• Nenhum resultado encontrado

Weinberger (2008) faz uma crítica, argumentando que quando se trata de política, assumir um lado é perfeitamente normal. Ele coloca que muitas pessoas não leem colunistas com os quais elas não concordam, nem perdem seu tempo em um educado debate com uma pessoa com as quais elas não concordam. Ele inclusive coloca que:

Alguma vez você já se sentou para uma conversa longa e respeitosa com um neonazista ou um racista fora do armário, uma conversa na qual você está aberto a ter suas ideias mudadas? Nem eu. A questão, portanto, não é se a Internet está nos fechando ou nos abrindo, mas quais pressupostos fazem a persistência das câmaras de

eco on-line - os mesmos tipos de reuniões secretas que sempre existiram na terra - parecem simultaneamente tão urgentes e tão difíceis de resolver (WEINBERGER, 2008, p.34)22.

O autor, logo, coloca que o contato com ideias diferentes pode não ser exatamente proveitoso, e evitar o contato com algumas delas não significa que estamos nos fechando. A questão em si é o que faz com que as câmaras de eco pareçam um problema tão urgente, visto que é algo comum no espaço físico. Ao normalizar esse tipo de comportamento, o autor também se permite defender a posição de que as pessoas têm o direito de se reunirem com outras com ideais similares, e que isso não só é normal, mas um bom sinal de comprometimento com seus ideais. Nas palavras do autor:

Não devem os apoiadores de um candidato ter um lugar na web onde podem ser apoiadores juntos? Seria um site uma câmara de eco se ele não desafiar rigorosamente todas as opiniões de seus participantes, incluindo o compromisso mais básico de um apoiador para com o seu candidato? (WEINBERGER, 2008, p. 35)23

E ele também aponta algumas virtudes das câmaras de eco, destacando que:

Uma democracia precisa de tais "câmaras de eco", mesmo que suas discussões inevitavelmente pareçam nada mais que um grupo de apoiantes homogêneos se relacionando entre si. A conversa entre pessoas que estão em um acordo básico constrói relacionamentos e fomenta o movimento político. Também torna possível a rara conversão de crenças e, quando feito no fórum público da internet, deixa vestígios pelos quais visões opostas podem entender - e assim tolerar - um ao outro melhor. (WEINBERGER, 2008, p. 35)24

Tal posicionamento aponta que aquilo que se passou a se chamar de câmara de eco não é necessariamente uma falha. A sua existência então não é apenas saudável, mas um indicativo de que as sociedades não são homogêneas. E quando ocorrem em um fórum público, deixam rastros que permitem entender – e assim tolerar – pontos de vistas diferentes.

22 Tradução do autor. Texto original: “Have you ever actually sat down for a long, respectful conversation with a neo-Nazi or an out-of-the-closet racist, a conversation in which you’re open to having your ideas changed? Me neither. The question, therefore, is not whether the Internet is closing us down or opening us up, but rather what assumptions make the persistence of online echo chambers—the same kinds of cliquish gatherings that have always existed on land—seem simultaneously so urgent and so hard to resolve.”

23 Tradução do autor. Texto original: “Shouldn’t supporters of a candidate have a spot on the Web where they can be supporters together? Is a site an echo chamber if it fails to rigorously challenge its participants’ every view, including a supporter’s most basic commitment to his or her candidate?”

24 Tradução do autor. Texto original: “A democracy needs such “echo chambers,” even though their discussions inevitably appear like nothing but a bunch of homogenous supporters rah-rah-ing each other. Conversation among people who are in basic agreement builds relationships and foments political movement. It also makes possible the rare conversion of beliefs, and, when done in the public forum of the Net, it leaves traces by which opposing views can understand—and thus tolerate— one another better.”

Sunstein (2009) também reconhece a importância (ainda que ao mesmo tempo o perigo também) dos “enclaves”, grupos de indivíduos semelhantes que deliberam sobre um assunto específico. Ele coloca, por exemplo, que eles permitiram que questões individuais que normalmente seriam silenciadas ganharam a chance de serem ouvidas e se tornarem um debate mais amplo. Para ele:

Nada nestas afirmações é incompatível com o ponto de vista de que uma sociedade livre também cria espaços para a liberdade de escolha e para os enclaves deliberados constituídos por indivíduos com a mesma opinião. Não deve ser necessário enfatizar que a liberdade de escolha é um bem individual e social. Além disso, os enclaves deliberantes garantem que as posições que de outra forma seriam silenciadas ou contidas têm uma chance de se desenvolver. Os membros individuais desses grupos às vezes têm dificuldade em comunicar suas opiniões à sociedade em geral e, se os membros do grupo podem falar entre si, podem aprender muito e, em última análise, contribuir muito mais para suas discussões com os outros. Lembre-se da importância da "diversidade de segunda ordem" - o tipo de diversidade que vem quando a sociedade beneficia de muitos grupos com práticas e posições claras próprias. Se uma nação permite que muitas organizações existam, e se cada uma delas for bastante uniforme, a nação poderá se beneficiar da grande variedade de pontos de vista que surgirão (SUNSTEIN, 2009, p. 213)25.

Como o autor indica, há um grande valor em se ter tais grupos de discussão na internet, já que eles permitem que indivíduos possam compartilhar experiências e dificuldades quando se sentem isolados, acreditando que se trata de um caso único ou que não tem solução. Experiências essas que são muito valiosas não só para essas pessoas e para os grupos dos quais fazem parte, mas também para a sociedade como um todo. Ainda que fenômenos perigosos como a polarização e as cascatas possam surgir, outros fenômenos similares foram de inquestionável valor para movimentos sociais, e merecem uma grande aprovação (SUNSTEIN, 2009).

Os argumentos dos autores parecem um pouco óbvios em alguma medida. Os seus questionamentos nos chamam a atenção para um ponto importante: valorizar a diferença significa também garantir um espaço seguro para que grupos possam discutir as suas ideias. E

25 Tradução do autor. Texto original: “Nothing in these claims is inconsistent with the view that a free society also makes spaces for freedom of choice and for deliberating enclaves consisting of like-minded individuals. It should not be necessary to emphasize that freedom of choice is an individual and social good. Moreover, deliberating enclaves ensure that positions that would otherwise be silenced or squelched have a chance to develop. Individual members of such groups sometimes have a hard time communicating their views to the wider society, and if group members can speak among themselves, they can learn a great deal and ultimately contribute much more to their discussions with others. Recall the importance of “second-order diversity”—the kind of diversity that comes when society benefits from many groups with clear practices and positions of their own.If a nation allows many organizations to exist, and if each of them is fairly uniform, the nation may well benefit from the great range of views that will emerge.”

a mera existência de tais espaços não é um sinal de isolamento ou polarização, mas um ponto importante quando estamos falando de um grupo de pessoas com um interesse em comum.