• Nenhum resultado encontrado

BELA OU “QUERO VIVER EM UM MUNDO BEM MAIS AMPLO”

4 ANÁLISE FÍLMICA DAS PRINCESAS E A REPRESENTAÇÃO DA MULHER

4.4 BELA OU “QUERO VIVER EM UM MUNDO BEM MAIS AMPLO”

Lançado em 1991, aclamado e adorado como nenhum outro clássico da Disney, A Bela e a Fera surge com uma das princesas mais adoráveis do mundo de Walt Disney. Bela, uma jovem linda e inteligente torna-se prisioneira do castelo de uma Fera misteriosa após negociar a liberdade de seu pai. Com a ajuda dos empregados do castelo, ela começa a ver muito além da aparência horrível da Fera e um belo romance surge entre os dois. A complexidade das relações entre homens e mulheres se evidencia perfeitamente nesse filme.

Seguindo o mesmo ritmo da narrativa anterior, a obra possui várias reviravoltas, inclusive na personalidade dos personagens.

O filme se inicia com um ato musical em que somos apresentados à pequena e humilde aldeia do interior que nossa protagonista mora. Bela é uma assídua leitora, sendo inclusive a única da região e seu maior desejo é uma vida mais ampla do que a de uma simples dona de casa. Apesar de ser considerada bela, é constantemente vista como estranha pela população local, carregando até mesmo certa impopularidade. Vemos isso claramente

explícito no trecho da música: “Essa garota é muito esquisita! O que será que há com ela?

Sonhadora criatura. Tem mania de leitura. É um enigma para nós a nossa Bela.”

Além disso, a canção coloca a ideia de ser bonita sempre em oposição a ela gostar de ler e ser inteligente. Estas duas qualidades são retratadas como opostas ao longo do filme, como proclamado nas linhas da canção de abertura:

Mulher da vila: “O nome dela quer dizer beleza, não há melhor nome para ela!”

Homem da vila: “Mas por trás dessa fachada, ela é muito fechada, ela é metida a inteligente”.

(A Bela e a Fera, 1991)

No caso, para a população local, é um estranhamento ter uma moça bonita que gosta de ler e tem pensamentos diferentes do restante da vila. A cultura estereotipa as mulheres para que se adequem ao mito nivelando o que é feminino em beleza-sem-inteligência ou inteligência-sem-beleza. É permitido às mulheres uma mente ou um corpo, mas não os dois ao mesmo tempo (WOLF; 1992, p. 78).

Desse modo, temos um pequeno vislumbre do que Naomi Wolf chama de o mito da feminista feia. Se uma mulher se recusa a seguir o padrão de beleza e comportamento esperado da cultura patriarcal, ela é considerada feia e excluída. Assumir uma postura combativa diante do que é considerado “feminino” pela dominação masculina apenas implica na exclusão da pessoa. Bela é a própria contradição desses pensamentos, pois é considerada a moça mais bonita da vila, mas ao mesmo tempo exprime personalidade e esperteza diante do vilarejo.

Contudo, é importante ressaltar que mesmo Bela sendo retratada como inteligente e leitora voraz, a construção da sua personalidade ainda recai em alguns problemas. No documentário Mickey Mouse Monopoly, o Dr. Gail Dines argumenta que a princesa só aparece lendo livros que seriam apropriados ao gênero feminino. Ela descreve seu livro favorito contendo “lugares distantes, duelos de espadas, feitiços e um príncipe disfarçado”.

Dessa forma, ainda que seja uma ironia produzida pelo filme que seu livro predileto acabe sendo a história da sua vida, o tópico que ela lê entra no gênero de leituras leves, românticas e fantasiosas, caindo no estereótipo de leitura para garotas. Assim, ela é construída de forma inteligente, mas não a ponto de quebrar paradigmas de estereótipos e gênero no filme.

Na narrativa, somos apresentados ao personagem Gaston, que, aliás, é o estereótipo masculino perfeito. Branco, forte e corajoso, mas também arrogante e machista, é o solteiro mais cobiçado daquela região da França, acreditando que pode se casar com Bela quando quiser, sendo que bastaria apenas insistir (afinal, para ele, o “não” da mulher não existe, é só um charme). Gaston intimida-a constantemente para ser sua esposa, pois acredita que ela é a

melhor garota da vila por ser a mais bonita de todas. Bela não passa de um troféu para o personagem, e seu valor para Gaston reside na sua aparência. Essa situação apenas evidencia a ideia propagada pelo mito da beleza, de que as mulheres devem encarná-la e os homens devem querer possuir mulheres que a encarnem (WOLF; 1992, p. 15).

