4 DISCUSSÃO
4.3 Bem-estar e satisfação com o relacionamento
Como apresentado no modelo aqui proposto (Figura 3), o bem-estar individual e a satisfação com o relacionamento são variáveis que se relacionam, bidireccionalmente, com a Percepção da divisão das tarefas familiares.
Sobre o primeiro aspecto – bem-estar individual – os dados obtidos a partir da Escala de
qualidade de vida e da Escala de autoestima, revelaram, na comparação entre os gêneros,
medidas inferiores para as mulheres em relação a todos os aspectos avaliados, com exceção das
relações pessoais. A diferença, no entanto, demonstrou ser estatisticamente significativa apenas
para o domínio psicológico. Neste, as questões da escala que o compõe referem-se à percepção do aproveitamento e do sentido da vida, capacidade de concentração, questões de autoestima e frequência de sentimentos negativos (mau-humor, ansiedade, depressão). É possível sugerir que tais aspectos são fatores associados com o sentimento de sobrecarga e acúmulo de funções, assim como apontado pelo estudo de Ciciolla e Luthar (2019).
O segundo aspecto, a satisfação com o relacionamento, abrangeu especialmente a avaliação do apoio emocional recebido do(a) parceiro(a) relacionados com a conciliação entre demandas profissionais e familiares. Embora os dados terem indicado que as médias masculinas
foram superior às femininas para todos os aspectos avaliados pela escala, não foi encontrada diferença estatisticamente significativa entre os gêneros.
4.3.1 Maternidade e paternidade: bem-estar e satisfação com o relacionamento
Além da avaliação das medidas de bem-estar e satisfação com o relacionamento comparadas entre homens e mulheres, também foi apontado no modelo apresentado (Figura 3) que a variável gênero atuaria em conjunto com a variável ter filhos/idade dos filhos, propondo, assim, a hipótese de que a maternidade e paternidade atuaria de maneiras distintas sobre as demais variáveis.
Inicialmente, a comparação foi realizada entre aqueles participantes que tinham filhos e os que não tinham. A diferença estatisticamente significativa foi observada apenas para o
Domínio físico, sendo inferior para os pais/mães. Considerando que este envolveu a avaliação de
saúde física (dor ou desconforto, energia e fadiga, necessidade do uso de medicação ou tratamentos de saúde com frequência), qualidade do sono e capacidade física para o trabalho, para realizar atividades cotidianas e mobilidade, pode-se considerar que a medida inferior para aqueles que têm filhos pode representar um impacto na saúde física devido a uma maior quantidade de demandas a serem atendidas quando os indivíduos tornam-se pais e mães. Posteriormente, quando realizada a comparação por gênero, pode-se perceber que, entre as mulheres, não houve diferenças estatisticamente significativas entre aquelas que eram mães e as que não eram. Já entre os homens, essa diferença foi observada para o Domínio psicológico, sendo inferior para aqueles que eram pais. Tanto os dados gerais, quanto os dados referentes ao gênero, pode-se perceber que a condição de ter filhos atua sobre as variáveis de bem-estar, especialmente nos aspectos relacionados a saúde física e psicológica.
Em relação à Satisfação com o relacionamento, como apontado, a escala utilizada avaliou especialmente o apoio recebido do(a) parceiro(a) para a conciliação de demandas familiares e profissionais. Para tais aspectos, foi observado diferenças estatisticamente significativas entre os
participantes com e sem filhos. Esses dados podem demonstrar as dificuldades enfrentadas por pais e mães para estabelecer o equilíbrio entre trabalho e família, como é apontado no estudo de Vanalli (2012), que identificou, de maneira quantitativa, que homens e mulheres percebem mudanças negativas no âmbito profissional após a chegada dos filhos. No entanto, ao realizar a comparação de acordo com o gênero, a diferença estatisticamente significativa foi encontrada apenas para as mulheres, sendo todos os aspectos inferiores para aquelas que eram mães. Tais resultados podem ser relacionados com os dados qualitativos do estudo de Vanalli (2012), que demonstraram que as mulheres percebem mais aspectos negativos impactando no trabalho após o nascimento dos filhos do que os homens. Assim, pode-se compreender que, como indica a hipótese apresentada no modelo aqui proposto (Figura 3), as variáveis gênero e ter filhos/idade
dos filhos atuam conjuntamente sobre as demais, indicando que os impactos em esferas
diferentes da vida não são os mesmos para a maternidade e a paternidade.
