CAPÍTULO I: A “noite gay” em São Paulo e a homossexualidade como lugar
2. Boates, shows, efervescência controlada e a epidemia de aids
a) Efervescência controlada
É difícil avaliar em que medida a repressão sobre a sociabilidade que se dava em bares do centro de São Paulo teve impacto na ascensão das boates como núcleos importantes da sociabilidade entre esses homens. Por um lado, as boates eram moda geral naquela época, desde quando a disco music43 virara febre também no Brasil, como vimos no relato acima. Por outro lado, o modo como isso se desenvolveu no universo gay parecia trazer peculiaridades, como a influência da repressão sobre os bares do centro e a realização dos shows de transformistas.
As narrativas sobre as boates da época envolvem um forte tom de nostalgia: ouvi muitas histórias sobre o glamour daquela época, a suntuosidade dos shows e as relações humanas mais calorosas. Arrisco dizer que o saudosismo marcante nas falas sobre esses lugares está relacionado ao momento específico em que existiram: falamos de uma época, entre finais da década de 1970 e meados de 1980, em que, apesar da repressão institucional, havia uma grande efervescência em relação à sexualidade - e à homossexualidade, especialmente. Essa localização temporal, no interregno entre períodos muito marcados pelo estigma, medo e repressão, parece adicionar aos eventos do período uma carga maior de saudosismo à já esperada nostalgia de tempos idos44.
artistas de circos, que desfilavam aqui com elefantes. Neste ano, não me lembro o dia exatamente, a artista Wilza Carla, muito conhecida no teatro na época, estava na porta do Medieval, e neste mesmo momento descia o elefante acompanhado pelos integrantes do circo. Centenas de pessoas que estavam lá naquele momento, disseram que Wilza não conseguia subir no elefante, foi uma luta até ela conseguir, pois, estava muito gorda. Foi também um acontecimento engraçado e diferente, e muito comentado aqui pela pessoas, no entanto, até mesmo aqui estou lembrando e contando a você”. Fonte: Sr. Francisco – vendedor de ilusões. Em entrevista a Anna Karina Spedanieri. Referência: http://salvesequemsouber.blig.ig.com.br/ acesso 28 jan 2010.
43 A disco music e as boates ou discotecas (aparentemente, o termo boate era mais utilizado quando tratava-se
de um lugar associado aos gays) constituem-se mutuamente. Embora já na década de 1960 houvesse iniciativas que prenunciavam as discotecas, é a partir de 1970 que elas começam a se tornar conhecidas, junto com a música disco, uma reação de grupos negros, latinos e gays à proeminência do rock na contra-cultura americana e dos bares como formatos principais de lugar de lazer. Com a música disco, nascem as primeiras boates gays ou clubs, lançando as bases para os mais atuais. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Nightclub#Early_history acesso em 28 jan 2010.
44 Em finais da década de 1970, surgia o grupo Somos, o primeiro grupo homossexual do país. Também nesse
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Os relatos dão conta de uma espécie de belle époque gay paulistana, especialmente para os homens de classes médias, que em geral tinham acesso às boates. Lançarei mão, aqui, do relato de um desses homens, que é significativo por ter atravessado e vivido intensamente o período de finais de 1970 a meados de 1990. Henrique, 45 anos, empresário, branco, gay, residente num bairro de classe média alta na cidade de São Paulo, conta que, na sua juventude, havia passado um tempo procurando se informar sobre um desejo por homens que considerava diferente. Após procurar em bibliotecas e até mesmo na Enciclopédia Barsa e nada encontrar a respeito, tomou a decisão de que simplesmente continuaria vivendo e tentando flertar na rua, nos cinemas, na av. Paulista. Numa viagem de férias com a família, aos 17 anos, teve um rápido relacionamento com um homem que lhe contou da existência do Clube OFF, casa noturna comandada por Celso Curi, que havia sido o primeiro a ter uma coluna gay num jornal de grande porte45. Tudo aparentemente era muito difícil, já que o lugar ficava próximo de uma área residencial de classe alta, era pouco visível e pouco amistoso com quem chegava pela primeira vez:
