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3.1.1 Behaviorismo Radical
Nenhum pensador ou cientista do século 20 levou tão longe a crença na possibilidade de controlar e moldar o comportamento humano como o norte-americano Burrhus Frederic Skinner (1904 – 1990). Sua obra é a expressão mais célebre do behaviorismo radical, corrente que dominou o pensamento e a prática da psicologia, em escolas e consultórios, até os anos 50. Foi adotada por vários outros psicólogos famosos: Ferster, Sidman, Schoenfeld, Catania, Hineline, Jack Michel e outros.
O behaviorismo de Skinner nega a existência da mente e assemelhados, mas aceita estudar eventos internos. Nesse sentido, Skinner não separa mundo interno de mundo externo e é por isso que para ele não existem estímulos e respostas, mas existe uma unidade interativa Comportamento-Ambiente (não esquecendo que Ambiente é tudo aquilo que é externo ao Comportamento, não importando se é um piscar de luz, um desequilíbrio hídrico, um derrame de adrenalina, ou um objeto ausente associado a um evento presente). Sendo a experiência que alguém tem de uma situação um evento privado, Skinner assim a aceita. Para ele, os estudos de eventos internos incluem-se legitimamente dentro do campo de estudos da psicologia, de uma ciência do comportamento. Assim ele é radical em dois sentidos: por negar radicalmente (isto é, negar absolutamente) a existência de algo que escapa ao mundo físico, que não tenha uma existência identificável no espaço e no tempo (mente, consciência, cognição); e por radicalmente aceitar (isto é, aceitar integralmente) todos os fenômenos comportamentais (MATOS, 2003).
O behaviorismo radical constitui-se numa interpretação filosófica (baseada numa ideologia) de dados obtidos através da investigação sistemática do comportamento, onde o corpo desta investigação propriamente dita é a Análise Experimental/Funcional do Comportamento. Esta interpretação descreve basicamente relações funcionais entre Comportamento e Ambiente, ou seja, relações entre discriminações de mudanças na realidade observada e descrições das condições em que essas mudanças se dão. Como produto desta interpretação tem-se, não explicações realistas, nem relações de causa-efeito, nem leis baseadas no modelo da Física Mecânica de troca de energia, mas sim a
construção de seqüências regulares de eventos que eventualmente poderão ser descritas por funções matemáticas.
O behaviorista radical rejeita o mentalismo por ser materialista, e acaba com o dualismo por acreditar que o comportamento é uma função biológica do organismo vivo. Não precisa da mente para respirar, não se explica a digestão por processos cognitivos, porque explicaria o comportamento por um ou outro? Propõe que existam dois tipos de transações entre o Comportamento e o Ambiente:
a) conseqüências seletivas, que ocorrem após o comportamento e modificam a probabilidade futura de ocorrerem comportamentos equivalentes (da mesma classe);
b) contextos, que estabelecem a ocasião para o comportamento ser afetado por suas conseqüências e que, portanto, ocorreriam antes do comportamento e que igualmente afetariam a probabilidade desse comportamento.
Estas duas classes possíveis de interações são denominadas "contingências" e constituem as duas classes conceituais fundamentais para a análise do comportamento.
Relações funcionais são estabelecidas na medida em que se registram mudanças na probabilidade de ocorrência dos comportamentos que se procura entender, em relação às mudanças, quer nas conseqüências, quer nos contextos, quer em ambos.
Por se lidar com explicações funcionais e não causais, o importante é coletar informações ao longo do tempo, repetidas do mesmo evento, com os mesmos personagens. Para o behaviorismo radical, o estudo em grupo é uma heresia, uma vez que o objetivo é tentar estudar a experiência de um sujeito. Ao coletar registros ao longo do tempo deve-se comparar o sujeito consigo mesmo, sua história passada é sua linha de base. Entretanto, indivíduos de uma mesma espécie partilham de um mesmo conjunto de contingências filogenéticas, e indivíduos com histórias passadas semelhantes podem partilhar de contingências ontogenéticas semelhantes e, portanto, para certas variáveis é possível descrever funções semelhantes para diferentes indivíduos. Para Skinner, o
organismo não é nem gerente nem iniciador de ações, é o palco onde as interações Comportamento-Ambiente de dão.
