CAPÍTULO 3 A ESTRUTURA DE OFERTA DE ALIMENTOS NO BRASIL
3.4 O “BENEFICIAMENTO” INDUSTRIAL
Pesquisa realizada por Louzada et al (2015), a partir de dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2008-2009, ilustrava uma tendência entre as famílias brasileiras de substituírem refeições baseadas em alimentos in natura ou com processamento mínimo pelas baseadas em produtos ultraprocessados. De acordo com o trabalho, a construção
individual de uma trajetória obesogênica a partir da falta de educação alimentar é um limitante à capacidade da população discernir potenciais riscos à saúde provenientes dos novos hábitos alimentares, principalmente porque os problemas como obesidade, hipertensão e diabetes se desenvolvem em períodos relativamente longos. A ausência de conhecimento e instrução alimentar são problemas relevantes, contudo a dimensão da oferta é determinante.
A questão dos hábitos de consumo pode ser analisada como um dos reflexos da trajetória de conduta concorrencial das indústrias do setor de alimentação e a ausência de regras rígidas para a SAN. Belik (2001, p.104), aponta as mudanças no poder de mercado das grandes indústrias de alimentos em território nacional, a partir do processo de desregulamentação da década de 1990. Configura-se, segundo o autor, uma estratégia competitiva agressiva e regionalizada, sobretudo no que tange o poder dos grandes oligopólios sobre os segmentos fornecedores, como adiantamos ao tratarmos do novo paradigma agropecuário.
Ora, a estratégia corporativa se faz, similarmente, a partir da gestão de custos dos insumos e o ultraprocessamento para potencializar seu aproveitamento. Paralelamente, o acirramento da concorrência exige investimentos em maior apelo comercial, através de inovações em marketing. Nesse contexto, a lógica de produção industrial se torna progressivamente mais destrutiva e dissociada da saúde e da cultura alimentar da população, na medida em que busca ofertar uma maior quantidade de produtos com maior apelo hedônico, sob insumos e processos de mais baixo custo.
O cenário de acirramento da concorrência internacional permanece como traço marcante do capitalismo contemporâneo e a busca por vantagens competitivas para a acumulação de capital perpassa, necessariamente, pela cumplicidade dos Estados nacionais, que assim adaptam seus regramentos trabalhistas, ambientais, fiscalizatórios, industriais, agrícolas, etc. Nesse ambiente, a regulação pública da indústria alimentícia teria três papéis: o primeiro seria prevenir a “deseducação” alimentar da propaganda e a “desinformação” das embalagens dos produtos, construindo alternativas educativas a partir dos valores da saúde nutricional e da cultura alimentar nacional e regional; o segundo, ainda mais relevante, seria delimitar o campo da acumulação, desde as inovações de produto e processo até o desincentivo fiscal à produção de mercadorias que, como o tabaco, configuram problemas de saúde pública; o terceiro, referente à dinâmica do desenvolvimento industrial, seria o de promover e incentivar o uso de métodos e a concepção de produtos seguros, sustentáveis e de melhor qualidade nutricional.
São diversos os estudos apontando a dificuldade de formulação e implementação de uma regulação mais rígida sobre a produção industrial e sobre o marketing dos produtos alimentícios no Brasil a partir da década de 1990. A insuficiente regulação normativa da indústria implicou em limitantes importantes ao avanço da SAN entre 1995 e 2015, sobretudo no que se refere à qualidade dos alimentos produzidos e a “deseducação alimentar” empenhada pelo marketing empresarial. Cunha et al (2000) discutem as limitações institucionais para o direcionamento de políticas públicas, inclusive sobre a regulação das indústrias, para a segurança alimentar a nível municipal. Henrique, Dias e Burlandy (2014) discutem as deficiências da regulação da propaganda de alimentos no Brasil, em especial àquelas direcionadas ao público infantil. Magalhães (2015, p. 130), por sua vez, destaca que:
De acordo com o GT „Indicadores e Monitoramento‟ do Consea, além de ser o maior comprador de agrotóxicos do mundo, o Brasil convive com o risco ainda não mensurável da liberação de sementes transgênicas, do consumo de alimentos com alto teor de sal, gordura e açúcar e, como desdobramento desse padrão alimentar, com o aumento de obesidade, diabetes e hipertensão arterial. Há, segundo o GT, uma diminuição expressiva no consumo de alimentos como arroz, feijão, peixe, hortaliças e frutas, combinada de maneira preocupante com o aumento do consumo de bebidas adoçadas e refeições prontas. No entanto,diferentemente do que ocorre em outros países onde existem instâncias públicas específicas e articuladas para monitorar a qualidade dos alimentos destinados à população, no Brasil há um conflito de competências entre os diferentes órgãos governamentais.