A partir dos dados encontrados no presente estudo e de estudos anteriores, nota-se que o nascimento dos filhos traz impactos na conciliação entre demandas profissionais e familiares para os indivíduos, em especial para as mulheres. Analisando tais diferenças a partir de uma perspectiva das desigualdades de gênero no contexto familiar, pode-se compreender que o apoio inferior que as mulheres encontram de seus parceiros está pautado na centralidade do papel feminino na família pelo estereótipo de cuidadora. Assim como os dados de pesquisas anteriores demonstram (AVON, 2016) e como Araújo e Scalon (2006) discutem em seu estudo, embora as mudanças sociais e econômicas permitiram a aceitação da função da mulher também como provedora, esta ainda é acompanhada da valorização da ocupação feminina do espaço tradicional (casa e maternidade).
Além disso, o maior tempo dedicado e a maior responsabilidade atribuída às mulheres para a realização das atividades familiares, também pode impactar para que elas percebem um apoio conjugal inferior para a conciliação das demandas profissionais e familiares, visto que podem se sentir sobrecarregadas com o compartilhamento desigual e, consequentemente,
perceberem menos suporte de seus parceiros. Sobre a conciliação de demandas familiares e profissionais, evidenciadas pelas medidas de Satisfação com o relacionamento, vale ressaltar as considerações apontadas por Hirata e Kergoat (2007) sobre o “modelo da conciliação” na divisão sexual do trabalho. Para as autoras, este modelo, embora não restrinja os espaços públicos aos homens e o privado às mulheres (como o modelo tradicional da divisão sexual do trabalho), ainda está distante de uma igualde entre os gêneros. Isso porque, a conciliação entre as duas esferas e os múltiplos papéis cabe, normalmente, quase que exclusivamente às mulheres. É fato que, a necessidade de conciliar demandas familiares e profissionais deriva da entrada expressiva das mulheres no mercado de trabalho e não da maior participação dos homens na esfera doméstica. Assim, a responsabilidade de conciliação recai de forma mais expressiva sobre as mulheres, especialmente sobre aquelas que são mães, como pode ser identificado nos resultados do presente estudo e de estudos anteriores. A influência dessas variáveis sobre a divisão das tarefas familiares será discutida a seguir.
4.4 Percepção da divisão das tarefas familiares
Em relação ao tempo dedicado às tarefas familiares, pode-se notar que não houve diferenças significativas quanto às respostas de homens e mulheres. Embora, especialmente para as tarefas de parentalidade, as mulheres indicaram com maior frequência se dedicarem mais horas, a distribuição para ambos os gêneros foi semelhante. As respostas também se assimilaram para o tempo dedicado a essas tarefas aos finais de semana, em que homens e mulheres indicaram ser superior quando comparado aos dias de semana, especialmente no tempo dedicado aos cuidados com os filhos, como também foi observado em estudo anterior (Vanalli, 2012). É importante destacar que, quanto às tarefas domésticas, os participantes indicaram com frequência que recebiam ajuda de terceiros (familiares ou serviços contratados), o que pode interferir no tempo que relataram sobre dedicar-se a estas. Essa condição é reflexo, provavelmente, do perfil
socioeconômico da amostra, a qual pertencia a classes econômicas elevadas, como indicado na caracterização dos participantes.
Em relação à satisfação com o tempo dedicado às tarefas, as mulheres indicaram sentirem-se menos satisfeitas do que os homens para as atividades domésticas, enquanto para os cuidados com os filhos a média de satisfação foi praticamente a mesma (mediana). Quanto ao sentimento de sobrecarga, as mulheres afirmaram sentirem-se mais sobrecarregadas quando comparadas aos homens, especialmente em relação às atividades de parentalidade. Embora as diferenças não tenham indicado significância estatística, dados no mesmo sentido foram encontrados por outros estudos (Ciciolla & Luthar, 2019; Vanalli, 2012;).
A avaliação da percepção da sobrecarga do(a) parceiro(a) demonstrou que os homens percebem suas parceiras mais sobrecarregadas do que o oposto. Além disso, os homens relataram perceber suas parceiras mais sobrecarregadas do que as mulheres percebem a si mesmas. Já os homens indicaram sentir-se mais sobrecarregados do que como as mulheres percebem seus parceiros.
Essa diferenciação pode ser discutida a partir de algumas hipóteses. É provável que com o aumento do envolvimento masculino na realização das tarefas familiares com o passar dos anos (IBGE, 2019b) os homens se sintam mais sobrecarregados do que são avaliados pelas parceiras por se perceberam realizando mais atividades do que as expectativas sociais os impõe. As mulheres, por outro lado, ao realizarem as tarefas domésticas, agem em concordância com o que é esperado delas socialmente, assim sentem-se menos sobrecarregadas do que é percebido por seu parceiro. Tais expectativas sociais também podem ser explicativas para o fato de os homens terem indicado com maior frequência que as tarefas, especialmente as domésticas, são divididas igualmente, ainda que percebam suas parceiras mais sobrecarregadas do que eles.
