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2 DA EDUCAÇÃO INTEGRADA À EDUCAÇÃO “INCLUSIVA” E

2.6 FILOSOFIAS EDUCACIONAIS NO ENSINO DE SURDOS:

2.6.3 Bilinguismo

O bilinguismo parte do princípio que o surdo deve adquirir como sua primeira língua, a Língua de Sinais da comunidade surda. Portanto, diferente da comunicação total e do oralismo, reconhece o status de língua das línguas sinalizadas. É comum entre os seguidores dessa corrente a defesa pelo reconhecimento de uma identidade cultural surda. Há um deslocamento claro do discurso clínico para um discurso sócioantropológico e sóciolinguístico.

A Língua de Sinais acredita os seus seguidores dessa corrente, que facilitaria o desenvolvimento de conceitos e a relação do sujeito surdo com o mundo. A língua portuguesa, no caso do Brasil, deve ser ensinada como segunda língua, no contexto geral, na modalidade escrita e na modalidade oral, somente, para aqueles que assim optarem. Nessa perspectiva a língua oral jamais deverá ser imposta. É uma filosofia em ascensão no Brasil, devido, principalmente, a militância do movimento surdo por meio de sua principal instituição representativa, a FENEIS, que com suas diversas filiais e associações milita em prol dessa causa. Embora, ainda, encontre forte resistência por parte da equipe técnica do MEC e das secretarias estaduais e municipais de educação, encontra apoio entre diversos pesquisadores de universidades públicas e privadas em todo o país.

Mais uma vez, não devemos esperar por um consenso interno ou externo às filosofias educacionais para surdos. Assim como há divergências entre as filosofias, há também divergências internas, se não sobre os fins da educação, no mínimo sobre seus meios. No bilinguismo, há quem advogue que a Língua de Sinais e a língua oral devam ser ensinadas sucessivamente, mas há quem defenda a simultaneidade no ensino. Mesmo quando o consenso em torno das línguas de sinais e do português escrito como primeira e segunda língua é possível, outros aspectos são discordantes.

Alguns pesquisadores propõem a inclusão da escrita de sinais na proposta de ensino, antecedendo o ensino do português escrito como segunda língua, enquanto outros se opõem a esta proposta. É essa uma proposta ainda em amadurecimento, portanto os descompassos são, até certo ponto, compreensíveis. O debate torna-se mais acirrado quando é possibilitada a participação dos diversos atores sociais, alguns ainda apegados às correntes do oralismo e da comunicação total ou recém-egresso delas.

Ainda não foi analisada profundamente a transição entre o oralismo e a comunicação total e entre esta última e o bilinguismo. Menos ainda a transição entre o oralismo e o bilinguismo sem a mediação da comunicação total, o que parece ser o caso do município de Natal com a recente proposta dos Complexos de Educação Bilíngue de Referência para Surdos.

O aparente “anacronismo” pode caracterizar as políticas educacionais atuais, pois a comunicação total não eliminou o oralismo e nem esta foi eliminada pelo bilinguismo. Este “anacronismo” aparente pode ocorrer quando a filosofia educacional cronologicamente posterior é parasitada pela anterior levando consigo parte de sua essência.

Para nossa reflexão: o que na comunicação total veio como herança do oralismo? O que no bilinguismo veio como herança da comunicação total e do oralismo? Ignorar que as rupturas, as mudanças de paradigmas quase sempre são dolorosas, pois tem seus opositores que tentam, a todo custo, manter ativa a opção vigente, nos levará a uma narrativa fantasiosa desses acontecimentos. Omissões, concessões e complementações norteiam o diálogo entre os que querem manter-se na zona de conforto do paradigma vigente e os quer o denunciam como insuficiente.

Quadro 1 – Filosofias educacionais para surdos

Oralismo Comunicação Total Bilinguismo

1 Exclusividade ou primazia no ensino da língua oral

Ensino da língua oral e outro recursos associados

Língua de Sinais e língua oral/escrita com primazia da

para a comunicação ou não Língua de Sinais e da escrita da língua portuguesa

2 Língua oral como língua de instrução

Língua oral e outras formas de linguagens como meio de instrução

Língua de sinais e língua portuguesa escrita como língua de instrução

3 Não faz uso da língua de sinais

Faz uso da linguagem de sinais

Faz uso da língua de sinais (Como primeira língua) 4 Não reconhece a existência

de uma cultura surda

Não reconhece a existência de uma cultura surda, mas de uma diferença surda

Reconhece a existência de uma cultura surda

5 Associado ao verbo tonal Associado ao bimodalismo Associado as teorias sobre o ensino de L1 e L2

Fonte: Elaboração própria

As ideias sobre criança, escola, educação, ensino e aprendizagem em cada época levaram aqueles que estavam em situações favoráveis de inclusão social a se manifestarem positiva ou negativamente com relação aos sujeitos desviantes do padrão de normalidade constituída nestes períodos. Com relação aos surdos, essas ideias já eram (e ainda são) atravessadas pelos diversos discursos: social, religioso, jurídico, filosófico, clinico, pedagógico e, mais recentemente, também pelos discursos linguístico, antropológico e econômico.

Esta breve retrospectiva da educação especial, das políticas educacionais, da educação dos surdos, agora sob a perspectiva inclusiva – bilíngue – nas esferas nacional, estadual e municipal, torna emergente a necessidade de formar novos educadores, e capacitar os já formados, sob outro parâmetro; parâmetro este que considere a inclusão dos sujeitos surdos no sistema educacional do ensino, sem desvinculá-los da sua língua, cultura, identidade e heterogeneidade. Certamente que a formação emergente, aqui norteada, se faz igualmente urgente, pela sua relevância científica e social.

Paramos por aqui, mas com um questionamento provocativo para o momento seguinte do nosso texto, onde retornaremos a discussão trazendo para o diálogo alguns teóricos dos Estudos Surdos que mediarão nossa análise documental e as falas dos envolvidos com a proposta dos Complexos Bilíngues de Referência para Surdos de Natal na instituição pesquisada. As questões provocadoras são as seguintes: qual é a concepção de sujeito surdo nos Complexos Educacionais Bilíngues de Referência para Surdos de Natal? Qual a finalidade da educação destes sujeitos concebida nesses espaços e sua relação com a concepção de sujeito surdo e bilinguismo para surdos nos Estudos Surdos?

Faz-se urgente uma pesquisa que identifique a concepção de sujeito surdo na proposta dos Complexos Educacionais Bilíngues de Referência para Surdos de Natal e a finalidade da educação destes sujeitos concebida nesses espaços. Só a partir daí poderemos apontar se há ou não ruptura, se há ou não continuidade com relação a concepção de sujeito surdo no oralismo e na comunicação total. Qual narrativa sobre os surdos, sobre a Língua de Sinais e sobre a educação desses sujeitos se construiu até o momento?

Concordamos com Dorziat, que as alternativas estão postas, pois:

[...] mesmo que a ‘retórica’ do respeito às diferenças e da necessidade de mudança de todo o sistema educacional, tenha sido assimilado pelo discurso oficial, ainda se persistem com as práticas escolares que historicamente tem feito o papel de reprodutores das significações importantes, para tornar a sociedade cada vez mais padronizada, [...] (DORZIAT, 2009, p. 67).

Questionário, entrevista coletiva e observação serão os recursos por nós utilizados para a construção dos dados. Acreditamos que a triangulação dos dados oriundos dessas fontes possibilitará uma resposta segura e cientificamente relevante.