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BIBLIOTEÇA AUBREY ÇLARK

James E Rosscup

BIBLIOTEÇA AUBREY ÇLARK

Glorificação

0 elo que liga os pensamentos entre os versículos 7 e 8 é claro: “Nisto”. Ele inicia o versículo 8 e, no mesmo versículo, aponta para “muito fruto”. Esse fruto consiste em respostas à oração prometidas no versículo 7. 0 versículo 8 indica que o Pai é glorificado na resposta positiva de Deus à oração de alguém que permanece em Cristo (isto é, “nisto”, o “muito fruto” é resultado da permanência). 0 fruto glorifica a Deus ao tornar evidentes as suas virtudes, valores, propósitos e as qualidades encontradas em Cristo.

A natureza do fruto é evidente no contexto: paz (14.27), amor (15.8-12) e alegria (15.11). Também consiste na manifestação da lealdade a Cristo diante da hostilidade do mundo para com Ele (15.18-25), em uma vida ensinada pelo Espírito (15.26; cf. 15.7), através da qual é possível fazer obras maiores do que as que Cristo realizou sobre a terra (14.12), porque Ele, como a videira, continuará seu ministério agindo por meio de suas varas (veja G12.20; Fp 1.21). Essas obras maiores feitas pelos discípulos e por Cristo são respostas às orações moldadas pela Palavra (Jo 14.13; 15.7,8).

Que grande mensagem sobre valores para guiar os que seguem em direção ao ministério pastoral! Todos os frutos que resultam da vida em Cristo — sim, todos estão relacionados com o que Deus realiza! (Jo 15.7,16). Ele o faz por meio dos cristãos, em resposta às orações que estiverem em harmonia com a Palavra. Conseqüências grandiosas resultam obviamente da oração.

Isso fala muito ao obreiro de Cristo, convocando-o a devotar maior prioridade à oração, em outras palavras, a dar a ela a mesma importância que Jesus deu. Caso contrário, ele deve reconsiderar seu sistema de valores. Ou, então, estará ministrando de acordo com seus próprios planos, e não de acordo com os valores de Cristo aqui expressos. Essa observação lapida o ditado muito comum:

“Apenas uma vida, logo passará.

Apenas o que para Cristo for feito sobrará”.

De acordo com João 15, a última linha poderia ser: “Apenas o que pela oração for feito sobrará”.

João 15.16 confirma essa realidade ao dizer que quando uma pessoa permanece em Cristo, permitindo que Ele viva sua “vida como uma videira”,

seu fruto “permanece” (a mesma palavra traduzida por “estar” no início do capítulo). Essa é a obra do Pai realizada por você (v. 7, 16) em resposta à oração orientada pela Bíblia, o “muito fruto” do versículo 8. Isso é o que glorificará o Pai.

Multiplicação

“Muito fruto” (v. 8) retrata a multiplicação que Jesus tinha em mente. Por que Ele pensa em frutos em tamanha quantidade? Por que não só “fruto”? Podemos compreender um pouco melhor ligando o fruto ao que Ele disse acerca do quarto solo na parábola de Mateus 13.1-9 e à sua explicação em Mateus 13.18- 23. Esse solo representa o coração do crente que recebe a semente da Palavra de Deus. Entre as quatro categorias em que caem as sementes, é somente esse tipo de coração que produz fruto — “um a cem, outro a sessenta, e outro a trinta”. Todas as três quantidades de frutos já são relativamente grandes. Isso pode indicar que Jesus, o contador da parábola, pensa grande. Ele confia naquilo que pode fazer com sua semente (a Palavra) no coração das pessoas (veja Jo 15.7). A Palavra é poderosa e pode fazer grandes coisas. Um grande Salvador pode tornar possível muitos frutos. Por conseguinte, para tirar proveito dEle e obter mais frutos, épreciso seguir o caminho da oração.

Quando um crente produz algum fruto, o Pai usa a Palavra para limpá-lo, de modo que possa produzir “mais fruto” (Jo 15.2,3), ou seja, “muito fruto” (v. 4-8).

