Buscamos outras festas de Carnaval no Brasil que possuem blocos carnavalescos com bichos. Dentre as festas pesquisadas, encontramos no Brasil o “Cordão dos Bichos”, um bloco carnavalesco tradicional da cidade de Tatuí, interior de São Paulo. A escolha da análise desta festa reside no fato de que assim como a Bicharada do Ari, o “Cordão” utiliza um Bloco de bichos que desfilam na época do Carnaval.
A festa analisada também é tradicional, ocorrendo há vários anos e mantendo os principais elementos que a caracterizam, assim como a Bicharada do Ari. Dessa forma, pretendemos descobrir quais as semelhanças e mesmo as diferenças que esta festa possui em relação à Bicharada do Ari. Nesse sentido, podemos descobrir prováveis origens da referida festa, pois como mencionamos no primeiro capítulo, embora tenhamos constatado que o senhor Ari inspirou-se em alguns elementos das festas de Bumba-meu-boi, a Festa da Bicharada do Ari não tem todos os elementos para ser considerada uma variação desta festa.
Na Figura 17, observamos o desfile do Bloco Cordão dos Bichos, nas ruas da cidade de Tatuí, SP. Essa fotografia está disponível no site oficial da festa.
Figura 17 Cordão dos Bichos.
Fonte: http://www.tatuifacil.com.br/cordaodosbichos/
A festa Cordão dos Bichos, de São Paulo, surgiu em 1928, de acordo com Maria Isaura Pereira de Queiroz (1994):
[...] um grupo de figuras variadas em papier-maché - girafas, ursos, elefantes, grandes sapos, grandes borboletas, cavalos, bois, cabeçorras e gigantes - organizado por um modesto comerciante e seus parentes. O Cordão abre o desfile; as investidas dos animais contra o público e a musiquinha de charanga lembram os antigos bumba-meu-boi tradicionais e são saudadas com palmas, com risos, com fugas e gritos das crianças. (QUEIROZ, 1994, p. 36)
No bloco Cordão dos Bichos não encontramos os personagens que se vestem com trajes femininos, mas temos outras semelhanças com a Festa do Ari, que são significativas. A primeira delas é o fato de ser um bloco formado por adultos e crianças que desfilam sobre fantasias de animais e bonecos gigantes. A segunda é o fato de também ter a figura do boi que faz investiduras contra o público, semelhante às antigas festas de “bumba meu boi”. E a terceira semelhança entre as duas festas reside no fato de ambas terem sido fundadas por alguém da comunidade, que no início contavam apenas com o apoio de parentes e amigos para manter a festa.
De acordo com o artigo publicado por Maria Isaura Pereira de Queiroz (1994), sobre a festa de Carnaval da cidade de Tatuí – SP, observamos muitos pontos
semelhantes na histórias das duas festas. Podemos afirmar que A Bicharada do Ari e o Cordão dos Bichos possuem trajetórias parecidas.
Uma delas é o fato da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, assim como a do Rio Grande do Sul ter necessitado incrementá-las com subvenções 42, para que estas manifestações não desaparecessem. Conforme Queiroz (1994):
[...] no início dos anos 60, a Secretaria da Cultura do Estado preocupou-se com o desaparecimento de várias manifestações do folclore paulista e resolveu incrementá-las inclusive com subvenções. O Cordão dos Bichos era então quase que a única manifestação carnavalesca de Tatuí; alguns blocos desfilavam também; mas as escolas de samba só surgiram mais tarde. A partir desse ano, o Cordão dos Bichos teve assegurada a sua sobrevivência. Esta, no entanto, está ameaçada por uma nova circunstância: tempos atrás, muita gente vinha se oferecer para sair no Cordão, envergando uma das fantasias de bichos, cuidadosamente guardadas numa velha garagem, mas desde o aparecimento das escolas de samba e o aumento dos blocos, não há mais quase interessados; para que nenhum dos trajes fique de lado, os organizadores pagam modestas gratificações a gente da roça, que se esmeram mas que não tem a desenvoltura e a graça dos citadinos. O “inventor” do Cordão dos Bichos, que até hoje o dirige, prevê que, se não forem aumentadas as subvenções do governo do Estado e da prefeitura local, o Cordão dos Bichos estará fadado a desaparecer. (QUEIROZ, 1994, p. 36)
Outra semelhança, que, de certa forma, pode nos ajudar a compreender o motivo do baixo número de participantes que se inscrevem para andar nos bichos em relação ao passado, é o fato de antigamente não ter uma escola de samba em Piratini e hoje existir a Escola de Samba Gambada. Observamos em vários depoimentos que as pessoas percebem essa mudança, mas não sabem explicar o motivo e, comparando as festas, surge esta hipótese. Outro fator é que ambas as festas são totalmente gratuitas para o público que participa e prestigia.
No entanto, o ponto em que as festas se diferenciam é que a Bicharada do Ari até o presente não precisou pagar nenhum valor para que os bichos sejam carregados, embora nem todos os bichos tenham crianças dispostas a carregá-los todos os dias da festa, aqueles que saem as ruas é porque as crianças se dispoem a carregá-los e divertirem-se.
Em sua entrevista em 17/01/2016 João Manuel Silveira Manetti, de 57 anos, nos fala sobre isso:
42 Subvenção é um auxílio pecuniário, em geral concedido pelo poder público. É uma modalidade de transferência de recursos financeiros públicos, para instituições privadas e públicas, de caráter assistencial, sem fins lucrativos, com o objetivo de cobrir despesas de seus custeios. Referência: [http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L4320.htm Lei Federal nº 4.320 de 17 de março de 1964
[...] publicamos para ver se vem gente e, olha aí, não têm crianças suficientes para sair nos bichos... Sobra bicho e não tem ninguém pra sair...
Antigamente, nós íamos lá pra Bicharada, que era ali na casa do seu Ari, e, se a Bicharada fosse sair as dez da noite, às sete horas nós já [estávamos] pronto[s] para sair... Esperava três horas para sair na Bicharada... Agora hoje não... A gente marca para sair às nove horas, e pode ver aí são nove horas e ainda não tem gente suficiente para sair. (informação verbal)43.
Observamos, portanto, que, em ambas as festas, houve uma diminuição do número de participantes que querem carregar os bichos. No entanto, tanto o Cordão dos Bichos como a Bicharada do Ari ainda sobrevivem até os dias atuais, sendo provavelmente umas das poucas manifestações culturais de Carnaval nesse estilo a manterem-se vivas por tanto tempo aqui no Brasil.