A autora se refere à fragmentação institucional da regulação dos alimentos no país que, ao final do período, ainda se dividia entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), responsável pela qualidade dos processos e dos alimentos finais in natura, de origem animal e vegetal; o Ministério da Saúde (MS), responsável pelas regras de rotulagem e propaganda e pela qualidade dos alimentos processados e ultraprocessados, através da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA); e o Ministério do Meio- Ambiente, responsável pela proteção da biodiversidade e dos ecossistemas a partir do controle dos locais e métodos de produção (MAGALHÃES, 2017). Visões antagônicas entre os ministérios sobre diversas instâncias da estrutura de oferta, como o uso de insumos transgênicos, por exemplo, em meio à permissividade do lobby corporativo, colaboraram para a manutenção de uma regulação inapropriada à garantia de qualidade dos alimentos.
A precariedade da regulação industrial no período da globalização financeira não é um processo restrito ao Brasil (NESTLE, 2018). Na medida em que o processamento industrial se tornara cada vez mais um sinônimo de redução da qualidade e segurança dos alimentos, a literatura acadêmica, ONGs e instituições multilaterais passaram a advogar pelo desincentivo ao consumo de produtos processados (conservas, alimentos pré-preparados, temperados, etc.)
e ultraprocessados (salgadinhos, refrigerantes, biscoitos, etc.). É neste sentido que a análise de Drewnosky e Specter (2004) sugeria que a obesidade contemporânea global deveria ser interpretada à luz dos ganhos de produtividade dos sistemas de oferta de alimentos industriais. Os alimentos processados, para os quais a ausência de regulação adequada implicara em crescentes concentrações de sódio, açúcares e gorduras, tenderiam a oferecer mais energia a custos cada vez mais baixos quando comparados aos produtos in natura, como frutas e hortaliças.
O papel da precariedade da regulação industrial sobre a trajetória da obesidade e de sua rápida expansão entre as populações de baixa renda no Brasil passou a ser abordada dentro de um plano intersetorial proposto pela CAISAN somente a partir de 2011. O Plano Intersetorial de Prevenção e Controle da Obesidade mirava mudanças nos padrões de consumo individuais de alimentos e hábitos sedentários, por um lado, e transformações nos ambientes alimentares obesogênicos, por outro. No entanto, a análise de Dias et al (2017) e de Souza e Carvalho (2019) esclarecem a animosidade entre as indústrias alimentícias nacionais e transnacionais e os órgãos do SISAN frente às proposições de mudanças no ambiente. Estas implicariam em regulações públicas restritivas, com caráter de lei, sobre as estratégias de concorrência do setor, perpassando o marketing, a composição do produto, as estratégias de distribuição e os processos produtivos, afetando diretamente suas margens - na medida em que demandam novos métodos e investimentos - assim como a imagem das companhias ante a sociedade. Em contrapartida, as propostas de acompanhamento e conscientização dos hábitos de consumo e atividades físicas, dependentes da iniciativa dos consumidores, além de mais baratas para o Poder Público, foram acatadas pela indústria e facilmente incorporadas às suas estratégias.