Capítulo V – Análise e Discussão dos Resultados
5.1. Análise dos dados provenientes das entrevistas realizadas aos sujeitos cuidadores
5.2.5. Sobre a visão do cuidador
5.2.5.1. Bem-estar do idoso
O envelhecimento, de acordo com diferentes visões, pode também ser um fenómeno básico da vida do ser humano. Neste sentido, o modelo médico define-o como um processo básico, isto é, um fenómeno biológico inevitável e relativamente imutável (Paúl, 1997). Para Rodrigues (1998), envelhecer é um fenómeno existencial, como viver e morrer. O envelhecimento é uma lei universal por se inscrever no ciclo biológico de nascimento, crescimento e morte, o significado social da velhice é definido cultural e historicamente, de acordo com uma determinada conjuntura (Hespanha, 1993).
A dependência e a idade estão associadas à noção de morte. Dos idosos cuidados pelos nossos entrevistados, o mais novo tem 80 e o mais velho 99 anos. 5 dos nossos entrevistados afirmam que os idosos de quem cuidam pensam na morte:
“ (…) eu acho que ela pensa na morte, quando ouve tocar o sino, está sempre a
dizer que qualquer dia vai ela, ela chora muito, sofre muito, acho mesmo que ela, se pudesse escolher, morria. Quem está lúcido sofre muito mais, ela apercebe-se da doença dela (…), ela fica muito triste pelo trabalho que me dá”
E3.
“ (….) pensa na morte, ela está sempre a dizer que está aqui a mais, que está a dar muito trabalho e que está saturada de sofrer, mas tem de ser, tem de aguentar, só vamos quando Nosso Senhor quer, ela tem muito sofrimento” E13.
“ (…) tem muita doença, ele tem noção de como está, do trabalho que dá, eu acho que ele pensa muito nisso, pensa na morte, por vezes encontro-o a chorar, deve pensar nisso” E1.
Os restantes entrevistados acreditam que o idoso não pensa na morte, associando muito esse pensamento ao seu estado de dependência.
“Viver aos Bocadinhos”
O Papel do Cuidador Informal do Idoso em Contexto Domiciliário
“ (…) tenho a certeza que ela não pensa na morte, até acho que ela é feliz, de vez em quanto, chora muito, por não conseguir andar, mas nunca por ter medo de morrer, ou por achar que a morte se aproxima” E12.
“ (…) a minha mãe não pensa na morte, a minha mãe não pensa em nada, mesmo quando estava boa, não pensava, achava que era muito nova para morrer, que não ia por hora” E14.
5.2.5.1.2. Aceitar ser cuidado
Para Fernandes (2002), o comportamento dos idosos é visto como um todo, em que uma alteração no sistema biológico, um agravamento de uma deficiência sensorial ou motora, o desaparecimento de mais um ente querido da sua rede social de apoio, por exemplo, se confundem com uma disfunção do humor, apatia ou a perda de capacidades cognitivas.
Dos discursos dos nossos entrevistados também verificámos que a aceitação do acto de cuidar está directamente relacionada com o grau de dependência do idoso e com a aceitação por parte do idoso de ser cuidado (mais uma vez, aqui, o ser cuidado está directamente relacionado com o acto físico de cuidar).
“ (…) acho que ela sabe que está muito dependente, que precisa de apoio para tudo, mas ela desistiu de viver, de lutar. Para ela, tanto faz, não se ajuda nada e não faz por isso” E2.
“ (…) ela deixa que lhe mexam, deixa que lhe façam tudo, não se importa” E2.
“ (…) os meus pais deixam que lhe façam a higiene, deixam que a gente lhe faça tudo. A minha mãe até gosta muito que a lave” E3.
“ (…) ela deixa que eu lhe faça a higiene, mas quando é outra pessoa é mais difícil, é muito envergonhada, está sempre a dizer para a cobrir, não quer que gente estranha lhe ponha a mão a mim deixa. E14.
“Viver aos Bocadinhos”
O Papel do Cuidador Informal do Idoso em Contexto Domiciliário
“ (…) a minha mãe está a sofrer muito, não é tanto dor física, como o meu pai, mas é dor de sentimento, os desgostos que ela já teve não foram brincadeira: primeiro trabalhou toda a vida muito para nos criar, depois, morre-lhe um filho, não há tempo que apague a dor da morte de um filho, pouco tempo depois, a minha cunhada casou-se, e a minha mãe nunca aceitou, depois, morreu o meu filho, que ela o criou desde pequeno, agora vê o meu pai assim, é muita dor”
E3.
“ (…) ele não está consciente deixa que lhe faça tudo quando ainda estava bem, era muito envergonhado, agora, é-lhe igual” E11.
5.2.5.1.3. Qualidade de vida do idoso
Sobre a qualidade de vida do idoso, 8 dos nossos entrevistados referem que os idosos têm qualidade de vida, associando-a ao acto físico de cuidar e não à noção global de qualidade de vida. Em comparação, quando questionados sobre a sua qualidade de vida, os dados são opostos, parecendo haver duas noções distintas de qualidade de vida: para o idoso dependente, a qualidade de vida está associada aos actos físicos; para o cuidador está relaciona com o bem-estar emocional, relações interpessoais, bem-estar material, desenvolvimento pessoal, bem-estar físico, autodeterminação, inclusão social, direitos. A qualidade de vida do cuidador será abordada posteriormente.
