• Nenhum resultado encontrado

BENEFÍCIO DECORRENTE DE CONTRATO DE SEGURO

4 ANÁLISE SOBRE A APLICAÇÃO DOS EFEITOS JURÍDICOS PATRIMONIAIS

4.4 BENEFÍCIO DECORRENTE DE CONTRATO DE SEGURO

Do latim securus, o seguro se traduz no sentido de livre e isento de perigos e cuidados, posto a salvo, garantido. No sentido jurídico, designa o contrato em virtude do qual um dos contratantes assume a obrigação de pagar ao outro, ou a quem este designar, uma indenização, um capital ou uma renda, no caso em que advenha o risco indicado e temido, obrigando-se o segurado a lhe pagar o prêmio que se tenha estabelecido (VENOSA, 2006). Conforme o art.

757, do Código Civil/2002, “pelo contrato de seguro, o segurador se obriga, mediante o pagamento do prêmio, a garantir interesse legítimo do segurado, relativo à pessoa ou a coisa, contra riscos predeterminados (BRASIL, 2002).

O seguro é usado como uma ferramenta de socialização de riscos, para o qual os segurados contribuem para a constituição de um fundo destinado a cobrir, ainda que parcialmente, os prejuízos que alguns deles sofrer. É a denominada mutualidade dos sócios, de forma que o pagamento dos prêmios deve ser feito obrigatoriamente através da rede bancária (GONÇALVES, 2007). A Lei 5.627/70, art. 8º estabelece que: a cobrança de prêmios de seguros será feita, obrigatoriamente, através de instituição bancária, de conformidade com as disposições da SUSEP em consonância com o Banco Central do Brasil (BRASIL, 1970).

Segundo Dias (2018), na união estável, a contemplação do companheiro assegurado só ocorrerá se foi expressamente indicada em seguro instituído depois do fim do casamento do segurado. Caso, as exigências feitas não forem atendidas, a indenização é paga ao ex-cônjuge, que recebe o capital segurado, o que ocorre, então, por falta da formalização da dissolução do casamento.

Concubino como beneficiário de seguro: Sobre a questão da nomeação de concubina como beneficiária em seguro de vida tem-se que se considerar então a noção de concubinato como ‘concubinato impuro’, pois, em relação ao antigo ‘concubinato puro’, atual ‘união estável’, o STJ já decidiu que é válida a designação de companheira como beneficiária em seguro de vida, bem como consta da permissão do art. 793, do Código Civil: “Art. 793: É válida a instituição do companheiro como beneficiário, se ao tempo do contrato o segurado era separado judicialmente, ou já se encontrava separado de fato (BRASIL, 2002).

Conforme Gonçalves (2007) é válida a instituição do companheiro como beneficiário, se ao tempo do contrato o segurado era separado judicialmente, ou já se encontrava separado de fato. Para Dias (2018), a consagração constitucional do princípio da afetividade, como elemento constitutivo dos elos de convivência, faz com que, na falta de indicação de

beneficiário na apólice, seja contemplado com a indenização securitária quem dividiu a vida com outro alguém até sua morte.

No que se refere ao benefício decorrente de contrato de seguro, apresenta-se a decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, em Apelação Cível nº03465776720148190001, relator Desembargador Plínio Pinto Coelho Filho, julgamento em:

03/04/2019, Décima Quarta Câmara Cível, pela qual a companheira foi reconhecida como beneficiária do seguro de vida, negando-se o direito à concubina, como segue:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CONSIGNATÓRIA. BENEFICIÁRIA INDICADA NO SEGURO DE VIDA COMO COMPANHEIRA. ESTIPULANTE QUE VIVIA EM UNIÃO ESTÁVEL COM OUTRA MULHER. SENTENÇA QUE JULGOU IMPROCEDENTE A DEMANDA E DETERMINOU O LEVANTAMENTO DO VALOR PELA BENEFICIÁRIA INDICADA NO CONTRATO. RECURSO DA COMPANHEIRA. 1. Capital estipulado no contrato de seguro de vida que não se confunde com a herança. Art. 794 do CC. 2. Liberdade de contratar, da qual se extrai a regra geral, que garante liberdade de indicar qualquer pessoa como beneficiária. 3.

