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O refúgio de Mnemosine: biblioteca como lugar de memória e esquecimento

2.2. Biblioteca como lugar de memória e esquecimento

Os “Lugares de Memória”, expressão cunhada por Pierre Nora, surgem a partir do momento que constatamos que nossa memória é frágil demais para reter, voluntariamente, a totalidade das experiências humanas, sendo, por isso, necessário criar arquivos, museus, bibliotecas, monumentos, organizar celebrações públicas e pronunciar elogios funerários como recurso para se manter viva a história e a cultura de toda uma tradição coletiva.

Segundo o referido autor, são estes lugares que “secreta, veste, estabelece, constrói, decreta, mantém pelo artifício e pela vontade uma coletividade fundamentalmente envolvida em sua transformação e sua renovação” (NORA, 1993; p.13), ou seja, são eles que viabilizam sua permanência na história e no tempo. Isto porque:

Museus, arquivos, [bibliotecas], cemitérios e coleções, festas, aniversários, tratados, processos verbais, monumentos, santuários, associações, são os marcos testemunhais de uma outra era, das ilusões de eternidade. Daí o aspecto nostálgico desses empreendimentos de piedade, patéticos e glaciais. São os rituais de uma sociedade sem ritual; sacralizações passageiras numa sociedade que dessacraliza; fidelidades particulares de uma sociedade que aplaina os particularismos; diferenciações efetivas numa sociedade que nivela por princípio; sinais de reconhecimento e de pertencimento de grupo numa sociedade que só tende a reconhecer indivíduos iguais e idênticos. (NORA, 1993; p.13).

Por ser a memória humana lacunar e falível, os lugares instituídos socialmente como “lugares de memória” se organizam para servir de apoio à salvaguarda da materialidade simbólica concebida como elemento de representação coletiva. Todo lugar de memória é, pois, “um lugar duplo; um lugar de excesso, fechado sobre si mesmo, fechado sobre sua identidade; e recolhido sobre seu nome, mas constantemente aberto sobre a extensão de suas significações” (NORA, 1993; p.27.).

É o que acontece com as bibliotecas, cuja função social está diretamente ligada à missão de preservar, organizar e disseminar os elementos culturais e os saberes concebidos pelos homens. São lugares que nutrem e valorizam nossa cultura e nossa memória coletiva, além de nos permitir manter vivos os elementos que definem as bases conceituais daquilo que entendemos por identidade, seja esta nacional, local ou individual. Em suma, elas se

constituem como um “lugar de memória” porque auxiliam à preservação e à sobrevivência de uma determinada cultura ao longo de seu transcurso histórico.

As bibliotecas chamam a atenção para a necessidade de se preservar os símbolos culturais que garantem identidade e visibilidade a um dado tecido sócio-cultural, justamente por serem estes os elementos que lhes instituem o status de comunidades históricas. Sendo assim, toda biblioteca é:

Lugar da memória nacional, espaço da conservação do patrimônio intelectual, literário e artístico, uma biblioteca é também o teatro de uma alquimia complexa em que, sob o efeito da leitura, da escrita e de sua interação, se liberam as forças, os movimentos do pensamento. É um lugar de diálogo com o passado, de criação e inovação, e a conservação só tem sentido como fermento dos saberes e motor do conhecimento, a serviço da coletividade inteira. (JACOB, 2000; p.9).

Enquanto lugar de memória, a biblioteca tende a reafirmar os saberes e a torná-los móveis, traduzíveis, permutáveis, enfim, tenta dar sentido ao saber e a fazer com que o mesmo se torne um instrumento de reafirmação da "identidade" individual ou coletiva humana.

