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1 INTRODUÇÃO

2.2 Mundialização

2.2.1 Tendência genética do modo de produção capitalista à expansão,

2.2.2.4 Bipolaridade, unipolaridade e multipolaridade no sistema internacional e

Até o momento, discutimos a mundialização como um processo político geral,

elucidando como foram decisões políticas que possibilitaram a retomada do poder das

finanças em detrimento do pacto sociopolítico até então no poder no mundo desenvolvido,

com um novo pacto dominante entre executivos superiores, classes médias possuidoras e

grande capital financeiro (DUMÉNIL e LEVY, 2005, p. 88). E vimos como essas medidas

políticas instrumentalizam-se em formas jurídico-institucionais, que têm efeitos sobre as

relações econômico-sociais dentro dos países e no mundo.

Vimos também como os Estados nacionais permanecem, por suas características de

força e autoridade, os atores superestruturais centrais nesse processo. Eles permanecem

como o espaço principal da luta de classes e o contexto internacional é formado pelos

desenvolvimentos dentro dos diversos espaços nacionais

205

. No mesmo Manifesto

Comunista em que Marx e Engels expõem o caráter essencialmente mundializante do

modo de produção capitalista e da burguesia, Marx faz a ressalva de que a luta de classes é

em primeiro lugar nacional: “Apesar de não o ser em seu conteúdo, em sua forma a luta do

proletariado contra a burguesia é primeiramente nacional. O proletariado de cada país tem

de, naturalmente, primeiro lidar com sua própria burguesia

206

.“ (MARX, 1888, p. 549)

Dessa centralidade dos Estados nacionais decorre que a lógica geral do processo de

mundialização tem de ser analisada sob os contextos políticos internacionais específicos

que a perpassam, em que o sistema de poder desses Estados sofreu transformações

estruturais profundas, passando da Guerra Fria ao unilateralismo dos anos 90 à emergência

de um mundo multipolar no início do século 21. Consequentemente, como pressuposto

teórico sobre a formatação e a dinâmica desse sistema internacional, adota-se a, com

Guimarães, (2005) a:

...visão da dinâmica internacional [que] apresenta o sistema como uma complexa teia de situações de conflito, competição e cooperação entre Estados (e atores não estatais) em que a preponderância de uma dessas três situações depende da correlação de forças e interesses em cada região, em cada tema e em cada momento. (GUIMARÃES, 2005, P. 245)

Tanto o desmonte do Estado de Bem-Estar internamente, quanto, principalmente, a

propagação liberalizante mundial posterior, estão intimamente ligados com a derrota do

bloco socialista e a passagem do sistema internacional bipolar da Guerra Fria à

205 Na verdade, interno e externo formam um todo dialético articulado. Mas, pelas características anteriormente discutidas, a lógica ocorre mais preeminentemente do interno para o externo, o que é reconhecido no clássicos. Segundo Carnevali:

“Gramsci termina por reconhecer o primado da política interna

sobre a externa, reservando ao mesmo tempo à politica internacional o papel de variável interveniente.” (CARNEVALI, G. A teoria da política internacional em Gramsci. In_____ (Org.) Gramsci: estado e

relações internacionais. Florianópolis, Fundaçao Boiteux, 2005, p. 42)

O próprio Fiuza, que apresenta uma interpretação internacionalista de Gramsci em que, segundo Fiuza, haveria uma predominância do espaço internacional e um questionamento do estatuto de nação, afirma: “O

nacional é a base histórico-concreta da ação política, que deve estar voltada, porém, para a mundialidade,...”

