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Parte 4 - Entrevista com Manoel Jevan de Olinda Nome do entrevistado: Manoel Jevan de Olinda

M. J: Um museu aberto para poder bloquear esse ataque do pessoal de Taguatinga

V: Na biblioteca? Na livraria?

M.J: Não, eu era vendedor de livros de rua, de enciclopédias, Delta...essas coisas.

Saia lá na W3, todos os dias eu pegava os livros lá e saia vendendo. Daí esse convívio com meu pai, me trouxe dois interesse: primeiro, falar sobre os Anônimos, aquelas pessoas que estavam na construção de Brasília, mas não estava em lugar nenhum, que estavam excluídos. E o outro interesse foi sobre essa palavra candango, porque quando o meu pai falava esse nome, eu lembrava que lá no Nordeste eu já tinha escutado esse nome candango. Engraçado, eu escutava isso na minha infância, agora escuto aqui, isso é interessante, agora eu vou pesquisar sobre esse termo ai, e foi quando eu fui tomando consciência da exclusão que eles sofriam, da quase

escravidão que eles sofriam e da mágoa do meu pai, eu via que não era coisa boa e daí me interessei mais e decidi me aprofundar. Quando eu entrei na faculdade, em 89, eu já tinha toda uma visão crítica sobre os candangos, para você ver que eu nunca falo O CANDANGO, eu falo sempre na coletividade, é a memória coletiva de Brasília, os candangos. Ai eu tive contato com um livro do Câmara Cascudo, que é considerado um dos maiores estudiosos da cultura popular do Brasil, e ele fez uma viagem até Angola, lá na África, porque ele estudava a etimologia, etnologia, ele é considerado um dos maiores etnólogos do mundo, inclusive tem um museu de etnologia no Rio Grande do Norte que leva o nome dele, dos objetos que eles recolhiam. Ele se interessava muito na alimentação dos negros, nas danças dos negros, e ele viajou e descobriu que essa palavra candango, surgiu lá, ele fala o nome da etnia de Angola, que chamava os portugueses que faziam o tráfico negreiro lá, eles iludiam os africanos para poder comprar, adquirir os escravos. Então com o tempo, os chefes das etnias lá, descobriu que eles estavam sendo iludidos por esse tráfico negreiro e passaram a xingar essas pessoas, de vilões, então o primeiro significado de candango, quer dizer vilão, ordinário, pessoa que vem de Portugal para traficar o povo africano, esse foi o primeiro termo. Depois eu pesquisei em um livro, um outro livro do Câmara Cascudo, a questão das referências, chamado Dicionário do Folclore Brasileiro, que fala que no Nordeste, principalmente nas regiões canavieiras, era chamado peão, candango era chamado peão, pessoa sem profissão, as pessoas que vinham do êxodo rural para aqueles canaviais e que topavam qualquer coisa e que isso foi o presente, já entrando no terceiro termo aqui em Brasília, que surgiu no tempo de seca no Nordeste, então essas pessoas, os peões, se viram como mão de obra, Brasília surgiu como um grande bolsão de miséria, de trabalho, para essas pessoas que estavam morrendo na seca, de 1953 foi até 1958, bravo mesmo.

Imagina você viver mais de cinco anos sem água, principalmente para que vive de roça? Entendeu? Então de repente o JK anuncia, na Rádio Nacional, que era o grande meio de comunicação, que estava precisando de mais de 60 mil pessoas para construir Brasília, então as pessoas vinham, e vinham a rodo, ainda mais porque falavam que era um sonho de Dom Bosco, que era a Terra Prometida, que ia jorrar leite e mel, então as pessoas da seca vieram aos montes, meu pai veio nisso ai, mas

ele não acreditava em tudo, ele veio fugir da seca mesmo. Aqui meu pai falava, que quando a pessoa vinha aqui e não sabia nada, as pessoas falavam assim “ou seu candango”, que era xingando, de modo pejorativo, quando não era carpinteiro, não era mestre de obras, era chamado candango, que não sabia fazer nada, mas fazia de tudo. Era pau para toda obra.

Ai nós vamos encontrar agora o quarto termo, que já era na época da inauguração, isso ai quem contou foi o Seu Ermínio Ferreira, é um depoimento que eu tenho. O Seu Ermínio trabalhava de topografo na NOVACAP e morava na Cidade Livre e foi uma das pessoas que demarcou aqui o local chamado Barril, que era o local aonde seria colocada Ceilândia. Na realidade quando ele fez a demarcação aqui, era para ser um campo de pouso, que ali no 8º Batalhão de Polícia da Guariroba, tinha um serviço de radar, das forças armadas, que todos que iam para lá, passavam por aqui.

O resultado: ele veio para cá em 69, dois anos antes de 71, inaugurarem aqui, tanto que ele se considera o primeiro morador da Ceilândia. Ele conta que estava em uma obra, na Esplanada, antes de ele ser topografo, pois ele chegou aqui em 1957, inclusive ele é um dos raros pioneiro de Ceilândia, que eu chamo de Incansáveis, que faz parte daquele livro Os Pioneiros de Brasília, do Adirson Vasconcelos, que parece que são quatro volumes, então ele aparece, ele e a Dona Brasília. Ai ele me contou uma história, que meu pai também corroborou, só que meu pai tinha visto muitas vezes o JK, mas era mais assim em inauguração, ou em festa, essas coisas, mas o Seu Ermínio, disse que estava trabalhando no sistema de virada, trabalhou o dia todo e trabalhou a noite e quando foi lá para as duas horas da manhã, começou aquele poeirão, chegou aquele monte de carros, carro, jipe, de madrugada. Ele conta que era o JK e uma comitiva enorme de jornalistas e tinha umas mulheres com umas bandejas com água, café e bolachas, para dar os parabéns de como estava sendo construídas as obras, o pessoal ficou até chateado, porque chegaram todos pouvorosos e tiveram que parar o serviço, e quando ele estava saindo, ele ouviu alguém falar “Tinha que ser um candango mesmo, ou seu presidente candango”, ai um jornalista escutou isso e levou para o Rio de Janeiro, que o presidente tinha sido xingado de candango, o próprio Seu Ermínio considerava um xingamento, isso porque ele é nordestino e tinha vivido naquela seca. Ai então, Seu Ermínio fala que o

jornalista escreveu que o presidente JK tinha sido xingado de candango e em resposta o presidente foi e assumiu que era um candango e que candango era uma coisa boa e não era uma coisa negativa e que todos que estavam em Brasília deveriam ter orgulho de serem chamados de candangos, porque candango são os construtores de Brasília. Ele inventou, então a partir desse momento, segundo Seu Ermínio, passaram a se considerar candangos.

E o quinto termo, surgiu em 1985, quando Brasília foi tombada pela UNESCO Patrimônio Cultural da Humanidade, o governador José Aparecido foi e soltou tipo um comunicado, dizendo que o termo candango era igual brasiliense, o termo gentílico brasiliense, então desde então o dicionário Aurélio coloca candango é igual a brasiliense.

ANEXO A2 - Carta de cessão de direitos sobre o depoimento oral (Professor Manoel Jevan Gomes de Olinda)

ANEXO B1 - Entrevista com Professor Marcelo Souza Vaz

Nome do entrevistado: Marcelo Souza Vaz Cargo/formação: Professor

Data da entrevista: 27 de setembro de 2013 Entrevistador: Vinicius Carvalho Pereira

Tempo de gravação: 10 minutos e 34 segundos de gravação

Apresentação

V: Meu nome é Vinicius Carvalho Pereira, do curso de Museologia e esse trabalho é