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4 NÚCLEO DE ACESSIBILIDADE NA UFMA SOB DIFERENTES

4.1 Alunos com deficiência

4.1.3 Biblioteca Central da Ufma

Para Chauí (2003) a universidade possui um papel importante no processo de formação e democratização da sociedade, e para tanto precisa ser contrária à exclusão enquanto forma de relação social capitaneada pelo neoliberalismo e pela globalização, bem

144 como deve se manifestar contra qualquer perspectiva de privatização do conhecimento. São formas de tornar a educação superior um direito do cidadão e, portanto, universal.

E as bibliotecas universitárias, como parte desse processo, precisam estar atuantes na garantia do atendimento a todos os seus usuários. A universidade, como vimos neste estudo, tem se mobilizado para garantir a inclusão de pessoas com deficiência e as bibliotecas devem participar de todo esse movimento a partir da estruturação, adequação e atendimento das necessidades específicas dos estudantes com deficiência.

Para Pupo, Melo e Ferres (2006) as bibliotecas devem assegurar a toda comunidade acadêmica o acesso à informação e no caso de pessoas com deficiência deve fornecer serviços e produtos, considerando as limitações e também as suas potencialidades, isto é, os aspectos visuais, físicos e auditivos devem ser observados, permitindo o acesso ao conhecimento a todos, de maneira justa e igualitária.

As bibliotecas universitárias, de acordo com Stroparo e Moreira (2016), devem criar ambientes providos tanto de espaço físico acessível quanto de acervo e capacitação dos profissionais.

As bibliotecas universitárias apresentam-se com o mérito de buscar, por meio de tecnologia de informação, formas alternativas para compartilhar e contribuir no processo de aprendizagem, possibilitando o acesso ao conhecimento e favorecendo a garantia do direito à educação. (STROPARO; MOREIRA, 2016, p. 210).

A permanência dos alunos com deficiência perpassa pelas condições acessíveis da biblioteca, já que esta representa um importante instrumento na incorporação e disseminação do conhecimento, logo interfere no processo de ensino e aprendizagem e subsidia, conforme Silveira (2001) as atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Stroparo e Moreira (2016) a partir dos estudos de Pela (2006) destacam que a biblioteca possui um papel formativo. Diante disso precisa de adequações para atender alunos com deficiência, no caso dos deficientes visuais é necessária a adaptação do material impresso à tinta para o formato digital, em Braille ou em áudio, além da adequada sinalização e iluminação.

Quanto aos deficientes auditivos e com surdez Vieira (2014) faz um resgate interessante de alguns projetos desenvolvidos por universidades brasileiras, dentre elas, destacam-se a Universidade Estadual Paulista (Unesp) que disponibiliza um tradutor em Libras automatizado e Dicionário Digital de Libras Ilustrado; a Universidade de Brasília (UnB) com a Biblioteca Digital Sonora e o empréstimo via internet; e a Universidade Federal do Ceará (UFC) com a janela de Libras com vídeos em Libras que transmitem informações sobre a biblioteca.

145 Além dos discentes com deficiência sensorial, é necessário destacar as adaptações indispensáveis para que os alunos com deficiência física possam ter plena autonomia no interior das bibliotecas universitárias, para tanto se tem como referência a Portaria nº 3.284/2003 e a NBR 9050/2004.

Stroparo e Moreira (2016) destacam que em face das políticas públicas e dos instrumentos legais que sustentam o ingresso, a permanência e a conclusão do ensino superior pelos discentes com deficiência, tem-se o papel da biblioteca universitária como fulcral no processo educacional a partir da disponibilização e acesso à informação imprescindível ao desenvolvimento intelectual e acadêmico dos alunos com e sem deficiência, o que supõe o reconhecimento de que as diferenças necessitam de atendimentos específicos.

