CAPÍTULO II – Jorge Luis Borges – o poeta do arrabal
2.4 Baudelaire e Borges
Na obra de Jorge Luis Borges há poucas menções diretas a Baudelaire. Para Borges, Baudelaire era inferior a Whitman. Quando teve seu primeiro contato com o poeta francês, o argentino era um garoto que residia na Suíça, e chamava-lhe a atenção à questão do misterioso nos poemas de Baudelaire. É evidente em seus textos a questão que os aproxima: os seus poemas de flânerie. Ambos caminham pela cidade, percebendo-a e, nessa percepção, encontram a si mesmos. A aproximação mais evidente é entre os livros Fervor de Buenos Aires e “Quadros parisienses”, uma das seções de As flores do mal.
As cidades dos poetas, Paris – 1850/60 – e Buenos Aires – 1920 –, passavam por um rápido processo de modernização. Paris estava a ponto de se tornar a “capital do século XIX”, enquanto Buenos Aires passava por um momento de mudanças, de transformações múltiplas, conforme já visto aqui. Borges canta contra as mudanças de sua cidade, ou seja, contra a transição do seu próprio eu infantil. Ambos demonstram seu sentimento de pertença ou não à cidade, como se o observador se tornasse também o observado, a relação direta do caminhante com espaço, que, às vezes, causava tensão.
Para Baudelaire, a atividade do flâneur parece a de uma alma que caminha em busca de um corpo pela cidade. A curiosidade pelo outro está relacionada diretamente com o espaço em que esse está inserido: no caso do poeta, o centro da cidade de Paris.
O interesse de Borges pelo outro iniciou na infância, quando tinha que espiar a rua “preso” na sua casa da Rua Serrano. Mais tarde, esse prazer de observar o outro ganha uma dimensão espacial maior, incluindo outros bairros de Buenos Aires.
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Como afirma Molloy (1999), o eu de Baudelaire está ligado ao espetáculo da cidade, e a projeção do sujeito nesse espetáculo para vivê- lo e viver segue o recolhimento solitário e o isolamento.
Recolhe-te, minha alma, neste grave instante, E tapa teus ouvidos a este som uivante.
É o momento em que as dores dos doentes culminam! A Noite escura os estrangula; eles terminam Seus destinos do horror no abismo comum; Seus suspiros inundam o hospital; mais de um Não mais virá buscar a sopa perfumada, Junto ao fogão, à tarde, ao pé da bem-amada. E entre eles muitos há que nunca conheceram A doçura do lar e que jamais viveram! (BAUDELAIRE, 2006, p. 325).
Com Borges, em sua primeira poesia, o processo é semelhante: há um eu inquieto.
Ciegamente reclama duración el alma arbitraria cuando la tiene asegurada en vidas ajenas, cuando tú mismo eres el espejo y la réplica de quienes no alcazaron tu tiempo
y otros serán (y son) tu inmortalidad en la tierra (BORGES, 2008, p. 38).
Baudelaire, em sua ação como flânerie, tem como segunda etapa de criação o refúgio. Em Borges, aparentemente, não há essa segunda fase, esse regresso do eu, esse recolhimento; o poeta apresenta-se em contínuo ato de percepção externa, ligando essas sensações que vão se sucedendo uma a outra rapidamente.
Ya casi no soy nadie, soy tan sólo ese anhelo que se pierde en la tarde (BORGES, 2008, p. 51).
A questão da memória da cidade antiga, que aparece em Baudelaire, é a base da poesia dos anos 1920 de Borges, que mitifica o antigo e despreza as mudanças modernas que adentram a cidade, em busca de uma identidade nacional que supõe, então, mais autêntica que a
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moderna. O choque da transformação aparece diante da mudança arquitetônica, e as recordações pessoais passam a fazer parte do poema. Em Baudelaire lemos:
Paris muda! mas nada em minha nostalgia Mudou! novos palácios, andaimes, lajedos, Velhos subúrbios, tudo em mim é alegoria, E essas lembranças pesam mais do que rochedos (BAUDELAIRE, 2006, p. 303).
Esta es una elegía
de un Palermo trazado con vaivén de recuerdo y que se va en la muerte chica de los olvidos. (BORGES, 2008, p. 91)
Segundo Molloy (1999), a percepção da aura24 na experiência da mudança é a caracterítica em que se observam as semelhanças e diferenças mais notáveis entre Baudelaire e Borges.
El problemático parentesco se observa a partir de los títulos: el desganado spleen de Baudelaire es, en Borges, calculado fervor (MOLLOY, 1999, p. 23).
Baudelaire relata em seus poemas, com irritação, a perda da visão, a inoperância entre o sujeito e sua cidade, a perda da familiaridade com a urbe. Borges, nos seus três primeiros livros, preso a um idealismo, mantém essa visão, essa relação entre o sujeito e a sua
polis. A percepção de Borges, quando “regressa” à casa da Rua Serrano,
local de sua infância, busca o reconhecimento de um objeto inanimado, porque a busca desse poeta em sua primeira poesia é recobrar a percepção aurática de sua cidade.
ꜟQué caterva de cielos
abarcará entre sus paredes el patio, cuánto heroico poniente
militará en la hondura de la calle
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Existia o “espírito” daquilo que estava sendo registrado e simbolizava a união da cidade com o sujeito.
92 y cuánta quebradiza luna nueva
infundirá al jardín su ternura, antes que me reconozca la casa y de nuevo sea un hábito! (BORGES, 2008, p. 39).
Outra questão significativa é o momento em que o flâneur escolhe para recriar o real. Para ambos os poetas, o momento privilegiado para observar a cidade era claramente o entardecer. Geralmente, nas grandes metrópoles, essa hora do dia é repleta de gente nas ruas, mas na poesia borgeana a Buenos Aires é representada sem nenhuma presença humana, sem multidão, sem passantes, muito diferente da Paris de Baudelaire.
Si el flâneur de Borges no necesita el refúgio interior después de la flânerie, como el Baudelaire, para escapar a “la tiranía de rostro humano” es, sobre todo, porque ese rostro no existe. O mejor: porque se lo ha obliterado (MOLLOY, 1999, p. 25).
Para preservar sua percepção aurática, Borges delimita o lugar de sua deambulação por Buenos Aires, negando o turbulento centro, para recuperar os bairros portenhos, onde o poeta se reconhece.
A questão da memória histórica e cultural também é algo presente nos dois poetas, porém de formas diferentes. Baudelaire, para se proteger da realidade de uma Paris em transformação, recorre às lembranças, aos símbolos antigos da própria cidade. Já Borges recorre às lembranças individuais: aos seus antepassados.
Recuerdo de Baudelaire, el deambular borgesiano es también maniobra de inserción en una tradición literaria precisamente argentina. El desencantado reconocimiento de la ciudad cambiante, a la que ya no se puede volver, es, paradojalmente, consolador regreso al seno de la generación que lo precede. Gesto modernizador, en cuanto acusa un fundamental desasosiego, es también gesto pasatista por su deliberado y ancrónico deseo de reparación (MOLLOY, 1999, p. 27).
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