Portanto, é desde os primórdios de nossa história que o acúmulo e a transmissão de elementos culturais fazem parte do cotidiano humano, onde a "tentação enciclopédica" criada pela biblioteca tende a reafirmar os saberes e torná-los móveis, traduzíveis e permutáveis. É, pois, como lugar de reevocação de um saber anterior que a biblioteca se torna espaço de memória, bem como lugar que confere sentido ao saber. A partir de tal contexto, JACOB (2000) faz a seguinte observação:

Todo saber se funda num saber precedente. O conhecimento é cumulativo e se desdobra em tradição. A biblioteca capitaliza essa herança, permite aumentá-la graças à atividade coletiva dos que a exploram. O trabalho intelectual pressupõe que se faça referência a tudo o que já foi escrito sobre o assunto, que se mobilizem e que se dê fluência aos conhecimentos arquivados nos livros. Todos os livros da Terra num só lugar, isto é, todos os pensamentos jamais formulados, os fatos jamais relatados. Os problemas e suas soluções. (JACOB, 2000; p.68.)

Se levarmos em consideração suas origens, há mais de 6000 (seis mil) anos atrás, perceberemos que a história das bibliotecas é habitada por mitos, e que estes se difundem no Ocidente através de dois grandes arquétipos: o primeiro se consolida em torno do império dos signos, da profusão de línguas que em vez de promover o entendimento, torna-se o lugar do

desencontro e do desespero, e que foi representada por Jorge Luis Borges, em sua "Biblioteca de Babel", como um jogo de espelhos dispersos em um grande labirinto matemático. Por sua vez, em um segundo momento, temos a metáfora da acumulação do infinito e da "cura da alma" presentes nos ícones de Alexandria.

Imagens exemplares que demonstram que toda biblioteca conserva a lembrança das que a precederam e que talvez as tenham sonhado. “A biblioteca ideal se situa assim na encruzilhada da arqueologia e da utopia arquitetônica, da nostalgia das memórias perdidas e das reconstruções que fazem as cinzas e a terra falar”. (JACOB, 2000; p.17). Talvez por estes motivos Bruno Latour tenha dito certa vez que:

A biblioteca não se ergue como palácio dos ventos, isolado numa paisagem real, excessivamente real, que lhe serviria de moldura. Ela curva o espaço e o tempo ao redor de si, e serve de receptáculo provisório, de dispatcher, de transformador e de agulha a fluxos bem concretos que ela movimenta continuamente. (LATOUR, 2000; p.21.).

Portanto, desde a antiguidade que a biblioteca se apresenta como a esfera que congrega a metáfora do saber total. Razão pela qual, como bem disse CASA NOVA (1990), uma biblioteca é o “centramento do saber, “vontade de poder”, reserva como fundo, tesouro. Biblioteca, que a letra já aponta para o sentido de sua história – gr. biblion + thêkê – cofre, lugar de depósito. A biblioteca de Alexandria, a biblioteca de Babel. Lugar de tesouros, lugar de muitas línguas, castigo de Deus-Pai”. (CASA-NOVA, 1990, p.132.).

São lugares de tradição que preservam o conjunto dos valores dentro dos quais nos reconhecemos enquanto seres sociais. Desta forma, as bibliotecas não preservam apenas a materialidade concebida para comportar os conhecimentos ou as opiniões que temos, mas, também, a totalidade do conhecimento humano que só se deixa elucidar a partir do conjunto de valores constitutivos de uma dada sociedade.

São, ainda, lugares de contradição posto que por trás da aparente calmaria de seus corredores e de suas estantes, toda biblioteca se apresenta como arena de acirradas disputas ideológicas, visto que convivem lado a lado, e em aparente harmonia, vozes de autores distintos e com idéias, em ampla medida, contraditórias e dissonantes cuja validade se determina e se manifesta através da ansiedade de seus múltiplos leitores.

Sendo assim, a história das bibliotecas tem seu início junto à invenção da escrita, quando o homem passa a gravar o que antes era narrado, o que antes se conservava e se transmitia por via oral através da rememoração. A gênese de toda biblioteca liga-se, pois, à necessidade de se conservar um dado signo informacional para que o mesmo se perpetue para além do ciclo vital daquele que outrora o possuía.

