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Boethius, In Isagogen sec 2.

Caput XI: De ortu logicae

26. Boethius, In Isagogen sec 2.

0 mesmo não se observa nas disputas. De fato, aquilo que o en- cadeamento dos argumentos conclui, nem sempre se mantém constante na natureza. Por esta razão com certeza estão fada­ dos ao erro aqueles que pesquisam a natureza das coisas, mas desprezam a ciência da disputa. Se antes não se conhece qual ra­ ciocínio garante o caminho verdadeiro da disputa, qual garante apenas a verossimilhança, se não se conhece qual raciocínio pode ser confiável, qual pode ser suspeito, aí a verdade incorrupta das coisas não pode ser alcançada pelo raciocínio.

Os antigos, caídos freqüentemente em muitos erros, dado que colhiam nas disputas algumas conclusões falsas e em si con­ traditórias, e lhes parecia impossível acontecer que, dadas duas conclusões contrárias sobre a mesma coisa, as duas fossem verda­ deiras, e dado que a eles não estava claro qual raciocínio levasse a conclusões discordantes das premissas e a qual raciocínio se pu­ desse crer, consideraram oportuno, como primeira coisa, preocu­ par-se com a natureza verdadeira e íntegra do próprio raciocínio. Tendo-a conhecida, aí era possível também entender se o resulta­ do das disputas estava sendo compreendido de maneira verdadei­ ra. Daí deu-se a perícia avançada da disciplina lógica, que possibi­ lita discernir os vários modos de discutir e os próprios silogismos, de modo a poder-se saber qual raciocínio é ora verdadeiro ora falso, qual é sempre falso e qual nunca é falso”.

A lógica, portanto, é última no tempo, mas primeira na fila. Ela é a primeira a dever-se estudar pelos iniciantes na filosofia, pois nela é ensinada a natureza das palavras e dos conceitos, sem os quais nenhum tratado de filosofia pode ser explicado de maneira racional.

A lógica vem do grego logos, nome que possui duas acep­

ções. Logos pode significar “discurso” ou “razão”, e por isso a

lógica pode ser dita ciência do discurso ou ciência da razão. A ló­ gica racional que se diz argumentativa, abrange a dialética e a retórica. A lógica do discurso é um gênero relacionado com a gramática, a dialética e a retórica e contém sob si a argumentati­ va. É esta lógica do discurso que incluímos como quarta parte da filosofia, depois da teórica, prática e mecânica.

Nec putandum est ideo logicam, id est, sermocinalem dici, quod ante eius inventionem nulli fuerint sermones, et quasi ho­ mines mutuas locutiones prius non habuerint. Erant prius et sermones communes et litterae, sed nondum ratio sermonum et litterarum in artem redacta fu erat Nulla adhuc recte loquendi vel disputandi praecepta data e ra n t Omnes enim scientiae prius erant in usu quam in arte. Sed considerantes deinde homines usum in artem posse converti et quod vagum fuerat et licentio­ sum prius certis regulis et praeceptis posse restringi, coeperunt u t dictum est, consuetudinem quae partim casu, partim natura exorta fuerat, ad artem reducere, id quod pravum usus habebat emendantes, quod minus habebat supplentes, quod superfluum habebat resecantes, et de cetero singulis certas regulas et prae­ cepta praescribentes.

Huiusmodi fuit origo omnium artium; hoc per singula cur­ rentes verum invenimus. Priusquam esset grammatica et scribe­ bant et loquebantur homines. Priusquam esset dialectica, ratio­ cinando verum a falso discernebant Priusquam esset rhetorica iura civilia tra c ta b a n t Priusquam esset arithmetica, scientiam numerandi habebant. Priusquam esset musica, canebant Prius­ quam esset geometria, agros m ensurabant Priusquam esset as­ tronomia, per cursus stellarum discretiones temporum capie­ b a n t Sed venerunt artes, quae licet ab usu principium sumpse­ rint, usu tam en meliores s u n t

Hic locus esset exponere qui fuerint singularum artium in­ ventores, quando extiterint aut ubi, aut quomodo per eos disci­ plinae exordium sum pserint, sed volo quadam prius philo­ sophiae divisione singulas a se invicem discernere. Oportet ergo breviter recapitulare quae supradicta su rit u t facilior fiat transi­ tus ad sequentia.

Q uattuor tantum diximus esse scientias, quae reliquas om­ nes continent, id est, theoricam, quae in speculatione veritatis laborat et practicam, quae morum disciplinam considerat et mechanicam, quae huius vitae actiones dispensat logicam quo­ que, quae recte loquendi et acute disputandi scientiam p raestat

Mas não se deve pensar que esta lógica é denominada ciên­ cia do discurso, como se antes da sua organização não houvesse discursos, como se antes os homens não tivessem conversas recí­ procas. Anteriormente existiam, sim, discursos comuns e escritos, mas as leis dos discursos e das escritas ainda não tinham sido or­ ganizadas numa arte. Não havia regra nenhuma do falar e dispu­ tar corretamente. Todas as ciências existiam no uso antes de exis­ tir como disciplinas. Mas os homens, considerando que o uso coti­ diano pode ser transformado em arte e considerando, outrossim, que podia ser amarrado em certas regras e princípios aquilo que antes fora vago e arbitrário, começaram, como dissemos, a organi­ zar em arte o costume nascido um pouco por acaso e um pouco por necessidade, corrigindo aquilo que era usado mal, aumentan­ do aquilo que era pouco, cortando aquilo que era supérfluo, e, quanto ao resto, dando a cada caso regras certas e preceitos.

Assim foi a origem de todas as artes; e encontramos esta ver­ dade percorrendo caso por caso. Assim, antes que existisse a gramática, os homens escreviam e falavam. Antes que existisse a dialética, eles distinguiam o verdadeiro do falso. Antes que exis­ tisse a retórica, eles tratavam dos direitos civis. Antes que exis­ tisse a aritmética, eles sabiam contar. Antes que existisse a músi­ ca, cantavam. Antes que existisse a geometria, mediam os cam­ pos. Antes que existisse a astronomia, captavam os ritmos dos tempos através dos cursos das estrelas. E aí vieram as artes, as quais, bem que derivadas do uso, são melhores que o uso.

Aqui seria o lugar de expor quais foram os inventores de cada arte, quando viveram e onde, ou como através deles as disciplinas iniciaram-se. Mas, antes, quero, através de uma certa qual divisão da filosofia, distinguir as artes uma da outra. É oportuno, portan­ to, recapitular tudo quanto foi dito até agora, para que se torne mais fácil a passagem para o argumento seguintè.

Dissemos que as ciências são somente quatro, que abran­ gem todas as outras, e são 1) a teórica, que trata da investigação da verdade, 2) a prática, que estuda a disciplina dos costumes, 3) a mecânica, que ordena as ações desta vida, e enfim 4) a lógica, que ensina a falar corretamente e a disputar agudamente.

Hic itaque non absurde ille quaternarius animae intelligi po­ test, quem ob reverentiam sui antiqui in ius iurandum ascive­ r a n t Unde et illud dictum est:

“P e r q u i n o s tr a e a n im a e n u m e r u m d e d it ille q u a te r n u m ’*7.

Hae qualiter sub philosophia contineantur, et rursum quas sub se contineant, repetita breviter definitione philosophiae os­ tendemus.