A quantidade de frutos produzida pelos crentes varia, em parte, por causa do problema do pecado com que precisam lutar (Rm 7.14-25). 0 fracasso pode ocorrer, mas a vitória final virá com a produção de “muitos frutos”. Pastor George W. Truett gostava de dizer de seu púlpito na Primeira Igreja Batista de Dallas: “Deus pode fazer brotar uma grande fonte com uma vara torta”. E como um pedaço de terra coberto de grandes árvores com que o fazendeiro precisa lutar. Ele começa limpando o terreno. Elimina algumas árvores, arbustos que produzem frutos venenosos e mato. Cultiva o solo e planta a sua semente. 0 fruto que consegue de início não é tanto quanto o que obterá mais tarde. Porém, comparado com a escassez, a quantidade é uma mudança considerável. Assim, quando se limpa mais a terra, os frutos aumentam e o contraste com o tempo em que a terra era totalmente improdutiva torna-se ainda maior (Jo 15.5).

Esse exemplo ilustra a santificação progressiva na vida dos cristãos (Rm 6 - 8) depois de terem sido justificados por Jesus (Rm 3.21-5.21). Aqueles a quem Deus declarou justos produzem frutos relacionados com a santidade (Rm 6.22).

Paulo escreve com o entendimento de que todos os justificados possuem frutos. Pode haver variação na quantidade (veja Mt 13.23), mas a justificação por fim leva ã santidade de vida. Paulo expressa isso de outra forma em Efésios 2.8-10: a salvação pela graça, por meio da fé, conduz às boas obras segundo o propósito de Deus, e o cristão também tem seu papel nesse plano (Fp 2.12) de cooperar com Deus, que está operando na vontade do cristão e está lhe dando eneigia interna (Fp 2.13). A produtividade pode variar muito de cristão para cristão, de um período para outro, ou ao longo da vida. Mas todos vão apresentar uma mudança marcante em relação à ausência de frutos que caracterizava seus dias antes da salvação.

O Pai recebe glória por meio do fruto multiplicado pela ação da Palavra e da oração. O obreiro pastoral deve, mais que todas as pessoas, ser um dos que têm a vida caracterizada por esse tipo de multiplicação.

Autenticação

De acordo com o final de João 15.8, os líderes e todos os outros crentes verdadeiros que seguem a Cristo são seus autênticos discípulos. Isto é evidente na Grande Comissão (Mt 28.19,20) e muitas vezes em Atos (6.1,2; 11.26 etc.). O fato de serem discípulos significava que eram seus aprendizes, alunos ou seguidores. Toda ovelha verdadeira o segue em um sentido real (Jo 10.27), possue o dom da vida eterna e é mantida por Deus (Jo 10.27-29).3

João 15.8 afirma que o fruto produzido por meio da oração é uma confirmação ou autenticação de que a pessoa é um discípulo: “E assim sereis [provareis ser] meus discípulos”.4 Uma vez que a permanência em Cristo é a vida dos que crêem (6.54, 56) e visto que o fruto manifesta a permanência, é bem razoável que essa demonstração seja um atestado de genuinidade, uma característica que testemunha dos crentes.5 “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (13.35). Os crentes também

3. Essa conclusão faz sentido por algumas razões: (1) o uso do tempo presente em João 10.27 indica uma ação contínua, como em 6.56 e 14.21; (2) o seguir não é apenas um ato inicial de chegar à salvação, mas um compromisso diário como em Lucas 9-23; (3) a ilustração dejesus, faíando das ovelhas no contexto (10.1,9 etc.) refere-se a ovelhas seguindo o pastor o dia inteiro, não apenas uma parte do dia.

4. A obediência expressa pela permanência na Palavra de Deus é um indicador da genuinidade da profissão de fé de uma pessoa (Jo 8.31; 1 Jo 2.3*5,19).

5. Cf. Michael Horton, ed., Christ the Lord, Tbe Reformation and Lordship Salvation (Grand Rap­ ids: Baker, 1992), 53. Os autores deste simpósio crêem como Calvino, que a base da certeza deve, em última análise, estar na obra de Deus por meio da cruz, numa “justificação tão firme que seja capaz de sustentar nossa alma no julgamento divino...” (52).

vêem os frutos autênticos (Jo 15.16). Outras confirmações que nos dão segurança são as promessas da Palavra de Deus e o testemunho interno do Espírito da verdade.

