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4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.2 Segundo Momento: Atividade Livre

4.2.4 Bernardo

e. Conclusão das Brincadeiras Livres de Paula

O que se destacou foi a terceira língua que utiliza: “a língua inventada’. É a combinação da língua inglesa com os sons que escuta das professoras, criando assim uma nova forma de comunicação, no qual só ela entende. Costuma usar nas brincadeiras livres, sozinha, utilizando-se da fala egocêntrica sem interesse social, ou com a professora assistente/pesquisadora, que para entender melhor essa linguagem, fingiu entender algumas questões para incentivar a aluna a conversar.

É notável que a aluna utilize uma linguagem própria na tentativa de fazer uma imitação da linguagem utilizada pela professora. Uma questão importante é que a aluna consegue adequar palavras da língua inglesa de forma a montar um contexto em suas conversas. Essa questão se confirma com as palavras utilizadas e alguns gestos que a aluna faz, apontando as cores quando fala ou o local quando quer dizer uma orientação.

Muitas vezes, a língua inventada surgiu como uma forma de contar história, gesticulando para compreender melhor. Quando procurava interagir com a professora, incluía algumas palavras em inglês e logo em seguida, continuava seu discurso nessa língua.

Bernardo: Aaahh (som de força).

Pesquisadora: What Color is this one? (Qual cor é essa aqui)?

Bernardo: Yellow. (Amarelo).

Pesquisadora: Green. (Verde).

Bernardo: Aaahh uuurg (som de força).

Bernardo: Outro amarelo. Agora, agora azul.

Pesquisadora: Which one Bernardo? (Qual Bernardo)?

Bernardo: Blue! (Azul)!

O aluno Bernardo procura oralizar suas ações, com o intuito de mostrar para a professora o que está fazendo. Todas as vezes que fala uma frase, procura olhar a reação da professora e continuar a brincar. Algumas vezes, espera a reação do colega, como acontece em seguida:

Pesquisadora: And this is? (E esse é)?

Bernardo: Yellow! (Amarelo)!

Bernardo: Eu vou fazer grande!

Bernardo: Eu vou fazer bem grande, assim olha, desse tamanho (mostrando com os braços).

Boy: Tá vendo que não ta caindo. Se cair já era não é? Eu acho que vou tirar um pedaço.

Bernardo: Não vai cair não.

Boy: Eu... eu vou só tirar.

Bernardo: Aaarrhh (som de força).

Bernardo: É, não caiu.

Logo após, Bernardo volta sua atenção, novamente, para a pesquisadora/professora assistente, invertendo a situação de pergunta e resposta. Dessa vez, ele perguntava e a pesquisadora/professora assistente responderia as questões. Nas respostas, optou-se por responder, algumas vezes, de forma errada para observar qual seria a reação do aluno, que corrigiu todas as respostas. Houve uma mistura das palavras que o aluno sabia e estava escutando, tentando criar as frases da forma que acreditava ser correta. Em outras sessões, essas conversas ficaram difíceis de serem transcritas, por aparecer palavras semelhantes com a da aluna Paula, apenas com a sonoridade parecida com a língua inglesa.

As palavras difíceis de serem transcritas estão sublinhadas.

Bernardo: What is this? (O que é isso)?

Pesquisadora: Green. (Verde).

Bernardo: An other... another color? (Outra cor)?

Pesquisadora: Blue. (Azul).

Bernardo: And this another color? (E essa outra cor)?

Pesquisadora: Hum…Red? (Hum... vermelho)?

Bernardo: And this is a color? (E essa é a cor)?

Pesquisadora: Green. (Verde).

Bernardo: No, yellow. (Não, amarelo).

Bernardo: And this… this... this is a color? (E essa… essa… essa é a cor)?

Pesquisadora: Purple. (Roxo)

Bernardo: Green! And this is a color? (Verde! E essa é a cor)?

Pesquisadora: Blue! (Azul)!

Bernardo: Yes! And this is color? (Sim! E essa é a cor)?

Pesquisadora: Hum… green. No? (hum... verde. Não)?

Bernardo: Blue! And… color? (Azul! E... cor)?

Pesquisadora: Green? (Verde)?

Bernardo: Blue (Azul)! Ops caiu! Aqui, ta grande! Be ni a color (cor)? Yellow (Amarelo)!

One a color (Uma cor)?

Pesquisadora: Pink? (Rosa)?

Bernardo: Blue. (Azul).

A medida que ia corrigindo, o aluno colocava as peças construindo uma torre.

