4. A Internet e as Bibliotecas Escolares
4.1. Biblioteca 2.0
Se até há pouco tempo atrás os desafios relativamente à tecnologia se confinavam essencialmente aos elementos operacionais relacionados com a gestão do acervo da bi- blioteca, actualmente, dado o próprio desenvolvimento das tecnologias de informação e da Internet, a utilização destes recursos tem reflexos na sua estrutura organizacional e alterou o próprio conceito de biblioteca.
O futuro das bibliotecas escolares tem de caminhar necessariamente no sentido de incluir e serem incluídas nas novas ferramentas digitais, nomeadamente na denominada Web 2.0 ou a Web Social, que deverá ser vista como uma janela de oportunidades e não como uma inevitabilidade. Caminharemos, portanto, para uma Biblioteca 2.0, termo surgido pela primeira vez em Setembro de 2005 no blogue LibraryCrunch12, de Michael
11 Mantida a grafia em português do Brasil. 12 http://www.librarycrunch.com
Casey e que mais tarde foi definido, por Casey e Savastinuk, no “Library Journal”, da seguinte forma:
«The heart of Library 2.0 is user-centered change. It is a model for library ser- vice that encourages constant and purposeful change, inviting user participation in the creation of both the physical and the virtual services they want, supported by consistently evaluating services» (Casey & Savastinuk, 2006).
Para Casey e Savastinuk (2006, 2007), a base da Biblioteca 2.0 é o seu foco no utilizador. Trata-se de um modelo que encoraja os utilizadores a participarem na criação e desenvolvimento dos serviços físicos ou virtuais que desejam, com base numa avalia- ção constante e consistente desses mesmos serviços. Tenta também incorporar novos utilizadores, explorando a diversificação e servir melhor os seus públicos com serviços direccionados às suas necessidades específicas.
Maness (2006) propôs que uma Biblioteca 2.0 fosse definida como «the applica- tion of interactive, collaborative, and multi-media web-based technologies to web-based library services and collections». Este autor caracterizou a Biblioteca 2.0 com quatro elementos fundamentais:
1) É centrada no utilizador, que participa na criação de conteúdos e serviços dis- ponibilizados na Web pela biblioteca. Esta situação leva a que a distinção entre bibliote- cário e utilizadores nem sempre seja clara. O responsável da Biblioteca 2.0 não é o úni- co, nem por vezes o principal, produtor de conteúdos, já que o utilizador tem um papel activo nesse campo.
2) Oferece uma experiência multimédia, através da integração de componentes áudio e vídeo nas colecções e nos serviços.
3) É socialmente rica, visto que a presença da biblioteca na Web inclui os utiliza- dores, que comunicam entre si e com a biblioteca quer síncrona quer assincronamente.
4) É comunitariamente inovadora. Para o autor, este último aspecto é, talvez, o mais importante e singular da Biblioteca 2.0. já que, na sua opinião, uma biblioteca com estas características, além de mudar à medida que as comunidades mudam, permite que os seus utilizadores a modifiquem.
Também Margaix Arnal (2007a: 102) propôs uma definição de Biblioteca 2.0: «la aplicación de las tecnologías y la filosofía de la web 2.0 a las colecciones y los servicios bibliotecarios, tanto en un entorno virtual como real».
Para Alonso Martin (2008: 5) a Biblioteca 2.0 é «aquella que utiliza las tecnolo- gías de la participación. La que aplica los principios fundamentales de la Web social y utiliza sus servicios y herramientas».
Em suma, podemos concluir que uma Biblioteca 2.0 ultrapassa o que habitual- mente se entende por biblioteca digital, uma vez que pressupõe a inclusão dos princí- pios fundamentais da Web 2.0, isto é, a arquitectura de participação e a inteligência co- lectiva, e, portanto, a participação activa dos utilizadores na sua construção e evolução (Figura 2).
Web 1.0 Web 2.0
Figura 2 – Papel do utilizador na construção da biblioteca 2.0. Fonte: Seoane (2008).
Se a biblioteca fundada na Web 1.0 democratizou o acesso à informação, os prin- cípios da Web 2.0 permitiram que a biblioteca democratizasse a participação.
O envolvimento do utilizador da biblioteca na era da Web 2.0 é salientado por Curran, Murray, Norrby e Christian (2006). Esclarecem que a Biblioteca 2.0 está focali- zada em levar a informação aos utilizadores por intermédio dos produtos e serviços prestados via Internet e em conseguir envolvê-los e encorajá-los conforme o seu retorno de participação.
Podem ser apontadas diversas características distintivas entre as Bibliotecas 2.0 e as que, utilizando a Internet nas suas actividades, não incorporam a filosofia e os princí- pios da Web 2.0. O quadro 4 sintetiza algumas dessas diferenças.
Quadro 4 – Diferenças entre a biblioteca 1.0 e 2.0.
