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BENS PRIMÁRIOS E AS DOUTRINAS ABRANGENTES

2 JOHN RAWLS: A JUSTIÇA COMO EQUIDADE EM OPOSIÇÃO

3.2 BENS PRIMÁRIOS E AS DOUTRINAS ABRANGENTES

O critério que leve em conta a busca da felicidade para o maior número de pessoas, ainda que, pelo princípio sacrifical, uma minoria sofra em prol da maioria bem-aventurada, como é o critério utilitarista, é um critério compatível com as injustiças distributivas justificadas pelo racional dessa filosofia moral, razão pela qual Rawls rejeita o Utilitarismo (KUNTZ, 2011).

De acordo com o filósofo, para qualquer discussão que se queira promover acerca do sistema distributivo, exige-se prévia satisfação daquelas condições de igualdade e oportunidade, pois é a partir desse ponto, ou seja, da certeza de que tais condições igualitárias tenham sido observadas, que se vai cogitar das curvas de distribuição. Daí a importância do que Rawls chama de bens primários:

Dito isto, queria só concluir com uma observação que é a seguinte: lá na terceira parte, a respeito dos bens, quando Rawls insiste em dizer que é preciso ter uma teoria do bem que seja fundamento daquilo que vem das partes anteriores, e ele desenvolve uma teoria fraca e uma teoria completa do bem, ele introduz uma noção de um princípio aristotélico e, não por estudar Aristóteles, eu queria fazer uma rápida observação sobre isso: mas a ideia, que é uma passagem muito bonita em que ele diz lendo a ética de Aristóteles, especialmente os dois tratados do prazer, vejam que

curioso, no livro sétimo e no livro décimo, no início do livro décimo da Ética a Nicômaco, de Aristóteles, Rawls se inspira naquilo e discute com pessoas muito talentosas nos meios aristotélicos, na época, ele, de fato, faz uma referência na nota a John Cooper, um dos maiores especialistas em Platão e Aristóteles. (WOLF, 2017, 39’2”, grifos nossos).

De fato, Rawls salienta que sua teoria tem por escopo atuar na realidade das democracias ocidentais, sendo seu maior desafio a concepção de um desenho que, ante uma sociedade profundamente dividida por ideologias abrangentes como as religiosas, as visões políticas, econômicas, filosóficas etc., e conjugando os valores da liberdade e da igualdade, possibilite a coexistência pacífica dos vários grupos que integram a sociedade política pelo consenso acerca do que seja possível transigir ou sobrepor em valores de cada ideologia, de modo que se chegue a princípios de justiça que possam induzir a uma percepção do que seja uma sociedade justa.

Esse exercício perpassa necessariamente, como condição de superação das etapas dessa concepção, por um consenso mínimo do que seja o bem, dado que a diversidade cultural tende a uma necessária divergência nesse campo, assim como em outros.

Uma das relevantes divergências com o Utilitarismo é o fato de que, neste, o Estado deve se incumbir da maximização da felicidade e da utilidade para que a sociedade possa dela fruir. No entanto, para Rawls essa não é a função do Estado:

Uma concepção política efetiva de justiça inclui, portanto, um entendimento político sobre o que deve ser publicamente reconhecido como as necessidades dos cidadãos, e por isso, como benéfico a todos. No liberalismo político, o problema das comparações interpessoais surge da seguinte forma: dadas as concepções abrangentes e conflitantes de bem, de que maneira é possível chegar a esse tipo de entendimento político em relação ao que deve ser considerado como exigências apropriadas? A dificuldade é que o Estado não pode agir no sentido de maximizar a satisfação das preferências ou aspirações racionais dos cidadãos (como no utilitarismo), nem promover a excelência humana, nem os valores da perfeição (como perfeccionismo), assim como não pode promover o catolicismo ou o protestantismo, nem qualquer outra religião. (RAWLS, 2000, p. 226, grifos nossos).