Ele falou que existia em São Paulo lugares em que as pessoas iam. E ele me falou do OFF, que era numa travessa da 9 de julho. E cheio de homens lindos, perfumados, bonitos, bem vestidos. Era uma espécie de esconderijo da burguesia gay, descobri depois. Você passava na frente e não sabia que estava ali. Foi um custo... O cara me falou, você vai assim, assado, vira em tal rua, vai ver uma fachada com uma porta de alumínio e não vai ter ninguém na porta. Você chega ou puxa a porta, se alguém estiver entrando, você entra junto. Não tinha nome, nada. Procurei várias vezes e não achei, passava e não via, “não deve ser aqui”. Aí, achei finalmente, entrei, e foi um abre-te-sésamo, porque entrei nesse lugar e vi que tinha centenas de pessoas que não usavam peruca e salto alto e estavam ali. Aqueles homens lindos se beijando, ficava hipnotizado, só vendo que aquilo existia. (entrevista com Henrique, 45 anos, em junho de 2005)46
outras áreas da cidade, adentrando o largo do Arouche e av. Vieira de Carvalho, e chegando a bairros mais “nobres” da cidade. Ao mesmo tempo, trata-se do espaço de anos que antecede o pânico relacionado à epidemia de HIV/aids, antes também de ondas de violência e assassinatos que marcaram época em meados da década de 1980. Havia, ainda, um meio-termo entre a visibilidade que as boates e bares têm hoje e a restrição territorial que os limitava às bocas do centro.
45 Celso Curi escrevia a “Coluna do Meio”, no jornal gaúcho Zero Hora. Segundo Curi, em entrevista a Silva
(1998), a coluna era sobre a homossexualidade e o jornalista foi processado com base na Lei da Imprensa durante a ditadura militar por “atentado à moral e aos bons costumes pela união de seres anormais”. Mesmo assim, a coluna continuou a ser escrita, encerrando-se antes da conclusão do processo, que durou três anos e culminou na absolvição de Curi. A “Coluna do Meio” foi publicada entre os anos de 1976-1979.
46 A entrevista com Henrique aparece com data de 2005 e, posteriormente, de 2009, porque a primeira entrevista
foi realizada para minha pesquisa de mestrado. A segunda entrevista já é referente ao doutorado e veio completar lacunas da primeira. Como a narrativa permaneceu substancialmente inalterada entre um período e outro, decidi utilizar as duas entrevistas para compor o texto.
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A fala reflete um primeiro momento de deslumbre com um universo até então desconhecido: na imaginação de Henrique, ser gay e frequentar boates estava ligado a uma antiga imagem da adolescência, a das travestis na porta da boate Medieval, por onde havia passado de carro, com a família. É importante pontuar, também, que o OFF não era necessariamente restrito ou direcionado ao público gay e, embora fosse freqüentado por esse público, atraía um público tido como interessado pelas novidades no âmbito da arte e cultura de modo geral. Espaços onde poderiam conviver com tranqüilidade pessoas de diferentes identidades sexuais não eram – ou são – incomuns: muitos outros espaços eram compartilhados entre gays e heteros, especialmente restaurantes e bares frequentados pela “classe artística” da cidade. Se essa mistura se dava pela afinidade de gostos e ocupações compartilhadas, o OFF poderia ser considerada uma iniciativa inovadora, num período ainda um tanto distante da estratégia de atrair os “simpatizantes” aos lugares freqüentados por gays e lésbicas, que se firmaria na década de 1990. A recusa a se restringir como um bar gay demandava, inclusive, uma postura clara de seu proprietário:
Lembro-me que as pessoas indagavam: "-Ah! Vai ser um bar gay por causa da coluna!?". Respondia que não, seria simplesmente um bar, onde não se pediria atestado de sexualidade a ninguém para entrar. Acabou se transformando num bar gay, porém muito freqüentado por não gays. Isso durou uns sete anos, virou o primeiro privé gay de São Paulo. Era um lugar super legal. (Curi em entrevista a Silva, 1998: 463)
