaneceram naquele espaço até a finalização
do evento. Inicialmente, os homens e as mulheres posicionaram-se em lados opostos, de
frente uns para os outros. Em seguida, todos juntaram-se em movimentos circulares, em
sentido anti-horário, cantando ao redor do balde branco que armazenava a chicha.
No decorrer da celebração, os rezadores seguravam seus mbaraka e kurusu enquanto
as mulheres carregavam taquaras que batiam no chão, de acordo com seus respectivos
movimentos corporais. Segundo João (2011), este ritual pode ser compreendido como um
louvor indígena aos kurusu (o princípio de tudo) que dão forma ao corpo do itymbýry (milho).
Afinal, a performance representa de maneira simbólica a caminhada espiritual percorrida pelo
ser humano em busca do nível celestial.
Antes de iniciar o jerosy puku (canto longo), a comunidade dançou jehovasa para
abençoar as sementes e expurgar os malefícios dos produtos agrícolas. Durante o canto longo,
os rezadores comunicaram-se em Jakarai, linguagem utilizada pelos xamãs após a
consumação de chicha.
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Mbaraka: Maracá. Chocalho feito de porongo. Instrumento de percussão executado principalmente pelos homens, entre os Paĩ-Tavyterã, os Kaiová, os Ñandéva e os Chiripá. Para os indígenas, nele mora a voz de Deus. (CHAMORRO, 2008, p.351).
44
Kurusu: Forma guaranizada do termo espanhol e português “cruz”. É a escora da terra, os bastões cruzados a partir do qual se formou a terra. Usado também como símbolo de poder terreno, é igual a yvyra’i.
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Ao longo dos cantos, as pessoas podem entrar e sair livremente da casa de reza. Os
rezadores, no entanto, permanecem neste ambiente até o amanhecer. Por isso, descansam a
cada 50 minutos de canto. Esses intervalos costumam durar 10 minutos. Durante este tempo,
os xamãs sentam, bebem chicha e checam os seus relógios de pulso. De acordo com João
(2011, p.15), os rezadores procuram alcançar as divindades (aryvusu, arapoty, xiru eixu jaty,
xiru pa’ikuara...) no decorrer dessas pausas. Nesta perspectiva cultural, estas entidades, em
sua plenitude, incorporam o Jakaira de acordo com o seu respectivo jasuka (germe da vida).
Após esses intervalos, os xamãs retornam à casa de reza e iniciam um novo canto juntos aos
demais participantes.
No decorrer daquela noite, o frio ficou cada vez mais intenso. Assim, algumas pessoas
deram continuidade aos cantos com os rezadores enquanto as outras dormiam ou formavam
grupos de conversas ao redor da casa de reza. Durante a madrugada, os indígenas
convidaram-me para tomar mate. Permanecemos, então, conversando e tomando chá perto de
um fogão confeccionado com uma chapa de ferro sobre duas colunas de pedras. Naquele
momento, pensei que os indígenas começariam a cansar e a cantar em um volume mais baixo.
No entanto, as vozes tornaram-se cada vez mais potentes e agudas.
Naquela noite, fui dormir por volta das 3h00min e acordei às 5h40min. Percebi que os
rezadores continuavam cantando enquanto algumas pessoas preparavam o café da manhã em
uma cozinha ao lado da casa de reza. Às 6h00min, o Jerosy Puku foi encerrado e todos
tomaram o café juntos. Em seguida, as famílias retornaram às suas respectivas casas para
descansar.
O batismo do milho saboró é realizado uma vez ao ano, comumente em abril, durante
a primeira colheita da comunidade. Para os Kaiowá, o milho saboró é uma planta advinda do
cós da roupa de Jakaira e fertilizada pelas rezas indígenas. Sob esta perspectiva cultural, as
rezas limpam e livram o vegetal de todos os seus possíveis malefícios, protegendo as pessoas
e os animais que o consomem. Sendo assim, este batismo deve seguir os seus respectivos
padrões tradicionais, desde a sua plantação até o consumo, pois além de manter a harmonia e
a organização social da aldeia, o ritual garante um ano de colheita à comunidade. Dessa
forma, ao finalizarem o ritual, os indígenas costumam conversar sobre os aspectos positivos
do mundo (João, 2011).
Podemos compreender, dessa maneira, que esta cerimônia encontra-se diretamente
relacionada ao modo de vida desta sociedade indígena. Para os Kaiowá, o batismo de milho
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representa um diálogo por meio do qual os rezadores e os espíritos responsáveis pelo mundo
estabelecem acordos relacionados aos mais diversos elementos envolvidos com a manutenção
da terra, tais como: as plantas, os animais, o sol, a lua, a chuva e a água.
No documento
Universidade Federal da Grande Dourados Faculdade de Ciências Humanas Programa de Pós-Graduação em Antropologia
(páginas 76-79)