• Nenhum resultado encontrado

A história da Biblioteca Nacional do Brasil pode ser entendida a partir de cinco marcos importantes, de acordo com a sistematização realizada por Pinheiro (2001, p. 241- 244).

O primeiro marco é em 1706, quando Dom João V foi coroado rei de Portugal. Dos livros de Dom Dinis e Dom João I, formadores da primeira biblioteca real portuguesa, pouco permaneceu até o início do século XVIII. Dom João V compilou os 6.000 volumes da Livraria da Sereníssima Casa de Bragança que, em pouco tempo, foram multiplicados para 60.000.

O ano de 1755 representa o segundo marco, afetado pelo terremoto, seguido de inundações e incêndios que destruíram a Biblioteca Real. O que restou foi construído a partir de grandes coleções, incluindo a coleção do abade Diogo Barbosa Machado (1682-1772). Barbosa Machado desempenhou um papel fundamental na presença de Bibliotheca Universalis na Biblioteca Real Portuguesa, como será discutido.

Na data do terceiro marco na história da Biblioteca Nacional, em 29 de novembro de 1807, os nobres de Portugal mudaram-se de Lisboa para o Rio de Janeiro. Este foi o momento em que a corte portuguesa deslocou-se para o Brasil, trazendo consigo o plano de uma estrutura administrativa.

O quarto marco está associado ao dia 29 de outubro de 1810 - data da fundação da Biblioteca Nacional. E o quinto é o dia 29 de agosto de 1825, data da assinatura da Convenção Adicional ao Tratado de Paz e Aliança entre Brasil e Portugal.

A Biblioteca Nacional tem um importante e grande conjunto de livros do Século XVI, que representam o encontro do Novo Mundo e da Europa. Um exemplo deste conjunto é a História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil (1576), de Pero de Magalhães de Gândavo e Warhaftig Historia und Beschreibung eyner Landtschafft der Wilden [...] (1557), de Hans Staden - o primeiro livro publicado na Europa com ilustrações que retratam a vida cotidiana das tribos indígenas no Brasil.

A presença da Bibliotheca Universalis e das Pandectae na coleção da Biblioteca Nacional está diretamente ligada a Diogo Barbosa Machado (Fig. 12), conforme mencionamos.

Figura 12 - Diogo Barbosa Machado (1682-1772)

Fonte: Machado (1741).

A obra mais conhecida de Barbosa Machado é Bibliotheca Lusitana, histórica, critica e cronologica: na qual se comprehende a noticia dos authores portuguezes e das obras que compuserão desde o tempo da promulgação da ley da graça até o tempo prezente (1741- 1759, 4 v.). Este é um repertório de autores da história de Portugal em ordem alfabética de autor que apresenta suas biografias e obras.

A partir de seu projeto bibliográfico lusitano, podemos afirmar que Barbosa Machado foi inspirado por Gesner.

Esta hipótese é confirmada pelo fato de que Cathalogo dos livros da livraria Diogo Barbosa Machado distribuídos por matérias e escrito por sua própria mão (Fig. 13), por Barbosa Machado, elenca Bibliotheca Universalis (Fig. 14).

Figura 13 - Cathalogo dos livros da livraria Diogo Barbosa Machado (17--)

Fonte: Machado (17--).

Figura 14 - Detalhe da referência para Bibliotheca Universalis no Cathalogo dos livros da livraria Diogo Barbosa Machado (17--)

Fonte: Machado (17--, f. 52r).

Como mencionado anteriormente, a coleção Barbosa Machado foi incorporada à Biblioteca Nacional. Portanto, o exemplar de Bibliotheca Universalis, atualmente presente na Biblioteca Nacional, é precisamente o que pertenceu a Barbosa Machado e que é referenciado em seu Cathalogo.

O exemplar de Bibliotheca corresponde à edição original, de 1545, e foi submetido à restauração, como podemos observar na Figura 15.

Figura 15 - Frontispício de Bibliotheca Universalis (1545), exemplar da Biblioteca Nacional

Fonte: Biblioteca Nacional. Fotografia: autor.

No frontispício de Bibliotheca e das Pandectae (Fig. 16), há o carimbo Da Real Bibliotheca (Fig. 17), o que demonstra que ambos pertenceram à Biblioteca Real Portuguesa e, mais tarde, incorporados à Biblioteca Nacional.

Figura 16 - Frontispício das Pandectae (1548), exemplar da Biblioteca Nacional

Figura 17 - Pandectae (1548), carimbo Da Real Bibliotheca

Fonte: Biblioteca Nacional. Fotografia: autor.

