(lado A)
C
hrissy Paul! passou a ser um refrão constante na Casa Grande da Eighth com a Wright – nossa próxima moradia temporária com Bessie – dito não apenas por minha mãe, agora livre, para me dizer que precisava que eu fizesse algum serviço na rua para ela, mas também por minhas irmãs e primas.Entre os 10 e os 14 anos, sem ter pedido, recebi treinamento intensivo para uma carreira profissional de office-boy. Mas isso não era o que eu tinha em mente como preparação para meu futuro ilustre como Miles Davis, uma meta que eu estava obcecado em atingir, desde que ouvi sua música pela primeira vez naquela noite com tio Henry.
Mesmo assim, fiquei tão grato a minha mãe por me ouvir falando sem parar sobre o quão desesperado eu estava para aprender a tocar, por encontrar e comprar um trompete de segunda mão para mim e por arranjar aulas particulares também, que eu não podia dizer não quando ela me pedia para fazer qualquer coisa na rua.
Alguns dos serviços eu não me importava de fazer de jeito nenhum, inclusive as diferentes paradas que fazia nos dias em que tínhamos que pagar a conta da mercearia. Uma típica saída para a rua
poderia começar com mamãe dizendo:
− Chrissy Paul, vá até a casa da Baby e pegue um pacote.
Eu sabia que aquilo significava que estávamos fazendo um pequeno empréstimo para pagar outro empréstimo, embora os detalhes não fossem discutidos. Tudo era feito de forma muito discreta, como se discutir o quanto a grana estava curta em casa fosse coisa de mau gosto. Quando chegava à casa de Baby,
também ela não fazia referência ao conteúdo do pequeno envelope dobrado que ela me dava, mas é claro que eu sabia que lá dentro havia notas de dois ou três dólares. Como office-boy nessa
transação, posso não ter sido informado quanto aos números exatos envolvidos, mas o processo me fez aprofundar meu apreço pela habilidade que minha mãe tinha de manter os gastos sob controle – algumas vezes para garantir que tivéssemos comida naquela noite.
Todo esse lance do dinheiro iria se tornar assunto de grande interesse, já que eu não tinha nenhum papai para bancar minhas necessidades e meus desejos: um determinado estilo de roupa, que aprendi a comprar economizando e esticando aquilo que eu
ganhava fazendo pequenos serviços quando podia, e, mais tarde, quando minha ambição era ter meu próprio carro. Nesse ínterim, essas andanças lidando com dinheiro ensinaram-me uma série de princípios financeiros, como ativo versus déficit, empréstimos e juros, e como conseguir mais valor por menos dinheiro.
Além de ter que ir até a Sy’s e outras mercearias locais, de tempos em tempos eu parava para fazer pagamentos na loja Uncle Ben, na Ninth com a Meineke. Essa loja, cujo proprietário era negro, tinha um balcão de carne, onde mamãe ocasionalmente me fazia apanhar frios sortidos por um dólar – cinquenta centavos de salame e cinquenta centavos de queijo, o que consistia em um jantar para uma família de sete: ela, Freddie, eu, Sharon, Kim, Ophelia, e a mais recente aquisição da família, DeShanna, a filha de Ophelia, nascida quando minha irmã esteve na casa de custódia.
A menos que estivesse literalmente morrendo de fome, eu me recusava a comer qualquer coisa que viesse do balcão de carne da Uncle Ben. Nada contra Ben, mas ele tinha um gato e o deixava comer as carnes de sua loja. Ver aquele bicho cheirando e
passando suas patas nos frios me deixava horrorizado, de um ponto de vista científico e médico. Eu devia ter apenas uns 12 anos e não era nenhum expert, mas a lógica me dizia que um gato que acabou de enterrar seu próprio cocô não devia ficar rastejando sobre o salame que iríamos comer. Entretanto, eu guardava minhas apreensões comigo mesmo.
Uma das pequenas tarefas na rua que eu menos apreciava aconteceu na época em que estávamos todos vivendo juntos e DeShanna ainda estava em uma creche, até que Ophelia
conseguisse um emprego e pudesse trazê-la para casa para morar conosco. Minha tarefa era pegar DeShanna lá, dez quarteirões adiante, trazê-la para visitar Ophelia em nossa casa, e depois devolvê-la à creche.
