2. Modos de vida | Bem-estar sustentável, bens comuns e capacidades
2.2. Bem-estar e bens comuns
As razões pelas quais o bem-estar baseado no produto não é sustentável, em termos ambientais e sociais, foram amplamen- te discutidas. Entretanto, não podemos dizer o mesmo sobre a questão da sustentabilidade (ou insustentabilidade) do bem- estar baseado no acesso. Nos parágrafos seguintes serão for- muladas algumas hipóteses que visam formar os fundamentos de uma nova abordagem à questão do bem-estar: o bem-estar
ativo e relacionado ao contexto. Para fazer isso, partiremos de
algumas hipóteses de trabalho específi cas.
A crise dos bens-comuns. Nossa primeira hipótese de trabalho está relacionada à existência de uma forte relação entre o efeito
boomerang e a crise dos bens comuns, especialmente dos bens
comuns locais.
A expressão bens comuns locais, que é o pilar sobre o qual a primeira hipótese é construída, designa entidades que perten- cem a todos e a ninguém em particular. E, enquanto permane- cerem “comuns”, não podem ser reduzidas a produtos comer- cializáveis e não podem ser, portanto, compradas ou vendidas.
Exemplos de bens comuns locais abrangem desde os recur- sos físicos básicos tais como o ar e a água, passando por recur- sos sociais tais como a comunidade de bairro ou o senso cívico de seus cidadãos, até incluir recursos complexos tais como a paisagem, o espaço público urbano ou a “segurança percebida” entre os habitantes de uma determinada cidade.
Está claro que estes bens comuns constituem uma parte fundamental na construção de nossos contextos de vida, isto é, na defi nição da qualidade dos contextos físicos e sociais em que vivemos e nos quais os próprios produtos assumem signi- fi cados.
No entanto, a posição central mantida pelos bens adquirí- veis individualmente (sejam produtos ou, mais recentemente, serviços) na defi nição dos modelos de bem-estar dominantes nas sociedades industriais causou, como um efeito colateral al- tamente tangível, a subestimação do papel que os bens comuns poderiam assumir na defi nição atual do estado de bem-estar. As conseqüências se manifestam nos seguintes fenômenos, complementares entre si:
Desertifi cação:
! a negligência para com os bens comuns,
considerados insignifi cantes, e sua conseqüente degene- ração, entendida como algo inevitável (e assumida como uma espécie de multa a pagar pelo progresso e pela busca do bem-estar).
Mercantilização
! : a transformação em bens de mercado de
alguns componentes do tradicional habitat humano que previamente haviam sido comuns (isto é, água engarrafada no lugar da água natural, o shopping no lugar da praça pú- blica, um serviço de segurança particular no lugar da vigi- lância informal dos vizinhos de casa, e assim por diante).
O desaparecimento do tempo lento e contemplativo. A segunda hipótese de trabalho trata da relação entre o efeito boomerang e as crises do tempo lento e contemplativo.
A expressão tempo contemplativo designa o tempo usado para “não fazer nada”, o que não signifi ca que seja vazio ou sem signifi cado. Exemplos de tempo contemplativo abrangem, sem
dúvida, desde olhar um pôr-do-sol até fazer alguns exercícios espirituais. É possível, porém, admitir a existência de uma par- cela de tempo contemplativo em algumas ações (como passear, comer, conversar com as pessoas...) quando estas são realiza- das em um ritmo lento. Essa última observação nos conduz di- retamente ao signifi cado do que chamamos de tempo lento.
O tempo lento não é apenas o tempo no qual fazemos algo lentamente, mas também aquele no qual produzimos e/ou apreciamos (profundas) qualidades. De fato, sabemos agora, ou melhor, um número maior de pessoas compreende agora que produzir e apreciar qualidades proporciona uma diferente idéia de efi ciência, seja porque reduz a velocidade, nos permi- tindo usar todo o tempo necessário para fazer as coisas segun- do as melhores “regras da arte”, seja porque nos permite apre- ciá-las, tendo desenvolvido o conhecimento e a sensibilidade requeridos a fi m de compreender seu alto grau de qualidade. Por exemplo: considere, por um lado, todo o tempo necessá- rio para produzir um excelente vinho e adicione, por outro, o tempo necessário para desenvolver e refi nar nossas habilidades em reconhecê-lo e, fi nalmente, tomá-lo sendo capaz de perce- ber todas as suas qualidades. Estas considerações nos indicam, portanto, que a lentidão e o tempo lento não são valores em si, mas conseqüências da busca por algo que estamos perdendo na atual época do tempo veloz e que podemos denominar de
qualidades profundas.
Tradicionalmente, o tempo lento e contemplativo era uma importante parte da vida cotidiana. Hoje, porém, o tempo lento e contemplativo está desaparecendo devido a dois fenômenos complementares:
Saturação
! : a tendência a saturar cada momento com algo
para fazer, sempre e mais freqüentemente, de modo a en- chê-lo com várias coisas a fazer ao mesmo tempo.