A Biblioteca Nacional possui outros títulos de Conrad Gesner, dos quais podemos destacar Bibliotheca instituta et collecta primum (1574). Em realidade, esta obra foi publicada por Josias Simler (1530-1576) e representa uma continuação e atualização de Bibliotheca Universalis.

De acordo com a marginália do inquisidor anônimo, autores arrolados em Bibliotheca instituta estariam condenados “Auctori damnati” e proibidos “Auctorem damnatum et cum expurgatione permit [ t ] itur. Anno 1621” (Fig. 18).

Figura 18 - Bibliotheca instituta et collecta primum (1574), Auctori damnati

Fonte: Biblioteca Nacional. Fotografia: autor.

Bibliotheca instituta é um exemplar expurgado com marcas contundentes de censura a tinta, que abrange os títulos das obras e os nomes dos autores (Fig. 19).

Figura 19 - Bibliotheca instituta et collecta primum (1574), marcas de censura

Fonte: Biblioteca Nacional. Fotografia: autor.

A análise preliminar dos exemplares, aqui apresentada, teve como objetivo uma observação mais ampla e refinada da presença de edições de Conrad Gesner no Brasil, do ponto de vista da Bibliografia e do resgate da importância da materialidade do livro antigo como documento, fonte e objeto de pesquisa.

Os exemplares de Bibliotheca e das Pandectae possuem valores históricos e culturais, ligados ao contexto institucional, às motivações e ao modo de aquisição, difusão, uso e apropriação.

No contexto específico das duas bibliotecas patrimoniais aqui apresentadas, a universalidade de Conrad Gesner é esse espaço geográfico e conceitual que inclui não apenas o Velho Mundo, mas também o Novo Mundo.

3 DO MÉTODO BIBLIOGRÁFICO GESNERIANO, PARTE I: BIBLIOTHECA UNIVERSALIS

“But don't fool yourself. She was heartache from the moment that you met her. Oh my heart is frozen still. As I try to find the will to forget her somehow. She's out there somewhere now” (Jeff Buckley, Forget her) Denominamos de método bibliográfico gesneriano aquele que resulta da operação documental realizada por Conrad Gesner num dos projetos bibliográficos mais ambiciosos da Europa Moderna: Biblioteca Universalis.

Bibliotheca Universalis é constituída por uma parte alfabético-nominal intitulada Bibliotheca Universalis (1545) e pelas Pandectae (1548, 1549), que são ordenadas sistematicamente, a partir do conteúdo semântico das obras. Neste sentido, podemos afirmar que Biblioteca Universalis é uma obra única, porém publicada por partes.

Para a exploração do método bibliográfico gesneriano, optamos pela leitura e análise das edições originais28 de Bibliotheca Universalis (1545) e das Pandectae (1548, 1549). Como já apontado na metodologia, tais edições são tanto fonte quanto objeto deste estudo.

Neste capítulo e no seguinte, a leitura e análise histórico-documental de Bibliotheca Universalis e das Pandectae também se dará pelo diálogo com a publicação mais completa que há sobre tema: a obra Conrad Gesner29, de Alfredo Serrai (1990).

Portanto, este capítulo discute o método bibliográfico gesneriano fundamentalmente a partir das fontes originais e de Serrai (1990), além de dialogar com outras fontes bibliográficas.

Neste capítulo e no próximo, pretendemos nos aproximar das respostas a alguns dos problemas basilares da nossa pesquisa: qual é a estrutura documentária de Bibliotheca Universalis e das Pandectae? Qual é a natureza, dimensão e princípio das obras? Em que consiste o método bibliográfico gesneriano?

Especificamente neste capítulo, após uma breve introdução sobre o gesto bibliográfico de Gesner, realizamos a leitura e análise de Bibliotheca Universalis (1545) com o objetivo de mapear, identificar, discutir e apresentar, à luz de teorias bibliográficas, notadamente italianas, o método bibliográfico gesneriano em sua dimensão descritiva-repertorial.

28 Naturalmente, após nosso longo e cuidadoso trabalho de tradução do texto latino para o português. 29 Nesta obra, Serrai (1990) apresenta os seguintes pontos sobre Conrad Gesner: sua biografia, perfil

intelectual, autobibliografia, obras bibliográficas, obras filológico-linguísticas, obras médicas e farmacológicas, obras físicas, químicas e mineralógicas, obras zoológicas, obras botânicas, epistolário, a biblioteca de Gesner e edições de suas obras.