A pobrezinha da DeShanna não me conhecia, e mal conhecia Ophelia; assim, sempre que ela me via, era uma cena de cortar o coração para todos nós. E a senhora da creche que cuidava de DeShanna não tornava as coisas nem um pouco mais fáceis. Assim que o bebê começava a chorar e fazer escândalo, gritando,
jogando-se ao chão, batendo os punhos e esperneando, a mãe adotiva começava a chorar também – dirigindo a mim um olhar maligno, como se eu tivesse sido o causador de toda aquela
barafunda. Logo era eu quem estava a ponto de cair na choradeira, porque eu não tinha voz ativa naquele caso. DeShanna não era minha filha, e eu estava apenas fazendo o meu serviço. A
expressão “Não atire no mensageiro, ele não tem culpa” ressoaria em meus ouvidos a partir dessa experiência.
Quando finalmente saímos pela porta, DeShanna chorou todo o tempo em que tentei fazê-la ir caminhando até nossa casa, mas acabei tendo que carregá-la no colo. A cada viagem, parecia que ela chorava mais alto e ficava mais pesada. Então, eu a colocava no chão e tentava convencê-la a andar. DeShanna mostrava seu descontentamento gritando mais ainda e recusando-se a segurar em meus dedos, como crianças que ainda estão aprendendo a andar geralmente fazem. Isso significava que eu tinha que segurar sua mão, o que lhe dava mais uma razão para gritar e tentar se libertar. As pessoas paravam e olhavam, sem nada dizer, mas,
claro, pensando: O que será que ele está fazendo com aquela criança? O que está acontecendo com aquele bebê?
A viagem de volta, depois que DeShanna visitava Ophelia não era tão ruim, principalmente depois que as duas começaram a fortalecer os laços, e a visita parecia acalmar minha sobrinha. Mas voltar lá era tão horrível quanto antes. Por isso, ficamos todos felizes quando DeShanna finalmente teve permissão do serviço social para morar com Ophelia e nós. Não é de se surpreender que as circunstâncias que levaram minha irmã a ficar grávida não foram discutidas. Não perguntou, ninguém contou. Mas pensar na situação de DeShanna, que não tinha um papai em sua vida, era outro
lembrete para mim que eu não iria trazer filhos e filhas para este mundo se não pudesse estar presente em suas vidas.
______
− Chrissy Paul...! − ecoou pela casa um dia, vindo de três vozes distintas, quase como um ensaio de coral. Mamãe veio primeiro e continuou:
− Vá até a loja do “preto” e me traga uma caixa de Kotex.
Ophelia e minha prima Linda repetiram em uníssono que também queriam Kotex. Esse era o serviço de office-boy que eu mais detestava. Por que elas não podiam dividir o mesmo pacote?
Porque mamãe queria o pacote vermelho light, Ophelia, o azul-celeste, e Linda, o de fragrância lavanda. Como era possível a mesma marca de absorvente feminino ter tantas variações? Meu primo Terry havia também passado por essa fartura com suas três irmãs e havia ignorado tudo com um sorriso maroto. Sempre que lhe pediam para ir comprar Kotex, ele dizia bem contente:
− Peça ao Chris!
Mais tarde, Ophelia, pelo menos, ficou com pena de mim e começou a me dar um dólar e um saco de papel marrom para esse serviço, mas era tarde demais. Naquele dia em especial, eu voltava para casa carregando três caixas diferentes de Kotex – que não
cabiam no saco da loja – quando ouvi uma voz de escárnio atrás de mim, dizendo:
− Ei, dengosinho! Dengosinho!
O que eu deveria fazer? Derrubar os absorventes e dar-lhe um chute no traseiro? Ou ignorá-lo e aguentar as consequências
quando tudo chegasse à escola e à vizinhança? Na minha cabeça, eu já podia até ver o carteiro e Freddie – o Roda Grande, como
todos o chamavam, temendo-o e quase admirando-o – morgando no bar do Luke e contando a todo mundo sobre o dengosinho que não tinha pai. Como eu iria aguentar tudo aquilo até que eles se
cansassem?