O Clube OFF manteve-se em funcionamento, segundo seu idealizador, de 1979 a 1986 no formato de bar. A partir de 1986, Curi decide enfatizar sua vocação cultural, transformando-o num “espaço cultural”, o Espaço OFF, destinado a apresentações musicais, teatrais, entre outras. Segundo Curi, “o OFF fez parte da vida de muita gente” (Silva, 1998: 463). Para Henrique, voltando ao nosso entrevistado, a descoberta do OFF era também a descoberta de que era possível ser gay sem “usar salto alto e peruca” e que isso daria acesso a um universo que parecia a ele bem mais interessante do que o que a sua família e amigos da escola proporcionavam. Em 1980/81, Henrique entrou no curso de publicidade e um amigo o levou para outros lugares, alargando o universo mais restrito do OFF, freqüentado então pelos homens de classe mais alta, pelas bichinhas finas:
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Ele me levou ao Homo Sapiens e foi um novo salto de qualidade, pessoal. Porque eu conhecia aquele armário escondido lá no Itaim, que era o OFF, e o HS era maior, tinha muito mais gente, de outros tipos, e não era só gente endinheirada, tinha trabalhador mais remediado, pessoal mais bem de vida. Era uma mistura mais democrática. Então alargou um pouco minha percepção do universo gay: “ah, então tem gays assim também?”. Até um lugar mitológico, o Val Improviso. Era um buraco, uma rua sórdida, perto do Arouche, eu fui lá, saindo do OFF, quase 05 da manhã e aquilo era um buraco, não tem outra palavra, uma casa desmoronada, e lá dentro você via modelos que você tinha visto fazendo propaganda de uísque na televisão (...) E a gente chegava na porta e parecia uma cena de filme de pós-apocalipse, porque tinha tambores de óleo na porta com fogo queimando dentro, e mendigos esquentando a mão. Homeless people, na rua, se esquentando naquilo! (...) Então, você entrava num lugar terrível e via travestis e gente mal ajambrada e os homens lindos que você só via nas revistas. Era uma coisa de outro mundo. Comecei a sentir que ser gay era pertencer a uma sociedade secreta, ter passe livre pra um universo muito mais interessante do que todo mundo vivia, você experimentava coisas, você via, ia em festas, via cenas, olhava gente dançando de maneira extravagante, ia em boates animadas, coisa que ninguém mais fazia. Ninguém que eu conhecesse fazia nada tão divertido quanto eu. Era muito interessante você fazer parte desse clube fechado. (entrevista com Henrique, 45 anos, em junho de 2005)
O trecho acima marca a passagem para um universo já mais complexo, que inclui itinerários diferentes na cidade: o entrevistado – e não só ele -, ia do lugar onde havia mais endinheirados ao lugar onde se misturavam mendigos, travestis e modelos, passando pela boate HS. Ia-se também de um lugar na região dos Jardins a uma rua sórdida do centro da cidade47. Se não fosse uma experiência comum a todos naquele momento, não se tratava de algo absolutamente isolado. Esse parecia ser um dos diferenciais que o entrevistado associa a
47 A rua sórdida abrigava o Val-Show que, junto com a boate Val-Improviso, a algumas quadras dali, ganhou
aura mítica, reforçada pela menção na canção “Só as mães são felizes”, do cantor Cazuza, que freqüentava a casa e não raro terminava o expediente cantando ao violão: “Você nunca varou / A Duvivier às 5 / Nem levou um susto Saindo do Val Improviso / Era quase meio-dia / No lado escuro da vida”. A canção estava no primeiro álbum solo do cantor, “Exagerado” (Som Livre, 1985). Era hábito chegar ao bar nas altas horas da madrugada, e continuar amanhecer adentro, até meio-dia. Abertos por Valdemir Tenório de Albuquerque e pela travesti Andréia de Maio, outra figura importante da noite de São Paulo, o Val Improviso e Val Show eram tidos como antecessores da cena underground na cidade de São Paulo, que tem como marca a reunião de um público com gostos tidos como alternativos e um maior relaxamento em relação à assunção de identidades sexuais. A história dessa cena corre em paralelo aos fios puxados neste capítulo, embora não desconheça a intersecção entre lugares do underground e a noite gay, nem a importância que lugares tidos como alternativos assumem como espaços de sociabilidade, atraindo dos gays aos sem-rótulo, o que já abordei em outra ocasião (França, 2007). A intenção neste capítulo é traçar um histórico dos lugares mais claramente identificados como gays, pela relação de continuidade com os lugares observados nesta pesquisa e mesmo porque os lugares