(MELLO, A. Fiuza de. Mundializaçao e política em Gramsci. 2. Ed. São Paulo, Cortez, 2001, p. 45) e “...esse complexo movimento assume, sempre, em cada lugar e região, especificidades próprias, segundo combinações culturais sintéticas e diferenciadas ao nível de cada espaço social, desenhando contornos particulares identificáveis como inerentes a cada ‘cosmo’ – a dimensão ‘nacional’ –“ (ibid., p. 76)

206Tradução livre: “ Obgleich nicht dem Inhalt, ist der Form nach der Kampf des Proletariats gegen die Bourgeoisie zunächst ein nationaler. Das Proletariat eines jeden Landes muss natürlich zuerst mit seiner eigenen Bourgeoisie fertig werden.”

hegemonia

207

inconteste das primeiras décadas que se seguiram à vitória dos EUA

(FARIAS, 2014, pp. 102 ss). Em Dumenyl e Levy: “A hegemonia neoliberal da finança se

207Uma boa definição do termo hegemonia em seu sentido internacional (essencialmente diverso do sentido político interno) e que corresponde ao uso do termo no âmbito desta dissertação encontra-se em Cox, parafraseado em Munhoz: “De acordo com Cox, a hegemonia em nível internacional não é apenas uma ordem de relação entre Estados, é uma ordem dentro de uma economia mundial caracterizada por um modo de produção dominante que penetra em todos os países e se liga a modos de produção subordinados. É também um complexo de relações sociais internacionais que conectam as classes sociais de diferentes países. A hegemonia mundial pode ser descrita como uma estrutura social, econômica e politica. Além disso, é expressa em norma universais, instituições e mecanismos que estabelecem regras gerais de comportamento para os Estados e para as forças da sociedade civil que atuam além das fronteiras nacionais – regras essas que apoiam o modo dominante de produção.” (MUNHOZ, C. P. B. Hegemonia e reforma do Conselho de Segurança da ONU. In ______(Org.) Gramsci: estado e relações internacionais. Florianópolis, Fundação Boiteux, 2005, p. 94).

Na presente dissertação, assume-se também claramente a existência de outros atores internacionais relevantes, assim como o peso de processos e lógicas históricas e econômicas impessoais. Contudo, a existência de determinantes e fatores múltiplos não significa que todos tenham a mesma relevância. O argumento é aqui é que o Estado, por sua característica definidora de monopólio da força territorial legítima, acaba sendo o ator em última instância decisivo, tanto na organização socioeconômica interna dos países, quanto no sistema internacional. Assim, nossa compreensão da hegemonia no sentido internacional é muito bem expressa no seguinte trecho de Guimarães: “O conceito de ‘estruturas hegemônicas” é mais flexível e inclui vínculos de interesse e de direito, organizações internacionais, múltiplos atores públicos e privados, a possibilidade de incorporações de novos participantes e a elaboração permanente de normas de conduta; mas, no âmago dessas estruturas, estão sempre Estados nacionais.” (GUIMARÃES, Quinhentos anos de

periferia: uma contribuição ao estudo da política internacional. 3. Ed., UFRGS/Contraponto, Porto

Alegre/Rio de Janeiro, 2001, p. 28).

Por fim, por motivos de corte analítico, o foco aqui está no Estado nacional, e não no capital, como ator decisivo final (mas, como sempre lembra-se que, no capitalismo, formam uma totalidade, [FARIAS, F. B. de. Da mundialização do capital à mundialização do Estado. In ___________(org.) Desenvolvimento e

mundialização: o Brasil e o pensamento de François Chesnais. 1. Ed. Rio de Janeiro, E-Papers, 2014, p.

112]), em razão do reconhecimento de que a questão central objeto da dissertação, o papel relativamente autônomo do direito na definição de modelos de desenvolvimento, não diz respeito apenas ao Estado capitalista (o próprio socialismo pode ser entendido como um desenvolvimentismo modernizante radical e sua forma de organização socioeconômica é tão jurídica quanto aquela dos diversos tipos de Estado capitalista). Igualmente, o funcionamento do sistema internacional engloba a possibilidade de Estados não capitalistas (sejam eles pré ou pós capitalistas) e a definição de conceitos essencialmente políticos, como a hegemonia internacional, não pode ser restrita apenas à situação específica de vinculação entre Estado e capital. É justamente porque existe a possibilidade, ao menos teórica, de contestação sistemática do processo econômico de mundialização capitalista liberal pela ação político-jurídica de Estados socialistas, nacional- desenvolvimentistas ou mesmo de um retrocesso a fundamentalismos religiosos etc. que o ente “Estado” continua central. O principal impulso à mundialização é do capital. Mas seu avanço, estagnação ou retrocesso são determinados politicamente e, principalmente e em última instância, pelo poder do Estado.

