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3. OS DETERMINANTES DA COMPETITIVIDADE DA

3.5. O papel do governo

3.5.1. Biosseguridade

O cenário econômico mundial está baseado na abertura econômica e na diminuição da interferência direta do Estado na produção. Nesse contexto, vislumbra-se um novo papel do Estado que passa de executor de tarefas para gestor e estimulador do desenvolvimento. Assim, no intuito de resguardarem sua posição competitiva no mercado internacional os países procuram adequar suas estruturas tarifárias, tributárias, legais, de normas fitossanitárias, etc., de acordo com sua inserção no mercado e seus projetos de desenvolvimento.

Os países em desenvolvimento, em geral, apresentam competitividade em produtos de baixo valor agregado, como agropecuários e extrativistas. No entanto, as novas estratégias competitivas, calcadas em barreiras não tarifárias e de volatilização da produção, podem estrangular setores já consolidados, como a produção de grãos e carnes avícola, em países, onde, a estrutura produtiva e financeira apresenta-se fraca e pouco organizada.

A segurança alimentar possui um enfoque quantitativo, a qual é obtida através do aumento da renda familiar e oferta adequada de alimentos, e um enfoque qualitativo, ou seja, a garantia do consumidor em adquirir um alimento com atributos de qualidade que sejam do seu interesse (Spers & Kassouf 1995).

Por sua vez, os alimentos possuem atributos de qualidade extrínsecas e intrínsecas. As extrínsecas são de fácil verificação por parte dos consumidores, pois são externas. No entanto, as intrínsecas são de difícil observação, o que origina uma certa assimetria de informação entre vendedores e compradores.

Do ponto de vista qualitativo os produtos avícolas devem ser livres de contaminantes de natureza química (pesticidas), biológicas (organismos patogênicos) e físicas (vidros, pedras etc). Isso exige que os agentes envolvidos durante a elaboração da matéria-prima, na criação das aves, na manipulação industrial, no transporte e nos setores de armazenamento e exposição à venda estejam atentos aos pontos críticos, o que demanda uma visão sistêmica da atividade para a obtenção da qualidade exigida pelos consumidores.

Um princípio básico a nível da produção de frangos que envolve tanto os aspectos quantitativos como qualitativos da segurança alimentar é a questão da biosseguridade. Em sentido geral ela significa a garantia de que os animais permaneçam completamente saudáveis. Ou seja, o desenvolvimento de um ambiente o mais livre possível de patógenos, sejam eles vírus, bactérias, fungos e/ou parasitas. Para sua efetivação são necessárias normas rígidas relacionadas à mão-de-obra, aos programas sanitários e às condições do ambiente físico no qual são criadas as aves.

Diante desse contexto, a responsabilidade do governo que antes era de promover a política agrícola através da intervenção direta na produção, assume um novo direcionamento voltado para a regulamentação das normas de atuação dos diversos agentes no mercado e da fiscalização das diferentes etapas das cadeias.

A preocupação recente dos países com a qualidade dos alimentos é justificada em parte, na medida em que os antigos instrumentos de política agrícola estão perdendo seu status, sendo necessário, portanto, eleger novos paradigmas para se proteger dos agentes “exóticos”, como o da “ Vaca Louca” na Inglaterra e, no caso da avicultura, o Adenovírus no Peru, a Laringotraqueíte na Argentina e a Influenza Aviária no México. De outro lado, existe também, a necessidade dos países se

resguardarem da internalização de produtos não aptos ao consumo que ficam facilitadas pela abertura das economias.

No Brasil, a inspeção sanitária e industrial de produtos de origem animal, especificamente para carne de aves e derivados, evoluiu no mesmo ritmo da produção avícola (Oliveira 1995). Iniciou-se na década de 70, período em que as preocupações com os aspectos higiênicos e sanitários eram pequenas, com o simples aprimoramentos do parque frigorífico. Já na década de 80, com a aceleração das exportações os quesitos de ordem higiênico-sanitários e tecnológicos foram importantes para a conquista de mercados, como o europeu.