underground parecem não ser muito determinantes na experiência de lazer noturno trazida pelos homens aqui entrevistados. Fonte: PALOMINO, Erika. Histórias de um underground brasileiro. In Jornal Folha de São
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ser gay: o acesso a experiências diversificadas, a um universo que, uma vez que suas portas estivessem abertas, seria possível descobrir um mundo paralelo, coisas de outro mundo. O acesso a essas experiências, como pontua Henrique quando diz que sentia pertencer a uma sociedade secreta e que ninguém que eu conhecesse fazia nada tão divertido quanto eu, era visto como uma maior facilidade em atravessar fronteiras, especialmente no que concerne a classe social. Nesse sentido, aquela identidade sexual possibilitava o flerte com um universo a um só tempo “marginal” e “glamouroso”. Essa parece uma associação poderosa até hoje, fonte de excitação e de um risco calculado para rapazes de classe média alta com quem conversei e que será explorada no próximo capítulo. De todo modo, o flerte com o “marginal” também seria violentamente atacado e deslegitimado por conta da epidemia de aids, do que trataremos ainda neste capítulo.
Essa mobilidade e diversidade de experiências, se é verdade que está presente até hoje, parece ter se arrefecido com o passar da década de 1980. Havia chegado um momento, atribuído por Henrique à repressão na HS, em que as pessoas que freqüentavam os lugares dos Jardins, que se multiplicavam, passaram a deixar de freqüentar outros lugares: “o povo sumiu do HS por um tempo e eu não sei em que proporção começaram a surgir boates nos Jardins. E aí começamos a freqüentar só os Jardins. Eu me lembro que de repente tudo era lá nos Jardins”.
É difícil, a partir de um relato e outras informações esparsas obtidas durante a pesquisa, precisar em qual momento houve uma separação maior entre os lugares de consumo de lazer noturno, mas a conjunção da repressão policial no centro da cidade com o oferecimento de novos estabelecimentos nos Jardins e Moema, que seguiam a tradição de glamour e dos shows já iniciada pela boate Medieval, parecem ter sido pontos importantes. Além disso, isso combinava com a tendência mais geral de afastamento do centro da cidade, cada vez mais associado por uma certa classe média paulistana à deterioração, insegurança, abandono e sujeira, em oposição à região da Paulista, que se firmava efetivamente como lugar das opções de lazer e como mais uma centralidade (Frúgoli Jr., 1999). De qualquer maneira, o próprio desenvolvimento do mercado também possibilitava a divisão de públicos e gostos, não na proporção que temos hoje, mas num grau suficiente para que as referências às diferenças de classe social e gênero entre os freqüentadores dos lugares fossem desaparecendo à medida que Henrique narra a experiência de meados da década de 1980 em
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diante. No seu lugar, surge uma acurada descrição da boate Corintho, ícone de meados dos anos 1980 em diante, inaugurada em Moema e responsável por levar ao máximo a receita de boate com shows criada pela Medieval:
A Corintho era clássica, do lado do Shopping Ibirapuera, na avenida Eucalipto, e foi durante anos o lugar onde todo mundo ia. Você via seus amigos que moravam na Zona Norte, em Santana, Guarulhos, ia todo mundo lá. Naquele momento de auge do Corintho, só se ia lá. Durou um par de anos, mas tinha shows super produzidos, com dublagens bacanas, tudo para o clássico. Era muita Shirley Bassey, Barbra Streisand, muita música de vocalista cantando a letra e todo mundo se emocionando, cantando junto. E elas com umas roupas Las Vegas, eu lembro de uns vestidos que arrastavam pela escadaria, pedrarias às toneladas, muita pluma, muito bois de pluma e elas vestidas de Josephine Baker. Era uma coisa de luxo, faziam as classudas, divas européias. A