II. Monografia: Aspergilose canina
2. Biologia
2.1 Sistemática e taxonomia do género Aspergillus
O género Aspergillus figura-se sistemática e ordenadamente no reino Fungi, divisão (filo) Ascomycota, subdivisão (subfilo) Pezizomycotina, classe Eurotiomycetes, ordem Eurotiales e família Trichocomaceae52.
Ao longo dos anos foram várias as propostas e tentativas de classificação das espécies contempladas no género Aspergillus. As sucessivas classificações surgiram e continuam a surgir com o intuito de classificar e reorganizar as espécies em modelos cada vez mais coerentes do ponto de vista biológico, morfológico, metabólico e filogenético, tanto quanto o novo conhecimento o permitir.
Em 2014, Houbraken, Vries e Samson53, com base em estudos anteriores de Peterson (2008)54, Peterson et al. (2008)55, Varga, Frisvad e Samson (2010)56 e Houbraken e Samson (2011)57, sugeriram uma classificação de quatro subgéneros (i.e., Aspergillus, Fumigati,
Circumdati e Nidulantes) e 19 secções por entre eles distribuídas. Posteriormente, outros
estudos sugeriram a criação de novas secções, nomeadamente Jani no subgénero Circumdati58 e Petersonii, Robusti e Tanneri, também no subgénero Circumdati59. No Quadro 1 encontra-se exposta a classificação, segundo estes últimos estudos53,58,59.
Subgénero Secção Aspergillus Aspergillus Restricti Circumdati Candidi Circumdati Flavi Flavipedes Jani Nigri Petersonii Robusti Tanneri Terrei Fumigati Cervini Clavati Fumigati Nidulantes Aeni Bispori Cremei Nidulantes Ochraceorosei Silvato Sparsi Usti
2.2 Nutrição, crescimento e estrutura celular
Os fungos são seres vivos heterotróficos e osmotróficos, pelo que obtêm os nutrientes a partir de compostos orgânicos e químicos por absorção. No caso do Aspergillus spp. este regime é essencialmente saprófita, ou seja, em material orgânico em decomposição61.
O crescimento dos fungos filamentosos não cenocíticos como o Aspergillus spp. é apical (i.e., a partir das extremidades das hifas) alternado com a formação de septos, pelo que as hifas são delimitadas em vários segmentos por septação60. Determinados fatores são fundamentais e limitantes neste crescimento, nomeadamente a disponibilidade de nutrientes, a temperatura, o pH, os gases presentes na atmosfera (i.e., essencialmente meio aeróbio) e a disponibilidade de água61.
Um constituinte celular fulcral para a multiplicação e crescimento dos fungos é a parede celular. Esta, na generalidade dos Ascomycota, é constituída principalmente por quitina e β- glucanos, assim designados pela natureza das ligações tipo β(1,3) e β(1,6) na sua polimerização49,60. Ainda presente na parede celular do Aspergillus spp. existe em menor quantidade galactomanano (GM), um polissacárido que tem vindo a ganhar relevância clínica49, sendo abordado posteriormente. No entanto este constituinte não é exclusivo do Aspergillus spp.. Outros fungos como o Fusarium spp., Alternaria spp., Histoplasma spp. e Cryptococcus spp. têm GM na sua parede celular49.
Na membrana celular das células fúngicas existem esteróis, semelhantemente às células animal e vegetal. Mas, contrariamente à célula animal, por exemplo, onde predomina o colesterol, na célula fúngica é o ergosterol o esterol em maior abundância49. Atualmente vários fármacos com ação antifúngica utilizados na prática médica humana e veterinária atuam em constituintes
Quadro 1 – Classificação subgenérica e seccional do género Aspergillus segundo Houbraken, Vries e Samson53, Hubka et al.58 e Jurjević et al.59.
da célula fúngica como os β-glucanos (e.g., equinocandinas) e o ergosterol (e.g., anfotericina B, azóis, terbinafina). Por esta razão é importante conhecer a estrutura, composição e fisiologia básica da célula fúngica.