Bernardo, além de corrigir, tentou formar as frases na língua inglesa, construindo da forma que achava correto. Nesse dia, ficou claro que com o incentivo da pesquisadora/professora assistente para utilizar a língua inglesa, o Bernardo interagiu na mesma língua, recorrendo a língua materna apenas no momento de interação com o colega.

b. Brincadeira Livre 02

A brincadeira livre desse dia observada, o aluno Bernardo sentou-se ao lado da aluna Clara para brincar com blocos de encaixe tamanho grande. Por eles terem brincado juntos, será utilizada a mesma observação, porém com ênfase nas ações e falas do Bernardo.

Na mesa estavam três crianças, sendo duas delas, Clara e Bernardo, e a pesquisadora/professora assistente.

Apesar de Clara tentar manter um diálogo com Bernardo, pois eles estavam construindo o mesmo brinquedo, Bernardo não respondeu nada, apenas colocou seus blocos, fazendo sons de força, demonstrando ser difícil encaixar as peças.

Clara: Chegamos perto!

Bernardo: Uuuhh (som de força).

Clara: Agora sim!

Bernardo: Aaahh (som de força).

Os blocos caíram no chão, desmontando toda a torre e gerando muitas risadas.

Em seguida, as crianças começaram a conversar utilizando a língua portuguesa:

Bernardo: Caiu!

Boy: Tem que fazer tudo de novo!

Clara: Vou ter que fazer tudo de novo! Vou fazer com todas as peças agora!

Bernardo: Uuhh (som de força)

Pesquisadora: Where are you? (Onde está você)?

Clara: Embaixo da mesa… pegar as peças…

Pesquisadora: What’s that Clara? (O que é isso Clara)?

Clara: Tower… (Torre)...

Quando percebeu a interação da colega com a pesquisadora/professora assistente, o aluno Bernardo utilizou o inglês para se comunicar, relembrando uma das brincadeiras que costumava fazer: mostrar as cores.

Bernardo: Miss... Green! (Professora... verde)!

Após, a torre acabou sendo destruída, o que gerou muitos risos entre as crianças. Nesse dia, o aluno Bernardo não quis interagir verbalmente com seus colegas, ficou apenas brincando junto, para construir uma torre cada vez maior. Quando resolveu interagir com seus pares, utilizou a língua materna, mas ao ouvir a colega falando em inglês, Bernardo procurou interagir nessa língua. Mesmo assim, o aluno passou mais tempo quieto, fazendo apenas sons de força para poder cumprir o objetivo de fazer uma torre alta. A interação entre

pares influencia no aprendizado das crianças, porém percebemos que Bernardo não quis se comunicar, apenas participou da interação sem utilizar a fala.

c. Brincadeira Livre 03

Nesse dia observado, estavam disponíveis os blocos de encaixe tamanho médio, folhas e lápis de cor, fantoches e animais. Bernardo escolheu novamente os blocos de encaixe para brincar. Sentados a mesa estavam Bernardo, colega de classe e a pesquisadora/professora assistente. A conversa surgiu, naturalmente, entre os alunos, não precisando de nenhuma intervenção.

Bernardo: Ohh.

Boy: Eu vou fazer um bem grandão, desse tamanhão.

Bernardo: Eu vou fazer um bem grande assim oh, desse tamanho.

As crianças começaram a competir para ver quem iria fazer o maior brinquedo, mostrando os tamanhos desejados com os braços e pegando o maior número de peças possíveis.

Boy: Eu vou fazer um desse tamanhão igual a boca de um jacaré.

Bernardo: Eu vou fazer bem grandão.

Bernardo: Ufftt (som de força).

Bernardo: Eu vou fazer bem grande.

Bernardo: Aaahhrr (som de força).

Como forma de intensificar sua ação, Bernardo demonstrou gostar de fazer sons de força, como se fosse difícil alcançar o objetivo, mesmo com blocos menores que, das últimas vezes.

Boy: Olha como o meu tá grande.

Bernardo: Uuuhh (som de força).

Bernardo: Eu não alcanço.

Bernardo: Uuuuuuuhhhh (som de força).

Boy: Toma esse aqui.

Bernardo: Olha.. um monstro grande.

Boy: Vamos derrubar?

Em seguida, todos os blocos caem, fazendo um barulho na sala, gerando muitas risadas. Bernardo voltou a brincar com os blocos, mas dessa vez sem diálogos, apenas com sons de força e blocos desmontando no chão. Com esse colega de classe, Bernardo interagiu bastante, pois estavam competindo para fazer o brinquedo mais alto. Mas em nenhum momento o aluno procurou utilizar a língua inglesa, estabelecendo um contato somente na língua materna. Bernardo apresentou-se como um ser bilíngue que escolhe quais línguas lhe convém para manter o diálogo, podendo, às vezes, utilizar apenas uma delas (ZIMMER, FINGER, 2008).

d. Brincadeira Livre 04

Mais uma vez, Bernardo decidiu brincar com os blocos, sendo dessa vez os coloridos com bonecos e árvores, não se interessando pelos outros brinquedos espalhados pelas mesas. Na mesa escolhida estavam presentes a pesquisadora/professora assistente, Bernardo e um colega da sala. O diálogo começou sem nenhuma intervenção anterior.