No entanto, os princípios de execução da política sanitária vigentes até recentemente não são mais capazes de gerar confiabilidade para o desenvolvimento sustentável da avicultura. Assim, no limiar da década de 90, houve uma grande intensificação da busca da qualidade em todo o sistema, em função do acirramento da competição. Vários frigoríficos iniciaram a adoção de programas de “Qualidade Total”, sendo que alguns, já dispõem de certificações ISO 9000. Por outro lado, o Governo assumiu uma posição onde o padrão de identidade e qualidade da carne de frango tornou-se no objetivo primordial.

A partir de 1994, foi incrementado o Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA) e instituído o comitê consultivo do programa. Foram intensificados os trabalhos de regulamentação e estabelecimento de normas, tais como: da importação de pintos de um dia e ovos férteis para incubação, credenciamento e monitoramento de laboratórios de diagnóstico das doenças de Newcastle, Pulorose, Tifo Aviário e Micoplasmoses Aviárias e a elaboração das normas de controle e erradicação da doença de Newcastle.

O PNSA tem como objetivo geral garantir a disponibilidade, nos mercados internos e externos, de produtos avícolas de qualidade através do aprimoramento do controle

sanitário dos plantéis avícolas e da parceria entre os setores oficial e privado. Esse programa envolve o setor oficial através do Ministério da Agricultura e Abastecimento (MARA) e suas secretarias e o setor privado, por meio de suas associações representativas, como a UBA, SINDICARNES, SINDAN e outros. O programa está sendo implementado através de comitês estaduais de sanidade avícola, uma vez que o controle das doenças deve ser feito por ações padronizadas regionalmente.

Na Argentina, a partir de 1994, foi definido o plano de melhoramento da avicultura nacional, o qual bloqueou as importações de material genético fora de especificações pré- estabelecidas. Nesse país, o Servicio Nacional de Sanidad Animal - SENASA é o órgão executor da política de sanidade animal e efetua o controle higiênico-sanitário dos animais e dos produtos e subprodutos oriundos da produção animal.

No que se refere ao MERCOSUL, estão sendo aprovadas as normas de higiene e controle sanitário para a habilitação de núcleos de reprodução (linhas superiores, avós e matrizes) e incubatórios que se destinam ao comércio regional. Essas normas regulamentam a produção e o comércio intra-regional e estão de acordo com as normas estipuladas pelos países signatários da Organização Mundial do Comércio - OMC.

Quanto aos núcleos reprodutores, são regulamentadas as exigências de localização dos estabelecimentos, de ausência de doenças e os programas de vacinação e de vigilância epidemiológica. São também regulamentadas as normas de operação das plantas de incubação, dos transportes e do manejo dos ovos férteis e dos pintos de um dia, referentes aos equipamentos utilizados em cada etapa, ao trânsito e higiene dos trabalhadores, aos métodos de desinfecção e os programas de vacinação.

As normas exigem ainda que todos os estabelecimentos reprodutores e incubatórios mantenham um registro

zoosanitário completo sobre mortalidade, diagnóstico de enfermidade, tratamentos, vacinação e monitoramento. De outro lado, a disponibilidade desses dados por parte dos frigoríficos pode tornar-se fonte de vantagem competitiva, principalmente, nas exportações, em virtude, do grau de exigências dos importadores realizadas nas freqüentes vistorias nos frigoríficos exportadores.

Contudo, apesar dos avanços na política sanitária existe ainda uma grande diferenciação entre o nível de organização e articulação da agroindústria avícola e o sistema de fiscalização e controle sanitário no Brasil e na Argentina. É necessário que as informações geradas nos órgãos de fiscalização, laboratórios e nas agroindústrias fluam com maior rapidez para que os trabalhos de monitoramento e, por conseqüência, o conhecimento da realidade sanitária do país sejam mais eficazes.

A produção avícola sustentável não depende mais unicamente de sua competitividade em preços. Atualmente o que determina o sucesso dos produtos é o valor representado por esses aos consumidores. Diante dessa perspectiva, a qualidade nutricional dos alimentos, a ausência de resíduos químicos e de zoonoses, a qualidade dos insumos e a conservação do meio-ambiente são as características prevalecentes desse novo modelo.