Exceção limitadora, com fundamento no art. 550 e 793 do CC, que proíbe a indicação da concubina como beneficiária. Proteção à entidade familiar. 4.

Configurada a relação de concubinato entre o estipulante e a beneficiária. Nulidade da cláusula. 5. Aplicação da regra do art. 792 do CC. Pagamento de 50% (cinquenta por cento) da indenização à companheira, e outra metade aos herdeiros. 6.

Existência de herdeiros que não integram a relação processual. Transferência do quinhão dos herdeiros ao Juízo no qual tramita o inventário. 7. Ônus sucumbenciais da Sra. Maria Hildaci, que deu causa à demanda. Teoria da Causalidade. 8. Recurso provido. (TJ-RJ - APL: 03465776720148190001, Relator: Des(a). PLÍNIO PINTO COELHO FILHO, Data de Julgamento: 03/04/2019, DÉCIMA QUARTA CÂMARA CÍVEL). (RIO DE JANEIRO, 2019).

Segundo referida decisão, o capital estipulado no contrato de seguro de vida não se confunde com herança, conforme art. 794 do CC, garantindo-se a liberdade de indicar qualquer pessoa como beneficiária, com exceção limitadora, com fundamento no art. 550 e 793 do CC, que proíbe a indicação da concubina como beneficiária. Esta situação foi configurada como relação de concubinato entre o estipulante e a beneficiária, havendo, portanto, nulidade da cláusula, onde se aplicou a regra do art. 792 do CC. Decidiu-se aqui, o pagamento de 50% (cinquenta por cento) da indenização à companheira, e outra metade aos herdeiros, sendo que a existência de herdeiros que não integram a relação processual, havendo transferência do quinhão dos herdeiros ao Juízo no qual tramita o inventário dando causa à demanda, a partir da teoria da causalidade, sendo assim, o recurso provido.

Por sua vez, o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, em Apelação Cível nº 03000391120168240036, relator Jairo Fernandes Gonçalves, julgamento em: 06/10/2020, 5ª Câmara de Direito Civil, reconheceu o direito da companheira e do cônjuge (varoa) separada de fato, referente ao seguro de vida em grupo, por morte do segurado, com ausência de

indicação de beneficiários na apólice e pagamento administrativo feito aos filhos do falecido com consignação de metade do valor do capital segurado, como segue:

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO CIVIL. AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO. SEGURO DE VIDA EM GRUPO. MORTE DO SEGURADO.

AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DE BENEFICIÁRIOS NA APÓLICE. EXEGESE DOS ARTIGOS 792 E 793 DO CÓDIGO CIVIL. PAGAMENTO ADMINISTRATIVO FEITO AOS FILHOS DO FALECIDO. CONSIGNAÇÃO DE METADE DO VALOR DO CAPITAL SEGURADO. SENTENÇA QUE RECONHECEU O DIREITO DA COMPANHEIRA E DA CÔNJUGE SEPARADA DE FATO. INSURGÊNCIA DA VIÚVA. ALEGAÇÃO DE QUE FAZ JUS AO RECEBIMENTO INTEGRAL DA OUTRA METADE DO PRÊMIO.

RELAÇÃO ILEGAL. CONCUBINATO. DESCABIMENTO. PROVA ROBUSTA DA EXISTÊNCIA DE UNIÃO ESTÁVEL. INTERPRETAÇÃO SISTEMÁTICA E TELEOLÓGICA DO ARTIGO 792 DO CÓDIGO CIVIL. DIVISÃO IGUALITÁRIA ENTRE O CÔNJUGE NÃO SEPARADO JUDICIALMENTE E O CONVIVENTE ESTÁVEL. PRECEDENTES DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA E DESTA CORTE. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. (TJ-SC-APL: 03000391120168240036 TJSC 0300039-11.2016.8.24.0036, Relator: JAIRO FERNANDES GONÇALVES Data de Julgamento: 06/10/2020, 5ª Câmara de Direito Civil). (SANTA CATARINA, 2020).

Sendo assim, a sentença reconheceu o direito da companheira e do cônjuge (varoa) separada de fato, onde a viúva em rebeldia alegou que merecia o recebimento integral da outra metade do prêmio. No entanto, tratando-se de uma relação de concubinato, mas com prova reforçada da existência de união estável. Assim, a sentença foi mantida e o recurso conhecido e desprovido.