Capítulo 4: Coalizão dirigente e grupos internos
4.1. O PSOL e suas tendências
4.1.3. Bloco de centro
Formado pelos setores do partido que defendem uma linha política intermediária entre os dois extremos. Esse é o segundo maior bloco do partido. Sua posição intermediária poderia ser um elemento facilitador de uma possível hegemonia, uma vez que permite al ianças com um ou outro bloco para formar a maioria. Contudo, o fato de que forma um setor bastante heterogêneo faz com que essa possibilidade de estabelecer alianças se torne mais um elemento desagregador das suas forças. Bem diferente do bloco de direita que compõe o setor mais homogêneo do partido, o que permite na luta pela hegemonia partidária estabelecer uma ação unificada e, por isso, mais eficiente. As principais forças que compõe o centro partidário são:
Ação Popular Socialista (APS): Em 1985, remanescentes de três organizações comunistas clandestinas da época de ditadura (Movimento pela Emancipação do Proletário, Ação Popular Marxista Leninista e Aliança Vermelha) constituem no interior do PT o Movimento Comunista Revolucionário (MCR). Apegada a tradição leninista, a organização inicialmente considerava que o PT contribuía apenas de forma indireta para a construção do partido revolucionário brasileiro. Porém, em termos de linha política defendia o PDP por
75 Disponível em: www.poderpopular.org.br/tendencia. Acesso em 6 de jul. de 2010.
76 Ver ―Manifesto Poder Popular/MES‖. Disponível em:
http://www.poderpopular.org.br/tendencia/index.php?option=com_content&view=article&id=7 :manifesto-mespoder-popular&catid=4:documentos&Itemid=7. Acesso em 6 de jul. de 2010.
considerar que esta estratégia enfatizava ―o aspecto eleitoral, capaz de mudar a correlação de forças a favor dos trabalhadores e favorece o avanço da luta de classes na perspectiva dos trabalhadores‖ (Silva, 2009). Tal posicionamento levou o MCR a se aproximar do campo majoritário e a debater a possibilidade da sua dissolução para se transformar em uma tendência petista. O MCR acabou dissolvendo-se no meio do caminho. Muitos militantes aderiram ao campo majoritário, mas uma parcela importante da organização deu prosseguimento ao projeto de constituição de uma tendência dando origem à Força Socialista (FS) em 1989.
A constituição da FS sintetiza o processo evolutivo – que não foi tranqüilo ou linear – em direção à integração ao PT. A FS procura operar a transição entre sua forma organizativa leninista, uma situação de pré-partido – herança do MCR – para uma organização com caráter de tendência do PT. Tratava-se de moldar e consolidar uma cultura política diferente daquela que sedimentara sua militância desde a fase da clandestinidade, de disputar os rumos do PT, incorporando suas tensões (Silva, 2009).
Esta transformação significou uma revalorização do papel estratégico do PT ao considerar a possibilidade de transformá-lo em um partido revolucionário. Tal posicionamento levou a tendência a alinhar-se ao campo da esquerda petista para a disputa no partido. Contudo, em face do processo de institucionalização do PT, em 1998 a FS passa a defender uma linha política de disputa com o campo majoritário aberta na sociedade e não mais restrita aos espaços internos do partido. Para a FS, a eleição de Lula teve como efeito um fechamento ainda maior das possibilidades de travar a disputa de projeto no interior do PT.
Em 2004, já na fase de preparação de ruptura com o partido, a FS se funde com uma série de coletivos regionais do PT constituindo uma nova tendência: a Ação Popular Socialista (APS).
Com a ―crise do mensalão‖ em 2005 este processo de ruptura se aprofunda. Nesse mesmo ano, após a disputa para a direção do PT em que sua chapa ―Esperança Militante‖ obteve a expressiva marca de 25.158 votos (9,1% dos votos válidos) 77, decide sair do PT para entrar no PSOL.
A APS experimentou um grande crescimento ao longo da década de 90 e início de 2000 se tornando a terceira maior força da esquerda petista - apenas um pouco atrás da Democracia Socialista e Articulação de Esquerda78 - e um relativo sucesso na disputa institucional chegando a eleger três deputados federais (Ivan Valente, Maninha e Nelson
77 Fonte: Secretaria de organização – Diretório Nacional do PT.
78 No PED de 2005, a chapa ―Coragem de Mudar‖ (Democracia Socialista) e a chapa ―A Esperança é Vermelha (Articulação de Esquerda) obtiveram respectivamente 12,2% e 11,8% dos votos válidos.
Pellegrino), quatro deputados estaduais (Randolfe Rodrigues, Afrânio Boppré, Brice Bragato e Araceli Lemos) e o prefeito de Belém no período de 1997-2004 (Edmilson Rodrigues).
Apesar de apenas Nelson Pelegrino ter rompido com a APS antes mesmo do processo de ruptura com o PT, nas eleições de 2006 a tendência pagou o preço de optar por uma legenda com menor densidade eleitoral e conseguiu reeleger apenas o deputado federal Ivan Valente.