Aceleração
! : a tendência a fazer cada coisa em um ritmo ace-
lerado para ter a possibilidade (ou a ilusão) de fazer mais. Deve ser acrescentado que, apesar de o desaparecimento do tempo lento e contemplativo ser ainda a condição dominan- te, algo novo e interessante está aparecendo, a partir de inicia-
tivas como o Slow Food e o Slow Tourism, por exemplo. Voltare- mos a esse ponto mais adiante.
A difusão dos bens remediadores. Se considerarmos o século
passado, podemos observar empiricamente como a difusão de bens e serviços para uso e consumo privados ocorreu paralela- mente à deterioração dos bens comuns e o desaparecimento do tempo lento e contemplativo.
Ao fazer essa observação, nossa terceira hipótese de traba- lho pode ser articulada dessa forma:
Há uma
! relação entre a difusão de bens de mercado (mes-
mo que mais sofi sticados e efi cientes) e a crise dos bens comuns e do tempo contemplativo;
Há uma segunda
! relação entre a crise dos bens comuns,
do tempo contemplativo e a proliferação de novos bens re-
mediadores, isto é, produtos e serviços que tentam tornar
aceitável um contexto de vida que é, por si mesmo, alta- mente deteriorado.
O crescimento no consumo de
! bens remediadores por sua
vez causa ainda maior consumo geral e uma ulterior crise tanto dos bens comuns quanto do tempo contemplativo, num contínuo e negativo ciclo vicioso.
O conceito de bens remediadores é obviamente o assunto central nessa hipótese. O caráter comum desses bens é que seu
uso ou consumo não melhora a qualidade de vida ou abre novas possibilidades para seus usuários (como poderia ser o caso de
uma nova máquina de lavar roupa para uma pessoa que, até então, lavava suas roupas à mão). O que eles fazem é simples- mente restaurar (ou tentar restaurar) a aceitabilidade de um contexto de vida que está sendo degradado.
O signifi cado desta defi nição se revela imediatamente ao consideramos a crise de alguns bens comuns básicos: compra- mos “água purifi cada engarrafada” porque a água natural está poluída, nos deslocamos para distantes “paraísos turísticos” porque a beleza local foi destruída, compramos sistemas do- mésticos de segurança eletrônicos e telemáticos porque os vi-
zinhos não mais vigiam, discretamente e sem custo, as casas da vizinhança e assim por diante
Ainda que seja menos evidente, o mesmo conceito de bens
remediadores pode ser usado em relação ao desaparecimento
do tempo lento e contemplativo: compramos e consumimos um crescente número de produtos e serviços “para preencher o tempo”, para matar a sensação de vazio deixada pela nossa incapacidade de aproveitar o tempo contemplativo ou, sim- plesmente, para fazer algo a um ritmo mais lento, gozando do tempo necessário para apreciar suas qualidades profundas. No caso da relação entre consumo e desaparecimento do tempo contemplativo, não é fácil estabelecer com rígida precisão quais bens são corretivos e quais não são. Mas poderíamos dizer facil- mente que muitos deles, da televisão aos telefones celulares ou ao junk food, têm um forte componente consolador.
Sustentabilidade e contextos de vida. Como conclusão deste
item, podemos assumir que a não sustentabilidade, em escala local, é um processo de deterioração dos contextos de vida cau- sado pela crise dos bens comuns e pelo desaparecimento do tempo contemplativo.
A expressão contexto de vida denota o ambiente físico e so- cial (o habitat) de uma pessoa e as possibilidades, oferecidas à esta mesma pessoa, de fazer suas escolhas. Sua qualidade está relacionada ao modo pelo qual diferentes sistemas (natural e artifi cial, físico e sociocultural, bens de mercado e bens co- muns) se inter-relacionam.
Na verdade, no atual sistema socioeconômico, estamos testemunhando um duplo processo de crise: dos bens comuns e do desaparecimento do tempo lento e contemplativo; mas também da saturação do tempo e do espaço com bens e servi- ços remediadores e de “entretenimento”.
Esse duplo fenômeno é particularmente perigoso porque, como vimos, seus dois diferentes aspectos se fortalecem mutua- mente, num processo negativo e vicioso: mais consumo, mais
degradação do contexto, mais consumo (de bens remediadores) e assim por diante.
Se essas hipóteses estão corretas, o resultado é que cada idéia de bem-estar, para ser sustentável (ou pelo menos, para ter alguma possibilidade de ser sustentável), deve considerar as qualidades totais dos contextos de vida. Mais precisamente: deve se basear no acesso a uma variedade de produtos e ser- viços mas também, ou ainda mais, na qualidade e quantidade dos bens comuns disponíveis e na possibilidade de praticar uma ecologia do tempo, onde o tempo rápido, tanto quanto o tempo
lento e contemplativo, sejam apropriadamente equilibrados.