Assim, em termos mais especificamente políticos tem-se a hegemonia em Mezzaroba: “Neste sentido pode-se definir a hegemonia como ‘a supremacia de um Estado sobre outros Estados numa estrutura global ou internacional de poder.”(...) “um sistema de alianças entre vários grupos, em que o grupo dominante exerce o poder graças à sua capacidade de transformar os interesses particulares em gerais ou universais”. (MEZZAROBA, O. (Org.) Gramsci: estado e relações internacionais. Florianópolis, Fundaçao Boiteux, 2005, p. 18)

E ressalta-se mais uma vez o papel da força militar no sistema internacional, mesmo no regime de hegemonia e não de império. A lógica da hegemonia é de construção de consenso e de poder jurídico e ideologicamente justificado, mas também na hegemonia, a base do poder é a capacidade de projeção de violência organizada. Carnevali em seu capítulo sobre Gramsci: “... não por menos é sempre o elemento da força militar, mesmo quando não efetivamente utilizada, a ser no final decisivo para a determinação da grande potencia

soma e se combina à hegemonia do país dominante no seio da coalizão de países

imperialistas, a dos Estados Unidos.” (DUMÉNIL e LEVY, 2005, p. 86).

Da mesma forma, o mundo atual em formação, que ainda é marcado pela hegemonia

estadunidense

208

, mas já com a emergência de novos polos econômicos e o ressurgimento

de poderosos centros políticos (FARIAS, 2013a, p. 21), não poderia deixar de afetar o

sistema, como rapidamente mencionamos na discussão sobre o regime monetário

internacional do dólar. A grande crise de 2008 não tem causa exclusivamente interna nos

EUA

209

, pelo endividamento excessivo das famílias e pelo comportamento “exuberante” e

irracional dos agentes nos mercados imobiliários e de securitização. Reflete o desequilíbrio

mundial causado pela ascensão da China, com a relação insustentável de crescimento

desenfreado na Ásia baseado em exportações aos EUA, barateamento do custo de vida no

mundo desenvolvido, taxas de juros reais muito baixas, inflação de “assets” e rolagem da

trilionária dívida americana pelos excedentes financeiros acumulados nesse processo pela

China.

Em termos políticos, o novo mundo multipolar

210

é muito menos propenso a aceitar a

lógica da mundialização financeira e tampouco a hegemonia estadunidense, muito menos a

(hegemônica).” (CARNEVALI, G. A teoria da política internacional em Gramsci. In________ (Org.)

Gramsci: estado e relações internacionais. Florianópolis, Fundaçao Boiteux, 2005, pp. 32-33).

A própria política externa estadunidense em nenhum momento desde o pós-II Guerra deixou de basear-se no uso, indireto ou direto, de seu poderio propriamente militar, de modo que mais uma vez ressalta-se que força e consenso/legitimidade não são pares excludentes. “...durante todo o período do pós-Segunda Guerra Mundial, o pressuposto funcional da estratégia dos EUA foi a ‘lógica da força’ e, muito embora tenha sido suplantado durante breves momentos – exemplo é a ‘lição do Vietnã’, continua sendo o paradigma predominante.” (MICHELS, G. W. Guerra do Iraque e hegemonia norte-americana: uma leitura a partir de Gramsci. In _______ (Org.) Gramsci: estado e relações internacionais. Florianópolis, Fundação Boiteux, 2005, pp. 131-132) A hegemonia não constitui uma prática pacífica e democrática de exercício de poder. 208Vide FARIAS, Flavio B. de. O imperialismo global: teorias e consensos. 1. Ed. São Paulo, Cortez, 2013 (a), p. 20.