Bela recusa o “príncipe” não tão encantador assim, que nesse caso, se arrasta aos seus pés. O jovem critica o hábito de leitura da moça, pois acredita que isso apenas a influenciará a ter ideias e a pensar, o que considera inadmissível. Podemos ver que Gaston busca uma mulher submissa, enquanto Bela deseja alguém que compreenda seus anseios e aspirações.

Da mesma forma que a protagonista recusa esse tipo de par romântico, vemos o mesmo começando a acontecer em 1991, onde as mulheres lutavam para encontrar independência na vida e principalmente a liberdade de pensamento. Assim, Gaston pode ser comparado ao personagem Rei Tritão da Pequena Sereia, pois ambos simbolizam o controle patriarcal tentando ser opressor frente às vontades e pensamentos das princesas.

No filme, Bela recusa o pedido de casamento de Gaston e a oportunidade de “ser a esposa que vai massagear seus pés e lhe dar filhos”. Mais uma vez somos apresentados a um ato musical em que Bela exprime seus desejos falando: “Madame Gaston, mas que horror!

Jamais serei esposa dele! Eu quero mais que a vida no interior. Quero viver em um mundo bem mais amplo! Com coisas lindas para ver. E o que mais desejo ter, é alguém para me entender, tenho tantas coisas para fazer!”

Esse trecho revela uma ponte das princesas rebeldes com as princesas clássicas, pois vemos que Bela tem um desejo de conhecer o mundo além daquela vila; contudo, ela também tem o desejo de viver com alguém que compartilhe e respeite suas aspirações. Não chega a ser o príncipe encantado pedido por Branca de Neve, mas ainda conta como o desejo de compartilhar sua vida com alguém.

Dessa forma, vemos que mesmo na história das princesas rebeldes, ainda ocorre a idealização e o desejo do “amor romântico”. Gomes afirma que é um mito propagado pela cultura das novelas, livros best-sellers e filmes de grandes bilheterias que divulgam essa ideia.

A felicidade da mulher estaria subordinada ao encontro do “par perfeito”, coroado pelo ritual do casamento. “Sua vendagem é certa, todos querem comprar o imaginário deste amor, a certeza dos encontros, a união com a „pessoa certa‟, a fusão das „almas gêmeas‟, em que os conflitos são extintos, os sonhos são realizados e o „final feliz‟, o início de um „belo recomeço‟” (GOMES; 2000 p. 172).

Enquanto isso, o pai de Bela, Maurice, embarca em uma viagem para mostrar suas novas invenções em uma convenção em outra cidade. Mas, acaba errando o caminho, e

encontra uma matilha de lobos na floresta. Depois de fugir e até mesmo perder seu cavalo de vista, busca abrigo em um castelo abandonado. Lá, ele é capturado como prisioneiro pela Fera.

Bela descobre que há algo errado quando avista perto da aldeia o cavalo que seu pai levou para a viagem. Por isso, ela parte em sua busca e acaba encontrando o castelo abandonado. Bela encontra seu pai prisioneiro em um calabouço frio e escuro onde está rapidamente adoecendo. A Fera concorda em dar a liberdade a seu pai e fazer de Bela prisioneira. Diferentemente de Ariel, que deixa o reino submarino para ir atrás de seu sonho e do príncipe, Bela renuncia ao “marido ideal” e se empenha em salvar seu pai, capturado pela Fera.

Se antes Bela vivia rejeitando as investidas machistas de Gaston, ela agora se encontra novamente subjugada à vontade de outro homem tirânico. Por isso, o começo do relacionamento entre a Bela e a Fera não é tão romântico quanto nas histórias que ela gosta de ler. A cada proibição que a Fera faz, como não ir a algumas partes do Castelo, Bela desobedece e faz. Outro paralelo pode ser traçado com a princesa Ariel, dado que ambas as jovens sempre desobedecem as regras que lhes são impostas ainda que isso lhes cause as consequências. A curiosidade de Ariel e Bela sempre se sobrepõem ao medo das consequências.

Contudo, um ponto importante que vale mencionar é que a princesa Bela mostra a gentileza das princesas clássicas a todos os homens do filme. Por exemplo, quando Bela recusa o pedido de casamento de Gaston ou quando nega jantar com a Fera, mantém o tom de voz suave e mede as palavras com educação. Assim, vemos que a Disney mais uma vez quebra paradigmas dentro dos moldes, colocando uma princesa que pensa por si mesma e desafia as proibições ao seu redor, porém sempre de maneira delicada e “feminina”.