Tal hipótese também é discutida pelos estudos de Vanalli (2012) e Cyrino (2009) ao avaliarem a diferença na percepção de homens e mulheres quanto à participação nas atividades domésticas. Ao discutir isso, especialmente no estudo de Cyrino (2009), é apontada a diferença
entre os gêneros enfatizando que, enquanto para as mulheres tais atividades fazem parte de um conjunto múltiplo de funções, para os homens representam um caráter residual, ocupando o tempo “livre” do trabalho remunerado. Assim, pode-se notar a influência da divisão sexual do trabalho, a qual destina à mulher a apropriação do ambiente doméstico (Kergoat, 2009).
Outra hipótese está associada com o gerenciamento das tarefas. Embora a participação masculina tenha aumentado, esta refere-se especialmente às tarefas práticas, como demonstrado pelos dados. Assim, as mulheres podem ter dificuldades de identificar a participação de seus parceiros na realização das tarefas, e consequentemente o quanto eles também podem sentir-se sobrecarregados, dentro dos parâmetros masculinos, visto que o gerenciamento, realizado por elas, envolve uma atuação mais constante, enquanto às tarefas práticas (compartilhadas entre o casal) envolvem uma atuação pontual.
Considerando a percepção da divisão de tarefas de acordo com o tipo, os dados encontrados demonstram perspectivas distintas entre homens e mulheres. Sobre as tarefas domésticas práticas, foi observado que as mulheres se percebem como as principais responsáveis pelo preparo de refeições ao longo da semana e a realização das tarefas de faxina da casa e de cuidados com roupas, assim como a pessoa de referência sobre os conhecimentos domésticos relacionados a tais atividades. Quanto à atribuição ao parceiro, a atividade de “fazer pequenos reparos” e as tarefas financeiras foram as mais indicadas pelas mulheres. Entre as respostas masculinas, a maior tendência foi a dos participantes afirmarem que as tarefas eram divididas igualmente entre ambos. As tarefas em que eles atribuíram como principal responsabilidade sua foram, também, as financeiras e de “fazer pequenos reparos”. Já as tarefas atribuídas com maior frequência à parceira foram aquelas relacionadas à faxina e cuidados com roupas.
As tarefas práticas de parentalidade apresentaram tendência semelhantes entre as respostas, embora com as diferenças entre os gêneros mais evidenciadas. As mulheres tenderam a indicar que realizam majoritariamente os cuidados com os filhos, enquanto os homens responderam mais frequentemente que estes eram divididos igualmente ou realizados
predominantemente pela parceira. As atividades de interação com o filho e de condutas parentais foram as mais indicadas como sendo compartilhadas igualmente, por ambos os gêneros.
Entre as tarefas práticas, pode-se perceber um viés de gênero. As mulheres assumem mais responsabilidades pelas tarefas de limpeza/organização e cuidados; os homens realizam mais atividades de consertos e financeiras e ambos compartilham as atividades de interação e de condutas parentais com os filhos. Tais dados estão em conformidade com aqueles indicados pelo IBGE (2019b), que evidenciam o marco de gênero de acordo com o tipo de tarefa. Nesse sentido, vale destacar que as tarefas associadas ao gênero feminino são constantes para o funcionamento da rotina familiar, enquanto as tarefas destinadas aos homens apresentam um caráter mais esporádico, evidenciando, mais uma vez, a divisão sexual do trabalho (Kergoat, 2009).
Na mesma direção, as tarefas de gerenciamento também indicam a apropriação feminina do espaço doméstico, especialmente na percepção das mulheres. Como os dados demonstraram, entre os homens há a tendência de atribuir menos a si tais tarefas e mais igualmente ou a parceira, enquanto as mulheres afirmam, com maior frequência, serem as principais responsáveis. A diferenciação foi ainda mais evidente em relação aos cuidados com os filhos, em que raramente as tarefas de gerenciamento foram assumidas por ou atribuídas aos homens, como também foi encontrado na literatura que avaliou as tarefas de gerenciamento (Ciciolla & Luthar, 2019; Meier et al., 2006).