209 Definido muito expressivamente por Dúmenil e Levy como “imperialismo glutão”: “Longe de um imperialismo poupador e posto numa situação difícil pelas rendas que concentra, observam-se classes privilegiadas de um centro imperial mundial jamais saciadas em seu desejo de consumir: um imperialismo glutão.” (DUMÉNIL, G. e LÉVY, D. O neoliberalismo sob a hegemonia norte-americana. In _____ (Org.),

A finança mundializada: raízes sociais e políticas, configuração, consequências. Tradução de Rosa Maria

Marques e Paulo Nakatani. São Paulo, Boitempo, 2005, p. 99)

210 A característica principal do atual sistema internacional é a existência de múltiplos polos de poder diferenciado, que parcialmente se sobrepõem. Há um núcleo de potências econômicas, um núcleo de potências político-jurídicas (parcialmente como resquício do pós II Guerra e não mais refletindo a real correlação de forças internacionais)e um núcleo de grandes potências militares. Num segundo nível de poder, há um reduzido número de grandes Estados da periferia com relevância regional e dinâmica de ascensão. Em última linha, uma miríade de pequenos, médios e microestados sem expressão de poder. Além dos Estados,

tentativa quixotesca de um império liberal mundial (FARIAS, 2013a, p. 25-34; FARIAS,

2014, p. 104). Apesar de reconhecida, a hegemonia americana é contestada em todos os

campos, da diplomacia à produção jurídica internacional dentro das organizações

internacionais e nos foros de negociação, ao mundo nebuloso dos serviços secretos e até a

dissuasão militar direta (FARIAS, 2013a, p. 22). Não é à toa que houve invasão no Iraque

e não na Coreia do Norte, e a “mudança de regime” na Ucrânia não se concretizou sem

atritos.

A manutenção da gigantesca máquina militar dos EUA é uma das principais causas

de seus desequilíbrio econômico-financeiros e não está nos interesses de longo prazo da

China subvencioná-la com a compra por tempo indeterminado de títulos do tesouro

americano a juros artificialmente baixos. O modelo atual ainda serve aos interesses

211

das

potências ascendentes e dos antigos centros capitalistas na tríade, mas já apresenta fissuras

visíveis (DUMÉNIL e LEVY, 2005, p. 93). Com a ausência de uma ameaça política

comum ao sistema, como o antigo bloco soviético

212

, a manutenção da posição hegemônica

dos EUA, e consequentemente da mundialização nos moldes do início do século, é uma

perspectiva em disputa, inclusive pelos tradicionais aliados da UE (JEFFERS, 2005, p.

155) e do Japão, com consideráveis espaços de manobra para as potências médias como o

Brasil

213

.

há ainda a enormes multinacionais como polos de poder econômico extraordinário (GUIMARÃES, Samuel P. Desafios brasileiros na era dos gigantes. Ed. Contraponto, Rio de Janeiro, 2005, pp. 246-247).

211Como toda hegemonia internacional, também a atual norte-americana se baseia em boa medida num pacto com as demais grandes potências, que calculam ter mais vantagens em aderir à dominação hegemônica do que a ela contrapor-se. Mas há uma “distribuição assimétrica de custos e benefícios entre os contraentes do ‘pacto hegemônico’” (CARNEVALI, G. A teoria da política internacional em Gramsci. In _____(Org.)

Gramsci: estado e relações internacionais. Florianópolis, Fundaçao Boiteux, 2005, p. 63).

Consequentemente, há um jogo constante por posições entre os membros do pacto, que buscam minar o poder e a influência do hegemom e suplantá-lo com sua própria hegemonia ou, ao menos, com o aumento de seu próprio poder relativo no sistema.

Isso, contudo, não os impede de agir como um condomínio hegemônico de poder em face da periferia (GUIMARÃES, op. cit., 2005, p. 289)

212

Sobre o peso da “ameaça soviética” para a aceitação da hegemonia estadunidense pelas demais potências

capitalistas, vide. FRIEDEN, Jeffry A. Capitalismo global: história econômica e política do século XX, trad. Vivian Mannheimer; ver. técnica Arthur Ituassu. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2008, p. 286.