Jesus atribuiu ã oração um papel de profundo significado. Quem quer que o sirva pode demonstrar ser seu verdadeiro seguidor, fazendo o mesmo. Em João 15.8 observamos que o fruto do cristão demonstra que ele é um discípulo, e o segredo disso é a oração (v. 7). Isso vale tanto para os que estão em posição de liderança pastoral quanto valia para os 11 discípulos que formavam o auditório original d ejesu s. Eles devem proclamar a importância da oração aos outros, mas < levem pregá-la primeiro para si mesmos. Como seguidor exemplar de Cristo, cada um deve aplicar esta lição (1 Co 11.1).

O rar com o em E fésios 6 . 1 0 - 2 0

Paulo segue a liderança dejesus, enfatizando a importância da oração. Antes de exortar os leitores efésios a orar, Paulo lhes dá um exemplo de oração. Dois momentos espontâneos de intercessão em meio a descrições da riqueza dos crentes em Cristo marcam Efésios 1- 3. A profusão da graça que resulta em “todas as bênçãos espirituais” (1.3) leva o apóstolo a orar para que seus leitores compreendam o estilo de vida que torna possível tão maravilhosa riqueza (1.15-23; 3.14-21).

Cada uma das intercessões revela facetas de importância primordial na vida cristã e na compreensão de como orar de modo relevante por si mesmo e pelos outros.6 Cada uma dem onstra um profundo interesse em que os leitores frutifiquem espiritualmente, agradando a Deus “em tudo”, como ora o apóstolo em outra epístola (Cl 1.10). Seu interesse se manifesta quando ele pede a Deus que os encha do conhecimento de sua vontade, seu poder, sua longanimidade, seu gozo e de ações de graça a Ele (Cl 1.9-12). A ênfase básica está nessas preocupações vitais, não no alívio físico para um braço quebrado, por um novo emprego ou uma noite bem dorm ida como solução para a insônia. Essas últimas cargas também devem ser consideradas, uma vez que elas estão relacionadas ao que Paulo inclui em suas orações. Devemos lançar

todas as nossas ansiedades sobre Deus (1 Pe 5.7). Mas as questões ligadas à lapii lação ila vida, enfatizadas por Paulo, devem ter um lugar de destaque em iii >s;.as < >raç( ><-s. Infelizmente, é muito comum elas estarem ausentes de nossos boletins de oraçao ou só se apresentarem de vez em quando. Os líderes

6. Veja cm Donald A. (iarson, A Call to Spiritual Reformation (Grand Rapids: Baker, 1991), uma excelente exposição dos principais trechos paulinos que tratam da oração.

pastorais são responsáveis pela correção desse com portam ento por meio do ensino, exemplo e ênfase.

Depois de destacar a riqueza e dar um exemplo de oração, Paulo dedica seus três últimos capítulos de Efésios para tratar do estilo de vida coerente com essa riqueza, expressando-o em forma de relacionamentos práticos. Ele mostra como os crentes podem traduzir aquilo pelo qual ele orou no “andar” diário — termo usado em Efésios 2.2,10 e empregado com freqüência no restante da epístola (4.1; 17; 5.2,8.15). Eles devem se conduzir de uma forma coerente com os altos privilégios concedidos por Deus e podem fazê-lo por meio do amor (5.1-7), da unidade (4.1-16), da santidade (4.17-32), da luz (5.8-14) e da vida cheia do Espírito (5.15-6.9), todas as qualidades se misturam simultaneamente em cada vida.

Com certeza, um “andar” dessa natureza é “digno” (Ef 4.1)7 da vocação maravilhosa. Ele está registrado nos capítulos 1-3. Os benefícios pelos quais Paulo orou com tanta veemência em Efésios 1.15-23 e 3.14 marcam esta conduta.

Após sua extensa seção sobre o enchimento do Espírito, Paulo chega às últimas palavras cruciais da carta. Ele faz uma relação entre o “andar” e o mundo real enfrentado pelos crentes, um mundo em que as coisas decentes sustentadas por Deus se opõem a todos o males dos que marcham sob a bandeira negra do príncipe das trevas. Os que possuem a riqueza de Deus e andam como Ele ordena estão lutando em uma guerra mortal (Ef 6.10-20).