Ainda assim, escolhi não morder a isca e continuei minha
penosa caminhada de volta a todos aqueles membros femininos da família que resolveram ter seu ciclo menstrual ao mesmo tempo, e não imaginaram que minha sensibilidade às mulheres poderia se tornar um trunfo um dia. Embora eu estivesse louco da vida com quem quer que tenha me chamado daquilo, meu modus operandi com meus pares nesse momento foi tomar o caminho da menor resistência onde fosse possível. Já era suficientemente ruim ter que estar em modo de batalha todo o tempo em casa. Por isso, na
escola e na vizinhança, preferi usar diplomacia.
Infelizmente, como eu já estava me tornando uma criança grande, sempre cerca de um palmo mais alto que qualquer um do meu grupo de amigos, toda vez que íamos a algum lugar e
arranjávamos alguma encrenca, era inevitável que era eu quem tinha que brigar. Era a lógica de rua. Outros garotos pulavam sobre mim primeiro para intimidar meus amigos, e a tática era meus
amigos atacarem se eu levasse uma surra. Cansado dessa rotina, pensei várias vezes: Cara, preciso arranjar uns amigos grandões.
Mas logo aprendi a usar meu tamanho e minha intensidade, com um olhar e uma observação, para evitar confrontos. Era preciso haver provocação séria para me fazer querer brigar com alguém.
Um de meus amigos, Norman, descobriu o que era provocação séria para mim quando, uma tarde, alguns de nós estávamos
caminhando de volta para a Tenth com a Wright, brincando informalmente de insultar um ao outro.
Norman tinha tomado conhecimento do que havia acontecido na semana anterior, quando mamãe correu para uma loja, fugindo de Freddie, que a caçou lá com um revólver na mão. Não foi um
incidente que testemunhei, mas eu estava ainda com muita raiva do que havia ouvido dizer sobre como Freddie havia aterrorizado todo mundo na loja, apontando o revólver para eles e exigindo resposta ao seu “Onde ela está?” e como o motorista de um táxi nem se mexeu quando ela saiu sorrateiramente de seu esconderijo implorando:
− Vamos embora! Vamos embora!
Fiquei doente de raiva quando soube o modo como Freddie correu e arrastou mamãe para fora do táxi e a agrediu bem no meio da rua, e as pessoas, saindo das lojas e ficando em sacadas para ver, nada faziam e nada diziam. Era mais lenha na fogueira.
Ninguém me explicou por que a polícia e as pessoas da vizinhança não puderam ou não quiseram intervir. Até mesmo meus tios
perderam pontos comigo, por não terem enfrentado Freddie. Não era medo, já que qualquer um deles poderia se sair bem em uma briga de rua; era mais uma questão de não se meter na vida de mamãe. Aquilo não colava comigo. Sem que eu soubesse, naquela época, muitas comunidades já estavam começando a romper o silêncio sobre violência doméstica, mas fossem lá quais fossem os recursos disponíveis, não os conhecíamos. O que eu vi foi muita gente olhando para o outro lado, para não ver o que eu achava – e ainda acho – irracional.
Não que eu precisasse ser mais incitado a matar Freddie
Triplett, mas quando vi Norman imitando minha mãe fugindo de meu padrasto, meu senso de premência foi multiplicado por dez.
− Ei, Chris! − diz Norman, caminhando ao meu lado, agachando-se, fingindo ser mamãe. − Lembra-se? − E então ele imita Freddie apontando o revólver e diz: − Onde ela está? Onde ela está?
Lembra-se?
Como um vulcão, assustando até a mim mesmo, entrei em
erupção. Parti para cima de Norman, agredindo-o com meus punhos fechados e chutando-o quarteirão abaixo, dando-lhe a surra que eu gostaria de ter dado em Freddie.
A partir desse dia, ninguém mais teve a coragem de trazer minha mãe à baila novamente, com jogo de insultos ou não.