213A disputa na America Latina entre os EUA e o Brasil constitui um exemplo interessante nesse sentido, com sucesso relativo da potência media regional perante a superpotência hegemônica. “O Brasil, atuando só ou em conjunção com os demais Estados-Partes do MERCOSUL, não possui, por certo, capacidade econômica ou militar para fazer frente aos EUA. O Brasil pode, contudo, transformar-se em potencia hegemônica regional na medida em que conseguir demonstrar a seus vizinhos que os interesses que tem e que defende são, em grande medida, os mesmos interesses dos demais países da região.” (SCHLEE, P. C.

2.2.2.5 A implantação político-jurídica relativamente autônoma da Mundialização no

Brasil enquanto país subdesenvolvido dependente

No debate sobre a inflação - obsessivamente considerada o único mal a se combater, a qualquer preço, ou seja, à custa do emprego, do salário, do desenvolvimento - contemplam-se todas as sortes de renúncia à autonomia nacional. (BATISTA, 1994)

Também no Brasil o processo de mundialização foi implementado por reformas

institucionais profundas decididas na esfera política

214

. Foram essas transformações

institucionais

215

, da extinção do tratamento constitucional privilegiado às empresas de

capital nacional, passando pela quebra do monopólio do petróleo à Reforma de Estado, à

Lei de Responsabilidade Fiscal, às privatizações e à institucionalização do modelo de

Agências Reguladoras, entre outras, que possibilitaram a atuação das empresas privadas

multinacionais

216

e nacionais no sentido da crescente integração subordinada da economia

brasileira à mundialização econômica.

Além das transformações jurídico-institucionais estruturais, o processo foi

implementado por uma política econômica específica, que deliberadamente abandonou o

paradigma nacional-desenvolvimentista (GUIMARÃES, 2005, pp. 47-48) e optou, na

esfera produtiva, pela integração da economia brasileira nas cadeias produtivas globais das

Mercosul e hegemonia: a integração regional na perspectiva Gramsciana. In ______ (Org.) Gramsci: estado

e relações internacionais. Florianópolis, Fundação Boiteux, 2005, pp. 212-213)

214

Por razões econômico-financeiras e por pressões internacionais, mas no âmbito da esfera política interna.

215

Especificamente comentando o fato do crescimento de mais de 500% das remessas de rendas do Brasil ao

exterior do final da década de 90 até 2012, veja-se a seguinte citação: “Esse movimento só foi possível, entretanto, devido a uma mudança institucional orientada para a flexibilização de regras ou, em alguns casos, desregulamentação do controle de ingresso de capitais que, de uma forma geral, permitissem livre entrada e saída do capital financeiro internacional.” (VILLASCHI, A. Filho e FELIPE, E.S. Chesnais e a mundialização do capital: Ensaio sobre a forma como o Brasil nela se insere. In ________(org.)

Desenvolvimento e mundialização: o Brasil e o pensamento de François Chesnais. 1. Ed. Rio de Janeiro,

E-Papers, 2014, p. 225.)

216Como já debatido, utilizo o termo multinacional e não transnacional por considerar que estas gigantescas empresas encontram-se ainda fortemente vinculadas a suas sociedades e Estados de origem.

multinacionais e, na esfera financeira, por um modelo de captação de recursos externos via

políticas macroeconômicas ortodoxas, juros atrativos e câmbio valorizado.

Obviamente tanto as escolhas de política econômica, quanto as reformas jurídico-

institucionais globalizantes, inserem-se no quadro geral da crise econômica e do Estado

brasileiro dos anos 80 e na imposição do Consenso de Washington e não são simples atos

voluntaristas (BRESSER-PEREIRA, 2003, p. 227; COUTINHO, 2014, p. 61, BATISTA,

pp. 12-16). Como discutido anteriormente, o Consenso de Washington foi imposto sob

fortes pressões internacionais, principalmente estadunidenses, no Brasil e na América

Latina, sendo utilizado em momento de fraqueza financeira crítica da região para coagir

seus Estados e sociedades a alterarem substancialmente seus modelos políticos e

socioeconômicos em favor de interesses econômicos das grandes potências, como foi

repetidamente confirmado e denunciado por altos quadros da diplomacia brasileira, tais

quais Batista (1994) e Pinheiro Guimarães.