As bibliotecas surgem, a partir deste prisma, quando o signo impresso foge “à tradição oral e não permite mais aquela lenta superposição de camadas finas e transparentes, que oferece a imagem mais exata da maneira pela qual a narrativa perfeita emerge da estratificação de múltiplas renarrações”. (BENJAMIN, 1980, p.63). Desta forma, biblioteca serve aqui para figurar um lugar demarcado:

Tão amplo e completo na sua dimensão de abarcar todo o conhecimento, de forma tão extensa e exaustiva, que não haveria outro lugar de interlocução, a não ser o seu próprio espaço sígnico e material, seus estoques e significados: textos sem contexto, a biblioteca total fabulada por Borges, que não remeteria a outro lugar, a não ser a ela própria. (MARTELETO, 1996; p.241).

Se a memória é capaz de inspirar, recuperar a graça do tempo, distender conceitos duros, devolver o entusiasmo pelo que era caro e se perdeu, redimir o sagrado e devolver não simplesmente o passado, mas o passado que prometia, as bibliotecas, enquanto lugares místicos que congregam a amplitude dos saberes concebidos pela humanidade, se configuram, em ampla medida, como o espaço onde o homem, sua cultura, sua tradição e sua memória coletiva se mesclam na tentativa de superar o esquecimento e se preservar futuro adiante. As bibliotecas são, pois, segundo Nora:

Lugares mistos, híbridos e mutantes, intimamente enlaçados de vida e de morte, de tempo e de eternidade; numa espiritual do coletivo e do individual, do prosaico e do sagrado, do imóvel e do móvel. Anéis de Moebius enrolados sobre si mesmos. Porque, se é verdade que a razão fundamental de ser de um lugar de memória é parar o tempo, é bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte, materializar o imaterial para prender o máximo de sentido num mínimo de sinais, é claro, e é isso que os torna apaixonantes: que os lugares de memória só vivem de sua aptidão para a metamorfose, no incessante ressaltar de seus significados e no silvado imprevisível de suas ramificações. (NORA, 1993; p.22.).

Decerto, pois, que os leitores de Borges se lembram da laboriosa minúcia com que ele recompõe as ruínas daquelas essências que perpassam a literatura dos filósofos platônicos,

cristãos, cabalistas e cientistas de várias épocas até a disposição dos livros em galerias hexagonais da Biblioteca de Babel.

Uma das imagens clássicas da memória apresentada nos textos borgianos é a biblioteca, com suas galerias, livros, enciclopédias avançando com e no tempo e mapeando os saberes do mundo. A biblioteca feita da mesma matéria que são feitos os sonhos. Uma Babel inscrita na memória dos tempos, cujas medidas perturbadoras não contêm apenas todos os livros que existem, mas também todos os que se pode imaginar para o futuro. Portanto:

“Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos”. Dessas premissas incontrovertíveis deduziu que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (número, ainda que vastíssimo, não infinito), ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas. (BORGES, 1998; p.518).

As dobras da memória que os textos borgianos engendram nos faz, seus leitores, perguntar sobre a realidade das coisas: o que é o mundo? O que é o homem e seus conhecimentos? Através dos paradoxos, das enciclopédias e da dança dos tigres nos deparamos com o absurdo do mundo. Possuir o engenho da memória dos tempos é sonhar o mundo.

Isto posto, a ficção deste homem apaixonado pelos livros nos auxilia a elaborar argumentos que comprovem que a biblioteca, em qualquer época que se insira, representa a metáfora da acumulação total: todo o conhecimento humano em um só lugar, bem como seu sonho de perpetuar-se no tempo, mesmo agora quando descobrimos que:

(...) finalmente dotados de signos, os seres humanos perdem as próprias recordações pessoais, às quais tendem a abdicar. Assim, mais do que nunca, a memória parece encerrar em si um segredo: o armazém da realidade transforma-se numa complexa caverna pintada, onde a entrada não garante necessariamente a saída, e o que foi ciosamente mantido nas salas das lembranças revela-se no fim um “espelho dos enganos”; e o

passado esvai-se lento, porém dolorosamente, no tempo que em vão

tentamos dominar (...). (COLOMBO, 1991, p.20-50).

