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As inscrições não remetem no vazio a outros signos, uma vez que, a cada mudança de nível, elas se carregam de matéria e servem de validação uma à outra. E, no entanto, não se pode percorrer sua cadeia sem encontrar, atrás da matéria anterior, outras marcas, outras instituições que já „prepararam o terreno‟, a fim de que sua leitura se torne compatível, apesar da mudança de nível, com o mapa que eu seguro na mão. Se desejamos entender como chegamos, às vezes, a dizer a verdade, devemos substituir a antiga distinção entre a linguagem e o mundo por essa mistura de instituições, formas, matérias e inscrições (LATOUR, 2000a, p. 41).

A história das bibliotecas é habitada pelo mito. Babel e Alexandria são dois pólos fundamentais desse imaginário. De um lado [...]: a biblioteca como metáfora do infinito, do tempo imóvel, da imensa sincronia de todas as palavras e pensamentos jamais formulados, exposta ao risco final da perda de sentido e de referência. De outro, o incêndio, a ruína, o esquecimento, a morte: a biblioteca ou o pesadelo da destruição, a obsessão do irremediável, a interrupção brutal da transmissão (JACOB, 2000, p. 11).

Toda biblioteca conserva a lembrança das que a antecederam e que talvez a tenham sonhado (JACOB, 2000): as bibliotecas nacionais conservam em si, entre outras, Alexandria

e Babel. O paradigma da acumulação, os ideais colecionistas e a pretensão de executarem o

controle bibliográfico universal permitem que as bibliotecas nacionais sejam associadas, de modo recorrente, a esses importantes mitos da Antiguidade que representaram essas ambições. Há certa atmosfera utópica que liga essas instituições, a grandeza que pretendem é incalculável, semelhante à interminável biblioteca que Borges nos apresenta ao caminhar por hexágonos infinitos, ao nos descrever uma biblioteca tão extensa que se iguala ao tamanho do universo.

Há também outra importante lembrança conservada pelas bibliotecas nacionais: a das

bibliotecas reais. Segundo Fuentes (2003) é por terem se consolidado e se estabelecido a partir das coleções das bibliotecas reais, exclusivas das monarquias, que as bibliotecas nacionais são normalmente formadas por acervos ricos e de peças raras - um extenso e importante patrimônio cultural composto por livros e manuscritos de incalculável beleza e valor, além das diferentes modalidades de publicações periódicas, fotografias, gravuras, mapas, partituras e de toda classe de documentos, muitos com importância relacionada à raridade ou à curiosidade que despertam.

Por mais que as bibliotecas sejam lugares da continuidade, elas são também, continuadamente, lugares das rupturas de tradições (JACOB, 2000). A história das bibliotecas é também a história do que uma sociedade, as instâncias de poder e um meio intelectual decidem transmitir - elas dissimulam funções que lhe cabem na sociedade de seu tempo, seja por sua arquitetura, pela definição do seu público ou pelas opções tecnológicas

que determinam a acessibilidade e a materialidade dos textos (idem). Assim como Alexandria já demonstrava, as bibliotecas são instrumentos e signos de poder (idem):

Poder espiritual da Igreja. Poder temporal dos monarcas, dos príncipes, da aristocracia, da nação e da república. Poder econômico de quem dispõe de recursos necessários para comprar livros, impressos ou manuscritos, em grande quantidade. Poder enfim intelectual e sobre os intelectuais [...] (JACOB, 2000, p. 14).

Dessa forma, por mais que as bibliotecas nacionais evoquem as bibliotecas citadas, é importante destacar que elas se inscrevem em diferentes contextos históricos e em outros projetos de poder - são, efetivamente, um projeto da modernidade. Existe um enquadramento típico do surgimento das bibliotecas nacionais na Europa: é no cenário da ascensão da burguesia, que museus, bibliotecas e arquivos, criados inicialmente como espaços de memória da realeza europeia, se transformam em instituições públicas. Assim, a história das bibliotecas nacionais está ligada ao processo de consolidação dos Estados Nacionais europeus e apresenta importância política e simbólica extensas, pois são trajetórias que se vinculam a diferentes estratégias de conhecimento, a razões de Estado e a visões de mundo (TRIGO, 2004). O caso francês serve como ilustração clássica, juntamente com a crise monárquica no final do século XVIII, a então Bibliothéque Royale de Francia passa a ser denominada Bibliothèque Nationale.

