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4. VIOLÊNCIAS FEMININAS: O CORPO COMO ALVO

4.1 Beatriz, Rayane e Eliane: Corpos Violentados.

“[...] você estraçalhou meu corpo, a minha alma. [...] todos dormiam e acordavam Mas continuavam de olhos fechados. Fiquei marcada, cheia de cicatrizes irreparáveis. Eu apenas existia Estava vazia”. (Laysla Emanuele, 2019) Os casos33, que serviram de suporte para a análise dos comentários, aconteceram no

Brasil em 2016, 2018 e 2019. Esses casos foram selecionados dentre tantos, pois a repercussão foi muito grande na mídia e, por terem sido casos que agiram de forma brutal com essas mulheres, causaram-me uma inquietação muito grande. O fato de ter a explanação deles aqui é para que se entenda como se constitui as formações discursivas abaixo. Segundo reportagens coletadas pelo G1 em 2016, o caso da Beatriz aconteceu no Rio de Janeiro, quando ela tinha 16 anos e foi estuprada por, pelo menos, 30 homens incluindo seu namorado, em uma comunidade da zona Oeste do RJ. Beatriz teria ido até a casa do namorado, no sábado, dia 21, mas durante algum momento ele a dopou e a mesma só acordou no outro dia, no domingo, dia 22, em outra casa com 30 homens armados.

Quando acordou, ela estava nua e tonta, então logo em seguida foi mandada embora sem poder falar nada sobre a situação, pois estava sob ameaça dos agressores. Na terça, dia 24, ela descobriu que estava circulando na internet um vídeo, que os homens haviam gravado, onde ela estava nua e desacordada, além de enfatizar partes da sua região íntima. Apenas 7,

33 Os casos foram expostos para que o entendimento do leitor ficasse mais claro, visto que, a análise da pesquisa

não irá se limitar a entender os casos ou como que foram construídos pela plataforma do G1, mas analisar como que os comentários nas plataformas midiáticas culpabilizam as vítimas dos atos de violências contra os seus corpos.

dos 30 homens, foram indiciados pelo crime, visto que alguns eram maiores de idade e outros menores, porém apenas 3 foram presos pelo crime. Entretanto, a polícia deixou em aberto o fato de poder ter tido o envolvimento de mais homens no caso. Como o vídeo foi exposto nas redes sociais teve uma repercussão muito grande e milhares de pessoas tiveram acesso. Embora tenha sido retirado das redes depois de uns dias, os comentários nas notícias eram cada vez mais severos com a Beatriz e a culpabilizavam a todo momento.

Segundo uma matéria feita pelo G1, em 2018, o caso da Rayane Alves, uma estudante de 16 anos que desapareceu após uma festa em Mogi das Cruzes, relata que ela foi estuprada e morta por Michel Flor da Silva, de 28 anos. A vítima tinha ido a uma festa no sábado, dia 21, com suas amigas e durante a festa decidiu ir embora, já que não estava gostando. Nisso, por não saber muito bem o caminho, Rayane seguiu sentido contrário à Rodoviária e encontrou um motorista de aplicativo que ofereceu carona para ela até a Rodoviária de Guararema por volta de 1h da madrugada. Rayane ficou à espera de um ônibus e Michel apareceu, já que ele era guarda noturno na rodoviária, e lhe ofereceu uma jaqueta e água, mas ela recusou e logo após ele ofereceu uma carona até Mogi. Às 02h10 da manhã, o celular da Rayane ligou para a polícia, mas não completou a chamada e às 05h os pais da Rayane notaram que a filha não tinha aparecido ainda e acionaram as buscas.

Ainda nas buscas na segunda-feira, dia 22, os pais da Rayane espalharam cartazes e fotos por toda cidade. No dia seguinte, uma pessoa sem identificação encontrou o celular da Rayane no km 170 da Rodovia Presidente Dutra, na altura de Jacareí. As procuras pelo corpo de Rayane duraram a semana inteira e só no domingo, dia 28, o corpo foi encontrado em estado de decomposição e o reconhecimento foi feito pela mãe no Instituto Médico Legal (IML) de Mogi. Logo após, as buscas pelo suspeito do crime iniciaram e na terça-feira, dia 30, a polícia deu a primeira entrevista sobre o caso afirmando que foi através dos vídeos da rodoviária que o suspeito foi procurado, neste caso o Michel. Após alguns vestígios, os policiais começaram a coletar o seu depoimento, no qual ele se contradizia diversas vezes e assim acabou confessando o crime. Segundo a reconstrução dos policiais, a vítima foi estuprada e logo após morta por asfixia mecânica por estrangulamento. Com isso, Michel teve sua prisão decretada no dia 27 de novembro do corrente ano. Então o caso tomou muitas proporções nas redes sociais e muitos comentários foram feitos, todavia, a vítima, mais uma vez, tornou-se a culpada.

A matéria do caso da Eliane Caparroz, de 55 anos, que foi agredida fisicamente por Vinícius Batista de 27 anos, no Rio de Janeiro na Zona Oeste, também foi feita pelo G1 em 2019 relatando que a mesma foi espancada dentro do seu apartamento e teve fraturas por todo

o rosto. Eliane marcou um encontro com Vinícius em seu apartamento, na sexta-feira, dia 12, já que eles estavam se relacionando há 8 meses, via mensagens, e o melhor lugar para o encontro seria na casa da vítima. Nisso ele chegou ao seu prédio, entrou, conversaram e estava tudo tranquilo.

Como estava tudo bem, Vinícius sugeriu que a Eliane deitasse em seu ombro para que pudessem dormir carinhosamente e, logo em seguida ela acordou com ele já espancando o seu rosto e mordendo seu corpo enquanto a mesma tentava se defender dos golpes. A agressão durou cerca de 4 horas, até que os vizinhos escutaram os gritos da Eliane e acionaram o segurança do prédio que conseguiu pedir ajuda e interviram na ação. A prisão preventiva foi decretada na segunda-feira, dia 18, com ele respondendo por tentativa de feminicídio. Mais um caso que tomou repercussão nas grandes mídias, principalmente por 2019 já ter registrado mais de 100 casos em 1 mês no início do ano, segundo informações de Nathalia Oliva coletadas através do levantamento do professor Jeferson Nascimento na Universidade de São Paulo (USP).

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