Em uma dessas cenas, curiosa como é, Bela explora uma parte que não deveria visitar, e nisso encontra uma rosa em uma redoma. A garota fica maravilhada e quase chega a tocá-la, mas no último instante a Fera aparece. Os dois discutem violentamente, assustando tanto a moça a ponto de fazê-la fugir do castelo. Nesse momento, Bela encontra uma matilha de lobos e é salva pela Fera no último minuto. A moça cogitar subir no cavalo e voltar para casa, mas interrompe o ato ao perceber o quão machucado ficou seu captor ao salvá-la. A partir daí começa a cuidar de seus ferimentos e exigir que ele mude suas maneiras.

Depois dessa cena, a verdadeira história de amor começa com duas pessoas marginalizadas que encontram consolo uma na outra. Na Fera, vemos um homem que nunca teve a chance de amar e aceitar a si mesmo, pois sempre foi tratado como um monstro e

depois de um tempo começou a agir como tal. Bela é a primeira pessoa em sua vida a enxergar além dessa imagem. Lentamente, a Fera arrogante e temperamental vai se transformando em um ser gentil e educado. O romance se diferencia da narrativa das princesas, já que Bela passa bastante tempo com seu par romântico e aos poucos passa a conhecê-lo melhor. Também se diferencia da Pequena Sereia, pois a protagonista não tem nenhum interesse em conquistá-lo, e deixa isso acontecer naturalmente.

Em uma das cenas do filme, a Fera chega até mesmo a presentear a garota com uma biblioteca, já que soube pelos criados do palácio que ela ama ler. Nesse momento, vemos a diferenciação da Fera em relação a Gaston. Enquanto o primeiro se mostra interessado na personalidade de Bela e a encoraja a ler, o outro desconsidera suas aspirações e gostaria de vê-la submissa às suas vontades. Bela, ao contrário de outras princesas, desconsidera o exterior e começa a sentir algum afeto pelo conteúdo daquele que lhe é apresentado.

Enquanto isso, seu pai Maurice busca a ajuda dos aldeões para tentar resgatar a filha, porém é visto como um “velho louco” ao falar de um castelo com objetos encantados e uma Fera monstruosa. Com isso, ele parte para tentar resgatar sua filha sozinho, mas é incapacitado pelo frio e pela ventania. Ao ter conhecimento do atual estado de seu pai, a Fera liberta Bela para ir atrás dele.

Bela fica cuidando de seu pai, já que ele estava começando a ficar doente. No entanto, os aldeões, liderados por Gaston, batem à sua porta e acusam Maurice de insanidade na tentativa de trazê-lo para o asilo. Gaston aproveita a situação para chantagear a protagonista, afirmando que poderá proteger seu pai se a garota aceitar se casar com ele. Bela se recusa e faz o possível para confirmar toda a história e legitimar a sanidade de seu pai. Defendendo a Fera contra a curiosidade dos aldeões, Bela assegura-lhes que ele não machucaria ninguém. O invejoso Gaston percebe que a moça parece nutrir sentimentos pela criatura e responde: “Se eu não a conhecesse, diria que está caidinha por esse mostro”. Bela responde com: “Ele não é monstro Gaston, você é!”. A possibilidade de existir um relacionamento entre a Bela e a Fera inflama a violência em Gaston, que tranca Bela e seu pai em um calabouço e instiga os moradores do povoado a atacar o castelo da Fera e pôr fim ao monstro que vive tão perto da aldeia.

Ressalta-se que Bela também se posiciona corajosamente em defesa da Fera, e tenta impedir Gaston. Depois de toda a multidão marchar em prol da aniquilação do monstro, Bela consegue fugir, chegar ao castelo e, ao fim, demonstrar amor por aquele que todos só tinham ódio. No final, Bela beija a Fera e o feitiço é desfeito para todos os habitantes do castelo. Um

fato que chama atenção nessa cena é que a aparência da Fera se transforma em um homem de cabelos loiro e traços delicados, caindo novamente no estereótipo do belo príncipe encantado.

De forma geral, a temática da domesticidade apresentada nas princesas clássicas foi substituída pela temática da beleza nos filmes das princesas rebeldes. Como afirma Wolf:“a modelo jovem e esquelética tomou o lugar da feliz dona-de-casa como parâmetro da feminilidade bem-sucedida” (WOLF; 1992, p.9).

Na narrativa das duas princesas a aparência apresentada pelos personagens contribui muito para o desenrolar da história. O enredo de A Bela e a Fera vai revelando que o amor pode transformar pessoas e ir muito além das aparências, pois o que realmente importa é o caráter e a beleza interior. Contudo, ainda que haja pequenas mudanças comparadas às princesas clássicas, as princesas rebeldes ainda carregam: personagens opressores, valorização da aparência, enredos que se voltam ao “amor romântico” e histórias que quebram paradigmas. Mas sem abalar as estruturas da sociedade.