As bibliotecas têm o desafio de apreender as novas exigências das universidades que se propõem inclusivas, sobretudo no que tange ao atendimento aos alunos com deficiência, que exigem serviços e informações em formatos e perspectivas diferenciadas.

Dessa forma, cabe à biblioteca universitária prover, além da acessibilidade e adaptação do espaço físico, a promoção da informação aos indivíduos da comunidade universitária, inclusive aqueles com qualquer tipo de deficiência, sem discriminação. Assim, é importante atender às necessidades específicas oferecendo acesso à informação em diferentes formatos, contribuindo para a formação intelectual e da cidadania. (STROPARO; MOREIRA, 2016, p. 215).

O Núcleo Integrado de Bibliotecas (NIB) da Ufma é responsável pelo sistema de bibliotecas, funcionando, conforme o relatório de gestão da Ufma de 2015, com uma Biblioteca Central e dezenove bibliotecas setoriais, quais sejam: Campus São Luís (Biblioteca Central, Biblioteca de Enfermagem, Biblioteca do Colun, Biblioteca de Medicina, Biblioteca do Laboratório de Hidrobiologia (Labohidro), Biblioteca do CCSo, Biblioteca do CCH e as Biblioteca de Pós-Graduação em Saúde e Meio Ambiente, em Direito, em Ciências Sociais, e em Ciência Exatas e Tecnologia); Campus de Pinheiro; Campus de Codó; Campus de Chapadinha; Campus de Bacabal; Campus de São Bernardo; Campus de Balsas; Campus de Grajaú; e Campus de Imperatriz (Biblioteca do Centro; e Biblioteca de Bom Jesus).

No caso da Ufma, os relatos dos estudantes evidenciam os avanços conquistados pela universidade no bojo das propostas de inclusão, bem como os desafios que ainda precisam ser superados. Os dados foram mapeados a partir de observação in loco, de entrevistas semiestruturadas com 10 estudantes com deficiência, (dentre eles cegos, baixa- visão, surdos e com deficiência física) e questionário aplicado junto ao gestor da biblioteca central da Ufma.

Os principais pontos ressaltados foram sobre acessibilidade física, informacional, atitudinal e os serviços oferecidos. Seguem os principais relatos:

146 Um estudante com deficiência visual (A2) avaliou que biblioteca ainda precisa melhorar para se tornar acessível a todos os estudantes e queixou-se de que ela não dispõe de computador que tenha um programa de leitura como o DOSVOX “para quem é deficiente visual, não tem um computador que tenha DOSVOX, um computador que fale, até mesmo para ir para as próprias prateleiras, não tem livro acessível, na verdade”.

O Aluno A4 considerou “boa” a estrutura e o acervo da biblioteca, ressaltou questões referentes ao aluno cadeirante e a sinalização disponível apenas em algumas prateleiras e como aspectos negativos, visto que dificulta a localização dos livros:

Eu acho boa, acho bom, só que... Aí eu entro na questão do cadeirante né?. Eu ia até chamar atenção do bibliotecário, algumas literaturas elas são colocadas altas, não é distribuído de forma vertical, ela é distribuída de forma horizontal e ai quando tá muito alta o cadeirante não consegue, ele precisa de alguém que ajude ele a pegar os livros. Eu já vi isso, isso aconteceu comigo, eu tendo que ajudar um cadeirante a pegar o livro para ele, que ele não conseguia pegar. Então para mim que tenho problema de vista, ela tem a sinalização... Algumas prateleiras têm, outras não têm, mas pouco, já sabendo a localização do livro a gente acha. (A4).

O livro digital, importante para o acesso ao conhecimento dos estudantes com deficiência visual, foi apontado pelo estudante A7, considera que “[...] se todos os livros fossem digitais facilitaria muito”. Como veremos a partir do questionário aplicado à biblioteca central da Ufma a quantidade dos livros digitais disponíveis é mínima considerando as demandas de alunos com deficiência visual, os quais estão matriculados em cursos dos quatro centros da Ufma.