Os dados encontrados no presente estudo referente às tarefas de gerenciamento, como indicado, vão ao encontro da literatura apresentada (Ahn et al., 2017; Ciciolla & Luthar, 2019; Meier et al., 2006) demonstrando a importância da avaliação desse aspecto na divisão de tarefas familiares. Além disso, as atividades de gerenciamento evidenciam um outro modelo sobre a divisão sexual do trabalho apresentado por Hirata e Kergoat (2007), o “modelo da delegação”. As autoras apontam que este surge nas sociedades não somente quando as mulheres ingressam no mercado de trabalho, mas sim, quando passam a assumir profissões de nível superior, perfil correspondente às participantes da presente pesquisa. Nesse contexto, as mulheres possuem
meios para delegarem a “outras mulheres” a realização das tarefas domésticas e familiares, como também foi indicado pelos dados. O que é discutido pelas autoras, no entanto, é que, neste modelo, o tradicionalismo é apenas “disfarçado de modernidade”, visto que, da perspectiva da análise de desigualdades de gênero, dois pontos principais são mantidos. O primeiro deles refere- se ao fato de o trabalho doméstico continuar vinculado as mulheres, no caso as domésticas/diaristas/faxineiras. O segundo é que, por detrás da delegação, há quase sempre uma mulher, o que expressa o gerenciamento das demandas domésticas e familiares, ainda que estas sejam terceirizadas a outras mulheres.
Este segundo ponto também se relaciona com outro aspecto do gerenciamento aqui avaliado: a realização da tarefa mediante ao pedido do(a) parceiro(a). Mesmo que não haja a delegação de tarefas a serviços contratados, é frequente que as mulheres deleguem as atividades aos seus parceiros. Os dados demonstraram que, especialmente em relação ao cuidado com os filhos, as mulheres indicam com frequência a necessidade de lembrar/auxiliar/pedir para que o parceiro realize as tarefas; enquanto os homens indicam com menor frequência que as parceiras requisitam esse tipo de auxílio deles. Tais dados podem ser relacionados com os achados dos estudos de Ahn et al. (2017) que identificaram que, nos relacionamentos íntimos, os homens são menos propensos a terem esse comportamento para com suas parceiras. Como as autoras discutem sobre tais resultados, os estereótipos femininos caracterizam as mulheres como comunitárias/educadoras/altruístas, esperando que sejam mais propensas a oferecerem esse tipo de auxílio. Isso reflete em padrões diferentes para os comportamentos de mulheres e homens, sendo que, em relação aos segundos, a cobrança social para se envolverem nesse tipo de trabalho é menos imposta.
Como apresentado no modelo aqui proposto (Figura 3), as variáveis secundárias avaliadas se relacionam entre si, como também com a Percepção da divisão de tarefas
familiares, que foi foco desse estudo. No entanto, como apontado na hipótese levantada, além
sobre algumas das demais, inclusive sobre a questão da divisão de tarefas. Assim, vale ressaltar a análise dos dados encontrados sobre a perspectiva diferenciada da maternidade e paternidade. Como demonstrado pelos dados, as diferenças de homens e mulheres sobre a percepção da divisão de tarefas familiares torna-se mais evidente para aqueles referentes aos cuidados com os filhos. Nesse sentido, é importante contextualizar o conceito de “cuidado”, o qual, para Araújo e Scalon (2005), diz respeito “a provisão diária de atenção social, física, psíquica e emocional às pessoas” (p. 22). A incorporação deste conceito, segundo as autoras, é importante para resgatar aspectos importantes das relações sociais que ocorrem no cotidiano familiar, os quais ultrapassam as atividades mecânicas da rotina doméstica. Após o período industrial, devido aos papéis familiares que se estabeleceram, materializou-se a crença de que a mãe deve dedicar-se integralmente aos filhos (Narvaz & Koller, 2006), sendo insubstituível para o bem-estar infantil e, consequentemente, assumindo um papel de maior relevância quando comparado à paternidade (Botton et al., 2015; Walsh, 2016). Diante dos dados da presentes pesquisa e de pesquisa anteriores (Ciciolla & Luthar, 2019; Vanalli, 2012; Meier et al., 2006), pode-se compreender que tal concepção ainda guia a distribuição de funções familiares entre os casais.
A avaliação aqui realizada das atividades de gerenciamento pincela as questões de cuidado para além de atividades mecânicas, mas estas não esgotam todo o âmbito do cuidado. No entanto, os dados encontrados especialmente na avaliação dessas atividades direcionadas à parentalidade, que vão ao encontro de demais estudos (Ciciolla & Luthar, 2019; Meier et al., 2006), se direcionam para a expressão o estereótipo maternal feminino. Para Cyrino (2012), apesar da presença crescente da mulher no mercado de trabalho colocar em questão o modelo de “dona de casa”, a ideologia que veiculou o papel da mulher essencialmente como maternal ainda permanece forte na sociedade e, portanto, o conceito de “cuidado” exerce uma influência importante na construção da identidade feminina e, consequentemente, reflete no processo de divisão do trabalho doméstico entre um casal.