Para Kuntz (2011), nesse quesito, Rawls segue alinhado com Kant, que tem a percepção de que não cabe ao Estado proporcionar felicidade aos indivíduos, mas sua função é garantir condições iguais de liberdade para que busquem a realização

pretendida, sob pena de violação da condição das pessoas de serem livres numa sociedade pautada pelo valor do pluralismo e por elevados padrões de tolerância.

Como é da essência da teoria da justiça como equidade a conciliação possível da diversidade cultural em busca de pontos de interesse comuns dos quais se possa derivar aqueles princípios de justiça a que todos voluntariamente se submetam, Rawls entende inconveniente que não se promova nenhuma das visões religiosas, filosóficas, políticas, dado que, ao se proceder assim, estar-se-ia atribuindo preponderância ao valor, ao propósito da vida humana, e à visão de mundo da doutrina abrangente eleita (RAWLS, 2000, p. 227).

As dificuldades nesse campo começam nas divergências sobre o que deve ser entendido como bens primários, em termos funcionais à vista do propósito da teoria da justiça como equidade. Daí a sugestão de classificação desses bens:

A lista de bens primários (que pode aumentar, caso seja necessário), pode ser dividida nas cinco categorias seguintes: a. os direitos e as liberdades fundamentais, que também constituem uma lista; b. liberdade de movimento e livre escolha de ocupação num contexto de oportunidades diversificadas; c. poderes e prerrogativas de cargos e posições de responsabilidade nas instituições políticas e econômicas da estrutura básica; d. renda e riqueza; e. as bases do autorrespeito. (RAWLS, 2000, p. 228, grifos nossos).

Segundo Kuntz (2011), a teoria dos bens primários, de Rawls, como sendo aqueles bens indispensáveis ao ser humano para a realização de seus projetos de vida, apesar de ter sido delineada na publicação de Uma Teoria da Justiça em 1971, é ainda hoje mais provocante que à época. Daí ele retomar o tema da concepção de bens primários em O Liberalismo Político, de 1993.

Mas, dada a capacidade de assumir a responsabilidade por seus próprios fins, não vemos os cidadãos como portadores passivos de desejos. Essa capacidade faz parte da capacidade moral de formar, revisar e procurar racionalmente realizar uma concepção do bem; é de conhecimento público transmitido pela concepção política, que os cidadãos devem ser considerados responsáveis. Supomos que, ao longo da vida, tenham ajustado aquilo de que gostam e aquilo do que não gostam à renda, riqueza e posição social que é razoável esperar que tenham. É considerado injusto julgar que deveriam ter menos agora, a fim de poupar outros das consequências de sua falta de previsão ou autodisciplina. [...] (RALWS, 2000, p. 234, grifo nosso).

Na concepção da teoria está embutida a noção de que as pessoas são capazes de revisar suas preferências e objetivos à luz das próprias expectativas com relação aos bens primários, de modo que tais bens se articulem com interesse de ordem superior associadas às capacidades morais de senso de justiça e de concepção do bem, permitindo assim, que os bens primários possam ser tomados por referência e como critérios públicos de justiça política. Como afirma Rawls:

Finalmente, o uso de bens primários supõe também que a concepção pública de pessoa que está na base dessas duas suposições é pelo menos implicitamente aceita como ideal subjacente à concepção pública de justiça. Caso contrário os cidadãos estariam menos dispostos a aceitar a responsabilidade no sentido que se requer. Com essa definição de bens primários, respondemos nossa principal questão (apresentada no início de §3.2), qual seja, como é possível, dado o fato do pluralismo razoável, um entendimento público relativo ao que é considerado benéfico em questões de justiça política. [...] Com isso quero dizer que podemos de fato apresentar um sistema de liberdades básicas iguais e oportunidades equitativas que, quando implementado pela estrutura básica, garante a todos os cidadãos, o desenvolvimento adequado e o pleno exercício de suas duas capacidades morais, além de uma distribuição equitativa dos meios polivalentes essenciais para promover suas concepções específicas (e permissíveis) do bem.