Na perspectiva de Lawton (cit. in Diogo 2006), a qualidade de vida na velhice depende da constante interacção de muitos elementos ao longo da vida, e, portanto, a sua avaliação envolve critérios socionormativos e intrapessoais relacionados com as ligações actuais, passadas e prospectivas entre o idoso e o ambiente.
Para Carvalho (2004), a perspectiva positiva de saúde é o eixo do moderno-quadro de Promoção da Saúde em que se pretende uma capacitação (empowerment) das pessoas e das populações e em que com o suporte de estruturas de apoio se pode debater melhor com as pressões do meio com vista, não só a dar mais anos à vida, mas também conferir melhor qualidade de vida ao tempo de vida.
“Viver aos Bocadinhos”
O Papel do Cuidador Informal do Idoso em Contexto Domiciliário
Das principais dimensões da qualidade de vida, segundoVerdugo et al. (2001), parece- nos que os cuidados aos idosos asseguram preponderantemente o bem-estar físico dos mesmos. A dimensão física, segundo o grupo WHOQOL (2000), diz respeito à funcionalidade física e da saúde (dor e desconforto, energia e fadiga, sono e repouso, mobilidade, actividade da vida quotidiana, dependência de medicação ou tratamento e capacidade de trabalho).
Mas a qualidade de vida, ainda segundo Verdugo et al. (2001), está associada não só ao bem-estar físico, mas também ao bem-estar emocional, às relações interpessoais, ao bem-estar matéria, ao desenvolvimento pessoal, à autodeterminação, à inclusão social e aos direitos.
A este propósito, 6 dos nossos entrevistados referem:
“ (…) a qualidade de vida da minha mãe diminuiu muito, aliás, não tem. Ela andava muito bem, agora, está acamada, chora muito por não poder andar, porque ela tem dias que pensa que anda e quando está mais lúcida, vê que não anda e fica muito triste, chora muito, está sempre a dizer que está num grande sofrimento, com muitas dores, tem dias que está mais calma, tem dias que está mais agitada” E9.
“ (…) eu acho que os meus não têm qualidade de vida, eu mete-me muita tristeza vê-los assim. Levanto-os e ficam à lareira os dois, não conversam um com o outro, estão ali, assim, a olhar para a parede, dá-me a impressão que estão no corredor da morte, estão completamente dependentes e isso é muito triste, a vida é muito triste” E3.
“ (…) eu acho que a minha mãe não tem qualidade de vida, não tem, estar no estado dela, sem se ajudar em nada, a precisar que lhe façam tudo, não tem qualidade de vida, o cérebro está muito cansado, está uma pessoa diferente, sem vida, sem ânimo, sem vontade de animar. A qualidade de vida da minha mãe é nula.” E4.
“Viver aos Bocadinhos”
O Papel do Cuidador Informal do Idoso em Contexto Domiciliário
Denote-se que, deste ponto de vista, os cuidadores dos idosos dependentes, também consideram os outros três domínios referidos pelo grupo WHOQOL (2000). O domínio psicológico refere-se às emoções (positivas e negativas), à auto-estima, à imagem corporal, à capacidade de pensar apreender, à espiritualidade e às crenças pessoais. De facto, os cuidadores referem que estão desanimados, tristes, em sofrimento e dependentes. O domínio social envolve as relações pessoais com a família e amigos e o suporte social que compreende o apoio que recebe a partir destas relações pessoais. O domínio ambiental refere-se à segurança física e protecção, ambiente no lar, recursos financeiros, cuidados de saúde, participação e oportunidades de recreação e lazer, ambiente físico e transporte.
Os cuidadores não associam ter mais ou menos qualidade de vida ao facto de ter também o apoio formal. Apesar de os apoios não se substituírem um ao outro, complementam-se, para o bem-estar do idoso e do cuidador. Para Paúl (1997), o apoio informal é multifacetado devido ao tipo de pessoas envolvidas. Pelo contrário, o apoio formal opera sob um sistema de categorias explícito para avaliar as necessidades, regras formais de procedimento, especialização e coordenação formal das regras de ajuda, critérios objectivos de ajuda, padrões estabelecidos de sucesso. A combinação entre estes tipos de apoio não é tarefa fácil, seja a nível dos técnicos envolvidos no apoio formal, seja a nível dos agentes informais, mas o equilíbrio entre estas duas formas de apoio, seria desejável, em muitos casos.
Para Neri (2001), a qualidade de vida na velhice depende de elementos em interacção, produto de uma história de interacção (vai-se delineando à medida que os indivíduos e as sociedades se desenvolvem); a avaliação da qualidade de vida envolve comparação com critérios objectivos e subjectivos, associados a normas, valores sociais e individuais, sujeitos a alterações no decorrer do tempo.