Baseados na ideia de Vigotski (apud PONTECORVO; ALLEJO; ZUCCHERMAGLIO, 2005) destacamos a importância da interação da criança e de um adulto ou de um par mais experiente, pois estes compartilham informações e tarefas que são interiorizadas pelos alunos.

Bernardo: Humm... eu vou fazer.

Boy: Eu vou fazer um presente pra você Miss.

Bernardo: Um presente pra você.

Boy: Não é pra você, é pra Miss.

Bernardo: Esse é o meu presente Miss.

O início da conversa é marcado pela presença de uma mudança de códigos linguísticos, passando da língua portuguesa para a inglesa, quando chamam a professora de Miss. Essa ação não é feita de propósito, pois os alunos já internalizaram que, ao se relacionar com a professora, utilizam a palavra Miss, ou seja, mesmo com a predominância da língua materna nas falas, as crianças chamam a professora de miss, ocorrendo assim o codeswitching (mudança de código). Há também uma competição entre os alunos pela atenção da professora, no caso, a pesquisadora.

Boy: Eu.. eu vou fazer.

Bernardo: Oh miss. Olha.

Boy: É seu presente!

Bernardo: O que tem dentro?

Boy: Não é seu. É da miss!

Pesquisadora: Thank you! (Obrigada)!

Bernardo: Eu vou fazer um outro presente.

Bernardo: É meu presente.

Após a disputa de atenção pelo presente que iriam fazer ou não, Bernardo chama a atenção da pesquisadora/professora assistente para o que ele estava construindo, utilizando a língua materna, mas recorrendo ao codeswitching para se referir à uma moto.

Bernardo: O miss!

Bernardo: Miss oh!

Bernardo: Você faz o mato?

Pesquisadora: What? (O que)?

Bernardo: Motocicle... (Moto)...

Pesquisadora: To put the tree? (Para colocar a árvore)?

Bernardo: Noo… a Motocicle! (Não... a moto!) (fazendo uma rampa para brincar com a moto),

Bernardo: Assim escorrega...

Bernardo: Consegui!

Bernardo, satisfeito em brincar com os blocos resolveu, por conta própria, a mudar de mesa. Esse ato incentivou o outro aluno que também foi junto. Dessa vez, Bernardo escolheu a mesa dos animais, estabelecendo um diálogo com o colega.

Boy: Vamos brincar!

Bernardo: Vamos! Ah caiu os animais!

Boy: Ah!

Bernardo: Os animais caiu!

Bernardo: Cow e bear. (Vaca e urso).

Bernardo: Leão... lion (leão). Tigre.

Pesquisadora: Tiger. (Tigre)

Bernardo: Tiger (tigre)… grrr… Ai meu dedo!

Nesse dia observado, o aluno Bernardo recorreu bastante à língua inglesa, misturando as palavras já intrínsecas ao seu vocabulário. Ele interagiu bastante com o outro aluno, com o predomínio da língua materna.

e. Conclusão das Brincadeiras Livres de Bernardo

O aluno Bernardo interagiu bastante com os amigos, utilizando a língua materna como forma principal. Quando questionado, utiliza algumas palavras do cotidiano, mas sempre recorrendo à língua materna quando esquece. Nas brincadeiras livres, costumava interagir com a pesquisadora/professora assistente, sendo um ponto positivo por melhorar sua frequência de palavras na língua inglesa.

Esse aluno também mostrou que gosta de brincar com os amigos, mas para isso não precisa se comunicar de forma oral. Em um dos dias observados, Bernardo não se comunicou com os colegas, apenas brincou bastante e fez sons de força para encaixar os blocos.

Na relação com seus pares, foi possível observar que a língua portuguesa está bem presente, como a linguagem principal para se comunicar. O inglês aparece nas relações verticais, ou seja, com as professoras, no qual o aluno busca aprender novas palavras e instiga a professora a participar da brincadeira. Podemos notar que em um dos dias observados, o aluno procurou estabelecer uma brincadeira de pergunta e respostas, na qual ele era o questionador. Essa interação ocorreu toda na língua inglesa e, nos momentos de dúvida, o aluno acabava inventando algumas palavras e suas pronúncias.

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