2.3 Morfologia do Aspergillus spp.
Os Aspergillus spp. são Ascomycota filamentosos (i.e., Pezizomycotina), como tal, são constituídos por hifas. Estas são septadas e hialinas com aproximadamente 8 µm de diâmetro. Na fase assexuada do ciclo de vida, a partir das hifas vegetativas, emitem-se hifas aéreas e a partir destas hifas especializadas (reprodutivas) e não ramificadas denominadas conidióforos62 com 5 a 8 µm de diâmetro, alongando-se até um comprimento de cerca de 300 µm49. A hifa que dá origem ao conidióforo designa-se de célula podal. Na porção terminal distal o conidióforo dilata-se, formando a vesícula49,62 com um diâmetro entre 20 a 30 µm49. A partir da superfície da vesícula geram-se as fiálides, estruturas produtoras de esporos assexuados, os conídeos (i.e., fialoconídeos)49,62. As fiálides têm um comprimento entre 6 a 8 µm49. Os conídeos dispõem-se em cadeia a partir da fiálide, possuindo uma forma globosa e superfície lisa ou rugosa com até 5 µm de diâmetro consoante a espécie62. A cadeia de conídeos pode ser tão longa quanto 400 µm49 e em muitas espécies estes são pigmentados com melanina, apresentando uma coloração escura (e.g., A. niger)49,62. Em algumas espécies (e.g., A. niger) ocorre ainda a formação de metulas, estruturas entre as vesículas e respetivas fiálides. Uma metula pode originar mais do que uma fiálide. Não obstante, a presença destas estruturas é mais consistente no género
Penicillium que no Aspergillus. Ao conjunto das estruturas vegetativas (i.e., hifas) de um fungo
dá-se o nome micélio62 (Figura 1).
2.4 Fase assexuada vs. fase sexuada
No texto anterior, referente à morfologia, apenas estruturas pertencentes à fase assexuada (i.e., anamorfa ou mitospórica) do ciclo de vida foram referidas, por serem estas as mais comummente observadas e com interesse na identificação da espécie em meio clinico- laboratorial, não obstante também a fase sexuada (i.e., teleomorfa ou meiospórica) tem estruturas exclusivas e morfologicamente diferenciáveis63,64. A fertilidade do Aspergillus spp. aparenta ser superior na fase anamorfa comparativamente à teleomorfa65.
Figura 1 – Morfologia do conidióforo de duas espécies do género Aspergillus. A - A. fumigatus. B – A. niger. Notar a diferença na forma da vesícula, disposição das cadeias de esporos e presença de metulas (adaptado de Quinn et al., 201262).
Das espécies que se sabem atualmente possuir fase teleomorfa, a grande maioria é homotálica, ou seja, não necessita de talos de origem distinta para completar o ciclo, contrariamente aos fungos heterotálicos64. Por talo entenda-se o conjunto das estruturas vegetativas e reprodutivas de um fungo61. Comparativamente à fase anamorfa, a fase teleomorfa é mais fastidiosa65 e, dentro desta, fungos heterotálicos apresentam também um crescimento mais fastidioso ou condicionado que os homotálicos66. Este diferencial na fertilidade e carácter fastidioso poderão estar relacionados com o facto de atualmente cerca de 64% das espécies reconhecidas no género Aspergillus não terem fase teleomorfa identificada66 e também explicar o porquê de se terem identificado mais espécies homotálicas que heterotálicas64.
2.5 Toxinas do Aspergillus spp.
Toxina Espécies produtoras Efeito
Aflatoxinas (B1, B2, G1, G2, *M1, *M2) A. flavus (principal) A. parasiticus Carcinogénese
Degeneração do tecido respiratório Imunossupressão Necrose hepática Gliotoxina A. fumigatus Apoptose (monócitos) Dano epitelial Ciliostase
Inibição da atividade dos linfócitos T Inibição da atividade dos mastócitos
Inibição da fagocitose (macrófagos e neutrófilos)
Ocratoxinas A. ochraceus A. carbonarius A. niger Carcinogénese Genotoxicidade Imunotoxicidade Nefrotoxicidade Citrinina A. terreus Embriocida Fetotóxico Nefrotoxicidade
Ribotoxinas A. fumigatus Inibição da síntese proteica Morte celular
Hemolisina A. fumigatus Hemólise
Lise de macrófagos e células endoteliais
Ácido helvólico A. fumigatus
Ciliostase
Inibição da atividade dos macrófagos Inibição do metabolismo do LDL Rotura de células epiteliais
Fumagilina A. fumigatus
Anti-angiogénese Ciliostase
Inibição da produção de células endoteliais
Fumitremorgina
Triptoquivalina A A. fumigatus Neurotoxicidade
Um dos fatores de virulência mais influentes no Aspergillus spp. são as suas toxinas. As mais conhecidas de todas elas são, porventura, o grupo das aflatoxinas. Contudo outras toxinas são produzidas por espécies deste género. O impacto que elas têm é essencialmente associado à segurança alimentar, sendo o A. flavus e o A. fumigatus das espécies descritas com maior potencial toxigénico. O último é inclusive a espécie mais importante na clínica médica humana e
Quadro 2 – Listagem de toxinas produzidas pelas espécies do género Aspergillus. LDL – Low density
lipoproteins (lipoproteínas de baixa densidade). *Produzidas indiretamente por metabolização respetiva
veterinária49. No Quadro 2 são listadas as toxinas associadas ao género Aspergillus, com indicação das respetivas espécies produtoras e seu efeito tóxico49,67.