Exceção feita a um parente de Freddie, que, nessa época, tinha mais de 20 anos e, mais tarde, começou a aparecer na nossa casa com frequência demais para o meu gosto, agindo como se tivesse o direito de mandar em mamãe e desrespeitá-la da maneira que lhe satisfizesse. Uma vez, em minha adolescência, depois que ela pediu a ele que parasse de importuná-la, ele a fulminou dizendo-lhe:
− Você não sabe com quem está falando. Vou arrebentar seus miolos.
Embora eu quisesse fazer com esse verme exatamente o que pensava em fazer com o Freddie, tive que me sentar lá e me
segurar. Mas nunca esqueci. Embora ele não significasse muito, não me tornei nem um pouco mais magnânimo nos anos seguintes, e quase quatro décadas mais tarde, quando um membro da família o convidou para um jantar de Ação de Graças em Chicago – na minha casa, que era minha propriedade, para comer comida comprada por mim – eu não conseguia comer. Eu não conseguia me sentar à sua frente e confiar em mim mesmo e resistir à tentação de pular sobre ele e dar-lhe uma surra daquelas. Ele já não tinha um rim, o que significava que eu poderia facilmente matá-lo dando-lhe um soco no único rim que tinha. Eu não conseguia me esquecer do que ele havia dito a mamãe e também não podia perdoá-lo. Era isso o que uma provocação grave fazia comigo.
Porém, para outros casos que envolviam meus amigos, quando acontecia de alguém estar se divertindo às minhas custas,
desenvolvi pele grossa. Para resumir, eu queria que gostassem de mim, não para ser tão popular com todos – inclusive meus
professores e os diretores da escola – mas ser especial, ter minha própria identidade, ser legal.
Com essa finalidade, no ano anterior, eu havia enfiado na cabeça que seria o máximo dos máximos levar o globo ocular de vidro que pertencia a uma das irmãs de Freddie e mostrá-lo para todos os meus colegas da quinta série. Cada vez mais, parecia-me que quando uma ideia entrava na minha cabeça, eu tinha a
habilidade de me concentrar apenas e tão somente nela. Essa foi a maior espada de dois gumes que aprendi a brandir. O que foi que me levou a importunar Sis – assim chamávamos a irmã de Freddie – para me deixar levar seu globo ocular de vidro na escola, não sei dizer. Mas eu fui implacável.
Perto de seus 50 anos, Sis vivia enfiada em seu roupão, com sua dose de uísque em um dos bolsos e um maço de Lucky Strikes no outro. Mesmo fora de casa, ela raramente usava qualquer outro tipo de roupa; nunca a vi em roupa de festa. Em 1965, no nordeste de Milwaukee, as mulheres tinham mesmo mania de roupão −
costumavam vestir um desses sobre qualquer coisa que estivessem usando, e saíam pela cidade como se estivessem exibindo um
casaco de pele. Outro membro da família estendida, dona Alberta, uma mulher grande, redonda e gorda, tinha o hábito de usar cinco camadas de roupas sob o roupão – outra figura curiosa no nosso bairro negro de Happy Days. Sis não ficava muito atrás de dona Alberta.
Cada vez que eu pedia: “Sis, posso levar seu globo ocular para a escola e mostrá-lo aos meus colegas?”, a resposta era sempre a mesma. Depois de uma dose de uísque, ela sempre respondia:
− Não, seu filho da puta. Levar meu maldito globo ocular? Não!
Diacho! Claro que não!
Finalmente, consegui desenvolver um plano de ação alternativo.
Como eu sabia onde ela guardava o tal do globo ocular – em um pote com algum líquido para mantê-lo molhado durante a noite, enquanto dormia – meu plano era dar uma passadinha lá pela
manhã, tomá-lo emprestado, enquanto ela ainda dormia, e devolvê-lo na hora do almoço, antes da hora em que ela costumava se
levantar.
Tudo estava indo maravilhosamente bem naquela manhã e quando cheguei à escola, mal pude esperar a hora de mostrar e contar. Ninguém jamais havia trazido um globo ocular para a escola.