Quando implementada em bibliotecas, a Web2.0 tem o potencial de promover re- des de particiapação onde bibliotecários e utilizadores podem comunicar, colaborar e serem co-criadores de conteúdos (Chua & Goh, 2010: 204). Pretende-se, assim, que a inclusão da Web 2.0 permita à biblioteca:
a) Ir ao encontro das necessidades dos utilizadores.
b) Cativar novos públicos e potenciais utilizadores, apresentando para tal serviços alternativos.
c) Comunicar mais facilmente e partilhar conhecimento de forma mais eficiente. No que respeita às bibliotecas escolares, além destes objectivos, pretende-se ainda que os princípios da Web 2.0 incrementem o papel educativo da biblioteca, potenciem o desenvolvimento curricular e aproximem os jovens deste espaço que se quer de aprendi- zagem.
Rodríguez Palchevich (2008: 3) enumera algumas razões para a inclusão de fer- ramentas 2.0 especificamente em bibliotecas escolares:
Biblioteca 1.0 Biblioteca 2.0
Democratização do acesso à informação Partilha de informação
Estrutura estática que não sofre alterações Colaboração, o utilizador participa activamen- te na construção de conteúdos
Disponibiliza informação Interactiva; redes participativas
Foco na colecção Foco no utilizador
O utilizador vai à Biblioteca A Biblioteca vai ao utilizador
Inteligência individual Inteligência colectiva
Correio electrónico e páginas de questões mais
frequentes (FAQ) Serviço de Mensagens Instantâneas (chat)
Comunidade restrita Biblioteca sem fronteiras, uso de redes sociais na internet
Catálogo online estático Catálogo online participado
Catalogação manual Catalogação informatizada, colaborativa, em
rede
Indexação Tags
Acesso físico aos documentos Acesso digital aos documentos
a) A missão da biblioteca escolar. A biblioteca escolar tem como missão principal atender a comunidade escolar e servir o projecto educativo da escola e o currículo. Além disso, as orientações educativas nacionais incentivam a inclusão das novas tecno- logias ao serviço do conhecimento. Por consequência, a biblioteca escolar está obrigada a oferecer à comunidade educativa estratégias de acesso e partilha de informação e de novos conhecimentos, o que pode ser realizado com vantagem através das aplicações 2.0.
b) As características dos utilizadores da biblioteca escolar. O formato digital e on- line é muito bem aceite e já faz parte da vida da maioria dos utilizadores das bibliotecas
escolares. Estes jovens, nascidos depois dos anos 90 do século passado, são chamados de “nativos digitais” por terem nascido na era digital e daí se sentirem completamente à- vontade neste tipo de ambiente, incorporando-o em todas as vertentes da sua vida. O gosto e a utilização dos ambientes digitais estendem-se à generalidade dos jovens, inde- pendentemente do seu estrato social e cultural. Não faria, portanto, sentido deixar a bi- blioteca escolar numa realidade à parte do que é o quotidiano dos jovens de hoje.
c) As características das aplicações. Para aceder e incorporar na biblioteca escolar as tecnologias sociais disponíveis na Web não é necessário mais do que uma ligação à Internet e um computador, elementos estes que nem necessitam estar dentro da bibliote- ca. As aplicações 2.0 são intuitivas, de acesso livre e na sua maioria gratuitas. A sua in- tegração e desenvolvimento não requerem conhecimentos técnicos significativos.
d) Consequências positivas para a biblioteca. A inclusão de ferramentas 2.0 opti- miza os recursos e serviços da biblioteca escolar, amplia a colecção e concede uma maior visibilidade à biblioteca, para além de aumentar a comunidade de utilizadores.
Para que tudo isto se concretize, é necessário que professores e professores biblio- tecários:
a) reconheçam as mudanças no mundo da informação e respondam positiva e pro- activamente às mudanças;
b) conheçam os utilizadores e coordenem os serviços em prol destes; c) incluam os utilizadores na construção de conteúdos e serviços.
Implementar este novo conceito de biblioteca, implica necessariamente que os profissionais estejam preparados e abertos às mudanças e a novas experiências, actuem como mediadores e facilitadores, confiem nos utilizadores e aceitem que nem sempre serão o primeiro responsável pela criação dos conteúdos, já que este novo conceito de
biblioteca assenta na possibilidade dos utilizadores criarem conteúdos e interagirem uns com os outros e também com os bibliotecários (Conti, 2010: 12).
Em suma, reconhecemos, parafraseando Freedman (2010), que factores técnicos, económicos, comerciais, sociais e educacionais constituem, em conjunto, um argumento convincente para que as escolas não possam ignorar a Web 2.0. Quando utilizados de forma inovadora e significativa, a Web 2.0 permite aos estudantes o desenvolvimento de um conjunto de competências necessárias à sua participação activa numa sociedade exi- gente e em permanente mudança. Este tipo de aplicações pode constituir um meio para concretizar a necessária alteração do paradigma educacional ainda vigente, tornando-o mais condizente com as exigências da sociedade actual.