A APS dentro do PSOL ―destaca-se por ser a maior defensora do Programa Democrático Popular elaborado pelo Partido dos Trabalhadores nos anos 198079‖ (Delmanto e Seda, 2008, p.35). Esta linha política é uma herança da FS, a qual já encarava o PDP como próprio de um ―governo tipicamente de transição‖ (Manifesto da Força Socialista Apud Silva, 2009). Como tal, ―não é um mero programa eleitoral para disputar o governo federal‖, assim como ―a disputa deste não se confunde com a disputa do poder em sua totalidade‖ (Silva, 2009). Motivo pelo qual um documento da APS de 2006 reafirma ―uma atuação que não dicotomiza a luta de massas da luta no campo institucional‖ (Resoluções sobre construção partidária80), procurando manter um equilíbrio dos elementos que compõe a estratégia de pinça.
O posicionamento da APS em relação ao PDP e a construção partidária81, levou a tendência inicialmente a uma unidade com o bloco de direita visando formar uma coalizão dirigente estável na direção do partido. Porém, divergências quanto a linha política moderada adotada pelos aliados (especialmente nas eleições municipais de 2008) levou a APS a buscar aliados nos setores da esquerda partidária82.
Enlace: Entre as diversas tradições que confluem para dar origem ao Enlace, a principal delas é a maior e mais influente fração da IV Internacional: o Secretariado Unificado (SU, atualmente Secretariado Internacional). A Democracia Socialista (DS) foi fundada no final de 1979 a partir da fusão de duas organizações trotskistas que editavam o jornal ―Em Tempo‖ com militantes remanescentes das organizações clandestinas da década de 70 (Angelo, 2008, p.2). A DS desde sua fundação esteve ligada ao SU e ao processo construção do PT. Diferente da maioria das organizações revolucionárias que concebiam o PT como uma
79 O IV Encontro Nacional da APS realizado em novembro de 2007 apresentou a seguinte tática prioritária:
―afirmação de uma plataforma unitária nos movimentos sociais, a fim de reafirmar o programa democrático e popular abandonado pelo lulo-petismo e por parcela dos movimentos sociais atrelados ao governismo‖
(―Conjuntura e tática: a esquerda e o Brasil no 2.º governo Lula‖. Disponível em:
http://www.acaopopularsocialista.com.br/CN02/download/dow_det.asp?id=6 . Acesso em 13 de jul. de 2010).
80 Disponível em: http://www.acaopopularsocialista.com.br/CN02/download/dow_det.asp?id=3. Acesso em 13 de jul. de 2010.
81 ―Contribuir [sic] o PSOL de uma estabilidade em termos de bloco de direção partidária, a partir de uma política interna de alianças que propicie ao partido intervir de forma mais qualificada na próxima conjuntura‖
(Resoluções sobre construção partidária).
82 Ver Capítulo 5.
frente popular e a si própria com o embrião do futuro partido revolucionário, a DS concebia o novo partido como sendo de caráter estratégico. A existência de uma organização separada se justificava apenas em função do objetivo de constituir um núcleo dirigente marxista revolucionário para o PT. Por essa razão, antes mesmo de flexibilizar seu modelo leninista de organização em função da regulamentação sobre as tendências, a DS já funcionava como tal:
―trabalhou pela construção do partido, mas sem adotar posições sectárias, compondo com seus setores majoritários ao mesmo tempo em que construía a si mesma, numa estratégia adotada do programa do Secretariado Unificado‖ (Idem, p.11). A adoção dessa linha política permitiu que a DS conquistasse uma enorme influência no partido e, conseqüentemente, na sociedade. Entretanto, ela não logrou o objetivo de construir o PT como um partido revolucionário. Na década de 90, com os primeiros sinais da moderação do PT, o objetivo da DS passou a ser muito mais limitado: unificar a esquerda petista para tentar ―retomar a estratégia democrática e popular‖, a qual era identificada como um programa de transição ao socialismo (Silva, 2001b). Assim, a DS foi colocada diante do seguinte dilema: ―permanecer no PT e lutar pela sua transformação no partido revolucionário ou transformar a si mesma para adequar ao partido‖ (Angelo, 2007, p. 124). Com a eleição de Lula e o fim de qualquer perspectiva de que o PT adotaria uma linha de construção do socialismo, o dilema teve de ser finalmente equacionado.
Entre as vozes da esquerda petista que se levantaram contra os rumos do governo Lula a de maior destaque foi a de uma das principais lideranças da DS: Heloísa Helena. Nesse momento a tendência possuía oito deputados federais, duas senadoras e o Ministro de Desenvolvimento Agrário (Miguel Rosseto). Ou seja, um peso institucional muito significativo para ser simplesmente ignorada. Apesar disto, mesmo co m toda a mobilização da DS contra a expulsão de um dos seus membros pela direção do PT, esta veio a ser consumada.