Em consonância, Wainwright (1993) indica que o crescimento e o desenvolvimento das bibliotecas nacionais em todo o mundo tem sido dependente das forças que afetam o estabelecimento e a queda das próprias nações. Seus surgimentos refletem o processo de

emancipação política e o nacionalismo em ascensão nos países, foi assim que no século

XIX se estabeleceram mais de duas dezenas de bibliotecas nacionais - na América Latina surgiram as bibliotecas da Argentina (1810), Venezuela (1810), Chile (1813) e México (1867); mesmo período em que são criados importantes arquivos, museus e teatros nacionais. Já no século XX, cerca de 30 bibliotecas nacionais foram fundadas, como a de Cuba (1901), Panamá (1942) e Jamaica (1979) (CAMPELLO, 2006). O desenvolvimento da Biblioteca Nacional do Brasil tem uma trajetória longa, que remonta ao início do século XIX e a transferência da sede do império português para o Brasil; foi em 1876 que um decreto imperial a intitulou Biblioteca Nacional e Pública do Rio de Janeiro. O prédio que ainda abriga a sede da Biblioteca Nacional do Brasil foi inaugurado em 1910 (idem).

A relação entre as políticas preservacionistas e a formação dos Estados nacionais é um processo complexo e de duas vias. Os processos históricos de solidificação das nações foram fundamentais para a estruturação de políticas culturais e de um aparelho burocrático dedicado à preservação de bens móveis e imóveis que se tornaram patrimônios. Do mesmo modo, as

práticas de salvaguarda também agiram e agem na construção das identidades nacionais, através da determinação de lugares de memória e da materialização de histórias e narrativas nacionais construídas como coleções que arranjam os patrimônios históricos e artísticos de uma nação (AGUIAR, 2015).

Os conceitos de nação e patrimônio surgem basicamente a partir da crença de que existem indivíduos que partilham uma memória, que pertencem a um mesmo grupo constituído pelas mesmas lembranças e que, a partir disso, devam preservar e compartilhar com as gerações que os sucedem a memória desse passado comum. Entretanto, esses conceitos não são historicamente estáticos, e a solidificação dos Estados nacionais, resultantes especialmente das revoluções Francesa e Industrial foi um marco importante para a modificação da definição tradicional de patrimônio - vinculado originalmente ao pai de família (RODRIGUES, 2015).

Para Stuart Hall (2006) a formação de uma cultura nacional contribuiu para criar padrões de alfabetização universais, generalizou uma única língua vernacular como o meio principal de comunicação em toda a nação, criou a ideia de uma cultura homogênea e manteve instituições culturais nacionais. Com a ajuda desse mecanismo, a cultura nacional se tornou um elemento essencial para a industrialização e um dispositivo da modernidade - elas são compostas não apenas por instituições culturais, mas por símbolos e representações. Uma

cultura nacional é um discurso, um modo de construir sentidos que afeta e organiza nossas

ações e a concepção que temos de nós mesmos. Dessa forma, as culturas nacionais ao produzirem sentidos sobre a nação, sentidos passíveis de identificação, trabalham construindo

identidades. Além disso, a cultura nacional pode ser entendida como uma comunidade

imaginada que ressoa três conceitos: as memórias do passado, o desejo por viver em conjunto e a perpetuação da herança.

Se até o final do século XX, as culturas nacionais em que nascíamos constituíam uma das principais fontes de identificação cultural - e as identidades nacionais tendiam a se sobrepor a outras fontes mais particularistas, um complexo de forças e mudanças que pode ser sintetizada por globalização se relaciona fortemente com os deslocamento nesse modelo de construção identitária (HALL, 2006). Para Anthony McGrew (1992 apud HALL, 2006) a globalização se refere aos processos que atravessam fronteiras nacionais, integrando, conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo mais interconectado. Há certa concordância que desde os anos 70 o alcance e o ritmo da integração global aumentaram, acelerando os fluxos e os laços entre as nações.

Levando em consideração a afirmação de Mueller (1984) - a instituição biblioteca não é uma entidade independente, capaz de declarar quais e como serão oferecidos seus serviços, ou quais serão seus objetivos de modo isolado, ela depende dos contextos históricos e está sujeita às forças existentes no ambiente onde atua - identifica-se uma questão importante: as bibliotecas nacionais surgem e se consolidam como instrumentos e signos de poder dos

Estados nacionais. Enquanto símbolos nacionais eram materializações de projetos de nação

e projetos de poder, estavam a serviço da construção de uma memória nacional. Entretanto, será que com as transformações identificadas, esse papel político mais claro continua a se destacar nos discursos referentes a essas instituições a partir do século XX?