gente entrava e tocava música disco. Pop brasileiro também. Meia-noite apaga a luz, vira todo mundo para o palco, acende a luz, toca, rola o show. Todo mundo parava o que estava fazendo e ficava ali em pé assistindo ao show. Depois acendia tudo, ficávamos dançando, ia assim até de manhã. Você ficava lá até 06 da manhã, um lugar lindo, você saía, a Ibirapuera deserta. E todo mundo bêbado, saindo da boate. Não tinha perigo, não tinha assalto. Não acontecia nada. (...) Eu já tinha passado da fase... já passou a sensação de que ser gay é uma coisa esquisita e que eu vou viver escondido o resto da vida. Não. Ser gay é fazer parte dessa tribo interessante, colorida, bonita, de gente com roupas lindas, com cabelos fantásticos, com senso de humor cortante, com bom gosto, com senso de estética, de savoir faire, vida social. Tudo era interessante em ser gay. (entrevista com Henrique, 45 anos, em julho de 2009)
Já nos anos 1980 os shows e a própria infra-estrutura da boate pareciam ter melhorado substancialmente em relação às boates anteriores, pelo menos pelo que se pode depreender dos relatos e outras fontes48. Os objetos elencados por Henrique dão o tom do luxo das apresentações de transformistas: pedrarias, plumas, vestidos, roupas, tudo associado a Las Vegas, a divas européias, ao luxo e classe. Aparentemente, o glamour que se atribuiu às boates na década de 1980 estava relacionado ao fato delas terem se localizado em áreas mais ricas da cidade, como os Jardins e Moema o que, embora fosse desejável, trazia o problema
48 A idéia de luxo e glamour aparece em alguns espaços na internet, em comentários nos poucos artigos da
mídia segmentada que lembram algumas divas da época e mesmo na postagem de vídeos dos shows de boates como a Corintho. Algumas das transformistas que se apresentavam aos domingos no Show de Calouros do programa Sílvio Santos eram oriundas dessas boates, numa síntese curiosa entre o familiar programa de TV e a boate. A apresentação de Marcinha Corintho no Show de Calouros pode ser encontrada em: http://www.youtube.com/watch?v=1YNkOvlhSZo&feature=PlayList&p=51C9F3257E0AAA66&playnext=1& playnext_from=PL&index=18 acesso em 29 jan 2010. Outros vídeos de diferentes fases da boate podem ser encontrados no mesmo site de compartilhamento de vídeos. Há também vídeos de boates antigas disponíveis em catálogo, que podem ser adquiridos numa tabacaria da rua Rego Freitas, no centro da cidade.
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de que nessas áreas era possível que os freqüentadores fossem vistos por amigos, colegas de trabalho, vizinhos e familiares, pois se tratava de regiões de intensa circulação da classe média paulistana da época. O glamour contrastava com a necessidade de que as coisas fossem feitas com o mínimo de exposição possível. Nenhum desses lugares tinha letreiro. E as filas não existiam, não para que houvesse maior conforto, mas porque as pessoas se sentiam expostas na fila de um lugar gay:
Nem pensar em filas. Nos anos 1980, as pessoas tinham de entrar discretamente no lugar. Lá dentro podia tudo, as pessoas se acabavam, mas você entrava no Colorido por um beco nos fundos. Tinha uma boate que funcionou um tempo na Padre Joao Manuel, quase esquina da Lorena. E essa boate, na noite de inauguração, eles tiveram a infeliz idéia de colocar um holofote, do outro lado da rua, e conforme a pessoas iam chegando, eles focalizavam as pessoas com aquele holofote e ia acompanhando até a entrada da boate. Isso matou a boate. Na noite de inauguração, cometeram esse erro fundamental de achar que as pessoas queriam ser iluminadas como uma entrada do Oscar e todo mundo ficou mortificado com aquilo, porque você não queria estar no meio dos Jardins e um holofote, você sendo focalizado entrando numa boate gay? Acabou a boate, não durou quase nada. (entrevista com Henrique, 45 anos, em julho de 2009)
Talvez mesmo a aura quase mágica atribuída às boates estivesse relacionada ao fato de que, para esses jovens rapazes de classe média, esses lugares abrigavam uma liberdade despreocupada e pareciam restritos às pessoas que se identificassem como gays também. Do