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Parte II Desenvolvimento Conceptual

Secção 4.2.1.2 Bibliotecas

“A compilação do saber, de todos os conhecimentos em todas as áreas, obtidos em todas as épocas, em todos os lugares, foi sempre uma aspiração, ou pelo menos uma tendência, de todas as comunidades científicas” (FIDALGO). As bibliotecas são o exemplo mais paradigmático da reunificação do saber, constituindo por isso, um dos principais instrumentos do trabalho científico. Ao longo da história, foram dadas às bibliotecas várias finalidades. Desde a biblioteca de Assurbanípal49 em Ninive às de hoje, passando pela biblioteca de Alexandria, de Roma e as

existentes nos conventos beneditinos, coube-lhes a função de recolher os rolos ou volumes, para não ficarem dispersos, depois a de entesourar, pois eram valiosos os volumes recolhidos, a de transcrever, tal como faziam os copistas medievais, a de dar a ler e, finalmente, a de esconder as obras ao longo de séculos, permitindo que nos acervos das bibliotecas se encontre a obra julgada perdida para sempre, dando azo a descobertas surpreendentes.

Portugal vê hoje as suas bibliotecas como sendo instituições cujo objectivo é “assegurar as funções de aquisição, processamento, salvaguarda e conservação do património documental produzido em Portugal, produzido em língua portuguesa, ou referente a Portugal, onde quer que seja produzido, e considerado de interesse para a cultura nacional, independentemente do suporte utilizado, bem

48http://www.ica.org acedido a 27 de Dezembro 2003

como, em articulação com os restantes serviços competentes em razão da matéria, colaborar na sua difusão” (A. R., 1997b). Desta forma, têm como uma das suas obrigações várias, “receber e adquirir, tratar e conservar a documentação considerada de interesse para a língua, a cultura e o conhecimento científico do País, de maneira a enriquecer, em todos os campos do saber, o património nacional” (A. R., 1997b), para que possa facultar e estimular o seu acesso em condições de qualidade a todos os seus utilizadores. No caso da biblioteca portuguesa de referência, a Biblioteca Nacional, “o principal objectivo desta Instituição é não só pôr ao serviço da vida intelectual e científica do país toda a memória cultural que constitui o seu acervo, como também projectá-la para o exterior, desempenhando assim um importante papel como difusora do conhecimento e impulsionadora de modernidade.”50

A angariação de meios que permitem às bibliotecas garantir o enriquecimento e a actualização das suas colecções faz-se principalmente através do depósito legal (que obriga à entrega de exemplares por parte das indústrias bibliográficas), da aquisição de obras ou da doação de colecções particulares. Este objectivo de querer aumentar as colecções das bibliotecas alude à função bibliófila das bibliotecas. Porém, deve-se ter em conta que a função bibliófila de uma biblioteca é de cariz museológico. Uma biblioteca cuja finalidade fosse unicamente entesourar exemplares preciosos de livros seria um museu de livros e não uma biblioteca.

De acordo com HUMBERTO ECO51, uma biblioteca moderna possui três características

fundamentais, nomeadamente: a catalogação, a acessibilidade e os empréstimos. Catalogação, porque uma biblioteca sem catálogo “seria um simples depósito de livros” (FIDALGO). Quanto melhor estruturado estiver o catálogo, maior é a probabilidade da biblioteca ser mais utilizada. Acessibilidade porque sendo as bibliotecas instituições pensadas para servir o Homem, deviam permitir um acesso directo aos livros e em horários (muito) alargados, para que o utilizador não só encontre o livro que pretende, mas essencialmente para que se possam “descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós“, sendo esta a principal função de uma biblioteca na opinião de Humberto Eco. Este afirma mesmo que “a função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados, e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes” (ECO In FIDALGO).

50http://www.bn.pt acedido a 26 de Janeiro 2004

51 Humberto Eco referido em FIDALGO, António: “A Biblioteca Universal na Sociedade de Informação”, acessível em

A terceira característica fundamental nas bibliotecas modernas é a dos empréstimos. Intimamente relacionada com a questão da acessibilidade, os empréstimos permitem que as bibliotecas cumpram uma das suas importantes funções, nomeadamente a promoção da leitura, dando os seus livros a ler. Já em 1796, a Real Biblioteca Pública da Corte portuguesa distinguia-se das restantes europeias suas congéneres por pretender facilitar o acesso aos seus tesouros manuscritos e impressos, coleccionados numa pré-existente Biblioteca Real, a todos os interessados, e não apenas “à disposição de sábios, eruditos ou curiosos”52.

No mundo cultural actual, no limiar do séc. XXI, os principais desafios que as bibliotecas enfrentam prende-se com a sua capacidade em facilitar a consulta das suas colecções a um número crescente de utentes. Estes abrangem um leque cada vez mais alargado de público - estudantes, professores universitários e investigadores independentes - bem como amantes do saber, quadros de empresas e agentes económicos, e ainda trabalhadores intelectuais e novos agentes criativos. Por outro lado, têm também de satisfazer todos os leitores/utilizadores, cujos pedidos aumentam, não só em quantidade, mas também em complexidade e exigência. Com as necessárias adaptações dos seus recursos humanos, a influência das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) pode ser determinante para que estes desafios operacionais sejam ultrapassados.