3 AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO
3.1 BIOGRAFIA
Muito se poderia escrever sobre a biografia do escritor Afonso Henriques
de Lima Barreto, mas Sevcenko (1983, p. 120) resumiu parte dela com a seguinte
transcrição:
Lima Barreto, filho de um almoxarife, nascido em Laranjeiras mas criado no cenário roceiro da Ilha do Governador, precocemente órfão de mãe, apresentando acentuada mestiçagem de negro, fez os estudos colegiais na cidade do Rio, ingressando no curso de engenharia da Escola Politécnica, do qual não passou das matérias do segundo ano, abandonando-a em seguida, por falta de recursos, para assumir um cargo de amanuense.
Lima Barreto – nome pelo qual é conhecido – é filho de João Henriques de
Lima Barreto e de Amália Augusta Barreto, foi o primogênito do casal que teve
quatro filhos.
O nome Afonso pode ser uma homenagem ao padrinho, Afonso Celso de
Assis Figueiredo, Visconde de Ouro Preto, que foi correligionário de seu pai e
conseguiu, inclusive, o emprego dele na Imprensa Nacional
6.
Com a morte da mãe, quando Lima Barreto tinha apenas sete anos de
idade, a família passou por dificuldades financeiras, mas o padrinho custeou os
estudos do afilhado. Posteriormente, com os problemas mentais do pai, Afonso
Henriques assumiu a responsabilidade por sua família.
No período de 1903 a 1918, trabalhou na Secretaria da Guerra, quando foi
aposentado após inúmeros afastamentos do trabalho, resultado do alcoolismo e
de duas internações psiquiátricas. Relativamente à sua aposentadoria, Lima
Barreto (1961b, p. 204) registrou, em Diário íntimo, as seguintes palavras: “Fui
aposentado por decreto de 26-12-1918. Presidente da República, vice em
exercício, Delfim Moreira e ministro da Guerra, Alberto Cardoso de Aguiar”.
Grande cronista de costumes da capital federal, Lima Barreto, ainda
acadêmico, passou a publicar seus textos em pequenos jornais e revistas
estudantis e/ou literárias. Seu primeiro romance, intitulado Recordações do
escrivão Isaías Caminha foi parcialmente publicado em 1909, na revista Floreal,
que ele mesmo havia fundado. Em 1911, Lima Barreto publicou o seu romance
mais conhecido, Triste fim de Policarpo Quaresma.
Militou na imprensa, lutando contra as injustiças sociais e os preconceitos
de raça, de que ele próprio era vítima. Passou por internações no Hospital
Nacional dos Alienados para tratamento do alcoolismo, contudo sua produção
literária não foi interrompida.
O escritor, que nasceu com o Realismo/Naturalismo brasileiros, viveu
também o Simbolismo e morreu nove meses depois da realização da Semana de
Arte Moderna (1922). Não foi realista, nem naturalista, tampouco simbolista. Foi
um precursor do Modernismo, produzindo literatura brasileira, fundamentalmente
voltada para os problemas do indivíduo em face da sociedade. Seu desprezo ao
artificialismo e à retórica parnasiana levou-o a utilizar em sua produção uma
linguagem simples, criando e recriando situações da existência humana.
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A Imprensa Nacional nasceu por decreto de D. João VI, em 13 de maio de 1808, com o nome de Impressão Régia. Recebeu, no decorrer dos anos, os nomes de Real Officina Typographica, Tipographia Nacional, Tipographia Imperial, Imprensa Nacional, Departamento de Imprensa Nacional, e, novamente Imprensa Nacional. A missão fundamental da Imprensa Nacional é publicar os atos oficiais do Governo.
Sobre o escritor Lima Barreto e sua obra, muitos estudiosos deixaram
comentários. Alguns relatos serão transcritos a partir do próximo parágrafo, a fim
de que seja ressaltada a sua importância. Lima (1956, p. 63), assim se expressa a
respeito do escritor sob análise:
Achamos interessante observar a coincidência assinalada por Tristão de Athayde de que quando o mundo literário, em 1908, perdia Machado de Assis, no outro extremo da cidade vinha nascendo uma obra que ia prolongar a tradição interrompida com a morte do grande e irônico escritor. Nesse ano, escrevia Lima Barreto as Recordações do
Escrivão Isaías Caminha. Não se improvisava escritor, nem tentava o
romance sem ter ensaiado o conto e a sátira. Já vinha escrevendo de alguns anos atrás, no limiar do século.
Teles (1996, p. 144), em uma visão da narrativa no início do século XX, que
incluía Lima Barreto, afirma:
Nos primeiros anos deste século, a nossa literatura alcançava na ficção e no teatro uma espécie de plenitude de temas, técnicas e formas até então conhecidas e possíveis nos quadros mentais da inteligência
brasileira. As duas margens da linguagem literária – a erudita e a
popular – haviam atingido, nos seus gêneros e níveis, a melhor
expressão que se podia exigir das concepções literárias da época. A vertente erudita e universal teve o seu ponto culminante com a narrativa de Machado de Assis; e a popular, mais ostensivamente nacional, encontrou na vasta obra teatral de Arthur Azevedo a condição de se abrir para um público maior, divertindo-o ao mesmo tempo que lhe passava o conteúdo de uma crítica social que marcou profundamente a maioria de suas peças.
Com Machado de Assis e Arthur Azevedo, mortos em 1908, morre também um certo modo de ser da nossa tradição literária. Depois deles, só mesmo o silêncio... Ou, então, o nascimento de uma nova dicção com Lima Barreto que, estreando um ano depois, conseguiu fundir os dois níveis de linguagem e abrir possibilidades para a narrativa e para o teatro dos modernistas.
Grieco (1947, p. 86) menciona que o autor dessa obra foi “nosso primeiro
criador de almas no romance”, conforme o que se segue:
Escusado é dizer que a Academia não se honrou incluindo o maior dos nossos romancistas entre os seus médicos e os seus generais. Também não recebeu Lima Barreto condecorações de Montenegro ou da Coréia.
Limitou-se a ter muitíssimo talento, a ser o primeiro talento da sua geração e – [...] – o nosso primeiro criador de almas no romance.
Sim, Lima Barreto, no romance, o nosso primeiro criador de almas. Êle sentiu, como nenhum outro escritor brasileiro, a tristeza e o humor que cabem na vida do pobre.