Sentado em meu lugar, bem antes de chegar minha vez, eu não conseguia disfarçar o sorriso que se estendia em meu rosto, pois esse seria meu dia de glória.
De repente, um grito medonho ressoou pelo hall; a princípio, ininteligível, mas logo ficou coerente o bastante para que todos ouvissem:
− Chris! Chris! Me dê meu olho de volta. Me dê meu olho de volta. Vou te dar uma surra daquelas! Me dê meu maldito olho de volta!
Um por um, meus colegas viraram-se e olharam para mim, embasbacados.
Outra tempestade de berros, claramente ameaçadores:
− Menino, me devolva meu maldito olho. Eu quero meu olho!
Vou fazer picadinho de você, seu ladrãozinho filho da puta!
Então Sis abriu a porta da sala de aula e ficou lá, sem fôlego, com os cabelos ensebados e desgrenhados, de chinelo e roupão surrado. Espumando de raiva, encarou todos com o seu olho normal e a outra órbita vazia e gritou:
− Me devolva meu maldito olho!
De queixo caído, a professora e os colegas olhavam para mim, perplexos, sem saber quem ela era e sem saber qualquer coisa a respeito do olho. Um fiasco completo.
O constrangimento pesou como sapatos de cimento, quando tive que me levantar, ir até Sis, na frente de todos e procurar o seu globo ocular no meu bolso. Ela apertou o olho normal para ver melhor o que parecia uma bolinha de gude na minha mão e a arrancou de mim, encaixando-a imediatamente na órbita vazia, bem na frente da turma. Depois, virou-se e saiu, amaldiçoando-me pelo corredor afora.
Achei que minha professora fosse desmaiar. Uma garota acabou vomitando. Aparentemente, ninguém lá havia jamais visto um tipo como Sis ou alguém encaixando um olho de vidro na órbita.
Em casa, a repercussão não foi tão terrível. Freddie foi absolutamente previsível e latiu:
− Chris, não me pegue o olho de Sis outra vez, ouviu bem? Se você fizer isso, vou bater tanto no seu traseiro que você ficará sem poder se sentar por uma semana!
Aquilo não me preocupou muito, porque ele se aproveitava de qualquer desculpa para me agredir.
Foi na escola que a coisa doeu. Por um bom tempo, fui motivo de chacota na Lee Elementary, e a garotada ficou falando de Sis e de seu olho de vidro durante semanas. Mas, claro, vivi para contar a história. Com exceção daquele desastre, eu geralmente ia bem na escola – contanto que estivesse interessado e tivesse desafios.
Além de meu apetite voraz por livros crescer sempre, o que me levava para corredores de bibliotecas em busca de clássicos como Charles Dickens e Mark Twain, e de um emergente interesse por história, eu achava matemática uma matéria divertida e bastante interessante, com problemas para resolver iguais a jogos que
produziam respostas a perguntas que eram ou certas ou erradas, ou sim ou não.
Bem diferente das perguntas que predominavam em casa.
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Durante os primeiros anos após mamãe voltar da prisão, tentei descobrir alguma coisa a respeito do que haviam feito com ela, como ela havia mudado, ou não, e o que havia em seu coração.
Freddie, o velhote, era uma prisão para todos nós – os grilhões
completos. Ele deveria ser um vício, imagino, e essa era a razão por que, não importava quantas vezes ela escapasse ou o expulsasse de casa prometendo “Ele não voltará nunca mais”, ele sempre
voltava. Depois de certo tempo, eu me perguntava se ela realmente ainda tinha medo de Freddie. Eu me perguntava se ela não
continuava com ele como um lembrete de que, não importava quais sonhos dela ele havia destruído, ele não conseguiria dobrá-la.
Mesmo que a tivesse mandado para a prisão duas vezes, ele não conseguiria derrotar Bettye Jean. De fato, se alguma vez ela se sentiu desanimada, ela jamais o revelou.
Raramente ela expressava impaciência ou frustração em relação a mim, mesmo quando eu merecia. Mas para exemplificar algumas
Raramente ela expressava impaciência ou frustração em relação a mim, mesmo quando eu merecia. Mas para exemplificar algumas