Diante dessa questão e da afirmação de Frohmann (1995) - as bibliotecas são artefatos híbridos: são ao mesmo tempo reais, sociais e discursivas - procura-se explorá-las enquanto

artefatos discursivos na próxima seção.

2.1 ARTEFATOS DISCURSIVOS

A partir de meados do século XX, a literatura analisada indica, repetidamente, a

dificuldade de uma conceituação capaz de contemplar as bibliotecas nacionais enquanto

categoria. Essa dificuldade, até mesmo impossibilidade, aparece nas obras de: Arundell Esdaile5, responsável pela publicação em 1934 de um dos primeiros trabalhos de caráter geral sobre as bibliotecas nacionais no mundo; na revista norte-americana Library Trends6 que dedicou em 1955 um número sobre essas instituições; é relatada por Pierre Bourgeois7 (1958) na ocasião do Colóquio de Viena, Godfrey Burston (1973)8 e Cornish (1991)9.

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Arundell Esdaile, então diretor da Biblioteca do Museu Britânico, foi o responsável pela publicação em 1934 de um dos primeiros trabalhos de caráter geral sobre as bibliotecas nacionais no mundo. A base da obra de Esdaille está na comparação entre essas numerosas instituições, para ele a uniformidade entre elas não deveria ser esperada – as tradições sociais e políticas de um país produziam um serviço bibliotecário distinto de outro, além disso, as variações se relacionavam com o valor que os governos concediam às suas bibliotecas nacionais (FUENTES, 2003).

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A revista fez um estudo comparativo entre vinte e cinco bibliotecas nacionais. Como conclusão, a publicação afirmava a impossibilidade de fornecer uma definição que contemplasse todas as bibliotecas nacionais, os motivos seriam: elas se encontravam em um período de ativa transformação, eram instituições de grande complexidade que escapavam ou declinavam de uma classificação mais rígida, tinham características distintivas que muitas vezes eram motivação de orgulho (BOURGEOIS, 1958).

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Em 1958 no Colóquio de Viena sobre as Bibliotecas Nacionais da Europa, promovido pela UNESCO, Pierre Bourgeois (1958) vai afirmar que ainda não se sabia, até aquele momento, o que era, efetivamente, uma biblioteca nacional (FUENTES, 2003).

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Godfrey Burston (1973), partindo das colocações do Colóquio de Viena (1958), faz um estudo das características e das diversidades que essas instituições apresentavam, alertando que, muitas vezes, os estudos e os profissionais ao se referirem às bibliotecas nacionais, estavam na verdade se referindo a realidades muito distintas (FUENTES, 2003).

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Para Cornish (1991) as bibliotecas nacionais são, por definição, limitadas em número, de modo que essa é a única coisa que se pode dizer sobre elas enquanto „coletivo‟. No mundo todo elas manifestam uma considerável divergência em tamanho, financiamento, estrutura e funções e percebem de maneiras muito distintas o papel que representam, que pode ir de atuações puramente arquivisticas e funções de agente comercial da informação.

Também Sylvestre (1987) inicia o seu Guidelines for National Libraries afirmando que:

Com a exceção de certo número de bibliotecas em países desenvolvidos que desempenham as mesmas tarefas mínimas, não existe no mundo industrializado duas bibliotecas nacionais exercendo as mesmas funções, fornecendo os mesmos serviços ou que ocupem o mesmo lugar entre os organismos culturais e científicos do país correspondente. São tantos os aspectos que as diferenciam que seria inútil definir a biblioteca nacional ideal e esperar que essa definição seja aceita universalmente e se traduza em instituições similares (SYLVESTRE, p. 1, tradução nossa).

