Objetivo I: Analisar as diferentes perspectivas de morte num grupo de profissionais de saúde que cuidam de doentes terminais.
7.2 Bem-Estar Espiritual em Profissionais que cuidam de Doentes Terminais
Tal como já verificamos a experiência de sentir satisfação na vida, proveniente do bem-estar espiritual, fornece ao individuo um recurso interno para lidar e compreender situações como a dor, a sofrimento ou a morte.164
Musgrave e MacFarlane, realizaram um estudo correlacional e explicativo cuja finalidade era investigar a relação entre a religiosidade, o bem estar-espiritual, e as atitudes relativas ao cuidado espiritual dos enfermeiros israelitas que trabalhavam na área da oncologia, tendo em consideração as variáveis de idade, etnia e educação. Os resultados demonstraram que as atitudes dos enfermeiros, em relação ao cuidado espiritual são influenciadas pela sua educação, religiosidade e bem-estar espiritual. Nas implicações do estudo os autores referem que o bem-estar espiritual é um
162
WESSEL, E; RUTLEDGE, D (2005) - Home Care and Hospice Nurses' Attitudes Toward Death and Caring for the Dying: Effects of
Palliative Care Education. Journal of Hospice & Palliative Nursing: July/August 2005 - Volume 7 - Issue 4 - p 212–218
163
HEGEDUS, K, ZANA, Á and SZABÓ, G (2008) - Effect of end of life education on medical students and health care workers' death
attitude. Palliative Medicine 2008; 22: pp.264-269
164
VOLCAN, S. et al. (2003) – Relação entre Bem-Estar Espiritual e transtornos psiquiátricos menores: estudo transversal. Revista de Saúde Pública, 37 (4):440-5
92 bom preditor de atitudes positivas face aos cuidados espirituais, pelo que deve ser tido em consideração. 165
Outra investigação interessante realizada por Holland, Robert e Neimeyer, pretendia, explorar em que medida fatores como a espiritualidade e o nível de formação dos profissionais de saúde que lidam com doentes terminais e com as suas famílias, podem atenuar o stress vivenciado e o risco de burnout. Os resultados indicaram que as experiências espirituais diárias podem amenizar o risco burnout no trabalho. No entanto, a formação não foi relacionada com o nível de exaustão emocional dos profissionais. Assim, os resultados deste estudo reforçam a crescente literatura sobre os efeitos benéficos da espiritualidade, e destacam a sua relevância para os profissionais de cuidam de doentes em fim de vida. O estudo traz outras implicações para a forma como as tensões desse trabalho pode ser melhoradas através de programas de educação avançados, bem como de facilitação criativa de diversas expressões espirituais no local de trabalho.166
Na pesquisa bibliográfica que realizamos não encontramos nenhum estudo que aplicasse o instrumento que utilizamos em profissionais de saúde, pelo que não possível comparar resultados neste âmbito.
Na nossa investigação verificamos que os resultados mostraram que a escala comunitária, obteve resultados médios superiores quando comparada com as outras escalas, seguida da escala pessoal, ambiental e por fim a escala Transcendental. Assim os profissionais que cuidam de doentes terminais, que constituem a nossa amostra parecem acreditar que as relações humanas com um carácter profundo têm um impacto positivo no bem-estar e nas suas vidas dão especial relevância ao amor, confiança e respeito pelos outros, no entanto também acreditam que os seus recursos internos são indispensáveis para um autoconhecimento e para traçar um sentido para a vida. Já no que respeita às relações que se estabelece com a natureza e com Deus através de expressões de fé parecem ter menos relevância para esta amostra.
No que concerne à variável do género dos participantes verifica-se que não existem diferenças estatisticamente significativas entre homens e mulheres para as escalas de Bem-Estar Espiritual.
165
MUSGRAVE CF ; McFarlane, EA (2004) - Israeli oncology nurses' religiosity, spiritual well-being, and attitudes toward spiritual
care: a path analysis. Oncology Nursing Forum (ONCOL NURS FORUM), 2004 Mar; 31 (2): 321-7. (37 ref)
166
JASON M. HOLLAND, ROBERT A. NEIMEYER (2005) - Reducing the risk of burnout in end-of-life care settings: The role of
daily spiritual experiences and training, Palliative & Supportive Care / Volume 3 / Issue 03 / September 2005, pp 173-181
93 Também podemos referir que para a amostra populacional que estudamos a variável profissão não influencia os resultados médios obtidos nas diferentes escalas de Bem-Estar. O mesmo se pode dizer relativamente ao tempo de exercício de profissão.
No entanto a análise revelou que relativamente à formação específica em cuidados paliativos, verificou-se que sujeitos com formação específica nesta área obtiveram resultados médios superiores na escala Pessoal quando comparados com os sujeitos que não obtiveram.
Da mesma forma os resultados revelaram que sujeitos que nunca obtiveram formação específica em cuidados paliativos apresentam resultados médios inferiores na escala Comunitária quando comparados com aqueles que obtiveram esta formação. O mesmo se passa relativamente à escala ambiental. Por fim, a escala Transcendente não apresenta diferenças entre sujeitos com/sem formação específica em cuidados paliativos.
Podemos então afirmar que para a amostra em questão a formação específica em cuidados paliativos influencia o bem-estar espiritual dos indivíduos. A visão holística do ser humano inerente aos cuidados paliativos, bem como a tónica dada ao respeito pela dignidade humana, pode influenciar a forma com o profissional encara a vida, e tal ter impacto no seu bem-estar espiritual.
Tal como referem Machado, Pessini e Hossne “A dor, o sofrimento e a espiritualidade são tratados pelos cuidados paliativos, que buscam atender o ser humano na sua globalidade de ser na fase final de vida. Sua ênfase está num trabalho multidisciplinar com atitudes de cuidados frente à realidade da finitude humana.” 167
A filosofia dos cuidados paliativos pressupõe neste sentido, o desenvolvimento de atitudes de respeito e acolhimento, bem como a aquisição de valores referentes à vida humana que aliados ao conhecimento científico vão contribuir para práticas humanizadas.
Nos últimos anos assistiu-se a um investimento significativo ao nível da formação dos profissionais de saúde no âmbito dos cuidados paliativos e a outros temas que estão intimamente associados a este. No entanto o ensino sobre estas matérias, ainda são limitadas e pouco estruturado. 168
Neste sentido é nossa convicção que se continue a investir na formação nesta área.
167
MACHADO, K.; PESSINI, L; HOSSNE, W (2007) – A formação em cuidados paliativos da equipa que atua em unidade de terapia
intensiva: um olhar da bioética. Bioethikos - Centro Universitário São Camilo1(1):34-42 , p.36 Acedido a 12.01.2013,
Disponível em : http://www.saocamilo-sp.br/pdf/bioethikos/54/A_cuidados_paliativos.pdf
168
BIFULCO, Vera; IOCHIDA, Lúcia (2009) - A formação na graduação dos profissionais de saúde e a educação para o cuidado de
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