Mas sua implementação interna foi feita, como segue do conceito de capitalismo

dependente discutido a seguir, por seus associados subordinados brasileiros (CARDOSO e

FALETTO, 1985, p. 22), e mesmo aqui havia outras possibilidades de reação política à

crise. A adoção entusiasmada do “pensamento único”,

217

bem como sua manutenção após

o período de agudez da crise, não pode ser atribuída às pressões econômicas e políticas

externas, mas às forças político-ideológicas internas no bloco do poder naquele momento

histórico e à sua marcante (principalmente se contrastada com a postura das elites dos

países asiáticos) subordinação à ideologia dominante nos países centrais

218

. Com Bresser-

Pereira (2003):

217 “Esse fenômeno pode ser definido como sendo a mobilização de ideias, conceitos, teses e teorias

convergentes com o objetivo de criar um meio ambiente cultural, institucional e ideológico uniforme e favorável à aceleração do processo de globalização, impondo a este processo um ritmo à marcha forçada, mas ‘legitimo’ e, sobretudo, ‘racional’.” (AMARAL, Filho, J. do. e MELO, M.C.P. de. Globalização, ou metamorfose do capitalismo mundial: Revisitando ideias “chesnaisianas”. In __________(org.)

Desenvolvimento e mundialização: o Brasil e o pensamento de François Chesnais. 1. Ed. Rio de Janeiro,

E-Papers, 2014, pp. 62-63)

218 Veja-se o exemplo gritante dado por Batista: “Exemplo desse processo de cooptação intelectual é o documento publicado em agosto de 1990 pela Fiesp, sob o título "Livre para crescer - Proposta para um Brasil moderno", hoje na sua 5ª edição, no qual a entidade sugere a adoção de agenda de reformas virtualmente idêntica à consolidada em Washington. A proposta da Fiesp inclui, entretanto, algo que o Consenso de Washington não explicita mas que está claro em documento do Banco Mundial de 1989, intitulado "Trade Policy in Brazil: the Case for Reform". Aí se recomendava que a inserção internacional de nosso país fosse feita pela revalorização da agricultura de exportação. Vale dizer, o órgão máximo da indústria paulista endossa, sem ressalvas, uma sugestão de volta ao passado, de inversão do processo nacional

Se o erro de agenda, privilegiando o combate da inflação e não o desequilíbrio externo, foi resultado do Segundo Consenso de Washington, por que o Brasil aceitou sem crítica esse Consenso? Minha resposta a esta pergunta só pode ser uma: porque não apenas as autoridades econômicas, mas, mais geralmente, as elites brasileiras demonstraram-se alienadas, incapazes de definir e defender o interesse nacional. A política econômica no governo Fernando Henrique foi incapaz de produzir desenvolvimento econômico na medida em que refletiu a incapacidade das elites brasileiras de pensar por conta própria e de criticar o Segundo Consenso de Washington. (BRESSER-PEREIRA, 2003p. 358)

Este é um problema cultural difícil de ser solucionado, especialmente enquanto as elites brasileiras forem incapazes de se identificar com a própria nação. (BRESSER-PEREIRA, 2003, p. 358)

Entretanto, quando o Estado desenvolvimentista, que fora tão bem-sucedido em promover o desenvolvimento nacional, entrou em crise nos anos 1980, nossas elites perderam o rumo. Nesse momento, a ideologia neoliberal, senão ultraliberal, tornara-se dominante em Washington e Nova York, e se transformava em ofensiva sobre os países em desenvolvimento. Dada a crise que estes países viviam, especialmente na América Latina, os arautos das novas ideologias encontraram aqui campo fértil. Mais fértil do que nos próprios países ricos. (BRESSER-PEREIRA, 2003, p. 359)

Como em tantos momentos de sua história

219

, a discussão sobre a “necessidade” ou

não de adaptação do Brasil às demandas e pressões externas depende da avaliação das