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4. PERCURSOS PERCUTIDOS METODOLOGIA

6.3 Batucan(do) e ressignificando

Neste segmento, passaremos a entender através da ótica dos estudantes, como ocorre a construção de valores, de significados e de aprendizagens a partir da prática percussiva em coletivo dentro do contexto escolar. Para isso, destacaremos as principais falas dos sujeitos

entrevistados que enfatizam este processo formativo, levando em consideração seus saberes adquiridos ao longo destes três anos de atividades com o grupo, onde foram realisados ensaios, apresentações, capacitação, oficinas, aulas de campo e momentos reflexivos. Cabe ressaltar que estas informações extraídas a partir dos depoimentos dos alunos terão como subsídio teórico as reflexões de autores que pesquisam sobre esta mesma área de conhecimento.

Os alunos foram indagados durante as entrevistas sobre como percebiam o grupo e qual sua real contribuição para o desenvolvimento de diversas habilidades entre os mesmos tanto em nível de formação musical quanto em nível de formação humana. Obtivemos como resposta os seguintes recortes narrativos:

“Eu percebo o Batucan como uma escola pra mim, onde eu pude desenvolver muitas técnicas musicais que antes eu não sabia que existia. Nunca pensei que tocar em grupo com instrumentos assim, criado do lixo, fosse me levar a ser percussionista e DJ. Eu tenho um carinho enorme por esse grupo, pelos meninos, pela escola, pelo professor. Hoje eu sou bom em ritmo, em tocar, em batucar, graças ao Batucan né? Por que sem ele eu tinha certeza que hoje eu não estaria aqui pra contar a história das minhas conquistas na música. [...] Desenvolvi muitas habilidades como noção de tempo, que inclusive me auxiliou nas remixagens das músicas que eu toco à noite por aí como DJ. Desenvolvi também a rapidez com as baquetas, o improviso. E eu acho que o principal e mais importante foi ter me feito gostar de muitos ritmos afro, por que antes o pessoal falava que era coisa de macumba e eu acreditava né? E hoje eu acho massa, é um estilo que eu sigo e curto muito. [...] o grupo pra mim representa um time, que todos têm que tocar em conjunto e depois de terminar de tocar permanecer unido, sem brigas e sem raiva um do outro307”.

“Eu sinto o grupo como uma família, onde todos se respeitam, brincam e tocam juntos. Passeamos, aprendemos. Eu percebo isso. Agora eu não sei as palavras certas, mas, é isso. O grupo é como se fosse uma comunidade, onde todos se conhecem. [...] Quando eu comecei a participar dos ensaios eu me desenvolvi muito sabe? Eu tinha muita dificuldade em acompanhar os outros, em esperar, em entender qual era o toque certo, a batida né? Mais aí eu fui me desenvolvendo, fui tipo despertando a minha habilidade. [...] os contratempos, que era o que eu achava muito difícil, hoje eu domino numa boa, eu até ensino pros meninos que não sabem muito. As pausas, as viradas, os andamentos. Tudo isso eu fui aprendendo, eu errei muito, mais eu tive paciência e hoje eu to assim, to aprendendo ainda, mais, com um pouco mais de experiência né?308”.

“O Batucan pra mim é tudo! Eu não me imagino ficar sem tocar mais, é tipo um vício, uma mania de querer tocar direto. [...] Eu vejo assim que, antes, eu não tinha essa habilidade, de tocar todos esses ritmos. Eu aprendi rápido, não tive dificuldade, e me identifiquei muito com os instrumentos de percussão. Tanto que eu sonho até em fazer faculdade de música, pra poder ensinar as outras pessoas o que eu aprendi. [...] aprendi muitas técnicas como baquetamento, variação de intensidade, um monte de ritmo afro. Aprendi a tocar em conjunto, esperando os outros, a hora certa de

307 Entrevista com DJ Rick, 17 anos, em Novembro de 2017. 308 Entrevista com Ziggy Marley, 14 anos, em Fevereiro de 2018.

entrar, tocar e esperar. [...] É como falei, não me imagino hoje sem o Batucan. Eu me arrepio toda vez que a gente começa a tocar em público309”.

“A importância do grupo Batucan pra mim é grande. Foi através do grupo que eu pude melhor meu ritmo, minha atenção. Eu pude fazer várias amizades também. Me tornei uma pessoa menos vergonhosa. [...] A união do grupo representa pra mim como devemos ser com as pessoas, da nossa família, da escola né? Ser assim com todo mundo. Hoje eu sei tocar o samba-reggae, o axé, o maracatu, o pagode, o baião, sei o tempo certo de cada ritmo. Aprendi os compassos, o tempo das pausas, o que cada instrumento do grupo tem que fazer. Aprendi a encaixar os contratempos na batida, a terminar no tempo certo sem atravessar o ritmo. Sei acompanhar direitinho os meninos. [...] hoje eu devo tudo isso ao Batucan, que é pra mim o meu passatempo que eu mais gosto310”.

