1.1 “ Mulher não era pra ser Juíza, mulher era pra cuidar do fogão, não
8- BOANERGES CHAVES MAIA – COMARCA DE AROEIRAS 9 JOÃO SILVIO PIMENTEL – COMARCAR DE COREMAS.
10- HELENA ALVES DE SOUZA – COMARCAR DE CABEDELO. 11- JAIME LEITE GOMES – COMARCA DE CUITÉ.
44 Entrevista realizada no dia 02 de julho de 2014, pela pesquisadora Sabrina Rafael Bezerra, na casa da
Os referidos magistrados foram considerados incompatíveis com o exercício do cargo, em face de procedimento irregular, apurado em correições, sindicâncias e inquéritos, procedidos pelo Tribunal de Justiça do Estado, conforme documentação que instrui a proposta de aposentadoria.
Aproveito a oportunidade para renovar a Vossa Excelência os protestos de meu respeitoso apreço.
(JOÃO AGRIPINO) Governador.45
Com base nesse documento pode-se perceber que a retirada de Helena Alves do cargo de magistrada, assim como os demais juízes ocorreu de maneira sigilosa e intencional da vontade do governador e o próprio Tribunal de Justiça que foi quem imputou motivos para a retirada desses magistrados de seus cargos, ou seja, do exercício judicante, porque um Juiz ou Juíza de Direito após adquirida a vitaliciedade será para vida toda Juiz ou Juíza, por esse motivo eles e ela foram aposentados e não demitidos.
João Agripino Governador do Estado da Paraíba, naquele período chegou a brigar e ameaçar sair do governo, caso as cassações continuassem sem sua aprovação. Mas no caso especifico das cassações ocorridas no Judiciário, o Governador tanto indicou como acatou as sugestões do Tribunal de Justiça da Paraíba que chegou a lhe enviar um documento com os nomes dos Juízes que eles queriam cassar, pois como que João Agripino não queria cassações sem seu consentimento, ele logo foi informado pelo Tribunal em questão e aceitou as cassações. No livro, “Agripino, o mago do Catolé”. É exposta a justificativa do Governador da época para ter aceitado as cassações:
Recebi oficio do Tribunal de Justiça, acompanhado de relatórios da corregedoria, que concluíam que alguns magistrados (eram onze juízes de Direito) não tinham condições de exercer a magistratura. Os relatórios eram realmente alarmantes: processos atrasados e a Justiça totalmente abandonada. Casos de venalidade, outros de negligência; outros vezes incapacidade intelectual. Eu então encaminhei esses processos ao ministro da Justiça, que os levou ao presidente da República, propondo as cassações dos onze juízes. Essas foram de minha responsabilidade.46
Diante do exposto, é notório que a saída dos magistrados foi motivada pelo próprio Tribunal, sendo a corregedoria seu órgão fiscalizador.
45Encontrado no Acervo da Comissão Estadual da Verdade e Preservação da Memória do Estado da
Paraíba.
No próximo ponto desse capitulo farei um uso maior dos jornais, estes que tive acesso na exposição que o Tribunal Regional Eleitoral promoveu e depois através da própria Helena Alves, que os guardou colados nas páginas de um “diário”, no qual ela nada escreveu, apenas recortou matérias a seu respeito e colou para guardar como memória de uma parte de sua vida. Ela preservou por décadas o tal diário, e que ainda está intacto, nos dias atuais. Este diário foi presente do homem que na época se candidatava a seu pretendente e alguns anos depois se tornou marido. O casamento não durou muito e o divórcio veio após sua cassação da magistratura. Porém, o que torna esse diário relevante para ser destacado aqui, são as palavras de abertura de sua primeira página, escrita pelo pretendente de Helena Alves. Na foto que eu tirei do Diário, destaco a seguinte frase: “As fazes tristes serão lançadas no livro do esquecimento”
A história, por muito tempo serviu como livro de vitórias e felicidade. As desgraças, por ventura, foram relegadas ao esquecimento, como o personagem sugere em sua dedicatória. Porém, o papel do historiador consiste em lembrar o que para alguns deveria ter sido esquecido. E o arquivamento pessoal que fazemos de nossas coisas nos faz selecionar o que queremos lembrar e destruir o que queremos esquecer, por esse motivo o trabalho do historiador acaba se tornando mais difícil ao se deparar com arquivos pessoais.
Segundo Philippe Artières, no artigo “Arquivar a própria vida”;
O arquivamento do eu não é uma prática neutra; é muitas vezes a única ocasião de individuo se fazer ver tal como ele se vê e tal como ele desejaria ser visto. Arquivar a própria vida, é simbolicamente preparar o próprio processo: reunir as peças necessárias para a própria defesa, organizá-las para refutar a representação que os outros têm de nós. Arquivar a própria vida é desafiar a ordem das coisas: a justiça dos homens assim como o trabalho do tempo.47
E por esse motivo desafia o trabalho do historiador (a), pois é preciso identificar essa subjetividade do sujeito que seleciona e arquiva parte da sua história, para os outros. E além disso também é preciso perceber que essa não é uma prática acabada, pois: “Incessantemente, até o último momento, nossos arquivos estão sendo refeitos. Nossas intenções mudam em função de fatores pessoais, mas também externos.”.48
47ARTIÈRES, Philippe. Arquivar a própria vida. In: Revista Estudos Históricos, Arquivos pessoais. Rio de
Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, vol. 11, nº 21, 1998, p.31.
Vejamos a imagem abaixo:
(Primeira página do Diário de Helena, dedicatória, do na época, do amigo e que depois se tornou marido de Helena. Tive acesso a esse diário na casa de Helena e o fotografei por completo).
Portanto, esse diário que foi usado para colagem desses fragmentos de jornais nos indicam o que o ex-marido de Helena Alves lhe propôs ao presenteá-la, aconselhando-a
a registrar o que for bom, nos leva a pensar que talvez ela tenha assim como aponta Artières excluído o que foi ruim, para guardar para si e para os outros a história que ela tem de si mesma. Pois, nossa história intima é carregada de intenção, mas essa intenção não deve ser vista apenas como uma atitude para o outro, para nós mesmos, uma estratégia individual de se contar e reconhecer.
Esse Diário que Helena Alves guarda com tanto zelo e se orgulha tanto em mostrar as suas memórias coladas nele, de uma época de sua vida. Por esse motivo achei que ele não merecia ser desprezado, pois é de grande importância fazer tal observação.