As produções teóricas mais recentes fomentadas pela IFLA também reafirmam a dificuldade conceitual (STEPHENS, 2016). Aliás, se há algum consenso nessa história toda parece ser exatamente o da impossibilidade de um consenso - não haveria conceito geral capaz de encerrar e dar conta de todas as multiplicidades encontradas entre as bibliotecas nacionais. Diante dessa questão, Maurice Line (2001) recorreu a uma provocativa analogia; afirma que essas instituições são um pouco como os cachorros, eles também apresentam uma enorme variedade, mas ainda assim são reconhecidos e agrupados como tal. Desenvolvendo a provocação, o autor vai dizer que as bibliotecas nacionais variam de mastins ingleses a chihuahuas, de elegantes puros-sangues a mestiços famintos, de cães muito velhos a filhotes, alguns são amigáveis, outros exigem uma aproximação cautelosa, a maioria não gosta de crianças.

Para Fuentes (2003) a dificuldade em conceituar as bibliotecas nacionais é decorrente do fato delas terem se estabelecido em cada país a partir de processos diferenciados - as diversidades observadas entre elas teriam, portanto, raízes históricas, culturais, sociais e políticas. Ainda para o autor, se referir às bibliotecas nacionais seria se referir a um conceito absolutamente variado, polissêmico e multiforme.

Efetivamente, essa multiplicidade pode ser constatada: existem diversas possibilidades de estruturação das bibliotecas nacionais. Por exemplo, bibliotecas especializadas, universitárias ou públicas acabam assumindo em alguns países o papel de biblioteca nacional devido à liderança que exercem (CAMPELLO, 2006).

É conhecido o caso norte americano em que a Library of Congress, uma biblioteca parlamentar, desempenha o papel de biblioteca nacional; além da Library of Congress os EUA contam também com bibliotecas nacionais que abarcam determinadas especialidades, como o caso da National Library of Medicine e da National Agricultural Library. Na Finlândia, em Israel e na Dinamarca a biblioteca nacional funciona como biblioteca universitária. Já na Indonésia a biblioteca nacional é formada por quatro órgãos: pela biblioteca do museu nacional; por uma biblioteca especializada em ciências sociais, política e

história; pela biblioteca regional de Dakar e por uma divisão bibliográfica. No Quênia, a função da biblioteca nacional é exercida por uma rede, o Kenya National Library Service, essa rede é responsável por integrar as bibliotecas das diversas províncias do país, e está mais voltada para o estímulo à leitura. No Panamá, a Fundación Biblioteca Nacional é responsável por administrar a biblioteca nacional e as bibliotecas públicas ligadas ao ministério da educação. Na Alemanha, as bibliotecas nacionais são segmentadas e não incluem a palavra “nacional” em sua nomenclatura, dessa forma, há bibliotecas “nacionais” nas áreas de medicina, ciência e tecnologia, agricultura e ciências sociais. Os casos da Itália e do Canadá são semelhantes, cada país conta com duas bibliotecas distintas - na Itália há uma biblioteca nacional em Roma e outra em Florença, no Canadá há uma em Montreal e outra no Québec (CAMPELLO, 2006).

Humpreys (1987 apud DODEBEI; GRINGS, 2015) vincula o problema identitário das bibliotecas nacionais ao histórico da dificuldade em definir o que de fato é uma biblioteca nacional e quais são suas atribuições. Segundo Dodebei e Grings (2015):

Se o fato das bibliotecas nacionais serem organismo constituinte da identidade de uma nação poderia contrapor a falta de identidade das próprias bibliotecas, mantida por um longo período, isto de fato aconteceu e teve consequências críticas. Dainton, no prefácio escrito para Humphreys (1987), afirmava categoricamente: “As bibliotecas nacionais estão em crise por toda a parte” (HUMPHREYS, 1987, p. vii). O autor atribui essa crise a um certo apego ao passado, à herança das bibliotecas reais que eram basicamente pautadas pelo papel de representantes de uma identidade nacional sem, no entanto, possuírem uma missão institucional claramente definida. Com isso, Dainton identifica o declínio dos aportes financeiros que deveriam ser providos pelo Estado, o que torna o objetivo de formar uma coleção extensa e rica praticamente inviável. Além disso, Dainton verifica os problemas decorrentes justamente do tamanho das coleções e das dificuldades de processamento técnico, conservação e armazenamento de materiais que são incessantemente incorporados por força do depósito legal, além dos desafios de incorporar as novas tecnologias ao atendimento dos usuários, cada vez mais exigentes (DODEBEI; GRINGS, 2015, p. 14).