“Hoje pra mim o Batucan significa tudo. Foi com um balde de manteiga que eu aprendi a tocar, a ser bom em ritmo. Sei fazer vários ritmos diferentes, sei improvisar, sei acelerar, repinicar. Sei fazer contratempo. Sei fazer baquetas. Aprendi a me tornar uma pessoa mais calma, mais amigável. [...] o grupo é muito importante não só pra gente, mais pra escola também, porque mesmo eu não sendo mais daqui, eu tenho vontade de voltar a estudar, e é por causa do Batucan que eu visito a escola. Que eu amo muito. [...]. Foi por causa do Batucan que eu me descobri. Hoje eu tenho habilidade pra tocar qualquer instrumento de percussão com os outros. Tudo isso por causa dos instrumento de lixo. Eu sempre falo pros meninos que pra você ser bom não precisa ter um instrumento caro. Só precisa ter vontade e ter alguém que te faça te descobrir.311”.

“Foi aqui que eu pude fazer um monte de amigo. Antes eu era vergonhoso que só. Depois que eu comecei a tocar nos ensaios com todo mundo a gente foi se conhecendo e se comunicando. Daí que eu nem sabia mais o que era vergonha. Quando entra aluno novo a gente sempre quer fazer amizade. Isso é muito bom, porque faz a gente se enturmar. [...] Hoje no colégio do Estado [ensino médio] eu sou chamado pra tocar timbal e pandeiro. Todos me conhecem lá como integrante do grupo. Você fazer parte de um grupo assim é único. Né pra todo mundo não. Eu me sinto parte do Batucan. Parte da história, porque eu fui um dos primeiros. [...] Eu aprendi várias técnicas de baquetamento, como rebote, rufar, repinicar. Sei mudar de intensidade quando o ritmo pede. Sei fazer improviso. [...] Na hora que eu to tocando é como se meu ouvido tivesse vida própria, adivinhasse o toque e o tempo certo que vai acontecer. [...] Me sinto hoje mais habilidoso. Hoje eu digo que sou percussionista, não importa se é de lixo, porque percussionista é a pessoa e não o instrumento312”.

Conforme externado no pensamento dos integrantes, verificamos a presença de laços afetivos coletivos não apenas entre os próprios sujeitos, mas também, entre os mesmos e a instituição escolar. Atribuem ao grupo diversos valores e significados, comparando-o inclusive como uma escola, time, família e até vício, mania e passatempo preferido, onde apreendem várias técnicas e ritmos, despertando amizades e habilidades diversas. “Nesta vivência, [...] também se desenvolve processos de compartilha e colaboração que, para área de

309 Entrevista realizada com Sophia Garcia, 13 anos, em Fevereiro de 2018. 310 Entrevista realizada com Mika Garcia, 13 anos, em Fevereiro de 2018. 311 Entrevista com Jason Xamã, 17 anos, em Novembro de 2017.

Educação musical, nos amplia a percepção de etapas formativas para o ensino de música” (SANTOS, Catherine, 2017, p. 44).

[...] vivemos num mundo de relações. Em um trabalho de educação musical, a oportunidade para a convivência em grupo está sempre muito presente. O desafio para uma proposta em educação musical, principalmente num contexto comunitário é saber aproveitar as oportunidades de convivência de seus educandos para que o grupo ensaie o convívio na diversidade, os princípios democráticos, a resolução de conflitos, em suma: o exercício da cidadania. (LIMA, 2002, p.48)

Outras competências educativas emergidas a partir das falas supracitadas nos revelam a existência de um sentimento comunitário no grupo, onde prevalece a união, o respeito mútuo e a colaboração.

[...]o fazer artístico era desenvolvido com o propósito de colaboração [...], compartilhando [...] saberes e criatividades que buscassem uma expressão artística [...] que se apresenta com suas características particulares e também se recria no senso coletivo. (SANTOS, Catherine, 2013, p.119)

Os alunos relatam o melhoramento de aspectos relacionados à atenção, à desinibição, à paciência, à comunicação, à motivação e à compreensão musical. Sobre esta última, enfatizam habilidades significativas que se desenvolveram através de um trabalho musicalizador com a percussão. Tais aprendizagens musicais na visão dos alunos apontam para a capacitação dos seguintes conhecimentos: técnicas de baquetamento, de rebote e de rufos313; ganho de velocidade e agilidade motora; noções temporais como métrica, compassos, pausas, andamentos e contratempos; viradas314; improvisação; discriminação auditiva; interpretação da estrutura sonora e por último o mais importante: a tolerância e a familiarização com ritmos oriundos do repertório afro-brasileiro - um dos objetivos centrais da Educação Musical.

Diante da perspectiva apontada pelos entrevistados e de acordo com nossas interpretações, “não compreendemos a musicalização apenas como um procedimento da pedagogia musical, um conjunto de técnicas que se justificam em si mesmas” (PENA, 2015, p. 43). Mais, antes de tudo, um processo que visa inserir estes indivíduos em seu meio sociocultural, contribuindo para despertar seus mecanismos de apreensão e de interpretação da linguagem sonora, ofertando-lhes condições para a amplificação de suas experiências com a música percussiva e com a cultura de outras manifestações.