Outro aspecto relevante considerado por um estudante com deficiência visual (A6) foi a iluminação da biblioteca que, em sua análise é muito escura, e inviabiliza o acesso ao acervo bibliográfico disponível. Relatou que sempre precisa do auxílio de alguém que trabalha no setor.

Já o aluno com surdez (A3) avaliou a estrutura física e o acervo da biblioteca como excelentes e que nunca não teve nenhuma dificuldade para acessar o espaço, mesmo considerando que ela não dispõe de um profissional intérprete de libras, a não ser quando os profissionais do núcleo de acessibilidade auxiliam o aluno na busca por algum livro ou informação no interior da biblioteca.

A estudante com deficiência física e usuária de cadeira de rodas (A9) ressaltou que o ambiente físico da biblioteca central da Ufma atende as suas necessidades educacionais, já que é amplo e este consegue acessar as prateleiras onde ficam os livros utilizando a cadeira de rodas, apontou ainda que as mesas disponibilizadas também atendem às demandas dos alunos cadeirantes. Um aspecto crítico, segundo esta aluna, são os computadores para

147 consultar o acervo da universidade, pois em sua avaliação são altos e não permitem que alunos cadeirantes possam ter autonomia na pesquisa dos materiais disponíveis.

Então, no aspecto do espaço, assim, atende, porque ela é larga, eu consigo ter acesso as prateleiras onde ficam os livros. Ah, sim, tem um ponto na biblioteca muito importante, não tem computador para consultar o acervo, baixo, tipo que eu possa acessar sentada na cadeira de rodas, são todos elevados, muito altos. E em termos de acervo eu não sei, mas eu acredito que deve ser bem escasso, como, por exemplo, em Braille e outros tipos, acredito que deve ser escasso. Quanto ao espaço físico como falei, as mesas conseguem atender, já falei da questão do computador, que não tem, é isso. Seria bom, dentro do espaço que eu entro na Ufma, a biblioteca não é o pior. (A9).

Convém destacar que nenhum dos alunos entrevistados mencionou qualquer barreira atitudinal em relação aos profissionais da biblioteca. As observações dos estudantes encontraram respaldo no questionário aplicado à biblioteca central da Ufma, que em termos de acessibilidade e inclusão apontaram o seguinte:

Os terminais de consulta são acessíveis apenas “parcialmente” para pessoas com deficiência, pois não permite que estudantes com deficiência visual e com mobilidade reduzida tenham plena autonomia na busca por livros.

Quanto aos balcões de atendimento acessíveis para usuários de cadeira de rodas, apesar de A9 não ter feito nenhum comentário, o questionário mostrou que a biblioteca não os dispõe. Contudo, há uma observação no questionário de que esta “solução já foi demandada para o setor competente da Ufma” e que estão aguardando providências.

No que se refere às salas de estudo e leitura acessíveis para todas as pessoas com deficiência, o questionário revelou que a biblioteca central da Ufma atende “parcialmente” e acrescentou a seguinte observação: “Das 6 (seis) salas de estudos existentes, 1 (uma) é destinada para usuários com baixa visão. As outras 5 (cinco) salas, assim como os outros espaços da Biblioteca Central, são acessíveis às pessoas com deficiência”.

Nota-se que nesse aspecto a universidade já está mais organizada, o que corresponde aos relatos de A9 ao destacar as mesas disponibilizadas para leituras, as quais permitem o acesso de estudantes cadeirantes.

A análise também foi possível para a distância de no mínimo 0,90m de largura entre as estantes de livros, atendendo aos requisitos de acessibilidade da NBR 9050/2004 e permitindo a liberdade descrita por A9 no acesso as prateleiras de livros.

Contudo, se nos corredores entre as estantes, a cada 15m há espaço para manobras de cadeira de rodas, o questionário mostrou que apenas “parcialmente” “em decorrência do espaço físico limitado para o acondicionamento do acervo”.