O conceito-chave do pensamento de Skinner é o de condicionamento operante, que ele acrescentou à noção de reflexo condicionado, formulada pelo russo Ivan Pavlov. Os dois conceitos estão essencialmente ligados à fisiologia do organismo, seja animal ou humano. O reflexo condicionado é uma reação a um estímulo casual. O condicionamento operante é um mecanismo que premia uma determinada resposta de um indivíduo até ele ficar condicionado a associar a necessidade à ação. É o caso do rato faminto que, numa experiência, percebe que o acionar de uma alavanca levará ao recebimento de comida. Ele tenderá a repetir o movimento cada vez que quiser saciar sua fome.
A diferença entre o reflexo condicionado e o condicionamento operante é que o primeiro é uma resposta a um estímulo puramente externo, e o segundo, o hábito gerado por uma ação do indivíduo. Enquanto que no comportamento respondente (de Pavlov) a um estímulo segue-se a uma resposta, no comportamento operante (de Skinner), o ambiente é modificado e produz conseqüências que agem de novo sobre ele, alterando a probabilidade de ocorrência futura semelhante.
O condicionamento operante é um mecanismo de aprendizagem de novo comportamento, cujo processo Skinner denominou modelagem. O instrumento fundamental de modelagem é o reforço – a conseqüência de uma ação quando ela é percebida por aquele que a pratica. Para o behaviorismo em geral, o reforço pode ser positivo (uma recompensa) ou negativo (uma punição). O primeiro levará o indivíduo a repetir a ação e o segundo a evitá-la. A punição envolve a conseqüência de uma resposta quando há apresentação de um estímulo aversivo ou remoção de um reforçador positivo presente.
Skinner considerava reforço apenas as contingências de estímulo. “No condicionamento operante, um mecanismo é fortalecido no sentido de tornar uma resposta mais provável, ou melhor, mais freqüente”, escreveu o cientista (FERRARI, 2004).
Este condicionamento operante pode ser representado conforme a Figura 3.2.
R Sr
Figura 3.2 – Condicionamento operante Onde:
x R = resposta
x Sr = estímulo reforçador x = “leva a”
Outros mecanismos de aprendizagem são a extinção, a generalização e a discriminação.
Para KELLER (1970), a extinção é um procedimento no qual uma resposta deixa de ser abruptamente reforçada, e como conseqüência, a resposta diminuirá de freqüência e até mesmo poderá deixar de ser emitida. É a maneira básica de desaprender uma resposta já condicionada. Na generalização, quando um operante ou respondente foi condicionado em uma dada situação-estímulo, poderá ser evocado, sem condicionamento posterior, em uma outra situação-estímulo. O princípio da discriminação diz que conexões entre estímulos e respostas que se efetuaram por generalização podem ser rompidas separadamente. Ou seja, o reforçamento poderá ainda ser mantido para a conexão original, enquanto se permitirá que todas as conexões derivadas sofram extinção.
Uma discriminação operante pode ser representada num diagrama, mostrada na Figura 3.3.
S
SD R Sr S
Figura 3.3 – Discriminação operante
Neste diagrama, o SD indica o estímulo ao qual o operante foi associado e os S indicam os estímulos generalizados que perderam o poder de evocar a resposta. Por isso, não têm conexão com o R do diagrama.
Para entender melhor este conceito, considere como exemplo uma situação onde uma pessoa vai escrever num quadro branco para explicar algo a uma platéia. Esta situação pode ser representada conforme o diagrama da Figura 3.4.
[mouse] S [escrever no quadro branco]
[caneta pilot] SD R Sr [apagador] S [informar]
Figura 3.4 – Exemplo de discriminação operante
Pelo seu histórico de condicionamento, a pessoa sabe que tem que utilizar a caneta pilot para escrever no quadro branco. De nada adianta o mouse e o apagador nesse contexto.
O estímulo para escrever no quadro é a transmissão da informação.
Neste ponto é importante destacar o que é comportamento. Normalmente há uma confusão no conceito pois muitas vezes o comportamento é entendido como sendo a resposta (R). Comportamento é, na verdade, o conjunto de elementos composto pelo estímulo antecedente, pela resposta e pela conseqüência, num determinado ambiente (contexto).