Nesse caso, o trabalho [percussivo] deve mobilizar todos os recursos disponíveis para promover a familiarização que reiteradas experiências culturais de contato com a linguagem musical desenvolveriam imperceptivelmente, procurando substitutivos (aproximados) dessa vivência. Ou ainda atender àqueles que, dispondo no seu

313 Op. cit.

314 Viradas: variação do andamento da música, podendo ser alterada conforme a criatividade do músico, ou do ritmo executado.

ambiente sociocultural das oportunidades para se familiarizar com distintas formas da linguagem musical, necessitam de um processo orientado de musicalização como meio para tomar consciência desses esquemas perceptivos de que já dispõem e para expandi-los. (PENA, 2015, p.44)

Através de trechos já mencionados do discurso narrativo dos entrevistados, corroboramos o nosso trabalho de musicalização através da percussão, tendo como foco o desenvolvimento de diversas habilidades tanto musicais quanto psicomotoras como exemplo formativo alcançado com estas práticas. Segue abaixo os seguintes recortes narrativos extraídos de seus depoimentos anteriores:

DJ Rick: “E eu acho que o principal e mais importante foi ter me feito gostar de muitos ritmos afro, por que antes o pessoal falava que era coisa de macumba e eu acreditava né? E hoje eu acho massa, é um estilo que eu sigo e curto muito”.

Nesse pensamento, o integrante relata a aprendizagem de ritmos do repertório afro- brasileiro como um processo importante para a sua familiarização com outras formas da linguagem musical, diferentes da qual era habituado a escutar. Logo, verificamos implicitamente um trabalho voltado à diversidade cultural, onde o mesmo aceita e reconhece estas experiências como significativas para sua vida, deixando de lado os estereótipos e o preconceito que antes estruturava seus pensamentos para ceder espaço a um “estilo” musical de seu agrado e de seu respeito.

Em outros dois trechos, percebemos indícios de domínio dos instrumentos de percepção auditiva necessários à apropriação e à interpretação da estrutura rítmica sonora:

Spinardi: “Na hora que eu to tocando é como se meu ouvido tivesse vida própria, adivinhasse o toque e o tempo certo que vai acontecer”.

Mika Garcia: “Aprendi os compassos, o tempo das pausas, o que cada instrumento do grupo tem que fazer. Aprendi a encaixar os contratempos na batida, a terminar no tempo certo sem atravessar o ritmo”.

Nestas citações podemos identificar um aprimoramento, uma mobilização dos esquemas de apreensão dos padrões rítmicos executados, ou seja, existe uma consciência, um trabalho cognitivo que permite aos alunos o reconhecimento e a apropriação de determinadas estruturas sonoras, as quais são internalizadas à medida que se tonam significativas para os mesmos. Tal processo promove “o desenvolvimento de referenciais de percepção internalizados que permitam identificar, no fato sonoro, os atributos que caracterizam os elementos musicais” (PENA, 2015, p. 59).

Embora a musicalização seja um importante meio para o desenvolvimento de mecanismos de percepção e de apropriação da linguagem musical, existem outras

potencialidades formativas que este processo pode alcançar em seu trajeto, levando inclusive os alunos a se expressarem criativamente e criticamente através da percussão em contexto coletivo.

Assim, quando o sujeito procura constatar diferentes sons, elementos da linguagem musical, relacionar eventos musicais que esteja percebendo e compreender a significação em jogo, há um movimento de objetivação, ou seja, de organização mental. Esta atividade, individual, pode ser enriquecida com a reflexão coletiva posterior. A partir dos conflitos sociocognitivos, o sujeito tende a coordenar suas ações com as de outras pessoas. Aos poucos começa a dissociar pontos de vista, reconstituí-los levando em conta suas próprias ações. (KEBACH, apud BEYER; KEBACH, 2009, p. 105)

Ziggy Marley: “Eu tinha muita dificuldade em acompanhar os outros, em esperar, em entender qual era o toque certo, a batida né? Mais aí eu fui me desenvolvendo, fui tipo despertando a minha habilidade”.

Sophia Garcia: “Aprendi muitas técnicas como baquetamento, variação de intensidade, um monte de ritmo afro. Aprendi a tocar em conjunto, esperando os outros, a hora certa de entrar, tocar e esperar”.

Jason Xamã:“Hoje eu tenho habilidade pra tocar qualquer instrumento de percussão com os outros. Tudo isso por causa dos instrumento de lixo”.

No tocante aos trechos extraídos do discurso dos entrevistados, podemos constatar através de suas experiências coletivas com a percussão um fazer musical expressivo e educativo que contribuiu para o desenvolvimento de aspectos formativos relacionados à apreciação musical, valores e identidade cultural, desenvoltura corporal, habilidades técnicas, compreensão musical, coordenação motora, percepção em grupo, noção de pulso, coletividade, respeito cultural, interpretação dos diálogos rítmicos e desinibição.

Veremos a seguir a representatividade dos alunos acerca dos valores formativos construídos por meio destas práticas percussivas na escola, onde irão expor suas ideias, experiências e aprendizagens, levando em consideração as virtudes pedagógicas alcançadas ao longo destes três anos de pesquisa e ação.