Dominar o tempo, por mais fluido e disperso que este possa parecer, sempre foi o grande sonho humano. É por este motivo que aqui:

A biblioteca parece assim ser uma espécie de Penélope que tece os fios da teia do tempo e do conhecimento, e à noite a desfaz pelo silêncio, para recomeçar no outro dia o mesmo trabalho. Palavra efêmera, conhecimento

efêmero. A teia, o tecido é esse grande discurso que ela encara no que é manifesto, e naquilo que se mostra, e no que é subterrâneo, latente; precisa e se quer desvelado. (CASA NOVA, 1990; p.136).

Em suma, toda biblioteca, por intermédio das relações que estabelece com a memória e com o esquecimento, se constitui como um importante pólo de preservação da tradição coletiva. Portanto, é pensando a tradição como uma possibilidade de se compreender as ações humanas no presente a partir das constantes revisitações que fazemos ao passado através da memória e dos costumes coletivos, que podemos vislumbrar a memória coletiva, aliada à memória individual, como um dos principais elementos que garantem a sobrevivência de uma dada coletividade, bem como a coerência do sujeito enquanto ser social.

Isto porque, as tradições e as várias formas de agir social se assentam em um conjunto de relações simbólicas que norteiam e solidificam as várias esferas de atuação humana, imprimindo nestas um modo de vida e de interpretação do mundo com características bem definidas, tendo-se em vista demarcar a espeficidade do sujeito, bem como do tecido sócio- cultural onde o mesmo se insere.

A memória, desta forma, não se encontra inteiramente fechada e isolada sobre si mesma. Para poder evocar seu próprio passado, todo indivíduo adota como ponto de referência as lembranças dos outros, norteando suas ações através de elementos que existem fora dele e que são fixados pela sociedade. Sendo assim, a memória se configura como uma prática social que tem seu valor determinado no seio de cada cultura.

É por esta razão que quando pensamos em cultura quase sempre nos remetemos à idéia de tradição, repertório, conjunto de objetos, discursos ou significados construídos ao longo da trajetória de uma dada sociedade, povo ou agrupamento humano, visto serem estes os elementos que lhes instituem o status de comunidades históricas autônomas e com identidade própria constituída. A partir deste ponto de vista, podemos configurar a cultura como:

[...] um contexto no sentido em que ela se refere a práticas de produção de significados, que por sua vez alimentam todo um processo de dinâmica cultural. Dessa forma, guardando o sentido produtivo que está contido no contexto cultural é que estaremos operando uma passagem do plano discursivo da cultura para o das práticas sociais de produção cultural. Trata-se da passagem do universal para o singular, do homogêneo para o plural, do total para o particular, que é onde se elabora a idéia de cultura

como construção, obra e trabalho, e não simplesmente como norma, código ou tradição. (MARTELETO, 1992; p.90-91.).

Tendo por base este enfoque, acreditamos que as práticas culturais se apresentam como os inúmeros recursos utilizados por cada sujeito, ou mesmo por uma determinada esfera coletiva, para demarcar seu lugar no tempo, no espaço e nos muitos discursos onde suas ações se desenvolvem.

Toda prática cultural é, portanto, um importante elemento de sociabilidade, bem como um mecanismo indispensável à construção do sentimento de pertencimento a um determinado sistema social de interações. Razão pela qual torna-se necessário discorrermos sobre os múltiplos sentidos que demarcam o termo cultura, para podermos caracteriza a biblioteca enquanto lugar de preservação da memória coletiva, bem como dos inúmeros elementos que viabilizam a constituição de uma dada noção de cultura. Estratégia que se converte no objetivo central do capítulo que se segue.

3. Capítulo II

No fim do labirinto, o mundo: biblioteca