Ao contrário da CST e do MES, a DS não se considerou automaticamente expulsa. Assim, Heloísa tomou de modo unilateral a decisão de adesão do projeto de um novo partido, levando consigo apenas um pequeno número de militantes da tendência. A maior parte desse grupo optou por constituir uma fração da DS chamada Liberdade Vermelha (LV), enquanto outra parte optou pela construção de uma nova tendência: o Marxismo Revolucionário Atual (MRA). Embora não reconhecida pela direção da DS que reafirmou o caráter da organização como tendência do PT, a LV encontrou respaldo entre dirigentes do SU e a adesão de um dos mais importantes dirigentes da tendência e do PT: o renomado economista e dirigente político João Machado.
Em dezembro de 2004, MRA e LV se unificaram para formar a tendência Liberdade e Revolução (LR), a qual tinha como proposta unificar os dissidentes da esquerda petista. Em janeiro de 2005, três destacados dirigentes do SU (Michael Löwy, Daniel Bensaïd e Franscisco Louçã), enviaram uma carta para a DS que, entre outras coisas, apresentava uma dura crítica à participação de Rosseto no governo Lula e sugeria a unidade entre os militantes da organização que estavam no PT e no PSOL. Esta carta teve como efeito apenas o afastamento progressivo da DS com o SU. Neste mesmo mês, um grupo importante de militantes da tendência adere ao PSOL. Enquanto isso, outro grupo de militantes (entre os quais o dirigente da tendência José Corrêa Leite), apesar de permanecer na DS, constituem uma fração chamada ―A Coisa‖ visando disputar novos militantes para o PSOL.
Em setembro de 2006, o Enlace é fundado em decorrência de um processo de fusão das tendências Liberdade e Revolução e Movimento de Unidade Socialista (MUS/racha do MES) com ―A Coisa‖ e dissidentes da Articulação de Esquerda e do Fórum Socialista. Entre os militantes que aderem neste momento ao PSOL e a nova tendência, apenas dois parlamentares: os deputados federais João Alfredo (CE) e Orlando Fantazzini (SP), ambos dissidentes da DS.
Apesar de ser o candidato a deputado mais votado no Ceará nas eleições de 2002, João Alfredo não conseguiu se reeleger em 2006. Fantazzini também não obteve sucesso na sua tentativa de reeleição, terminando por abandonar o PSOL devido sua pouca viabilidade eleitoral. Além disso, Heloísa Helena abandonou a tendência dando continuidade a um processo de aproximação com o MES. Em 2008, o Enlace conseguiu eleger apenas um vereador: João Alfredo em Fortaleza. Desse modo, apesar de possuir grandes personalidades, o Enlace ficou bastante fragilizado materialmente em relação ao MES e a APS, uma vez que os mandatos parlamentares constituem a principal fonte de financiamento das tendências.
Soma-se a este elemento o fato de que o caráter plural da nova tendência, que está expresso inclusive em seu nome, trouxe algumas dificuldades para uma atuação unificada nos moldes da tradição leninista. Mesmo assim, devido suas posições políticas intermediárias e sua proximidade com a APS, o Enlace possui um grande poder de influência sobre a coalizão dirigente do partido.
No interior do Enlace está organizado um Cáucus da IV Internacional que em 2010 foi finalmente reconhecido como a única seção oficial do SU no Brasil. Embora a tendência como um todo não mantenha ligações formais com essa organização internacional, a existência deste cáucus certamente a coloca politicamente e teoricamente sob influência do SU. Não é de estranhar, portanto, que o Enlace compreenda o PSOL e a si próprio apenas
como uma parte de um amplo e longo processo de recomposição de forças da esquerda revolucionária (Resoluções da II Conferência Nacional do Enlace83). Formulação que podemos facilmente identificar com as teses que o SU vem desenvolvendo desde a década de 80 e que culminou na prática de construção de partidos amplos que chamamos aqui de nova esquerda radical.
Em termos de linha política o Enlace defende ―uma tática de frente única antineoliberal dos assalariados e de todas as suas organizações, construída nas mobilizações sociais, no interior da luta política de massas, em conjunto com a defesa de um programa anticapitalista‖ (Idem). Isto implica em não desconsiderar a importância da disputa eleitoral como um importante momento de disputa política. Mas, ao mesmo tempo significa subordiná-la a este movimento mais amplo de ―recomposição política da esquerda brasileira" (Idem). Tal posicionamento levou ao Enlace a manter uma independência em relação aos dois blocos (direita/maioria versus esquerda/minoria) que se formaram no I Congresso e uma tática que procurava deslocar setores de ambos não para a ―construção de um novo bloco‖, mas, para
―recolocar os rumos do PSOL em uma nova perspectiva, alimentando a possibilidade de debates sobre pontos fundamentais do programa sem prévios blocamentos‖ (Idem). Mesmo sendo eficaz nessa tática ao conseguir o deslocamento da APS do bloco de direita, os desdobramentos políticos e organizativos do período seguinte levaram o Enlace a rever sua posição de independência. Tal mudança de postura decorreu da constatação de que:
ainda que, desde o seu início, o PSOL tenha no seu interior setores de militantes com posições esquerdistas e doutrinárias, o maior problema que enfrentou foi, de longe, o oposto: o grande peso de posições políticas que priorizam excessivamente as preocupações eleitorais e a busca de espaço junto à grande mídia e a setores médios. (Resoluções da II Conferência Nacional do Enlace 84).