A Figura 3.5 exemplifica a relação entre contexto e comportamento. Considerando a mesma situação anterior (da Figura 3.4), denominada Contexto A, a mesma resposta RA
(escrever no quadro branco) não produz efeito se agora a platéia for composta somente por pessoas míopes (Contexto B). Neste novo contexto, para que a pessoa consiga transmitir a informação, é necessário que ela emita uma nova resposta, RB, que pode ser escrever no quadro branco com letras maiores. É um outro comportamento.
RA Contexto B
RA
Contexto A
RB Contexto B
Figura 3.5 – Exemplo de mudança de comportamento
Todos estes princípios são complementados ainda pelo processo de diferenciação (popularmente conhecido por refinamento), que é o responder sempre dentro dos limites da classe reforçada. Muitas habilidades da vida diária baseiam-se neste processo. Por exemplo, o arremesso da bola numa cesta de basquete e a tacada de um jogador de golfe são atividades que podem ser aperfeiçoadas em situações inalteradas de estímulos. A diferenciação também está presente no domínio das habilidades universais, tais como andar, falar, escrever e cantar. Neste contexto, há a introdução do conceito de RD, que representa a variante de resposta que conduz ao reforçamento, e R, que indica uma variante que não recebe reforço.
Para entender a diferenciação, considere o exemplo onde uma pessoa está aprendendo a jogar golfe numa situação ideal, onde o buraco e a posição do jogador não mudam, ele não se cansa e não se abala, e é possível apenas variar a posição do taco e a força aplicada. Se a cada tacada ele não observar a conseqüência, isto é, onde a bola caiu em relação ao buraco, não há discriminação e vira um processo de tentativa e erro.
Observando as conseqüências, o jogador discrimina e muda (aperfeiçoa) a resposta, ou seja, corrige a posição do taco e a força para a próxima tacada.
Todos estes processos são responsáveis pelo desenvolvimento comportamental do ser humano, desde criança até se tornar adulto, adquirindo um número enorme de respostas diferenciadas que podem ser dadas a um número ainda maior de sinais discriminativos.
Isso tudo é conhecido como aprendizagem, e pode ser esquematizado, de forma bem simplista, conforme a Figura 3.6.
Figura 3.6 – Esquema de aprendizagem
Este processo pode ser exemplificado utilizando a situação onde uma pessoa acessa o site de uma livraria para procurar um livro de computação, esquematizada na Figura 3.7.
[link livros Psicologia] S
Figura 3.7 – Exemplo de aprendizagem
O estímulo discriminativo é o link para livros desta área existente na página inicial do site. Os outros links não provocam a resposta da pessoa, que é o clicar no link. A pessoa sabe também, devido ao seu histórico de condicionamento, que clicar fora do link não o leva à lista dos livros de computação. Assim que aparecer esta lista, este estímulo leva a uma nova resposta por parte desta pessoa.
A partir disso surge a noção de encadeamento, que diz que uma resposta pode produzir o estímulo para a seguinte. KELLER (1970) reconhece que é raro uma única resposta ou conexão estímulo resposta não conduzir a outra ou se originar de uma anterior. Na Figura 3.8 é mostrado o diagrama de encadeamento, onde um estímulo discriminativo
pode evocar uma resposta diferenciada que, por sua vez, produzirá o estímulo discriminativo para outra resposta diferenciada que conduz, por sua vez, ao reforço.
S
O estímulo marcado com um círculo é, ao mesmo tempo, o estímulo que reforça a resposta anterior (que fortalece o discriminativo anterior), e o estímulo que aumenta a probabilidade de emitir a resposta para conseguir a conseqüência Sr. Essa característica de um SD também ser Sr (SD = Sr) é a chave do encadeamento.
Todas as contingências, sejam de reforçamento positivo ou de punição, são acompanhadas de uma emoção específica. A apresentação de um estímulo reforçador positivo gera felicidade, a sua retirada gera tristeza ou raiva. A apresentação de um estímulo aversivo (punição) gera ansiedade, e a sua retirada gera alívio.