148 A biblioteca central também “não” possui sinalização tátil e no que se refere ao acervo bibliográfico acessível (áudio, Braille ou com letra ampliada) e em quantidade suficiente para atender as pessoas com deficiência visual o questionário mostrou que a biblioteca dispõe apenas “parcialmente”. Segue observação apresentada no questionário aplicado à diretora da biblioteca central da Ufma:

A biblioteca possui apenas 10 (dez) audiobooks. A ampliação das letras é feita por meio das lupas eletrônicas disponíveis na sala de estudo acessível para as pessoas com baixa visão. Quanto ao acervo Braille, este poderá ser adquirido a partir das demandas dos Cursos e dos recursos financeiros disponíveis.

Observa-se que os livros digitais são bastante reduzidos se comparados ao número de estudantes com deficiência visual matriculados na Ufma, realidade que ratifica as declarações dos alunos A2, A7 e justifica a declaração de A8 ao apontar que avalia o acervo da biblioteca como “ruim, porque nenhum livro é acessível”, é provável que a discente não tenha tido contato com os 10 audiobooks, considerando ainda que a temática desses audiobooks pode não ter nenhuma relação com a área de formação da aluna. Ressalta-se ainda a disponibilização de alguns recursos de tecnologia assistiva como lupas eletrônicas para auxiliar o aluno com baixa visão nas leituras.

Convém destacar que a capacitação dos profissionais da biblioteca no atendimento às especificidades das pessoas com deficiência representa uma necessidade, pois conforme os relatórios de gestão da Ufma dos anos de 2014 e 2015 os cursos de atualização, aperfeiçoamento e qualificação ocorreram em áreas diversas, como inglês e francês intermediários, treinamento de base de dados, Seminário de Informação e Documentação Jurídicas, Campanhas em prol da leitura, mas nenhuma especificamente voltada para o aprimoramento do atendimento dos alunos com necessidades educacionais especiais, como o uso da língua brasileira de sinas, do Braille, etc.

No entanto, os dados mais atualizados do questionário desta pesquisa revelaram que esse quadro vem se modificando, paulatinamente, pois uma bibliotecária já foi capacitada em um curso específico de Libras e atualmente há cinco servidores matriculados em curso de Libras básico. Os dados do questionário permitiram perceber que ainda não existe política de sensibilização quanto à inclusão de pessoas com deficiência sendo desenvolvida pela biblioteca central.

Verifica-se, portanto, que a realidade da biblioteca central da Ufma corresponde à realidade de muitas bibliotecas universitárias pelo país, de acordo com o levantamento realizado por Stroparo e Moreira (2016) e que apesar das dificuldades em garantir pleno e efetivo acesso à informação para todos alunos, não se pode negar os avanços obtidos pela

149 instituição, que mesmo não possuindo uma política institucional inclusiva de maneira abrangente tem se preocupado com as questões de acessibilidade dos alunos com deficiência.

É necessário destacar que o prédio da nova biblioteca central da Ufma ainda está com as obras paralisadas, o que pode justificar que algumas adequações estruturais ainda não tenham sido efetivas. Ressalta-se que é preciso avançar bastante para conseguir atender todas as demandas advindas com o crescimento de estudantes com deficiência na instituição.

Nesse sentido, consideramos que a biblioteca da Ufma vem se esforçando para garantir as condições de permanência e conclusão do curso de graduação por parte do estudante com deficiência, isto é, tem tentado cumprir o seu papel no tocante ao processo educacional e formativo desses estudantes, mas precisa ampliar sua atuação no que se refere à capacitação dos profissionais para o atendimento dos alunos com deficiência, é preciso providenciar a sinalização e piso tátil, investir no acervo bibliográfico para alunos com deficiência visual e para o acesso aos recursos tecnológicos específicos, além da implementação de uma política inclusiva em condições de prever e intervir sobre as demandas dos alunos com necessidades educacionais específicas.