Fuentes (2003) faz uma interessante colocação - diante da multiplicidade de estudos que teorizam as bibliotecas nacionais na década de 70, o autor vai dizer que o fato de algumas bibliotecas requererem a denominação de „nacionais‟ se vincula mais a uma questão política, em função da variedade de interpretações referentes aos conceitos de nação e estado, do que às questões técnicas ou profissionais. A colocação de Fuentes também se vincula à provocação de Cornish “uma biblioteca nacional é uma biblioteca que chama a si mesma de biblioteca nacional” (1991, p. 1, tradução nossa).

As colocações citadas evidenciam o que é apontado por Foucault (2014): os discursos, longe de serem elementos transparentes e neutros, são lugares em que a política exerce alguns de seus mais temíveis poderes. O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou

os sistemas de dominação, mas aquilo, porque, pelo que se luta, o poder do qual queremos nos apoderar. Ainda para Foucault (2014), existem vários procedimentos de controle e de delimitação do discurso - em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo selecionada, controlada, organizada e redistribuída por procedimentos que visam conjurar seus perigos e poderes, dominar sua aleatoriedade e esquivar sua materialidade.

Para Bowker e Star (2000) as classificações são tecnologias poderosas, que devem ser reconhecidas como locais significativos de trabalho político e ético; as classificações representam escolhas técnicas e sociais, ainda que difusas ou ocultas. Também segundo Capurro e Hjorland (2007) as classificações trabalham com conceitos, e os conceitos são construções planejadas com o intuito de desempenharem papéis, eles podem tanto se vincular às intenções políticas quanto aos contextos sociais e históricos daqueles que os estabelecem.

Nesse sentido, quando são consultadas as referências mais tradicionais de Biblioteconomia ou os guias internacionais que buscam estabelecer as conceituações das bibliotecas nacionais, é importante ter em mente que essas definições não apresentam intenções isentas, são construções e embates discursivos. Como exemplo, Fonseca, em livro reeditado em 2007, estabelece uma separação entre as bibliotecas pelos tipos de usuários que atendem e, para ele, as bibliotecas nacionais não estão à disposição de qualquer tipo de usuário, mas, de uma clientela qualificada, para o atendimento do chamado “público em geral” existiriam as bibliotecas públicas. Identifica-se que a vinculação das bibliotecas nacionais a um „público qualificado‟ é recorrente até o final do século XX no discurso analisado, entretanto, essa vinculação não é unânime e parece passar por transformações no século XXI.

Com outra abordagem, o plano de atuação da Biblioteca Nacional da França (BnF) para o período de 2017-2021, fixa entre seus objetivos principais renovar o relacionamento com o público, para tanto, afirma que além de fortalecer o acolhimento do que a instituição chama de “seus públicos naturais” (pesquisadores, professores e alunos) e trazê-los em maior número, a BnF pretende também diversificar seu público, sejam eles usuários potenciais de serviços locais ou remotos (BNF, 2017).

Apesar das diferenças identificadas entre as bibliotecas nacionais e a consequente dificuldade em conceituá-las, existe um esforço na literatura para estabelecer critérios lógicos capazes de ligarem essas instituições. Os critérios que operam conectando as bibliotecas nacionais entre si são variados - às vezes se relacionam com a posição geográfica, às vezes com o desenvolvimento econômico dos países em que se situam, às vezes com os períodos históricos dos seus surgimentos ou com as funções e serviços oferecidos. Dentre esses

critérios, Alexander Wilson (1983 apud FUENTES 2003) vai pontuar aquele se destaca na literatura - o então diretor da Divisão de Referência da British Library afirma que devido à dificuldade de conceituar as bibliotecas nacionais, importaria mais os enfoques pragmáticos

das funções que são essenciais ou específicas dessas instituições; importaria mais o tema do

fazer do que o tema do ser.

Cunha e Cavalcanti (2008) definem a função da biblioteca como relativa aos objetivos que deverão ser atingidos por essa instituição. Para Maciel e Mendonça (2000) o estudo das funções organizacionais tem como objetivo a construção de estruturas e sistemas equilibrados e eficientes. A função se estabelece como o elemento por meio do qual as organizações concretizam suas metas; o principal objetivo do estudo das funções é o estabelecimento da percepção analítica das atividades fundamentais das partes que compõem um todo, a compatibilização e a coordenação de esforços e a eliminação do que é desnecessário.

A abordagem funcional predomina na definição da 16ª Conferência Geral da Unesco

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